Posts Tagged ‘Pretinhas do Congo’

Patrimônios Vivos

sexta-feira, dezembro 4th, 2020

Notícia auspiciosa recebo agora. O Conselho de cultura de Pernambuco acabou de escolher dois novos Patrimônios Vivos: As Pretinhas do Congo de Goiana e o grupos de São Gonçalo de Itacuruba. Embora não tenha tido participação direta no encaminhamento do pedido, satisfaço-me por ter, em 2006, publicado o artigo UMA DEVOÇÃO DOS POBRES: A DANÇA DE SÃO GONÇALO, ( História das Religiões no Brasil, Vol. 4, [331-346], org. por Sylvana Brandão, Editora Universitária, UFPE) a partir de minhas pesquisas na região do Médio São Francisco, e ter convivido alguns bons Momentos com Seu Jerônimo e participado de muitas rodas com o seu grupo. Na ocasião também conheci a IRMANDADE DE NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO DOS HOMENS PRETOS, de Floresta, e soube que artigo meu, publicado em uma jornal experimental dos estudantes de comunicação da UFPE, no qual comentava na única festa dos Reis do Congo que se mantém e mantém sem a carnavalização, foi utilizado para o reconhecimento daquela instituição como Patrimônio Vivo da Cultura de Pernambuco. Tive, também o prazer de escrever e publicar pela Editora da Associação Reviva, com o patrocínio da FUNDARPE, o livro UMA NAÇÃO AFRICANA NA JUREMA DA MATA NORTE: AS PRETINHAS DO CONGO DE GOIANA, no ano de 2011. Ainda feliz por lembrar que acompanhei as Pretinhas do Congo do Baldo, sob a liderança do Mestre Val, em visita que fizemos à Irmandade de Nossa Senhora dos Homens Pretos de Floresta; ajudei a promover o seu encontro e agora as duas são reconhecidas como Patrimônio Vivo da Cultura Pernambucana. Muito feliz por ter promovido esses encontros e, ajudado a revelar, para além dos seus espaços, a importância que esses mestres e pontos de renovação e permanência da cultura para nós que entendemos e amamos o Brasil para além das praias, dos lugares elegantes e eurocentrados.  VIVA O POVO BRASILEIRO, viva a nossa cultura.

Nosso lugar na ONU

quarta-feira, setembro 21st, 2011

O mundo continua a girar, e eis que, como de costume o representante do Brasil faz o discurso de abertura da Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas – ONU. Tem sido assim desde a primeira reunião. Não há novidade, exceto que quem preside o Brasil atualmente é uma mulher, por isso, pela primeira vez uma mulher, por ser presidente do Brasil, faz o discurso inicial da Assembléia. Apressados áulicos chegaram a dizer que era a primeira vez que uma mulher discursava na ONU, “esquecendo” outras presidentes de muitas nações que já discursaram na ONU. Vimos nossa presidente defendendo novos espaços para nações emergentes nos Conselho Permanente. O Brasil já devia ter assento lá, e essa é um debate que já vem ocorrendo a quase duas décadas. É que os donos do poder não costumam gostar da idéia de dividi-lo.
Continuaremos lutar pela ampliação desse espaço, pelo reconhecimento da Palestina – mas esse novo Estado deve reconhecer explicitamente o direito de Israel existir. Como se sabe, os árabes se recusaram a dividir a palestina nos anos quarenta, e naquele período aceitaram dividir a Índia, criando o Paquistão. Mas como diz Obama, palestinos e israelenses devem chegar a um acordo.

O mais interessante nesta estada de nossa presidente na ONU foi a assinatura de um compromisso em acabar com a corrupção no Brasil. Foi um compromisso assinado com o presidente dos Estados Unidos da América, lugar onde corrupto pode recorrer, mas na prisão, após a segunda condenação. Que a presidente volte ao Brasil com esse ânimo para dizer à filha de Miguel Arraes e mãe do governador de Pernambuco que conselheiros do Tribunal de Contas da União não devem pensar em diminuir a pressão sobre os que cometem mal feitos. Quem pensa desse jeito é o ex-presidente Lula, que foi o grande eleitor de dona Ana Arraes. Aliás, esse negócio de escolher juiz do Tribunal de Contas da União por questão de apoio político cheira a promessa de corrupção. Mas não foi por isso que a mãe do governador de Pernambuco, grande aliado de Lula e primeiro apoio da atual presidente, foi eleita.

