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Dois dias de novembro

sábado, novembro 23rd, 2013

 

Vinte e dois de novembro é data marcada definitivamente em minha vida, como os dias 23 de cada mês.  Esta última data lembra um bolerão cantado por Orlando Dias, nome artístico de José Adauto Michiles, cantor pernambucano que podemos dizer antecipador do “brega romântico”, tão presente em nosso cotidiano. Mas no dia 23 de cada mês foi para mim um tempo de devoção ostensiva ao Santíssimo Sacramento na Matriz da Boa Vista. Essas visitas, que foram físicas e constantes por vários anos, continuam mentalmente hoje, nos primeiros momentos do dia.

O dia 22 de novembro ficou marcado por conta do assassinato de John Kennedy, no ano de 1963, em um tempo vivido por mim no Seminário Nossa Senhora da Conceição, da Várzea.  Naquele lugar acompanhei o drama do confronto das potências, a crise dos mísseis russos a caminho de Cuba. A tensão e as informações, sempre simpáticas que recebi a respeito do presidente dos Estados Unidos, o tornaram um dos meus heróis no início de minha adolescência. “não perguntem o que o seu país pode fazer por vocês, mas perguntem o que vocês podem fazer por seu país”, é uma sentença que marcou minha relação com o mundo desde então.

A morte de Kennedy foi tão marcante quanto a morte do papa João XXIII, em junho do mesmo ano. Esses dois líderes viveram momentos especiais do século, especial quase confronto armado entre as potências. O João da Igreja não tinha armas além da força da tradição e o desejo de renovação, o que envolvia dúvidas; o João da América confrontava-se com Nikita soviético. Estes dois estavam cheio de certeza, as suas certezas, mas a Era das Certezas, embora não parecesse estava a se aproximar ao final. A Igreja de João, que confundira a certeza do Reino com a certeza dos reis, iria descobrir, temorosa, que o certo pode ser a dúvida.

O que foi assistido em 1962, navios navegando em direção a Cuba, uma ilha de certeza até os dias de hoje, observados por aviões. Seria o início do confronto direto dos possuidores das verdades certas, perguntava-se um mundo temoroso.   Acordo foi realizado por famoso telefone que ligava os dois líderes guerreiros. Dois anos depois o João XXIII sucumbiu à doença, o João Kennedy foi Assassinado, o Nikita foi afastado em 1964. O mundo continua a ser construído e as certezas foram perdendo estatura desde então.

Cinquenta anos depois, sabemos que o espírito guerreiro dos homens ainda não foi domado, nem individualmente nem coletivamente. Continuamos, a maioria de nós, a esperar que se faça algo por nós, ainda não aprofundamos suficientemente o espírito da cooperação sem o medo a nos dominar, e ele sempre nos domina enquanto quisermos impor nossas certezas aos que não estão do nosso lado. Ainda vivemos criando lados de certezas capazes de nos levar à morte, continuamos a expulsar o mundo das possibilidades amorosas.