Posts Tagged ‘Paulo Freire’

Escritas e leituras do cotidiano

quarta-feira, março 23rd, 2016

Leio em lugares diferentes as mesmas frases que são repetidas quase como mantra, escritas por diferentes pessoas na linha do tempo na conta que mantenho no Facebook. Deveria achar estranho que pessoas diferentes sejam capazes de escrever do mesmo modo sobre as mesmas coisas. Mas nesse tempo em que o mimetismo cultural tem sido importante para a sobrevivência política e física, creio ser ‘normal’ que pessoas optem por não pensar, apenas apensar pensamento dos outros, não ao seu pensamento, mas à sua ‘escrita’.

Leio na linha do tempo de uma amiga ( A. C.) o seguinte: “Percebo que o meu Face virou uma espécie de “bolha” onde as pessoas, praticamente as mesmas, compartilham e publicam sempre as mesmas opiniões. O que me leva a pensar que as pessoas estão divulgando tudo pra elas mesmas, em modo looping.” Ah! Então está acontecendo em muitas linhas de tempo: os sem pensamento reproduzem pensamentos dos outros. Claro que há exceções, nota-se que alguns explicam porque estão fazendo esse serviço de entrega de mercadoria, às vezes velha, já desbotada pelo tempo, mas viva na memória de quem não viveu. Lá na vizinhança onde cresci costumávamos dizer que isso é “emprenhar pelos ouvidos”.

Em conversa preparatória para o inicio da aula, pergunto ao aluno onde trabalha e se há crise por lá. Ele responde que não, que continua vendendo os carros de valores elevados, que ele não observa problema na freguesia. Mas diz que neste dia ocorreram duas demissões em seu setor, mas essas demissões nada têm a ver com a crise que tanto falam. Como diria Paulo Freire, citado por ele em aula anterior, eu estou diante de um analfabeto funcional, um que não compreende o que lê, que não sabe interpretar a descrição que faz do seu entorno. E assim tudo está bem.

Digo que é necessário ler os artistas das letras, eles conhecem e nos atualizam com os sentidos e os sentimentos das palavras. É que eles as cultivam como se faz a orquídeas enquanto nós, quase sempre, as tratamos como se faz às batatas. Mas sempre que falo da leitura, dos livros e da realidade, eu lembro de comentário de um dos personagens do romance Cléo e Daniel, de Roberto Freire. Ele diz que as pessoas leem como quem bebe um copo de água, não estão prestando atenção ao que estão fazendo, não saboreiam a água e o organismo fica com parte que lhe cabe e mijam o resto. E, por conta disso, as análises politicas, sociais e históricas tornam-se um jogo de pelada entre os time dos Mortadela e dos Coxinhas. Mesmo para quem já acumulou alguns pós-doutoramentos em alguma das Ciências Humanas, tão exatas como as justificativas retiradas do baú da história, dos pareceres dos juristas do passado, como se quem abre o baú já não o abre com alguma intenção. E assim, vamos com os bisnetos dos Guabirus das diversas regiões, seguindo os seus avós, adaptando sempre os discursos para esconder que estão preservando para si o filé enquanto distribuem as gordurosas coxinhas e mortadelas. Gorduras acumuladas pelas Vacas de Basan.

