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Recife, o amor

terça-feira, dezembro 21st, 2021

Recife, o amor.

Severino Vicente da Silva

O alagoano Pedro Ivo, na simplicidade poética que ainda o faz desconhecido das mais novas gerações, pôs, no verso, o imenso amor por uma cidade: “Amar mulheres, várias, amar cidades, só uma – o Recife.”

Amar é dar-se, simplesmente dar-se enquanto cuida para que nada falte a que tem nosso amor. Amar o Recife, conhecer seus espaços iniciais, as construções levantadas por outros amantes que a embelezaram, cuidar para que a beleza que foi construída com sofrimento, alegria, angústia, contentamento, mantenha-se. Amar o Recife, mais que passear por suas entranhas e artérias, é sentir como Aldemar Paiva, o pulsar do coração da cidade; dizia ele a cada manhã, ele alagoano gritando o amor, cada manhã dizendo, cantando Pernambuco você é meu. Amar o Recife, manter o coração da metrópole, fazê-lo forte, saudável, atraente, viver as seduções de suas ruas, lembrar as que roubaram espaços dos córregos, dos mangues e, depois foram tomadas pelas novas ou com novos nomes. Amar o Recife é acompanhar os caminhos crescidos paralelos ao rio, então formoso, caudaloso, Capibaribe. Amar o Recife é subir ao Morro da Conceição para visitar a Virgem, e descer do morro e visitar a Virgem do Carmo. Amar o Recife é viver desses amores por Maria.

Eram meados dos anos cinquenta quando o recifense Mário Melo disse que o Recife que ele estava vendo crescer já não era mais o seu Recife. O Recife crescia, mas caminhava para deixar de ser a terceira cidade do Brasil; o Recife crescia, na mesma época Gilberto Freyre dizia, como um sapo a querer ser boi.

Bonita, a cidade atraia os pobres matutos, assustando os ‘capitalistas’ e os matutos ricos, senhores de antigos engenhos, que ocuparam antiga rua dos Coqueiros, rebatizada com a nobreza do conde que fizera do Recife quase uma Paris, com suas praças protegidas por cercas de ferro.

Foi nesse Recife que nasceram Mário Melo (1894-1959) e Gilberto Freyre (1900-1987). O jornalista/historiador, bem como o sociólogo/escritor cresceram no mesmo Recife de Ulisses Pernambucano (1892-1943) que não chegou a conhecer o Recife que se fazia desconhecido daquele que, organizando o carnaval de rua feito pelo povo, domou o ímpeto do brinquedo que nascia dos anseios libertários; não mais o sentimento dos antepassados dos senhores de engenho que, ao longo do século XIX abandonaram Olinda, mas uma outra liberdade que ocupava as ruas frevendo nas estreitas ruas do Bairro de São José. Nos anos cinquenta, pouco antes de Nelson Ferreira nos lembrar que Mário Melo “partiu para a eternidade”, o Recife acatava e ‘acomodava’ os matutos pobres nos morros da Zona Norte, próximos da Virgem da Conceição, onde já haviam se instalado alguns tangidos pela renovação do Porto do Recife, pela Campanha contra o Mocambo. Aliás, os mocambos foram defendidos por Gilberto Freyre contra a ação profilática e ‘embelezadora’ de Agamenon Magalhães, sertanejo de nascimento (1897) mas recifense na amorosa morte (1952). Nos mocambos, o Dr. Ulisses Pernambucano encontrou uma manifestação do sagrado que era confundida com doenças mentais ou com superstições próprias de um povo que precisava ser educado, civilizado, controlado, no pensamento do sertanejo e, se não possível fosse, que fosse colocado para além do ‘Brejo dos Macacos’. O Pernambucano Ulisses sai em defesa dessa cultura com os limites culturais de seu tempo. Enquanto isso Gilberto Freyre queria perceber uma sociedade democrática, nascida de uma escravidão ‘menos violenta’ que a praticada em outras partes do continente. Quem não apanha palmada não sabe a dor da palmatória.

Mário Melo buscava construir uma história com os heróis das “revoluções irredentas”, as revoluções ocorridas no Recife: a dos mascates, dos padres e de alguns senhores de engenho e gente. No Recife, Gilberto Freyre fazia a história da família patriarcal e Ulisses Pernambucano descobria a necessidade de atenuar a ação da polícia sobre os trabalhadores que ainda eram tratados como “escravos de ganho”, e lutavam bravamente para criar e fortalecer laços de famílias, a celular e a extensa. E lá estava Maria Júlia do nascimento, nascida no Recife de 1877 e que morreu no Recife de 1962, era Dona Santa, rainha do Maracatu Elefante, que tendo sobrevivido ao poder persecutório da ditadura varguista, personificada por Agamenon Magalhães, que chamou Recife de cidade cruel, por jamais ter-lhe dado uma vitória eleitoral, talvez em cumprimento ao tratamento que ele e sua polícia dedicara aos recifenses pobres, nascidos na beira dos mangues, alimentando-se dos caranguejos e sempre a serviço para os trabalhos mais duros para o bem estar da cidade. Quem notou e anotou este Recife foi Josué de Castro, recifense nascido em 1908, e morto em Paris, em 1973, exilado da cidade e do país que tanto amou. Deve ter morrido com saudade da capital da saudade. Mas antes, e por amar o Recife, tornou-se o estudioso da fome que as varandas das casas grandes dos engenhos e dos palacetes construídos nas ruas e avenidas com nomes da nobreza do século XIX não conseguiam ver ou compreender.

É certo que o Conde da Boa Vista amou o Recife e quis o seu bem; não duvido do carinho de Mário Melo pelo Recife, suas histórias heroicas e seus carnavais, defendendo o frevo, o maracatu, e até mesmo o índio que Gilberto Freyre tem dificuldade de enxergar; Ulisses Pernambucano é outro amante da cidade e cuidador de seu povo, dos xangozeiros e catimbozeiros; Ulisses Pernambucano, sim, poderia dizer que o Recife seria uma “cidade ingrata”, mas não o disse e por ela morreu perseguido pelo interventor, que não amava a cidade, mas gostava da ordem e da lei, sempre a seu favor; o amor de Ulisses Pernambucano foi uma das garantias para Dona Santa e os maracatus.

Quando hoje olho e experimento os atuais ares do Recife, vejo o decair do gosto que os prefeitos, desde a segunda parte dos anos sessenta do século passado, têm para com a cidade. Quando caiu a Matriz do Corpo Santo, ergueu-se o “Recife Antigo”, mas quanto derrubaram a Igreja do Bom Jesus do Martírio, com o aval de Gilberto Freyre, apenas o vazio foi colocado em seu lugar e, parte do povo que ali morava e sua cultura perdeu-se, perdeu-se bem mais que os cultos afro-originários perseguidos na década anterior. Os que saíram dos seus engenhos de ‘fogo morto’ com a chegada das usinas, abandonaram o Recife, para onde se dirigem, agora, só em tempo de Carnaval, acompanhando um Galo que matou o carnaval que Mário Melo defendeu.

Ah! Recife, minha ilha de água doce, como está ficando amargo te ver hoje.