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ALGUMAS PALAVRAS EM TORNO DA VIDA E DO TEMPO DO PADRE REGINALDO VELOSO

sábado, maio 21st, 2022

ALGUMAS PALAVRAS EM TORNO DA VIDA E DO TEMPO VIVIDO PELO PADRE REGINALDO VELOSO.

Prof. Severino Vicente da Silva

Desde a Páscoa que o Padre Reginaldo Veloso foi hospitalizado e, na madrugada de ontem, realizou a sua Páscoa, Como escreveu a sua esposa, está com Papai do Céu.

Conheci Reginaldo quando ele era um dos padres que atendia a Paróquia da Macaxeira, juntamente com Padre Adriano. Esses dois padres são marcos de uma época, do envolvimento da Igreja com os operários. Por motivos diversos, dizem que os dois “deixaram de ser padres”, o que não é verdade. Adriano decidiu ser operário, tornou-se motorista de taxi, fez da rua o altar onde celebrava diariamente, comungando a vida do povo que escolheu para ser seu, pois não nasceu no Brasil, porém poucos foram tão brasileiros como ele. Como costumava dizer Dom Hélder, há estrangeiros que nasceram na Rua da Aurora e há brasileiros que fora dos limites geográficos brasileiros.

O padre Reginaldo Veloso foi afastado do altar por determinação do Arcebispo José Cardoso, escolhido por indicação de um bispo progressista que pretendia agradar a Pernambuco, apontando para substituir Dom Hélder, um bispo que nascera em Caruaru. Nem sempre o berço é um bom pressagio.

Reginaldo nasceu em família católica e veio a entrar em seminário no Recife, foi enviado para terminar os estudos em Roma, onde estudou História da Igreja, mas foi o serviço litúrgico que o conquistou. Depois de ordenado, passou algum tempo como professor em seminário, depois foi indicado para a Paróquia Santa Luzia, criada no início do século XX, para o atendimento religioso dos operários do Cotonifício Othon Bezerra de Mello, vulgo, Fábrica da Macaxeira. No meu tempo de menino, nós saímos de Nova Descoberta, passávamos pela mata de eucalipto plantada para diminuir os efeitos deletérios que a fumaça da fábrica produzia, para as festas natalinas que ocorriam na praça da igreja. A fábrica empregou muitos que desceram da Zona da Mata Norte e ocuparam os morros vizinhos.

No início do século XX a prática da Igreja foi de colaboração com os industriais católicos que trouxeram da Europa congregações para formar e manter o espírito cristão dos operários. A situação de cooperação foi sendo modificada no pós Segunda Guerra Mundial por diversas razões, entre elas algumas tentativas que a Igreja Católica estava permitindo serem realizadas na França, com os “padres operários”. Reginaldo estava na Europa quando ocorreu essa experiência, talvez tenha tomado notícias dela, especialmente quando foi suspensa por orientação romana após incidente diplomático, provocado pela prisão dos padres. Nunca perguntei a Reginaldo se esse acontecimento afetou a sua atuação, mas o fato é que quando ele foi trabalhar na paróquia da Macaxeira, a situação social pedia outro tipo de sacerdote. No início dos anos sessenta o arcebispo era Dom Carlos Gouveia Coelho, um bispo preocupado com os trabalhadores, como prova o seu empenho com a JOC e o incentivo que deu ao Padre Paulo Crespo para a organização do Serviço de Assistência Rural de Pernambuco – o SORPE.  Às vezes, quase sempre os leigos chegam primeiro, e havia um ativo grupo da Juventude Operária Católica, aplicando o famoso método VER – JULGAR – AGIR, criado pelo padre Joseph Cardjin, a quem deve ser atribuído a criação da Ação Católica, reconhecida pelo Papa Pio XI. Assim, havia um sentimento/ de crítica ao sistema capitalista, também praticado pelo Partido Comunista Brasileiro, também atuante na fábrica. Então veio o Golpe civil-militar de 1964, que desmantelou a atuação da Igreja e dos comunistas na Fábrica da Macaxeira. E é então quando Reginaldo e Adriano estão cuidando dos católicos da região. A disposição dos novos governantes em acabar com o “comunismo” na Fábrica, levou a Fábrica da Macaxeira à falência, como aconteceu com as outras fábricas de tecelagem e fiação em Pernambuco. Aliás esse é um dos benefícios que o Golpe de 1964 garantiu aos pernambucanos. Tem gente que ainda não consegue juntar essas letras.

Enquanto a “redentora” impossibilitava a ação nas fábricas (elas estavam fechando para gáudio do colonialismo interno) o novo Arcebispo, agora Dom Hélder Câmara, animava novos meios de aproximação cristã na sociedade, os movimentos sociais passavam a substituir os sindicatos, agora entregue à pelegada. Entre os movimentos católicos, surgiu a Pastoral de Juventude no Meio Popular – PJMP, que recebia orientação do Padre Reginaldo, que nessa época começava também a exercitar mais os seus talentos de músico e poeta, voltados para compreender e alimentar os desejos do povo, como fazia o Padre Geraldo Leite, que foi vigário em Pontezinha e depois no Morro da Conceição. Reginaldo veio a ser grande amigo e colaborador do padre Romano Zufery que organizou a Ação Católica Operária – ACO, para manter a animação dos operários. Em 1985, quando ocorreu a morte do Padre Romano, Reginaldo assumiu a tarefa e a ACO tornou-se Movimento dos Trabalhadores Cristãos, uma visão ecumênica.

