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Nóis sofre mas nós Goza?

sábado, fevereiro 13th, 2021

Estamos vivendo um ano muito atípico, com essa “gripezinha” que já matou mais de duzentas mil pessoas, só no país cujo presidente parece sentir-se bem com tantas mortes. Quando ainda não havia sido escolhido para ser carrasco das instituições e do povo brasileiro, o capitão da reserva lamentava que tenham sido mortos tão poucos brasileiros pela ação do exército. Agora ele para estar muito excitado com as mortes que tem provocado pelo seu modo de governar.

Para cuidar do meio ambiente do Brasil, colocou no ministério uma pessoa acusada de crime ambiental; para comandar a Fundação Palmares, que cuida do patrimônio e da herança culturais africanos que vieram como escravos para o Brasil, ele pôs um intelectual negro que nega tais tradições; para cuidar dos assuntos da família e dos gêneros colocou como ministra uma pastora evangélica que vê pecado em qualquer manifestação que ela cria ser contra a Bíblia; no ministério da Ciência e Tecnologia, colocou um astronauta que ainda não sabe como foi ao espaço e silencia quando o presidente levanta sua voz contra a ciência; o ministério das Relações Exteriores, foi entregue a um diplomata que faz questão de colocar o Brasil fora das relações com os Estados Livres e adeptos do pensamento científico; finalmente colocou no Ministério da Saúde, um general obeso, obediente, incapaz de pensar e, dizem ser especialista em logística. Pois bem, este general, que não sabia o que é o SUS, Sistema Único de Saúde, o está destruindo, como já desmobilizou o sistema de vacinação que o SUS mantinha e era considerado, mundialmente, como dos melhores. O general da logística deixou faltar oxigênio para os pacientes, não conseguiu elaborar um plano de vacinação, não comprou as vacinas necessárias para a população. Isso nos faz temer pelo futuro, pois se está a perder o presente, a alegria de viver. O medo da morte está nos rostos dos brasileiros e nos risos dos seus dirigentes: os primeiros apavorados, os segundos, parecem extasiados. 

Nas perdas que sofremos nos últimos anos, o mundo tem sentido a perda do Carnaval, uma festa universal que assumiu, desde o início do século XX, ser a principal festa do Brasil. Mas são muitos os carnavais e de diferentes formatos embora seja mais vibrante no Rio de Janeiro, com um modelo de espetáculo, algo para ser visto e aclamado. O carnaval para os outros verem não é o único que existe naquele pedaço do Brasil. São Paulo gostou muito do estilo carioca e montou, com sucesso, as arquibancadas e a passarela. Outro carnaval é o da Bahia, que teve a ousadia de modificar a forma de tocar o frevo e seguir os trios, sem passarelas, mas com cordões protetores, excluindo no carnaval quem já é excluído o tempo todo. Mas aos poucos as cordas cedem espaço, o povo fica cada dia mais próximo do carro que leva o Trio que virou banda, e os cantores/animadores, cada vez mais altos. Pernambuco tem Maracatus de nações africanas e Maracatus de Caboclos de Lança larga para lembrar que a terra tinha dono antes dos entrudos; tem Tribos de Índios e Caboclinhos de passos rápidos que correm atrás das notas dos pífanos, e isso sem contar com as La ursa, os Ursos, e tantas troças. Recentemente, talvez por medo de perder espaços nas televisões, criaram um clube de máscaras e fantasias que saía na madrugada do sábado, mas com os recursos conseguidos, veio a tomar conta de todo o sábado, fechando o Recife para si mesmo e, acabando com o carnaval de rua no Recife na região Metropolitana; tomou para si a cidade que passou a ter um carnaval espetáculo, parecido com o Rio de Janeiro, e com os quase trios soteropolitanos. Mas, para gaudio dos orgulhosos pernambucanos, passou a ostentar título dado pelos ingleses. Aí o povo foi para Olinda, e os bairros de São José e Boa Vista perderam seu carnaval. Coisas da dinâmica da vida.

