Posts Tagged ‘Memória’

Inácio Strieder.

terça-feira, março 8th, 2016

Leio e aprendo que o tempo daquele que me abriu para leitura da Carta de São Paulo Aos Romanos foi completado no dia de hoje. Meu professor Inácio Strider era ainda jovem jesuíta que andara pelo mundo acumulando conhecimento e refletindo sobre os momentos que vivia. Quando lia suas reflexões sobre paisagens geográficas e humanas no relato de suas viagens, pensava em homem de alguma idade muito diferente da minha, mas eis que o Inácio que entrou na sala era diferente daquele que eu admirava enquanto lia seus escritos. Em verdade passaram cinco anos para que eu juntasse as duas pessoas. Foi quando me fizeram professor no Instituto de teologia do Recife e, passei a ser colega de vários professores que admirava por seus ensinamentos e pela calma com que apresentavam os argumentos, tanto na sala de aulas quanto nas reuniões da Congregação do ITER: Inácio Stieder, José Comblin. Humberto Plumenn, Eduardo Hoornaert, Sebastião Armando e outros. Reuniões fecundas de conhecimento sabedoria e amizade. Após alguns anos volto a encontrar Inácio Strieder, agora já secularizado e lecionando no Departamento de Filosofia da UFPE. Quando nos encontrávamos sempre havia um questionamento sobre o comportamento da sociedade, como acontecia nos artigos que passou a publicar nos jornais locais. Padre jamais deixou de ser. Alguns até brincávamos que el pareca uma cardeal. Foi assim que animou um grupo de católicos que sofreram com a aposentadoria de Dom Hélder Câmara. Nesse intuito, convidou-me para particpar de uma uma das semanas helderianas e me pediu uma reflexão sobre o Cristianismo Revolucionário na América latina. Esse momento ocorreu no auditório da Livraria Cultura. Ali encontrei-me com jovens que já não conheciam Dom Hélder. A memória, pessoal e coletiva, é seletiva e frágil.

O tempo passou com a rapidez que os anos passam quando estamos ocupados em fazer coisas, e então descuidamos das amizades, os encontros foram rareando até que então soube por ele, saindo do elevador: vou aposentar. Naquele momento disse que era tempo que estava no limite, não o do seu, mas da lei.

Todos nós sabemos, quando se aproxima o tempo da aposentadoria, que ela é o apressamento do passo para o esquecimento; uma sensação bem diversa daquela que tínhamos quando jovem, naquele tempo a aposentadoria era vista como um prêmio a ser desfrutado após anos de obrigações. Quando jovem, a aposentadoria parece ser um tempo idílico no qual os sonhos de viagens e amores serão realizados e passamos grande parte da vida trabalhando para recrear a vida na aposentadoria. Mas quando ela chega, parece que já estamos cansados de esperar por ela, e já caminhamos mais devagar em sua direção, não mais na direção da realização dos sonhos, mas com a intuição de que serão poucos a querer nos ouvir, saber nossa opinião sobre alguma coisa. Professores, então, fazem de tudo para não se aposentar, imagina alguma assessoria, aulas esporádicas, participação em bancas, escrever livros de memórias etc. Mas aos poucos vai-se convencendo que tudo já foi feito e, parece que é de repente, faz um acordo com a Noiva de todos, e passamos para a memória dos outros, enquanto os que nos conheceram viverem. Filhos, netos, talvez bisnetos, algum aluno que se impressionou em sua juventude com a sabedoria que julgavam que tínhamos. Se artigos e livros foram escritos, é possível continuar mais tempo algum vivo. Inácio Strieder escreveu muitos artigos, expôs-se ao logo de sua vida.

Escrevendo sobre Inácio Strieder o professor Lucivânio Jatobá escreveu: “apesar de ter dado uma grande contribuição à UFPE, Strieder, após se aposentar, foi, como acontece e acontecerá com todos nós, será esquecido. Ele era um Homem Honesto; um Homem de Bem.” Quase me atrevo a dizer que quase fiquei amigo, e não apenas aluno e colega desse meu professor.

Saudade

Revisão do ano 5

terça-feira, dezembro 29th, 2015

Revisão do ano 5 memória

Todos os esforços que os humanos fizemos desde que um grupo começou a ter alguma consciência do ocorria ao seu redor, ou mesmo antes dessa consciência, parece ter sido a busca da felicidade. E a felicidade de uma pessoa é, sempre, a felicidade da outra pessoa. Como cantava Nelson Ned, nos anos sessenta do século passado, em letra de Adelino Moreira: “Amor só se dar, se amor se ganha também; quem der sem ganhar, pensa que tem, mas não tem.” Ou seja o que homens e mulheres procuram é ser feliz na procura de poder dizer “eu quero seu bem”. Nas religiões, quando isso ocorre, costuma-se dizer que esta pessoa é um Mestre, um Yoga, um Buda, um Iluminado, um Santo. Os títulos são diferentes para cada grupo religioso. Houve até uma religião não religiosa que, teve Comandante, Grande Timoneiro, e outros assemelhados.

