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Março das águas e dos mosquitos

quarta-feira, março 2nd, 2016

Pois que começou março e, a cada ano esperam-se as chuvas que, diz a sabedoria de Tom Jobim, fecham o verão. Os que vivem no sertão olham o calendário em busca da chuva de São José que, caso cheguem, podem garantir 20 espigas em cada pé de milho, como reza famoso baião de Luiz Gonzaga.

O mês de março passou a ser conhecido como o mês das mulheres, porque a ONU estabeleceu, com justiça e justeza, a homenagem à mulheres operárias que foram sacrificadas no fogo de uma fábrica de tecidos no século XIX para que, as meninas de classe média aprendessem que as mulheres começaram a chegar ao mercado de trabalho na terceira década do século XX. Afinal, esse pessoal do sexo feminino que, morando na periferia e cuida das casas nos bairros mais ricos, serão que são parte do gênero, ou são apenas do sexo? São as contradições do mês de março.

Antigamente o ano começava em março, como está definido nos horóscopos. Lá no hemisfério norte, é o tempo que começa a primavera e a fertilidade campeia, domina os campos após o tempo gélido do inverno, e as Festas de Maio lembravam que era tempo de namorar, noivar e até mesmo casar ou acasalar. Tempo de brincadeira, tempo da páscoa, após os sofrimentos do frio, a experiência da quase morte. Mas a segunda quinzena de março anuncia o tempo fértil, mesmo em terras abaixo da linha do Equador, onde o outono prepara o tempo da chuva. Mas nossa imaginação adequou muito bem os tempos geográficos aos tempos culturais criados acima do equador. Criamos um mundo quase falseado, nem percebemos que estamos nos trópicos. Os nossos ricos, esse um por cento da população, cuida de viajar, alguns dizem que vão estudar no hemisfério norte, que vão fazer cursos, imersão cultural, aprender outro idioma. E viajam muito porque, dizem, as viagens ilustram, e precisam viajar muito, para ver se aprendem algo mais que entrar e sair dos aviões. Antigamente faziam sessão de fotografias em suas casas para os amigos e, quando alguém perguntava: mas onde é isso? Quase sempre diziam que “tudo é tão bonito que a gente se confunde”. Hoje são os selfies ou fotos que não apresentam referências, algumas parecem retiradas de revistas especializadas. No mundo virtual tudo é quase real. Alguns viajarão sempre e pouco lerão do mundo visitado.

Pesquisa recente do Instituto Paulo Montenegro e Ação Educativo diz aponta que apenas 8% dos brasileiros estão plenamente alfabetizados e capazes de ler e interpretar um texto, analisar uma tabela e que 27% da população é analfabeta funcional, gente que não entende o que ouve nem o que ler, apenas segue o instinto para não ser extinta. Essa população, de vocabulário pequeno é que faz o sucesso de programas como os apresentados nos sábados e domingos à tarde nas televisões e na apresentação de partidos políticos nos programas ditos ‘gratuitos’. Apela-se para as cores e para os sentimentos de “paz e amor”, os discursos infantis e infantilisantes do ‘nós e eles’ e do ‘isso ou aquilo’. Pesquisa recente nos Estados Unidos mostra que essa é a razão dos sucesso do bilionário Donald Trump como possível candidato à eleição presidencial dos Estados Unidos. Discurso fácil, que alimenta a docilidade, a fera do nacionalismo, a aceitação do caminho mais fácil que não exige nem mesmo a leitura de um mapa, pois o mundo para esses não têm coordenadas nem abscissas. Tudo é plano e úmido, como as terras de esgoto a céu aberto, ou mesmo da felicidade de ruas calçadas ou asfaltadas que escondem a ausência da rede de esgoto, que nos chegam nas visitas de ratos, baratas, muriçocas e outros voadores que carregam de doenças aos eleitores incapazes de ler o mundo que os rodeia e, também de contar e escrever a história que vivem. São apenas 8% o que conseguem dominar essa tecnologia básica para viver com mais justeza os direitos. Os demais, por essa deficiência que foi construída social e culturalmente, continuarão a confundir direito com favor, mérito com favorecimento.