Este ano, os pernambucanos esperaram o ano inteiro, mas não se meteram na brincadeira, e a Quarta Feira ingrata ocorreu uma semana mais cedo. Publiquei na Revista do Instituto Histórico de Olinda que Recife e Olinda, desde os anos sessenta estendem o carnaval de forma que os ensaios e acertos de marcha têm início em setembro, mas este ano ficaram sem carnaval pois, dançar com a Covid 19, pode ser um convite para o fim do carnaval individual.

Não parece ser fácil viver sem o carnaval, um ritual de passagem, o verdadeiro réveillon brasileiro, pois aqui, “tudo começa depois do carnaval”, tudo que vem antes é ensaio e acerto de marcha. O ritual dá um sentido à vida, ao cotidiano, depois de tentar suprimi-lo. Sem carnaval, como será a quaresma, especialmente para os não crentes, os não religiosos? Ter-se-á que fazer uma nova explicação para as cinzas nos rostos, sem o carnaval? A não existência do carnaval está impedindo que o catador de latas de cervejas oportunize (assim se diz hoje) ao jovem endinheirado a alegria de ajuda-lo na tarefa de alimentar sua família? E o que dizer dos carregadores de gelo, os apertadores de parafusos dos palcos? A não existência do carnaval põe em risco muitas existências, mas a sua realização, neste ano, também põe em risco as existências de muitos. Assim, teremos um carnaval virtual, visto pelas telas. Os computadores serão as avenidas para os mais carnavalescos. Entretanto, os Tambores de Olinda não chegaram ao Pátio do Rosário para silenciar. Como será o silêncio do Pátio do Terço? Talvez volte a ser o silêncio do tempo mais antigo de Badia e suas companheiras da irmandade de São Cristóvão. Escuto que o homem da Meia Noite fará uma ‘live’, julgando manter a tradição, mas não poderá entregar a chave ao Cariri no Largo de Guadalupe. E o Galo, cantará na madrugada, no coreto que já foi do Leão Coroado?

A Sete de Setembro ficará silenciosa neste sábado sem o brilho azulado de Tarcísio Pereira que, não aguentou mais sofrer e foi para o gozo eterno. Não é, o 7, a perfeição, a soma da Trindade com os pontos cardeais? A barba azulada de Tarcísio ficará bem, ao lado do azul do manto de Nossa Senhora. É capaz de se confundir. De lá ele verá o Bloco subir Misericórdia ao som do frevo, e perguntará se o carregador do estandarte é São João do carneirinho. Com certeza também sorrirá ao ver o desaparecimento das barracas da Praça do Carmo e ouvirá algum Querubim dizer: Eu acho é pouco, pois inventaram tantos partidos que o terreiro da Carminha ficou pequeno.

Escrevo essas bobagens porque estou ouvindo, no fundo das minhas lembranças a orquestra nos guiando para a atravessar a ponte da Duarte Coelho e frevar no Pátio de São Pedro antes que o galináceo tmasse o Recife para si. Este ano, Nóis sofre mas nós Goza? Esta é a pergunta que nós põe o último baluarte do carnaval da Boa Vista.

Daqui eu fico pensando: sempre que começam a organizar o que o povo já organizara o povo desaparece, só ficam os catadores de latas.  