No de 2013, participei, como ouvinte, de um debate com dançarinos e outros artistas e cientistas, que tinha como tema, O Corpo. O que fazemos com o nosso corpo, como o usamos para nos aperfeiçoarmos, etc.. Após a exposição de um professor que usou o tempo da plateia para demonstrar que a religião, especialmente o cristianismo, é responsável pela infelicidade humana porque a Inquisição aniquilava o corpo e a repressão das Reformas Religiosas do século XVI reprimiam as pulsões de felicidade. Claro que o professor era leitor de Charles de Foucault, e este tem alguma (muita) razão no que diz, porém, o professor apresentou alguma dificuldade de apresentar a ideia de que os santos e similares colocam seus corpos, sua mentes para o serviço do que chamam de bem. Haveria Olimpíadas sem repressão ao corpo?

É, em parte, por esse discurso que jovens aceitam enrolar-se em bombas, tornam-se explosivos para fazerem vingar suas crenças. São treinados para essa ação que lhes garante a santidade, a aceitação e premiação, por seus atos, pela sua divindade. Mutatis mutantis, não é muito diferente dos jovens dos esquadrões antibombas ou dos recrutas enviados para o front das batalhas. Naquela sessão eu mencionei que monges budistas resolveram denunciar a exploração de seu país – o Vietnan – no ato supremo de, em praça pública, banhar-se de gasolina e atear fogo em seus corpos. Fiquei chocado ao término daquele encontro, quando me vi rodeado de bailarinos e professores de dança a me perguntarem que história era essa? De onde eu havia tirado tais fatos? Quais as minhas fontes? Era a demonstração do ensinamento de Ivan Lessa: a cada quinze anos, nos esquecemos o que ocorreu nos últimos quinze anos.

Tudo vem neste final de ano a respeito de dois homens santos pela aclamação dos que com eles conviveram, agora posto a caminho do reconhecimento de sua santidade de vida pela Instituição a que pertenceram, entregaram seus corpos e mentes, bem como futuros corpos e mentes que podiam existir sem a repressão de algumas punções. Realizaram o que se chama de sublimação. E o que sabem de Padre Cícero Romão Batista e de Dom Hélder Câmara, os jovens de hoje. Sobre Cícero, alguns sabem que o povo o chama de Padim Ciço, algumas vezes aparecido em programas especiais sobre o Nordeste, ou diminuído por intelectuais que querem reduzi-lo a ‘coronel’, sabemos pouco dele por que ele entregou sua vida no Sertão do Cariri e deu alguma continuidade ao trabalho de outro Santo, o Padre Ibiapina, a quem o povo chama de o Padre Mestre. E sobre Dom Hélder Câmara, raro são os jovens alunos meus que sabem seu nome e nem se perguntam o porquê de as pessoas o chamarem apenas de Dom. Foi o Dom que, ainda em 1965 recusava a participar de festividade em louvor ao golpe de 1964, mas isso nem mesmo os estudiosos de história da Igreja reconhecem, uma vez que dois brasilianistas definiram que a oposição à ditadura iniciada em 1968, talvez depois de ler o belo livro 1968, o Ano que não acabou.

A revisão do ano é o uso da memória seletiva da história do Brasil, um memória contada pela dualidade de senhores das Casas Grandes, pois elas sempre souberam-se dividir para sempre estarem no poder, ora à esquerda, ora à direita, como se as contradições sociais fossem iguais ao poema de Cecília Meireles, Ou Isso ou Aquilo.
Nesta revisão quero lembrar, como minha avó e minha mãe diziam, camonianamente: Carecemos de estudar mais essas figuras, arrancá-las do subsolo da memória nacional.

