Posts Tagged ‘Marc Hoffnagel’

de primaveras,bodes e esperança

quinta-feira, setembro 19th, 2013

 

Meados de setembro, o fim do inverno no Brasil não garantiu a primavera, como as celebradas primaveras que prenunciavam, para alguns, o fim de regimes privilegiadores dos poderes de alguns sobre a sociedade. E como a primavera não chegou, e parecia tão perto, veio à memória a estranha frase “uma andorinha não faz verão, mas anuncia”. Assim passamos do inverno ao verão, ao sol causticante do domínio da letra em detrimento do Espírito. O sentimento é de tristeza e temor, comparável ao sentido na tarde do dia 13 de dezembro de 1968 ao ouvir a notícia do AI 5 enquanto datilografava um stencil que seria mais um número do jornal do bairro, intitulado A VOZ. Naquele momento A VOZ parou de ser escrita e os pés lepidamente levaram o corpo e a notícia para muitos. Naquela tarde de verão começara um inverno.

Muitos anos depois, em época democrática, ouvi um colega perguntar-me “quem mandou você pensar?”, quase replicando um professor de Bíblia que, durante os tempos de vigência do AI 5, me alertou dizendo que “a próxima pergunta é uma heresia!” Essas cenas surgem após os juízes do Supremo Tribunal Federal recusarem a pensar para além das tradições Manuelinas. E veio à mente o ensinamento do professor Marc Hoffnagel, que não perdeu a oportunidade de naturalizar-se dizer, a dizer que “o Brasil é um país de oportunidades perdidas”. Perdemos mais uma oportunidade no dia 18 de setembro, a oportunidade de inovar, de superar a Letra da Lei, alcançando-lhe o Espírito para dar início a uma era nova na justiça brasileira, a de colocar os poderosos na prisão. Mas se preferiu as Ordenações Manuelinas, o apego à lei, o medo da heresia. Por não querer ouvir clamor das ruas Luiz XVI mandou fechar a Assembleia dos Estados Gerais; por ouvir o clamor das ruas, a Assembleia Nacional superou a legislação feudal na Jornada de Agosto. Ler a letra das leis sem ouvir as ruas leva muitos a ouvir o rumor das piscinas dos palácios e condomínios. Não se fazem leis sem o clamor das ruas.

E sabemos que um texto por mais abstrato e metafísico que seja é sempre um retrato do tempo em que foi escrito e de quem o escreveu. Na disposição de manter o que sempre favoreceu a alguns, amigo meu lembrou-se da tradição do “bode expiatório”, desejando nos convencer de estávamos a mirar José Dirceu como sendo um bode que, se condenado, viria a expiar os pecados da sociedade Brasileira. Claro que não heresia comparar José Dirceu com Jesus Cristo, afinal ele é feito à imagem e semelhança de Deus, contudo não é Deus nem o povo o via como Bode expiatório. Essa foi a imagem que seus amigos e correligionários estiveram a querer impor aos brasileiros. Apenas o víamos, e ainda o vemos, como uma pessoa que, ultrapassando os limites do cargo que ocupava, promoveu ou auxiliou a promover uma prática criminosa na cúpula da República brasileira. Ele praticou um crime e, por isso é que, apenas os devotos da sua seita o vê como bode expiatório, esse são animais sem mácula, sem defeito. Ora, sei que o Brasil não precisa de “bodes expiatórios” de “salvadores da pátria”, como um dia ensinou-me outro professor, o Eduardo Hoornaert.

Sim, dá um desânimo em assistir o “ex celso”, o Supremo Tribunal Federal está ocupado por juízes que julgam a partir da letra da lei, esquecendo que a lei foi feita para e pelos homens. A tradição manuelina é uma lei de um tempo anterior ao clamor das ruas, feita por homens que se julgavam superiores aos demais e, feita para garantir essa pretensa superioridade. Mas, como me ensinou o biblista Nércio Rodrigues, o que parece loucura para os homens é a sabedoria de Deus. Por isso é que Hélder Câmara clamava que “quanto mais escura a noite mais ela anuncia a madrugada”.