Posts Tagged ‘Princesa Isabel’

sábado, maio 14th, 2022

REVISÃO DA HISTÓRIA – De Fátima à Praça do Carmo, da Princesa a Zumbi.

Prof. Severino Vicente da Silva

Ontem foi 13 de maio, terminei mais um semestre debatendo alguns aspectos da trajetória europeia, aquele período que os historiadores brasileiros deram a chamar de Moderno. Fui surpreendido com umas palmas, e com o sorriso alegre dos alunos, até recebi uns abraços. Foi uma turma interessante. Nem deu tempo para conversar sobre o Treze de Maio, data polissêmica em minha formação de cidadão, de professor de história e, segundo dizem, de historiador.

Incialmente, foi-me ensinado sobre o Treze de Maio de 1917, foi o dia em que três crianças, duas meninas e um menino, afirmavam que viram e conversavam com a mãe de Jesus, a Nossa Senhora. O caso ocorreu no lugarejo Fátima, e deu muito o que falar, juntou muita gente, veio o prefeito, o padre, o bispo. Inicialmente as crianças foram mal vistas, tidas como mentirosas, mas aos poucos a comunidade foi aceitando que algo extraordinário ocorria no seu lugarejo. Ontem, o noticiário afirmava que mais de duzentas mil pessoas estavam em Fátima, louvando e venerando a Virgem que apareceu aos Três pastorzinhos.

São muitas as explicações, e maior ainda o número de consequências daquele fato, dadas e vividas na Europa e nas outras partes do mundo desde então. Na sociedade europeia que se tornava cada vez menos religiosa e afastada dos tradicionais instrumentos de educação, como a religião, a visita de Nossa Senhora, era como uma reação da fé ao mundo moderno, às ideias que cresciam de uma possível vitória dos comunistas, em Portugal e no mundo. Os católicos retomaram a reza do Rosário e a veneração expandia-se pelo mundo católico. Cresci praticando a fé com o Terço nas mãos, declinando as Ave Maria necessárias para afastar o perigo do comunismo e trazer a paz para o mundo.  Em minhas andanças na Zona da Mata, à cata da minha história e do meu povo, pude observar que nas portas das casas estava colocada um retrato de Virgem de Fátima, com uma ave maria e o pedido para afastar o comunismo do Brasil. Estavam nas casas mais pobres, mas nas portas das casas do Senhor de engenho, dos donos de fazenda de gado, nas portas dos quartos, nas sacristias das capelas dos engenhos. A veneração a Nossa Senhora de Fátima foi trazida para o Brasil por jesuítas portugueses, perseguidos em Portugal no início do século XX, e, coisa notável, a as mesmas pessoas que sempre desgostaram dos jesuítas nos séculos anteriores, os acolheram e à devoção que traziam.

Mas o Treze de Maio tem outro sentido também aprendido na infância, não nas conversas familiares, mas na escola. O Treze de maio de 1888. Foi na escola que aprendi sobre a Princesa Isabel, a filha do Imperador Pedro II, assinou uma lei que ficou conhecida como Lei Áurea, de ouro. João Alfredo, ministro do Império, pernambucano, casado com uma filha do Barão de Goiana, é que redigiu a lei, simples como milagre. Por ela ficou decretado o fim da escravidão de seres humanos no Brasil, seres humanos que, eles ou seus avós, vieram da África. Aqui chegaram para fazer funcionar os engenhos de moedores da cana para fazer o açúcar, a cachaça, o vinagre, mas as pessoas só lembram do açúcar que vinha do caldo da cana espremida, esmagada, como foram esmagadas vidas daqueles africanos aprisionados em sua terra de origem, e trazidos para os engenhos de Pernambuco e das outras regiões do Brasil. Houve festa em todo o Brasil após a Lei Áurea, até o papa Leão XIII mandou um presente para a Princesa. O fim da escravidão no Brasil parecia um presente que dona Isabel deu ao moradores do Brasil que ainda eram escravos naquele ano. Algum tempo depois é que eu soube de José do Patrocínio, de Cruz de Rebouças, Luiz Gama, Joaquim Nabuco, e fui compreendendo que houve muita luta para que se chegasse a esse fim, e também que havia muita gente não negra, gente que enriquecera comprando africanos e vendendo escravos, interessada no fim dessa prática de transformar seres humanos em animais de carga. Esses conhecimentos foram chegando aos poucos, pois é aos poucos que se conhece a história da família nuclear e da família nacional. Aprendi que meu avô paterno, que não conheci, era preto, e sua esposa, a Vó Florinda, que ainda vi antes que morresse, era uma cafuza de cor negra e cabelo índio. Ainda tenho um retrato dela, ao lado de minha outra avó, quase branca, mas com traços indígenas. Dei-me conta, ouvindo e repensando as conversas mantidas com meu pai, que a história de minha família, como milhares de milhares de outras, é a história do Brasil.

Em 1988, estava trabalhando na Coordenação de Projetos Especiais da Secretaria de Educação da Prefeitura da Cidade do Recife, e a secretária de Educação, professora Edla Soares, orientou para termos atividades em torno do fim da escravidão no Brasil, não no sentido de homenagear a Princesa Isabel, mas de refletir sobre como era a situação das crianças e jovens que frequentavam as escolas do município. Promovemos um seminário que envolveu vários municípios pernambucanos com palestras ditas por professores locais, mas com o a presença de Décio Freitas, que não pode vir; então a secretária convidou um professor, que já recebia um jeton para assessorar a secretaria de Educação, mas ele pediu uma alta soma de dinheiro para substituir o professor Décio. Como coordenador do projeto, recusei pagar ao professor, fiz gratuitamente a palestra. Usamos o dinheiro para coisa mais útil. Também realizamos uma passeata com os estudantes das escolas, ocupamos o as ruas com as crianças e jovens pobres e negros, das escolas municipais e das Escolas da Comunidade, para lembrar aos vereadores que os descendentes dos homens e mulheres escravizados careciam de mais escolas e que oferecessem uma educação de boa qualidade.

O projeto previa uma revista da secretaria de educação, saiu apenas o primeiro número, cuja capa era a representação de uma criança negra com um lápis na boca. A professora Edla Soares escreveu uma apresentação com o título Negro, desbotado não. Vários professores de diversos municípios colaboraram com artigos.  E foi criada a Medalha da Abolição, entregues a pessoas dedicadas às tradições afro-originárias, como a Badia, que a recebeu em cerimônia pública na Praça do Carmo, local da exibição da cabeça de Zumbi dos Palmares e hoje tem a estátua em sua memória; também entregamos a medalha a estudiosos da vida dos negros no Brasil, como a professora Kátia Mattoso.  Plínio Victor e eu sonhávamos com um memorial Zumbi dos Palmares.

Alguns anos depois, o Presidente Fernando Henrique Cardoso, 1997) assinou decretou que pôs Zumbi dos Palmares no Panteão dos Heróis brasileiros; em 1911, 20 de novembro passou a ser considerado dia da Consciência Negra.

Sim, continuo rezando e pedindo a proteção de Nossa Senhora de Fátima, e tenho respeito à dona Isabel que agiu nas condições de seu tempo e nas suas possibilidades.