Olinda, Aliança e Ipojuca

segunda-feira, outubro 10th, 2011

O final de semana teceu caminhos diversos para mim, com surpresas dentro da programação que havia realizado. Programamos nossas ações para que nada nos surpreenda, mas, por ser da sua dinâmica, a vida nos surpreende sempre. Na manhã do sábado um encontro anual que vem ocorrendo a seis anos: o aniversário de Pedro, filho de Fabiano e Alba. Além dos olhares e expressões de cobrança (“já faz um ano que nos vimos!!!”, “puxa, a gente só se encontra anualmente!!!”, “ainda bem que Pedro existe e nos faz essa alegria”) é sempre um conjunto de exclamações, uma alegria pelo reencontro, esse continuar de uma conversa que, embora interrompida, nunca termina e sempre é regada a sorrisos. Coisa linda essa amizade! Fabiano me traz notícias das escavações que estão sendo realizadas para a concretização da “transposição do rio São Francisco” na Paraíba, Cajazeiras, mais especificamente. Arqueólogo, Conta-me que recentemente encontrou o que foi local de uma aldeia, moradia de nosso passado. Em se fazer túneis para fazer passar as águas cada vez menos caudalosas do Rio da Integração Nacional, nota-se que não nos conhecemos, que nosso passado está soterrado e, nessa pressa de irrigar sertões e contas bancárias, pode-se constatar que haverá perdas de nossas memórias, submersas nas águas deslocadas.

No seu silencioso trabalho de arqueologia e história, Fabiano, como muitos outros, dedicam-se a desenterrar nossas entranhas enquanto outros se aprofundam em viajar por cidades distantes, brincando de serem chefes de estado com assento na ONU, enquanto promovem a humilhação da nação pedindo para ser recebidos por presidentes de federações esportivas (mas sendo ouvidos por secretários) e se comprometendo a não respeitar as leis do Brasil e, dessa maneira garantir as contas bancárias da FIFA.

O sábado teceu continuidades no Ponto de Cultura e Leitura Estrela de Ouro de Aliança. Os espaços da Biblioteca tomados por crianças e pré-adolescentes. Enquanto conversam sobre o Estatuto da Criança, os adolescentes usam papel, cola e tinta, e transformam as lembranças da infância em objetos como jarros, microfones, barcos, chapéus. Visitam os momentos de alegria e angústia já vividos. Refletem. Entretanto converso com Anderson e dessa conversa nasceu um texto que publiquei no www.biuvicente.com/pontodeleitura no qual Anderson conta sua primeira viagem para o Recife, quando visitou a Bienal Internacional do Livro. Lidiane, Maurício e Andréa se apoderaram de minha câmera fotográfica e registraram o que acontecia no Ponto de Leitura.

O domingo me pôs na estrada e quase atravessei Pernambuco, pois, saindo de Goiana, às oito horas da manhã já estava no Convento de Santo Antonio de Ipojuca. Se hoje o município onde deságua o Rio Ipojuca chama atenção por ser onde atualmente ocorrem os maiores investimentos por conta do complexo portuário industrial de Suape, nos anos de dominação do Império Português tornou-se um importante centro de produção de açúcar de cana. Franciscanos estabeleceram convento em 1606 a pedidos dos senhores de engenho da região. Anos depois ali chegou uma imagem do crucificado, em tamanho real, mas com características próprias. Ficou conhecido como o Santo Cristo de Ipojuca. A tradição reza muitas maravilhas, e desde aquele espaço religioso passou a ser um ponto de romaria e peregrinação dos fiéis. Na guerra do açúcar, também conhecida como Invasões Holandesas, os batavos se apropriaram da região. Estudos menos laudatórios aos flamengos apontam a crueldade com que trataram os moradores da região. Os frades retiraram-se para Alagoa Grande e deram início ao que hoje é Marechal Deodoro, Alagoas. o convento foi feito alojamento militar e local de guarda das montarias. E alguns frades presos e expulsos da colônia portuguesas. Atualmente, em Ipojuca, assistimos a população crescer espremida entre o canavial e as colinas, em um processo de urbanização descontrolada, com o Estado chegando atrasado, talvez propositadamente, não para consertar, mas para garantir que os mais pobres continuem sendo tratados semelhantemente aos cavalos trazidos naquela primeira invasão holandesa. Mas tive a alegria de encontrar Frei José Milton (ganhei o romance “Saburpa, o doce amargo da saudade” e a incumbência de escrever um comentário neste espaço) e Frei Manuel; também ganhei uma andança pela cidade, ciceroneado por Irmão Roberto, a qual foi posteriormente completada com uma tarde de conversa na Biblioteca do Convento. À noite fui à Camela, distrito de Ipojuca, participar da celebração eucarística com a comunidade católica.

Estive em Ipojuca, naquele mesmo convento, quando ainda tinha quatro ou cinco anos de idade. Ainda morávamos na beira do Rio Capibaribe, em Apuá. Minha memória acusava algo dessa viagem, mas temia ser uma dessas lembranças que a gente cria para tornar a vida mais interessante. Contudo minha mãe confirmou essa viagem que foi feita no caminhão de Pedro Mandú, o mesmo que fez a nossa mudança definitiva para o Recife. Agora é tempo de retornar a Olinda e a essas trivialidades que fazem o cotidiano maravilhoso da vida.
Biu Vicente