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Histórias das e nas escolas que o povo cria.

terça-feira, fevereiro 16th, 2016

Todos nós temos nossas predileções e, se algumas delas nos afastam de algumas pessoas, haverá outras que nos aproximem dessas mesmas pessoas. Não podemos excluir de nossas relações apenas por pensarem um pouco diferente de nós, algumas pessoas, pois, é possível que elas tenham mais coisas em comuns conosco do que imaginamos ou percebamos na superfície. É por darmos atenção às epidermes que cultivamos sentimentos racistas, excluímos socialmente, politicamente, religiosamente pessoas de nosso entorno social. Ênfase em demasia em algum aspecto entre muitos que a realidade e as pessoas possuem, escurece nossa visão, impede que a luz nos penetre e, sem percebermos, nos separamos do mundo, criando uma ficção que nos agrada, nos satisfaz por possibilitar exaltar a nossa capacidade de nos ver. Confundimos o mundo conosco, nos fazemos deuses e nos amamos, ou julgamos termos encontrado o amor, ao confundir a nossa sombra conosco. É a idolatria, o culto ao vazio de sentido e damos sentido ao vazio. É a nossa desgraça.

Sempre que me perguntam sobre o Maracatu de Baque Solto, ou sobre os desfiles que clubes, troças, blocos, maracatus, afoxés que as pessoas realizam durante o carnaval, eu digo que vejo a História do Brasil, do meu povo, de suas/minhas experiências que são colocadas nas ruas, nos lembrando de nosso passado de sofrimento, mas posto ali na glória das artes, quase apontando o que poderia ou poderá ser. Afinal, aprendi com Carlos Mesters que o Paraíso, nosso mito da Criação, pode ser uma saudade ou uma esperança. Meu amigo Paulo Cavalcante, carioca mundializado após três viagens aos NOrdeste, logo após os primeiros desfiles das Escolas de Samba do Rio de Janeiro, profetizou que a transmissão que a Rede Globo de Televisão estava a fazer do desfile, era um desrespeito à cultura popular e a história do Brasil. Como é belo o instante em que o historiador rompe e expõe a manipulação, abre caminho para a superação do momento, escapando do processo de alienação espetacular que a sociedade de consumo impõe. O desfile das Escolas de Samba, dos Maracatus dos Baques Virado ou Solto e todas as demais manifestações populares que ocorrem no Reinado de Momo, são aulas, são reflexões de nossas vidas, das contradições que nos fazem ser o que somos. A cada carnaval somos chamados a ver como se reconta a nossa história e somos convidados, como Paulinho da Viola, a ver as coisas que estão no mundo e não apenas no que dizem as academias oficiais compostas por quem quase sempre vê o povo tão distante, e cria essas distâncias, que já não se reconhece nele. Nem o povo se vê nelas.

Claro que o carnaval é um festival que aliena, assim como algumas (às vezes quase todas) aulas de história, filosofia, psicologia ou sociologia em nossas universidades e nos encontros que elas e seus professores realizam para conversar sobre o povo. E então se louvam por seus conhecimentos insossos, sem sabor. Saber sem sabor não é sabedoria.

Paulo e Vera e Carolina: amizade

domingo, março 1st, 2015

Na metade da última década do século XX tive dificuldades de conseguir manter os empregos nos colégios onde lecionava e, pior ainda, nenhum colégio da Região Metropolitana do Recife aceitava-me como professor. Alguma coisa ou algumas pessoas articularam para que não conseguisse ganhar meu sustento por essas bandas. Assim, fui tentar viver no Rio de Janeiro, sem conhecer qualquer pessoa, sem levar qualquer referência e, melhor que tudo, sem ser conhecido e, portanto, tinha contra mim apenas o ‘preconceito’ contra mais um nordestino que chegava à cidade maravilhosa. Depois de dois meses consegui aprovação em dois concursos públicos na UNIRIO, mas sempre em segundo lugar. Entretanto, consegui contrato como professor substituto naquela universidade na disciplina História da Educação e, na Universidade Veiga de Almeida fui contratado para aulas em História Moderna. Nesses dois estabelecimentos tive a felicidade de conhecer Paulo Cavalcante e sua esposa Vera Borges, ambos são professores de História, e ela, além desse dom, também era saudável maratonista. Conheci outras pessoas, professores que trago em meu coração e alma. Na alma acarinhando belos momentos e, no coração que acelera sempre que penso nessa experiência que meus amigos do Recife forçaram-me a realizar.
Paulo e Vera são a minha referência melhor do Rio de Janeiro. Da varanda de sua casa assisti a chegada do ano 1995, além de receber as primeiras aulas que desvendaram para mim alguns segredos do computador e de como colocá-lo ao nosso serviço. Hoje está ocorrendo uma bela festa no Clube da Aeronáutica, celebrando o vigésimo quinto aniversário do casamento desses amigos e, também a felicidade de Paulo completar o seu primeiro meio século de vida exatamente quando o Rio de Janeiro está a festejar quatro séculos e meio de idade. Recebi pelo Correio um belo convite. Alegria tê-los sempre comigo.
O convite chegou quando Carolina se anunciava, saindo do ventre de Tâmisa para a gulodice de nossos olhos e nossas mãos em ver e tocar novo ser que nos traz e renova a fé na vida, a vida de que são portadores os amigos, esses anjos que nos acalmam sempre que pensamos neles, pois eles são a revelação do amor e da eternidade. Nenhum calmante faz mais efeito que o riso de um amigo e o afago de sua mão. Quando um amigo nos toca, ainda que em nossos pensamentos, julgo que devemos sentir a mesma sensação de estarmos seguros, como nos sentimos seguros nas mãos de nossos pais. Ficamos pequenos diante da grandeza da amizade. Nossos amigos são os pais que conquistamos ao longo da vida. Eles são poucos. Às vezes nos enganamos, mas um dia entendemos que tivemos a sorte de termos encontrado esses poucos que às vezes fazem pouco, mas nos enchem, nos completam, nos aliviam as dores e nos ensinam a recomeçar. Que Paulo e Vera vivam mais um século que eu os cultivo na minha alma. Assim como aceito com alegria imensa a minha mais nova neta, essa menina Carolina ou, como já disseram alguns, CaroLinda. Que ele tenha a felicidade de encontrar pessoas como Paulo Cavalcante e Vera Borges.