No Recife vai acontecer a Bienal do Livro, e este é uma boa coisa. Ajuda a animar a alma quando a gente ler o que escreveu um jornalista espanhol: há um país que promove marcha gay com milhões de pessoas, faz passeatas por religiosas com milhares de pessoas, tem blocos carnavalesco com quase dois milhões de pessoas e não consegue mobilizar três mil pessoas em um comício contra a corrupção. Nesse mesmo dia foi anunciada a ampliação do programa Bolsa Família – agora vai atender famílias de até cinco filhos, e também as que recentemente engravidaram. Assim continuaremos a transferir a renda e diminuiremos a distância entre os miseráveis e os ricos, enquanto nossos ricos pagam proporcionalmente menos impostos que os que ganham um pouco mais que dois mil reais por mês. E por falar em salários, os juízes querem um aumento de salário pois os vinte e seis mil mensais não são o suficiente para que eles possam gozar plenamente os três meses de férias que têm direito.

Nesse diapasão, todos parece estarem felizes por nossas escolas serem incapazes de gerar leitores e escritores. Mas isso é necessário para que não se note que por não podermos construir os espaços de mobilidade na Copa de Futebol da FIFA, iremos decretar feriado. Isso, sim, é sabedoria. No mais, iremos à Bienal do Livro para conversar sobre o Ponto de Cultura Estrela de Ouro de Aliança e a sua Biblioteca Mestre Batista e, no V Encontro História e Memória, promovido pela Pós-Graduação em História da UFPE, faremos o lançamento do Livro UMA NAÇÃO AFRICANA NA JUREMA DA MATA NORTE –PRETINHAS DO CONGO DE GOIANA.

Um prefácio para Pretinhas do Congo

sexta-feira, setembro 2nd, 2011

Punha nesta página o que escreveu o professor José Bento sobre o meu livro Pretinhas do Congo, uma Nação Africana na Jurema da Mata Norte , a ser lançado no dia 5 de setembro

“Africanidades brasileiras” em Goiana – à guisa de apresentação.

Estava eu no aconchego do carinho da casa materna, no interior de Minas Gerais (cidade
de Lavras), em janeiro de 2011, quando recebi uma mensagem via e-mail, do meu companheiro
de ofício Severino Vicente da Silva, Biu Vicente, convidando-me a fazer a apresentação da obra
que o leitor terá o prazer de saborear. Aceitei de imediato. Degustei-a na varanda da residência
onde nasci, enquanto lá fora persistia uma chuva de verão típica do sudeste do Brasil.
Ao término da leitura, não saía da minha cabeça uma categoria cunhada por Petronilha
Beatriz Gonçalves e Silva: “africanidades brasileiras”. Pensei: “africanidades brasileiras em
Goiana”. Mas, afinal, por que africanidades brasileiras? Ora, porque a obra contém os elementos
que, segundo Petronilha, caracterizam esta categoria. Diz ela:

“Ao dizer africanidades brasileiras, estamos nos referindo às raízes da cultura brasileira
que têm origem africana. Dizendo de outra forma, estamos, de um lado, nos
referindo aos modos de ser, de viver, de organizar suas próprias lutas, próprias dos
negros brasileiros, e de outro lado, às marcas da cultura africana que, independentemente
da origem étnica de cada brasileiro, fazem parte do seu dia a dia”.

Através da abordagem da história sociocultural, o autor investiga a construção de uma
manifestação cultural que, por um longo período da história contemporânea de Pernambuco,
esteve na invisibilidade. O fato de estar invisível não signifi ca a inexistência. Neste sentido,
Biu nos remete à obra clássica, ‘O homem invisível’, da década de quarenta, onde Ralph Linton
investigou a presença dos negros norte-americanos naquela sociedade. Eles estavam também
na condição de invisibilidade, embora sujeitos reais.