O mês de Março é sempre a possibilidade das chuvas de São José, cujo cajado floresce, como mandacaru que informa o fim da estiagem, como o movimento de meninas gaúchas que abandonam as bonecas e, comemoram a chegada da primavera/outono lutando pelo direito de tornar menores os shorts, cada mais shorts.

Tradições juninas e traições universitárias

sábado, junho 13th, 2015

O mês de junho é especial para os habitantes do Nordeste do Brasil, mês de celebrações da identidade regional, parte integrante da identidade nacional. As músicas, as danças celebram o festival da colheita de milho, no solstício de nosso inverno, na noite de São João; a louvação do amor ao longo da novena de Santo Antônio, o santo casamenteiro e, as festas terminam com louvor a São Pedro, aquele que pediu a Jesus um cuidado especial à sua sogra e, por essa razão, é conhecido como o protetor das viúvas, pois se presume a viuvez da sogra de Pedro, cujo nome é desconhecido. Tão forte esse conjunto de tradição trazido de Portugal enraizou-se no Brasil, que não é possível pensar o Nordeste e sua gente sem tais festejos, sem as músicas e ritmos que os nordestinados criaram para si. Os Xaxados, o Forró, o Chamego, o Xote, o Baião, tornados universais nos sons saídos dos movimentos dos dedos, mãos e braços de tantos sertanejos, agrestinos ou matutos no movimento do Fole de Oito Baixos ou da Sanfona. Dois instrumentos que marcaram o pai Januário e o filho Luiz Gonzaga do Nascimento. Nordestinos confundem-se com as poesias e a voz de Gonzaga, a quem foi atribuído o título de Rei do Baião. Rei que uma imensidade de súditos que se reúnem nas principais cidades e nos mais simples povoados e arruamentos desse imenso país.

Pois bem, parece ser função da universidade pesquisar, ensinar e estender-se para além de seus limites geográficos e abarcar o universo, ao menos o universo mais próximo. Por isso é que, quando foi criado o Departamento de Extensão da Universidade Federal de Pernambuco logo foi criada a Rádio Universitária. Sua função aproximar a universidade do povo que a paga, ser um caminho e vetor da ação universitária na recepção dos anseios da sociedade e se veículo de comunicação daquilo que a sociedade acadêmica produz para a sociedade circundante. Esta a sua função. Mas, esses tempos confusos, com funcionários confusos que confundem os B de Bonifácio e Bolivar, faz com que, sem escutar a comunidade acadêmica, sem ouvir os professores, um ‘petit comité’ resolve que a Rádio Universitária FM, Emissora da Universidade Federal de Pernambuco não mais terá o programa FORRÓ PARA TODOS, produzido e apresentado por Samuel Valente por mais de duas décadas. Leiamos o seu relato:
“Cheguei na Rádio, e qual não foi a minha surpresa: o programa em questão, havia sido retirado do ar, por um “talentoso” Comitê, do núcleo de Rádio e TV, juntamente com a direção das citadas emissoras! Fui recebido por Mirian Leite, a produtora do programa, e demais funcionários! Hugo Martins havia saído, segundo fui informado, para um encontro com o Reitor da Universidade Federal de Pernambuco! Na minha opinião – e gostaria de ouvir os companheiros, compositores, cantores, músicos -, trata-se de uma abominável atitude, desses “entendidos”, contra a cultura musical junina, pernambucana, seus dedicados defensores, principalmente, contra os ouvintes da Rádio Universitária, 99,9, FM! Contra isso, devemos todos, nos pronunciar! Uma vergonha! Mirian Leite, a produtora, chorou! Hugo Martins, o apresentador, indignado, procurando conversar com o Reitor! Francamente! Além de saquearem o bolso do povo, querem arruinar o que de mais belo existe nos panoramas musicais! Afinal, estamos no Brasil!”

