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Vaticano, Caribe, religiões

segunda-feira, dezembro 22nd, 2014

 

E então chegamos à última quinzena de 2014, com a surpresa na política internacional provocada pela festa latino-americana na Praça de São Pedro, no Vaticano, celebrando o aniversário do Papa Francisco. Casais dançaram o tango ao mesmo tempo em que o mundo tomava conhecimento de que os Estados Unidos da América do Norte e a República de Cuba declararam que estavam reatando relações diplomáticas sustadas faz 53 anos. A informação desse ato diplomático e civilizatório no dia do aniversário do papa foi um sinal da importância da intermediação do papa nesse contendo que demonstra aos mais jovens a existência da Guerra Fria, e aos mais velhos que ela tem pouco sentido.

Aqueles que tinham 10 ou 12 anos de idade no início dos anos cinquenta e, que tiveram a oportunidade de terem em seus lugares de vivência um televisor, acompanharam momentos dramáticos do enfrentamento entre as duas potências atômicas, EUA e a URSS, o confronto entre dois modelos de sociedade que se apresentavam ao mundo de então. Poucos anos antes, jovens cubanos, com apoio de parte da população dos Estados Unidos, afastaram do poder o sargento Fulgêncio Batista que dominava  ilha e permitia que a máfia a utilizasse como espaço de seu divertimento.  Depois, os jovens liderados por Fidel Castro definiram-se como socialistas e aliaram-se à União Soviética, quebrando o paradigma de Yalta e Potsdan.  No mundo tensionado de então, os americanos que pretendiam colocar bases militares em regiões próximas às fronteiras soviéticas, viram navios da potência oriental aproximarem-se do Caribe com armas que deveriam ficar voltadas para a potência ocidental. Uma semana de tensão e, conversações entre os dois líderes Kruchev e Kennedy, estabeleceram a permanência pacífica da tensão. Os Estados Unidos tomaram a decisão de bloquear economicamente a ilha, pretendendo leva-la à ruina. Um dos maiores erros da história, uma vez que o bloqueio jamais ocorreu em sua totalidade, e muitos países, inclusive o Brasil vêm mantendo comércio com os cubanos desde os anos sessenta. Como a decisão norte-americana de fazer o bloqueio econômico foi um ato do Congresso, a retomada das relações diplomáticas não o afetará: só o Congresso americano poderá por fim a esta bobagem, pois ele atualmente existe apenas para o Congresso ver, como se dizia antigamente a respeito de algumas leis criadas no Brasil para satisfazer à Inglaterra no século XIX. Claro que crescerá o intercâmbio econômico com a ilha caribenha, especialmente os investidores cubanos da Flórida, que terão o Porto de Mariel, recentemente construído com ajuda secreta do Brasil. Mas importa entendermos que o Vaticano retoma a sua capacidade de intermediação de conflitos entre as nações e que temos, à frente, um processo cubano à chinesa, no qual o capitalismo econômico avança, mas as liberdades democráticas e as instituições de guarda dos direitos humanos ficarão a passos de cágado, caso entrem em compasso de mudança.

O Vaticano e as religiões ocupam cada vez mais espaço nos noticiários e na vida das pessoas e comunidades, contrariando filósofos e cientistas sociais que apontavam o fim da religião no século XX. Houve até teólogos que anunciaram a Igreja como Túmulo de Deus. Como previu o historiador católico e conservador Arnold Toynbee, são as etnias e as religiões que estão a servir de referência aos indivíduos e aos grupos. Todas as religiões estão em alta, não apenas nos cantões distantes, próximos às matas ou aos pés dos montes, mas nos planaltos acadêmicos, como demonstra fortalecimento dos estudos da Ciência das Religiões, com a aprovação de doutorados nessa especialidade do conhecimento, nas universidades Católica de Pernambuco e Federal da Paraíba.  Assim, neste período natalino teremos mais motivos para celebrar a data máxima da cristandade, não do cristianismo.  Deste meu lugar, parabenizo os professores e amigos Carlos André, Newton Cabral, Gilbraz pela caminhada e pela confiança nos seus projetos.

biu Vicente