Tradições juninas e traições universitárias

sábado, junho 13th, 2015

O mês de junho é especial para os habitantes do Nordeste do Brasil, mês de celebrações da identidade regional, parte integrante da identidade nacional. As músicas, as danças celebram o festival da colheita de milho, no solstício de nosso inverno, na noite de São João; a louvação do amor ao longo da novena de Santo Antônio, o santo casamenteiro e, as festas terminam com louvor a São Pedro, aquele que pediu a Jesus um cuidado especial à sua sogra e, por essa razão, é conhecido como o protetor das viúvas, pois se presume a viuvez da sogra de Pedro, cujo nome é desconhecido. Tão forte esse conjunto de tradição trazido de Portugal enraizou-se no Brasil, que não é possível pensar o Nordeste e sua gente sem tais festejos, sem as músicas e ritmos que os nordestinados criaram para si. Os Xaxados, o Forró, o Chamego, o Xote, o Baião, tornados universais nos sons saídos dos movimentos dos dedos, mãos e braços de tantos sertanejos, agrestinos ou matutos no movimento do Fole de Oito Baixos ou da Sanfona. Dois instrumentos que marcaram o pai Januário e o filho Luiz Gonzaga do Nascimento. Nordestinos confundem-se com as poesias e a voz de Gonzaga, a quem foi atribuído o título de Rei do Baião. Rei que uma imensidade de súditos que se reúnem nas principais cidades e nos mais simples povoados e arruamentos desse imenso país.

Pois bem, parece ser função da universidade pesquisar, ensinar e estender-se para além de seus limites geográficos e abarcar o universo, ao menos o universo mais próximo. Por isso é que, quando foi criado o Departamento de Extensão da Universidade Federal de Pernambuco logo foi criada a Rádio Universitária. Sua função aproximar a universidade do povo que a paga, ser um caminho e vetor da ação universitária na recepção dos anseios da sociedade e se veículo de comunicação daquilo que a sociedade acadêmica produz para a sociedade circundante. Esta a sua função. Mas, esses tempos confusos, com funcionários confusos que confundem os B de Bonifácio e Bolivar, faz com que, sem escutar a comunidade acadêmica, sem ouvir os professores, um ‘petit comité’ resolve que a Rádio Universitária FM, Emissora da Universidade Federal de Pernambuco não mais terá o programa FORRÓ PARA TODOS, produzido e apresentado por Samuel Valente por mais de duas décadas. Leiamos o seu relato:
“Cheguei na Rádio, e qual não foi a minha surpresa: o programa em questão, havia sido retirado do ar, por um “talentoso” Comitê, do núcleo de Rádio e TV, juntamente com a direção das citadas emissoras! Fui recebido por Mirian Leite, a produtora do programa, e demais funcionários! Hugo Martins havia saído, segundo fui informado, para um encontro com o Reitor da Universidade Federal de Pernambuco! Na minha opinião – e gostaria de ouvir os companheiros, compositores, cantores, músicos -, trata-se de uma abominável atitude, desses “entendidos”, contra a cultura musical junina, pernambucana, seus dedicados defensores, principalmente, contra os ouvintes da Rádio Universitária, 99,9, FM! Contra isso, devemos todos, nos pronunciar! Uma vergonha! Mirian Leite, a produtora, chorou! Hugo Martins, o apresentador, indignado, procurando conversar com o Reitor! Francamente! Além de saquearem o bolso do povo, querem arruinar o que de mais belo existe nos panoramas musicais! Afinal, estamos no Brasil!”

Creio que o Magnífico Reitor, que tem Brasileiro como prenome, assuma o reitorado para o qual foi eleito, e alerte aos que formam o comité que está a apoderar-se do Núcleo de Rádio e Televisão da Universidade Federal de Pernambuco que, no mínimo, é asnice o que fizeram: retirar do ar, na véspera do mês de junho um programa de música junina. Esse ‘petit comité’ não deve destruir, em nome de alguma revolução ( esse tempo caiu em pedaços no centro de Berlim), a obra revolucionária de Paulo Freire, o idealizador da extensão da universidade. Paulo Freire sempre desejou começar a partir do povo, esse ‘petit comité’ é partiu sem o povo nordestino e pernambucano.

Não encontrei, Magnífico, nos dicionários, o significado de ‘Anísio’, mas sabemos o que é Brasileiro. Dê um Tom Brasileiro nesse reitorado que o senhor quis repetir.