Para empreender esta tarefa, Biu trilhou uma perspectiva metodológica que lembra
Sherlock Holmes, o detetive que desvendava os mistérios e crimes do “longo século XIX”; o
historiador italiano Carlo Guinzburg, que nos adverte a observar os emblemas, sinais e pormenores
deixados pelas pegadas humanas; ou ainda Ítalo Calvino, que nos fala que dentro da
cidade visível pode haver uma cidade invisível.

Severino Vicente, ao pesquisar a trajetória histórica das Pretinhas do Congo na cidade
de Goiana, nos apresenta outra cidade. Cidade forjada pelas mãos dos trabalhadores a partir
da década de trinta do século XX, a grande maioria anônima na perspectiva da história tradicional, tanto é que pouco aparece como referência de logradouros públicos e/ou em monumentos
públicos; no entanto, sem eles, Goiana não teria sido o que é.

Severino Vicente da Silva, em minha opinião, faz uma advertência a nós historiadores: as manifestações
culturais populares, tais como as das Pretinhas do Congo, se analisadas apressadamente,
proporcionarão análises com aparências de verdades, mas sem fundamentações
suficientes no campo da história e da historiografi a. Neste sentido, ele dialoga com algumas
interpretações acerca da relação das Pretinhas do Congo com a coroação dos reis e rainhas do
maracatu. Digo mais, Biu Vicente busca outros possíveis significados para as interpretações
advindas das manifestações populares, como as das Pretinhas do Congo de Goiana; o faz na
perspectiva de “invenção de tradição”, talvez querendo dizer: “nem todas as tradições vêm
de um passado remoto”, elas são construídas dentro de determinadas condições históricas.
O autor busca o significado de termos que nomeiam as localidades a partir do sentido
popular em homenagem a algum “homem ilustre, embora haja o nome ofi cial. Neste sentido,
nos lembra de Michel Foucault, que nos sugere uma “arqueologia das palavras”, dos conceitos.
Foi assim que Biu fez com as informações obtidas acerca de Antonio Manuel dos Santos, o
Pirrixiu. Para isso, além das fontes escritas, recorreu às fontes orais, um dos recursos usados
para investigar a história dos “excluídos da história”, segundo uma expressão da historiadora
francesa Michelle Perrot, ou dos “de baixo”, como sugeriu E. P. Thompson. Dessa forma, cabe
ao historiador metamorfosear a memória em história, privilegiando as experiências vividas
pelos sujeitos históricos envolvidos na trama, como o fez Severino Vicente ao longo de sua
pesquisa sobre as Pretinhas do Congo e suas várias representações ao longo do movimento
da história. Afinal, a cultura é dinâmica, um processo histórico, carregado de rupturas e permanências.
Daí a importância da contextualização, como fez Severino, ao investigar cada uma
das Pretinhas de Goiana.

A partir de fontes orais, Biu Vicente contextualizou a cidade de Goiana na década de
trinta, quarenta, cinquenta, setenta, etc., mostrando os possíveis locais onde estariam inseridos
os personagens das Pretinhas, sobretudo, os responsáveis pela perpetuação dessa prática
cultural, que teima em resistir em meio aos conturbados tempos de neoliberalismo e globalização,
onde, mais do que nunca, “tudo que é sólido desmancha no ar”. Mas, para além do sólido,
parece haver algo mais que não deixa que as Pretinhas, em suas várias versões, sucumbam:
na versão de alguns, a espiritualidade; para outros, o sentimento de pertencimento ao grupo,
a preservação da memória dos antepassados. Enfi m, há algo além do sólido. Por isso, elas se
sustentam no tempo com suas resignificações.
Poderia tecer muitos outros comentários apresentando a pesquisa de meu amigo e
companheiro de ofício Severino Vicente da Silva, mas prefiro deixar que o leitor sorva com
sofreguidão as delícias da narrativa do professor Biu Vicente. E mais, preciso dizer que estou
no dia seis de janeiro de 2011, momento em que uma “embaixada de Santos Reis” adentra
a residência de minha genitora, como acontece em todos os janeiros, como indica a minha
memória da infância, que remonta o tempo em que meu genitor estava presente fisicamente
entre nós. A acolhida é uma forma de revisitar a memória dele; assim como os personagens
que compõe a manifestação do presente são descendentes dos ancestrais, os narrados por Biu
aceitaram os desafios de manter a memória dos antepassados, através da cultura popular,
seja no norte, nordeste, sul, sudeste ou centro-oeste do Brasil.