Creio que o Magnífico Reitor, que tem Brasileiro como prenome, assuma o reitorado para o qual foi eleito, e alerte aos que formam o comité que está a apoderar-se do Núcleo de Rádio e Televisão da Universidade Federal de Pernambuco que, no mínimo, é asnice o que fizeram: retirar do ar, na véspera do mês de junho um programa de música junina. Esse ‘petit comité’ não deve destruir, em nome de alguma revolução ( esse tempo caiu em pedaços no centro de Berlim), a obra revolucionária de Paulo Freire, o idealizador da extensão da universidade. Paulo Freire sempre desejou começar a partir do povo, esse ‘petit comité’ é partiu sem o povo nordestino e pernambucano.

Não encontrei, Magnífico, nos dicionários, o significado de ‘Anísio’, mas sabemos o que é Brasileiro. Dê um Tom Brasileiro nesse reitorado que o senhor quis repetir.

Sertão para a Unidos da Tijuca

quarta-feira, fevereiro 22nd, 2012

Este texto eu escrevi para o pessoal da Unidos da Tijuca, ano passado quando eles estudavam para ir a Sapucaí.

Da formação do Sertão ao Reinado do Baião
Prof. Severino Vicente da Silva, PhD

Por ser tão distante do mar, algumas terras parecem estranhas ao primeiro contato ou aos que delas apenas ouviram falar. Sabe-se que são terras diferentes nas cores, nos calores, nos azuis celestes, nos matos miúdos, nas plantas espinhosas como em permanente defesa, escondendo a água que tantos animais buscam. Para os portugueses que chegaram a partir nas naves de Cabral, cada passo na direção oposta ao mar e à verdura do litoral, levava a descoberta de terras altas, com menos águas que as vistas pelo cronista da viagem cabralina. Os olhos de Pero Vaz viram apenas uma vesga do território e as suas letras jamais puderam descrever regiões menos abundantes de águas, como as que ele vira no espaço que chamou de Baia Cabrália, um Porto Seguro.

Depois dos primeiros contatos, europeus e a gente da terra deram início ao processo de mestiçagem, nem sempre pacífico, mas criador de rica de diversidade. Naqueles primeiros momentos vieram muitas novidades, a maior delas a cana de açúcar, facilmente adaptável ao clima litorâneo, aquoso e ensolarado; a terra molhada acolheu de tal forma o canavial que viu sucumbir os cajueiros substituídos pelos coqueiros. Também as populações indígenas foram tangidas do litoral. Mas além das 10 léguas, onde começava o “desertão”, a terra ficava seca. A secura do interior que espantou o domínio da cana de açúcar não afastou o europeu em busca de prováveis riquezas. Riqueza maior eram os cursos d’águas, para onde se dirigiam os povos da terra em tempos de estiagem. Objetos de guerra, essas terras foram sendo ocupadas pelo gado trazido do além mar para mover os engenhos produtores de açúcar.

A região foi chamada de “desertão”, pois parecia não haver nada ou ninguém. Para quem chegava do outro lado do Atlântico, o que não apresentava riqueza de fácil domínio estava vazio, não tinha sentido. Naquelas terras mais secas, as várzeas dos poucos rios, bem como os brejos de altitudes, serviam de remanso, lugar de refrigério nos tempos secos, desde que seres humanos ocuparam a região. No “desertão” havia uma população rarefeita, com hábitos criados pelo conhecimento do tempo e dos lugares, equilibrando a população ao movimento dos tempos, das chuvas e estiagens. À medida que os europeus caminhavam para o interior ocorreram choques de interesses, guerras pela sobrevivência. As guerras com os indígenas possibilitaram a criação de fazendas da Casa da Torre, que se tornaram os novos senhores daquelas terras. E para as fazendas foram levados alguns negros para os serviços das casas; e outros negros chegaram fugidos das senzalas, criando liberdade. A mestiçagem não ocorreu apenas com o europeu nem somente no litoral.

O “desertão” foi tornado sertão, com propriedades espaçadas e homens e mulheres de poucas palavras; palavras trocadas quando mascates tropeiros e padres montados em seus burros por lá passavam, ou em momentos de lazer quando se visitavam em casamentos ou batisados. Como jumentos são capazes de caminhar oito léguas sem água, nos pontos de aguada formaram-se povoados, que deram origem a vilas e cidades.