Em busca da liberdade e autonomia

domingo, novembro 30th, 2014

 

 

Somos pais em busca da liberdade e autonomia, nossa e de nossos filhos.[1]

Severino Vicente da Silva[2]

Mª Lana Monteiro[3]

 

Quando colocamos nossos filhos para iniciar sua convivência social nesta escola, o fizemos como resultado de reflexão: uma escola que pareça com a sociedade que desejamos para nós e nossos filhos. E nisso vai nossa responsabilidade e a responsabilidade da escola. E escolhemos uma escola que nasceu nos anos em que os grande educadores eram Carl Rogers (1902-1987), Ivan Illich (1926-2002) e Paulo Freire (1921-1997). Eles são conhecidos como educadores para a liberdade. Vamos conversar em torno de Paulo Freire.

Paulo Freire nasceu no Recife e participou intensamente da vida cultural local nos anos cinquenta e sessenta, extrapolando depois de 1964 para os diversos continentes do planeta. Seu escrito mais famoso foi a “Educação como prática da liberdade” (1959), pouco lido atualmente, pois é um livro de reflexão filosófica a partir da realidade que ele conhecera e decidiu agir para transformá-la. Professor, ele compreendeu que a educação não ocorre apenas na escola, mas em todos os ambientes da vida humana: em casa, no trabalho, no lazer, nas igrejas etc. Assim ele definiu que todas as pessoas são educadoras, inclusive os professores, estes especializados na transferência dos conhecimentos científicos sistematizados pela ciência. Mas a educação não é apenas o que se tem na escola, por isso é que Paulo Freire diz que todos os humanos são educadores. Nas sociedades que baseiam na escravidão e que pretendem manter o sistema de escravidão, a pedagogia, ou seja, o caminho de transferência dos saberes – os comuns e os científicos – é uma pedagogia que leva à servidão, à opressão. Daí a reflexão no livro a “Pedagogia do Oprimido” (1968), no qual ele explica os meios que são utilizados para manter as populações em uma situação de opressão, na aceitação da opressão e da falta de liberdade como uma situação natural. Ao mesmo tempo mostra caminhos possíveis para sair da opressão e construir um caminho para a liberdade.

No mundo industrial no qual Pernambuco, o Nordeste e o Brasil estava sendo inserido nos anos cinquenta, Paulo Freire chamava atenção de que o domínio da leitura, da escrita e da fala era o caminho da liberdade, daí ele passou a organizar uma técnica com o objetivo de facilitar a alfabetização, o hoje conhecido como “Método Paulo Freire de Alfabetização”, que é um produto de sua reflexão filosófica no caminho da liberdade. Infelizmente as pessoas passaram a usar o ‘método’ sem a filosofia de Paulo Freire. Pouco antes de sua morte ele produziu o que forma a sua trilogia filosófica, e que só foi publicado pouco antes de sua morte, a Pedagogia da Autonomia (1996).   Não liberdade sem autonomia, a capacidade de decidir seu destino, suas ações diárias. Pois liberdade sem autonomia gera opressão, pessoas dependentes e, que podem permitir que opressores surjam, cresçam e dominem a sociedade, pondo fim à liberdade.

É esse anseio de liberdade com autonomia que reúne pessoas para refletirem sobre suas vidas, no intuito de melhorar e aperfeiçoar a prática da liberdade, a educação para a autonomia. Por isso nos perguntamos como agir na espera do segundo filho? Qual o momento que a criança não deve mais usar fralda? Quanto tempo eu devo permitir, ao meu filho assistir programas de televisão? E quais programas? Quais tipos de música eu devo ter em casa, para ouvir e educar o ouvido de meu filho? Será que tenho sido presente na vida do meu filho, ou sou um pai ou mãe ausente? Como conter a agressividade de meu filho? E esse egocentrismo do meu filho durará quanto tempo? Essas e outras são preocupações saudáveis e demonstram o sentimento de responsabilidade familiar e social daqueles que fazem tais perguntas. Mas então é que ficamos no dilema apontado por Paulo Freire: como se dá a educação como Prática da Liberdade?

Como fez Paulo Freire, que aprendeu nos tempos de Juventude Universitária Católica – JUC, o primeiro passo é ver a realidade. E qual a nossa realidade? Como nossos filhos, nós somos animais racionais; animais com inteligência, com a possibilidade e capacidade de compreender o mundo; somos animais com a possibilidade e capacidade de modificar, refazer o mundo; somos animais com a possibilidade e capacidade de criar redes de relacionamentos, terminá-las e reorganizá-las.