Desejo uma boa leitura a todos(as), enquanto vou beijar a Bandeira dos Santos Reis,
que só retornará no próximo janeiro para aqueles que permanecerem sólidos e para os que já
estiverem na invisibilidade das memórias.

Lavras (MG), em seis de janeiro de 2011.
José Bento Rosa da Silva – Prof. de História da África e Afro-brasileira na Universidade
Federal de Pernambuco

SILVA, Petronilha Beatriz Gonçalves. Aprendizagem e ensino das Africanidades Brasileiras. In: MUNANGA,
Kabengele. (org.). Superando o racismo na escola. Brasília: Ministério da Educação/SECAD, 2008. p. 151-167.

História da “base” e histórias da base da sociedade

quarta-feira, agosto 31st, 2011

Semanas e os dias passam, cultivamos sempre a esperança e nos alegramos com as conquistas diárias com as quais construímos nossas vidas. O esforço diário é que nos permite termos o que temos, nada vem do céu, gratuitamente, não existe essa mão invisível que concede benefícios, embora minha avó e minha mãe tenham me ensinado que “Deus ajuda quem cedo madruga”, ou seja, que trabalha. Nada vem dessa mão invisível que certo programa marqueteiro vem apresentando na televisão nesses últimos dias. Invisíveis são as bases formadas por deputados que se escondem no manto do voto secreto para absolver uma deputada flagrada, filmada, recebendo dinheiro. Essa base que vota de maneira invisível, deixa visível a ausência de moralidade na política brasileira, espaço que, nos anos recentes, tem tornado a corrupção uma profissão. Tudo parece ser permitido, desde que seja garantida a governabilidade, a base da imoralidade, da corrupção. Cupira, Curupira ou Sucupira são, hoje, a mesma cidade que recebe a mão que embala o berço, que fortalece o forte e enfraquece o fraco.

No dia 5 de setembro estaremos fazendo o lançamento do livro PRETINHAS DO CONGO, UMA NAÇÃO AFRICANA NA JUREMA DA MATA NORTE, às 18:30 horas, na Livraria da Jaqueira. Neste livro contamos a história quem entendemos ter sido feita pela população mais pobre da cidade Goiana, PE, entre os anos de 1930 e 2010. Uma história de criatividade e força republicana em uma sociedade que insiste em ver-se aristocrática, acima do bem do mal, debalde os esforços da República. Neste mês de agosto, as chuvas, mais uma vez superaram a pequena calha que deixaram para o Rio Capibaribe Mirim e a sede da Pretinha de Congo do Baldo Rio foi mais uma vez atingida e se perderam os atabaques e o guarda roupa recentemente comprado com o projeto que permitiu a construção da narrativa da história dessa parte da sociedade goianense. Afrontando mais essa adversidade, no dia 6 de setembro, no Cine Polytheama, às 20 horas entregaremos à sociedade de Goiana, especialmente aos que formam as Pretinhas do Congo a história que eles nos contaram de si mesmos.

Nesses mesmos dias, locais e horários, a mestre Tamisa Vicente também estará entregando o resultado de suas pesquisas em livro editado conjuntamente pela Editora Universitária da UFPE e da Associação Reviva. O Título é sugestivo: VAMOS CIRANDAR, e é uma reflexão sobre as políticas aplicadas a essa manifestação da cultura nascida nos anseios de vida dos moradores dos engenhos e dos que viviam à beira do mar, sob a proteção de seu Deus, mas com a ação de suas próprias mãos e corpos dilacerados por trabalhos extenuantes.

Todos estão convidados.