Desses encontros, aos poucos se fez o vaqueiro, cuidador do gado que, além do agricultor da mandioca, deu forma ao típico homem sertanejo, com uma cultura formada de tradições indígena, conhecedora dos tempos, dos bichos, dos matos locais; das criações européias, com as orações, missas, vocabulário ainda camoniano, histórias de reis, cavaleiros e princesas trazidas nas naves, versos e sermões; de culturas africanas, mantidas na timidez de algumas irmandades como a de São Benedito, Bom Jesus dos Aflitos, misturando com os conhecimentos indígenas as tradições agrícolas trazidas de terras para além do grande rio que separa Brasil da África. Tudo isso aparece nas danças de Guerreiro, na Dança de São Gonçalo, no culto dos Caboclos, nas danças do Toré e nas tiradas de Coco de Roda sonorizadas nas palmas das mãos no batido dos pés.

Subindo o Rio São Francisco a produção de carne seca do Sertão Nordestino auxiliou na alimentação da população que explorava ouro no Rio das Velhas, do Tejuco, em Diamantina, Ouro Preto. O fim do Sistema de Capitania Hereditária no final do século XVIII forçou a venda de terras e novas famílias vieram da Europa e participaram da entrada dos sertões na Revolução Industrial, fornecendo algodão e couro para as máquinas inglesas. Embora a independência do Brasil seja contada como algo ocorrido apenas no litoral, a formação do Estado brasileiro provocou mudanças nas estruturas do Sertão. Modernizações impostas pela Segunda Revolução Industrial, tais como o sistema métrico decimal , a convocação para serviço militar, o fim do Regime Escravocrata e, principalmente, a Lei de Terras que impedia a posse de terras sem a compra monetária, tornaram a região em local de disputa, levando o vaqueiro e o agricultor a assumirem o cangaço, parte da guerra pelo controle da terra pelos coronéis da Guarda Nacional e proprietários das terras.

O Sertão foi definido como terra de violência e fome, a fome que vem das plantações destruídas e da seca de 1877. Com a ausência do Estado, ou este a serviço dos donos das terras, o sertanejo comum encontra na religiosidade um lenitivo para as cangas que maltratam sua existência. Assim foi sendo construída a idéia da violência e do misticismo do sertanejo. Um estereótipo que foi captado e modificado nas artes pictóricas e auditivas. A violência, às vezes romantizada do cangaceiro Virgulino ferreira, o Lampião, vem sendo substituída pelo peão trabalhador retirante construtor de cidades, capaz de cantar e recriar o mundo nem sempre favorável aos seus projetos iniciais.

O sertanejo é um místico como Ibiapina e Conselheiro; prático na sua fé como Padim Ciço do Juazeiro, capaz de ser guerreiro qual Corisco e terno e saudoso como o canto do Assum Preto. Essas recriações foram sistematizadas nos ritmos que Luiz Gonzaga do Nascimento levou no matulão de soldado e na sanfona que aprendeu a tocar com seu pai. No encontro com Humberto Teixeira, José Dantas e tantos outros migrantes como ele, sintetizou os sentimentos da nação, desde o desamparo até as esperanças ofertadas por gerações de políticos, todas elas menores do que o desejo de ver a Volta da Asa Branca e, com ela todos os valores construídos no processo de criação do Brasil. Voz, vestuário, humor, balanço, sanfona de Luiz Gonzaga resume, coroa essa história e, por tudo isso, na república dele fizeram, o Rei do Baião.

Bibliografia:

Especial para a Escola de Samba Unidos da Tijuca, 30 de dezembro de 2011, preparando o carnaval.
Professor Adjunto do Departamento de História da Universidade Federal de Pernambuco

Carta de Pero Vaz de Caminha
Darcy Ribeiro – Teoria do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras – 1995.
Gilberto Freyre – O Nordeste. Rio de Janeiro: José Olimpio, 1967
Capistrano de Abreu – Capítulos de História Colonial. Rio de Janeiro: Edições Melhoramentos
Severino Vicente da Silva – A Igreja e o controle social nos sertões nordestinos. São Paulo: Edições Paulinas,