Bem, somos animais, temos um corpo com uma infinidade de necessidades: necessidade de movimentação para encontrar alimentos; necessidade de repouso quando o cansaço chega após a movimentação; necessidade de alimentação sólida, líquida ou gasosa; necessidade de comunicar as descobertas e necessidade de receber informações sobre as descobertas dos outros animais; necessidade de excreção de gases, líquidos e sólidos que já não interessam ao corpo. Sim somos animais e possuímos corpos e quase nos esquecemos disso; quase nos esquecemos de que nossas lembranças e nossos aprendizados estão armazenados em nossos corpos e que nosso cérebro é uma matéria e funciona com redes e ondas; quase nos esquecemos que conhecemos o mundo com os sete buracos da cabeça e com os milhões de buraquinhos que formam nossa pele.

Por outro lado somos animais sociais, que só conseguimos sobreviver em grupos e, por isso, precisamos definir como nos relacionarmos em grupos. Foi para atender essa necessidade que nossos antepassados criaram normas de convivência, criaram os idiomas, as gramáticas, os demais códigos de comunicação, as formas de organização política, os instrumentos de trabalho, os meios de transportes, os sistemas religiosos, os sistemas políticos, etc. Olhando o passado verificamos que a maioria dos homens e mulheres estiveram em situação de dominação, em situação de servidão. E, em cada uma dessas sociedades existiram homens e mulheres que procuraram inventar a liberdade.  Assim também nós somos convidados a buscar a liberdade em uma sociedade que nos oprime com obrigações falsas, como as do consumo e ostentação. As campanhas publicitárias estão, a todo momento, a nos incitar hábitos de consumo como se fossem de primeira necessidade, a nos incitar a comprar carro novo ou vestuário novo com os quais impressionaremos os nossos vizinhos e colegas de trabalho, às vezes os humilhando e os forçando a endividar-se para concorrer conosco, assim como podemos nos ter endividados para mostrar o que somos ou fingimos ser. Programas de televisão nos dizem o que comer, como comer, onde comer. E somos levados a escolher o que escolheram para nós. Ficamos fragilizados de alguma forma e, em lugar de pararmos para perguntar: o que fiz para meu corpo esteja tendo essa reação? Foi algo que comi? Fiz mais esforço que o necessário? O que vem me causando essa tristeza? O que fiz para que meus sentimentos estejam tão embaralhados? Em lugar de buscar as respostas dessas e de outras perguntas semelhantes, vamos logo marcar uma consulta com o especialista médico, psicólogo para que eles nos digam o que fazer. Se formos aos especialistas, eles certamente nos farão as perguntas acima ou algo parecido com elas.

O mesmo ocorre em nossa relação com os nossos filhos. Ouvimos a opinião de outros sem prestar atenção à nossa própria opinião pessoal. Aos poucos vamos delegando à especialistas tudo que se refere à nossa vida e à nossa responsabilidade. Vamos perdendo a autonomia, o controle de nossas vidas. E é disso que trata a obra Pedagogia da Autonomia. Não é que não devamos procurar conselhos, informações com os especialistas, mas devemos ter o cuidado de, após ouvi-los assumirmos as decisões e o controle de nossas vidas! E assim saberemos como preparar nossos filhos para a vida na sociedade, transmitindo com tranquilidade os valores que vivemos e desejamos para eles e para o mundo no qual eles viverão, construído por eles, como nós construímos o nosso mundo a cada momento e a cada decisão.

 

Olinda, 29 de Novembro de 2014.

[1] Escrito para dia de estudo no ZAB, com os pais.

[2] Doutor em História do Brasil pela UFPE, Professor Adjunto do Departamento de História da UFPE, pai de Aluno no ZAB.

[3] Mestre em História do Brasil pela UFPE, professora da UPE , Campus Garanhuns.