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A Sednhora do Carmo e o Vampiro da história

sábado, julho 16th, 2022

É dia de Nossa Senhora do Carmo, padroeira do Recife, ao lado de Santo Antônio, mais antigo e tornado soldado protetor. Essas homenagens e esses dias de glória e festejos dedicados aos santos protetores, vêm de um tempo mais religioso, mais festivo e, como era menor o número de habitantes, menores as possibilidades de divertimento, as homenagens pareciam ser maiores, mais concorridas. Antes, toda população era da mesma religião, pois que ela era oficial; antes todos os comerciantes faziam questão em tomar em suas mãos, ainda que por pouco tempo, o andor que levava o santo a andar nas ruas da cidade que protegia. Novos tempos, novos costumes, novas fidelidades. A cidade cresceu, outras religiões e outros santos vieram fazer companhia aos católicos, e cresceram de tal modo, que ouvi, recentemente, um babalorixá dizer que “os católicos deviam nos agradecer, pois nós fazemos propaganda dos santos deles, pois em certos dias nós vamos às suas igrejas rezar para os nossos orixás”. E a Senhora do Carmo que foi posta como padroeira, a apedido dos comerciantes, hoje vem se tornando avatar de Oxum, o orixá da riqueza. E os pobres da periferia, completam todos os bancos da Basílica. De acordo com o babalorixá, se houver algum católico, não encontrará local para assento. São novos esses tempos.

São tempos de espetáculos. Aliás, o filósofo francês que participou do espetaculoso maio de 1968, sabe que a vida sempre foi um espetáculo, desde os tempos faraônicos. Os mais abastados, ou seja os que tomaram para si o que todos produziam, sempre vestiam-se para apresentar um espetáculo, sempre prontos a mostrar o quanto riqueza produzida por tantos, foi drenada e, em determinados momentos festivos, os que a produziram podem dela usufruir pelos olhos, admirando – mirando de longe – o que eles fizeram e não podem tocar. Foi sempre assim. O espetáculo da fé, o espetáculo do poder. Nestes dias atuais, a novidade é que o povo também se enfeita e sai para se mostrar, ser visto como sendo acumulador/portador de riqueza. As bijuterias, roupas que parecem com aquelas usadas pelos reis, pelos nobres, estão no corpo do povo, que parece rico. Charmosamente chanelianos. Antes era o carnaval que servia para esse espetáculo popular, esta festa do mundo ponta cabeça; nestes tempos, o carnaval é um detalhe, pois todos os dias são de espetáculos, não do povo, mas desse grupo que não se quer povo, mas não consegue ser o sacerdote, nem o rei, de modo permanente. No carnaval o povo não se engana, ele sabe, ou sabia, que tudo terminava na Quarta Feira ouvindo o padre dizer que ele era apenas pó. Um pequeno lembrete sobre a provisoriedade desta vida, que é necessário ser humilde diante do tempo infinito que é a eternidade. Mas, quem leva à sério o que diz o sacerdote? Melhor esquecer a eternidade que começa com o fim do tempo que se vê passar, e viver a eternidade que dura o tempo presente. Ainda que este tempo seja duvidoso e que tem a certeza do seu fim.

Os séculos foram de guerras, os livros de história estão repletos de heróis cujos feitos foram levar homens aos campos de batalhas, vê-los matar-se mutuamente. Assim forjaram as nações, os impérios que eram tão grandes quanto o número de mortos que deixavam nos campos. Quantos poemas dedicados à morte e àqueles que levaram os jovens para morrer ou matar, tirando-os dos braços de suas amantes. Esses cantos de morte encantavam mulheres que perdiam a oportunidade de viver por mais tempo um grande amor. Alguns casais abraçavam-se durante a véspera da viagem, da batalha ou da morte. E faziam a glória dos heróis e construíam as pátrias. As nações sempre foram construídas com cadáveres. Continuam a existir essas fábricas de heróis, e com elas e eles, a fome endêmica, também geradora da morte. Milhões de pessoas morrem de fome no mundo, milhares de pessoas morrem em cada país e, nessa guerra silenciosa, há novos heróis que não montam cavalos, não vão aos campos de batalhas, como aqueles louvados por Heródoto, Tucídides e tantos outros. Os campos de batalhas são, hoje, as casas de câmbio, as bolsas de valores. Na verdade elas sempre estiveram lá, dissimuladamente. Para conseguir dinheiro com o objetivo de fazer uma guerra na Irlanda, Carlos I arrastou-se até o Parlamento e ouviu um não. O “não” pronunciado pelos Comuns anunciou a Guerra Civil e, essa matança provocou um novo modo de governar a sociedade. A defesa dos interesses de nobres e clérigos de alto escalão levou à revolução na França e a matanças para que fosse criado um mundo de fraternidade. Muitas mortes levaram à República na América de Norte e, mais morte ainda para que fosse estabelecida o fim da escravidão dos negros no país da liberdade. Como disse Michelet, “a história é um vampiro”. E, no entanto, a história é os homens em movimento, não é uma ideia.

O vampiro não é a ideia da história, mas o homem que faz a história, dominando as plantas, os animais, todos os seres vivos que estão na terra, os domina e os mata, e vive, tem vivido, dessa matança. Essa guerra que sempre se pensou que fosse contra o inimigo da tribo, do clã, da pátria, da nação, tem sido uma guerra contra o planeta. É tempo, já é tempo, de os homens pararem de se destruir, de lutar para acumular riquezas levando o planeta, com todos os seres que nela vivem, inclusive ele, à morte.