Em 1968, o padre Reginaldo e toda a arquidiocese envolveu-se no processo educacional para que os brasileiros soubessem que, em 1948, o Brasil havia se comprometido em desenvolver condições para que fosse garantido a todos os Direitos Humanos definidos na Organização das Nações Unidas. Foi esse o tempo de pensar nos Direitos da Criança, e o MAC começa ser gestado. Era o tempo do endurecimento da ditadura civil militar. Então Dom Hélder envia Reginaldo para ser o pároco do Morro da Conceição, Santuário de devoção das camadas mais pobres da sociedade recifense. Também foi escolhido para ser o Coordenador da pastoral de Casa Amarela. Nesse período, em diversas ocasiões fui chamado a refletir sobre as questões sociais, econômicas do Brasil e da região, colaborando para o VER. Foi essa a época em que ocorreu o fortalecimento das Comunidades Eclesiais de Base -CEBs, o Encontro de Irmãos, uma maior participação dos leigos na vida da Igreja, seguindo as resoluções do Concílio Vaticano II. A Igreja Católica do Brasil e da América Latina, refletia sobre os acontecimentos, os julgava a partir da leitura bíblica, e agia. E, dessa reflexão, foi sendo formada a Teologia da Libertação, surgia um pensamento teológico para além da experiência dos católicos europeus.

Vivia-se tal situação na Arquidiocese quando ocorreu o falecimento do papa Paulo VI e a nova janela de riso, aberta pelo papa João Paulo, que morreu trinta dias após a coroação. E então um novo Conclave escolheu o primeiro para não italiano em quinhentos anos, e nomeou-se João Paulo, o segundo com este nome.

O Cardeal Wojtyla cresceu na parte do mundo dominada pela União Soviética que não admitia a liberdade de religião, ou mesmo a religião. E claro que as perseguições que o jovem católico vivenciou a perseguição religiosa em sua nação, e isso influenciou a sua percepção de mundo. Em seu pontificado, um dos objetivos perseguidos era derrotar o comunismo, o que viria ocorrer, cedo ou tarde, por questões econômicas e não religiosas. Mas, mesmo os santos, às vezes não cultivam a paciência histórica e desejam o protagonismo. Este desejo de João Paulo II matou (?) os sonhos de católicos na América Latina. Foram desautorizados e perseguido pelas autoridades vaticanas os teólogos da Teologia da Libertação, chamados, constantemente a explicar-se no Discatério da Doutrina e Fé, nome fantasia para Tribunal do Santo Ofício. Não bastou a perseguição dos regimes locais. Padres foram mortos, bispos sequestrados, leigos aprisionados por praticar sua fé, acusados de comunistas. Quando o padre missionário Vito Miracapillo foi expulso do Brasil por não atender o desejo de um prefeito para que celebrasse para honrar um país que deixava seu povo morrer de fome, Reginaldo levanta sua arte e homenageia o padre expulso com a canção Vito, Vito, Vitória. Isso lhe vale a prisão, é preso por afirmar o que a história mostra que a vitória dos homens não é a vitória de Deus. Corria o ano de 1980. Dezenove anos depois, o arcebispo que substituiu Dom Hélder Câmara, retira o padre Reginaldo Veloso da paróquia de Nossa Senhora da Conceição, e retira-lhe a condição de presbítero do Altar. Proibido de ser padre, de celebrar a Eucaristia, o povo do Recife, os jornais do Recife, os não católicos do Recife, os não crentes do Recife, todos continuaram a dizer Padre Reginaldo.  Desmantelava-se Igreja Povo de Deus, proclamada pelo Vaticano II, dominava a Igreja clerical, definida no Concílio de Trento, no século XVI. Parecia que se fechava a janela aberta por João XXIII.

Participei do velório, da queima de velas para iluminar o caminho para a casa do Pai, lembrar a Vela do Batismo, a Vela da Páscoa. As exéquias foram realizadas no Morro da Conceição, mas não foram celebradas na nave do Santuário que o padre Reginaldo cuidou entre 1988 e 1998. Os leigos decidiram fazer esse ritual em uma escola próxima ao Santuário. Vieram muitos padres com vestes litúrgicas para dirigir e celebrar, mas a comunidade decidiu que tudo seria feito pelos leigos, não pelo clero. Três mulheres dirigiram a cerimônia, a Celebração. Um padre representante do arcebispo foi convidado a dizer algumas palavras, e as disse ressaltando as qualidades do padre Reginaldo. O beneditino, padre Marcelo Barros, foi convidado a refletir o Evangelho e, entre muitas palavras, lembrou o Sínodo da Amazônia e a palavra do papa Francisco sobre a necessidade de ampliar a compreensão do sacramento da Ordem. O clima foi de alegria, apesar das lágrimas de saudade. Nenhum dos presentes parecia duvidar que estava acompanhando um presbítero da humanidade, um cristão que não reduz a sua Igreja às determinações clericais. O padre, lembrava Dom Hélder as palavras de pai, o padre é para servir, não para ser servido.