Artigo sobre Carnaval que ultrapassa 30 dias, veja o link abaixo 

https://www.academia.edu/44006285/UM_CARNAVAL_QUE_ULTRAPASSA_30_DIAS

http://www.biuvicente.com/blog/

Pandemia, humanidade, Tomaz de Aquino

domingo, novembro 15th, 2020

Ainda não vencemos o pecado social, a fome que estrutura o nosso mundo, nossos relacionamentos. Ela é a principal distinção visível entre os humanos, mas ela não é a causa das diferenças, ela é a consequência mais visível. A maioria de nós, inclusive os que a sofrem de modo mais aguda, não percebe. Vivemos um desses momentos especiais da história, quando todos os grupos sociais são obrigados a enfrentar a fragilidade da vida, com a morte batendo à porta, na do vizinho que desconhecemos e na nossa. As epidemias sempre fazem com que as doenças deixem de ser algo privado, tornam a morte um assunto diário. Nos nosso dias há muitos meios de tergiversação e a morte raramente ocorre em casa. Em casa a vemos pelo frio das ondas concentradas em aparelhos de televisão. Em nossa época a morte que nos chega é aquela distante, as próximas atinge a poucos. A epidemia do Cólera, que atingiu o Nordeste do Brasil na segunda parte do século XIX, gerou grandes mortes e a ação do Padre Mestre Ibiapina criando as Casas de Caridade, amenizadora de muitas dores naquele momento, e na grande seca de 1877. Provocou o estabelecimento externo dos cemitérios, que nos sertões foram criados por missionários e devotos como o Antonio Conselheiro. Um ataque do Cólera em finais do século XX gerou, em Pernambuco, um banho de mar pelo então governador, para garantir que havia segurança na diversão. O que nos diz essa pandemia do Coronavirus 19, o que ela nos deixará, além da enorme mortandade, ainda nos é desconhecido. Talvez o entulho gerado por hospitais pressurosamente construídos e, rapidamente desmontados quando, aparentemente já não tenham utilidade. Estamos a viver uma epidemia, talvez com maior ciência, mas nosso comportamento não difere muito do comportamento dos não pobres dos século XVII. Talvez tenhamos algum Deccameron escrito em algum desses iates que serviram de refúgio para os herdeiros do comportamento de Carlos II, o rei alegre e moderno, que recriou sua cidade. Mas, nossas cidades e comportamentos serão recriados?

A pandemia tem sido uma oportunidade de expor as vísceras morais dos governantes do mundo. Os jornais apontam que os ditadores, enclausurados nos palácios que mandaram construir ou que a eles foram levados por votos, pouca preocupação tiveram com a população, e até mesmo negaram a existência da doença e suas consequência. Houve até quem pusesse a culpa dos problemas naqueles que morreram, que não souberam lutar e vencer.

Dizem que Nero tocava flauta enquanto a cidade ardia em chamas. Se esse comportamento houvesse ocorrido apenas no lado ocidental do planeta e da cultura, como alguns gostariam, haveria mais uma razão para promover o fim da Civilização Ocidental. Parece que é uma questão da demência dos seres humanos que se recusam aprender novas lições. Por isso nesse processo de mortandade, algumas fortunas pessoais cresceram e cresceu a acumulação. Santo Tomaz de Aquino lembrava que sempre que há algo sobrando para alguém é porque está faltando algo para outro. Alguém rouba, alguém está sendo roubado. Aliás, lê-se nos jornais do dia da eleição para vereadores, que mais de 10 mil candidatos estão recebendo auxílio emergencial para os que perderam empregos por conta da pandemia. Que mudanças advirão das ações desses futuros vereadores?

Nesta semana que passou, o presidente do Brasil reagiu negativamente à sugestão de desapropriar as terras florestais que sofreram os incêndios, ao grito de que “em nosso país a propriedade privada é sagrada”. Faz questão de esquecer que as terras queimadas são propriedade coletiva e, no fundo ele as quer privatizar, matando os animais, as árvores e destruindo os espaços das comunidades indígenas. O presidente nem percebe que a legislação brasileira já permite essa ação, nas terras usadas para o cultivo de drogas e que, neste país, a propriedade deve ter uma função social, seguindo a sabedoria de Tomaz de Aquino.

Hoje é dia de Santo Alberto Magno, professor de Tomaz de Aquino, Doutor da Igreja e Protetor da Ciência. Estudou Ciências Naturais em Pádua e, renunciou um episcopado para fazer o que mais gostava: lecionar.