Os carmelitas têm como patricarcas dois profetas: Elias e Eliseu. Elias, o maior dos profetas, entre suas ações está o sacrifício de dezenas de sacerdotes de Baal, após manifestar a força e poder de Javé. Elias, parece, não morreu, foi arrebatado aos céus em carruagem de fogo.

Senhora Conceição, cultura da Mata Norte é Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil

domingo, dezembro 7th, 2014

 

Dezembro avança com poucas chuvas e muitas festas, como as que os católicos realizam em honra da mãe de Jesus. A tradição que admite a concepção sem pecado é muito antiga, bem mais antiga do que essa Igreja em seu louvor, construída, em 1887, quase no centro histórico de Goiana. Interessante é que, construída em plena chegada da indústria em Goiana, o templo foi construído seguindo o modelo barroco.

Embora presente na tradição desde o século  II, apenas no século XIX, 1854, é que veio a ser definido como dogma, o nascimento imaculado da Mãe de Jesus. Era o tempo de contrapor o mistério da fé ao secularismo prático dos tempos incertos da Revolução Industrial, da Unificação italiana.  A fé está sempre em diálogo com o mundo, pois diálogo não significa redução do outro ao mesmo, mas, o reconhecimento das diferenças sem desejar destrói-las.  Devoção romanizadora, a Conceição substituiu, substitui ou fez diminuir a devoção à Senhora do Rosário – a dos Homens Pretos e a dos Homens Brancos. Muitos foram os “filhos do Ventre Livre” amadrinhados por Nossa Senhora da Conceição. A mãe de meu pai era Florinda da Conceição e ele era seu afilhado de batismo.

Muitas são as Marias da Conceição, ou Conceptas, de acordo com a classe social. Em samba canção famoso, de autoria de Jair Amorim e Dunga, Cauby Peixoto lamenta  que Conceição desceu do morro pensando em subir na vida e, depois de muitas andanças no asfalto da cidade, sonha em voltar a ser Conceição.

No Recife, a Nossa Senhora da Conceição do Morro, também conhecida como Nossa Senhora do Morro da Conceição, passou a ser reconhecida como Padroeira da Cidade, a despeito  de Santo Antonio, Sargento protetor da cidade desde os tempo da colonização portuguesa e, também a despeito de Nossa Senhora do Carmo, também protetora da cidade, a pedido do comércio modernizado na segunda metade do século XIX e início do século XX. A Virgem da Conceição virou a Santa dos pobres dos morros do Recife, morros que foram habitados pelos “bestializados” no processo da República comandada, em Pernambuco pelos senhores das terras, dos engenhos, das usinas. E ao longo do século XX, A Conceição foi sendo, também, Iemanjá. Tangidos pelas estiagens e pelas modernizações conservadores, os trabalhadores da cana desceram da Zona da Mata Norte e foram fazer companhia aos retirados dos mangues e dos mocambos, pela política de higienização e pela exploração. Ali, ao longo do século XX, encontram-se as criações dos trabalhadores rurais e urbanos. Os senhores que viviam nos sobrados e nas casas senhoriais, governavam Pernambuco e definiam o que era ou não cultura. Com certo cuidado, eles conviviam com o Maracatu Nação, herdeiro das procissões da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos e, com auxílio de antropóloga americana, não foi muito difícil acatar o Maracatu de Baque Virado como expressão cultural. A mesma antropóloga, contudo, não conseguiu vislumbrar o que está no movimento do maracatu rural, a ponto de lamentar a sua presença no carnaval do Recife. Ainda nos anos de 1990, editores do Jornal do Commercio denunciavam o “cheiro de urina” deixado pelos caboclos de lança e “o brilho falso das lantejoulas”. Mas os “bestializados” da Zona da Mata Norte organizaram-se na Associação dos Maracatus de Baque Solto, sob a liderança de Mestre Batista, do Mestre Salustiano e do Mestre Biu Hermenegildo, e continuaram a conquista das ruas e das cidades. No final dos anos 90  o Diário de Pernambuco já diz “uma das mais belas representações de nossa cultura é feita de homens simples e resistentes  e mulheres fortes e com coragem invejável, espalhados pelos 87 maracatus de baque solto de Pernambuco”. A primeira década do século XXI foi marcada por publicações sobre o as tradições culturais da Mata Norte:  “Maracatu Rural, o espetáculo como espaço social” (Ana Valéria Vicente); “João Manoel e Maciel Salustiano, três gerações de artistas populares recriando os brinquedos de Pernambuco (Mariana Cunha Mesquita do Nascimento) “Festa de Caboclo”, “Maracatu Estrela de Ouro de Aliança, a saga de uma tradição” (Severino Vicente da Silva) foram postos a público em 2005, e também “a mulher no maracatu rural” (Tamar Alessandra Thalez Vasconcelos), em 2012. Outros estudos acadêmicos foram e continuam sendo realizados sobre a criatividade da população cortadora de cana da Mata Norte.

Ao final da Olimpíadas de Londres, o Caboclo de lança foi apresentado ao mundo como símbolo do Brasil e neste 3 de dezembro foi estabelecido que o Maracatu de Baque Virado, o Maracatu de Baque Solto e o Cavalo Marinho, todos filhos da criatividade dos povos da Mata, passa a ser, oficialmente, Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil.

Só temos que agradecer a nossa Madrinha, Senhora da Conceição, também louvada como Iemanjá.

ps. Todos os livros citados foram publicados pela Editora Associação Reviva. Olinda, PE