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Histórias do Natal

quarta-feira, dezembro 21st, 2022

Prof. Severino Vicente da Silva

Pois bem. Nós estamos ao final do ano. E este mês de dezembro nos trouxe muitas surpresas. Entre elas, destaca-se a situação do Brasil ao final da Copa do Mundo de futebol, promovido pela FIFA. O Brasil não foi o grande destaque, apesar de que parte da imprensa Brasileira ter convencido a população, os tecedores brasileiros, de que o Brasil poderia conseguir o seu hexa campeonato. Ora, o que vimos foi uma seleção pouco entusiasmada pelo futebol, e parecia gastar mais tempo na produção de seus cabelos e na organização de danças coreográficas para comemorar possíveis gols. E o resultado foi simplesmente lamentável. Podemos até dizer que foi ótimo não termos ido para a final do torneio, porque com certeza o vexame teria sido muito maior do que o fato de termos perdido para a Croácia. Assim, a comemoração do hexa campeonato ficou marcada para o ano de 2026. Os argentinos, por seu turno, ganharam o torneio. E o tricampeonato.

Enquanto os orgulhosos e felizes argentinos comemoram o seu título. Aqui no Brasil, o mês de dezembro continuou assistindo cenas deploráveis do nascimento de uma tendência fascista, grupos de pessoas que se recusam a reconhecer o resultado da eleição que ocorreu no mês de outubro. Querem que não venha o ano novo, desejam a continuação da velha política, da constante escolha pelo sofrimento e da destruição da esperança.

Sem surpresa para quem observa os acontecimentos e escuta os sinais do tempo, uma pesquisa nos informa que ESPERANÇA foi a palavra que marcou ano de 2022 paa os brasileiros. Alguns a cultivaram no desejo da manutenção e fortalecimento das forças geradoras do mal e outros a tiveram como um facho em direção do ignoto, desejando que o futuro venha a ser construído com as forças desejosas da manutenção da vida repleta de gestos de bondade criativa e construção de pessoas mais interessadas que sejam diminuídas as desigualdades sociais, econômicas, culturais. O resultado das urnas de outubro indicam que poderemos esperançar coisas, situações, ações que nos levem à construção de uma sociedade mais voltadas para agir na direção de superar os entraves que impedem a criação da humanidade.

Agora aproxima-se o festejo natalino, uma festa de aniversário, a comemoração de um nascimento que ocorreu a pouco mais de dois mil anos. Aniversaroo de ima criança nascida em um estábulo, local de descanso para animais e seus proprietários. Os que escreveram sobre este nascimento nos dizem que a vida não estava fácil para os pais dessa criança, pois contam que a sua mãe engravidou antes das bodas esponsais e o seu pai pensou em abandonar a sua noiva. Por pouco o menino teria sido mais uma criança criada só pela mãe. Mas josé, o noivo de Maria reconsiderou sua decisão, Manteve o acordo matrimonial. Resolvido esse problema, eis que a autoridade política resolve fazer um censo, e obriga todos os que saíram de seus locais de nascimento a eles retornarem, o que levou aquela família se dirigir ao povoado de Belém. Mas eram muitos que tiveram de voltar a Belém, por isso não havia casas nem quartos de hospedaria. Só restou ao casal dirigir-se e arrumar-se em uma gruta que havia fora do povoado. Então a jovem inexperiente entrou em trabalho de parto, tendo como auxiliar o marido. Situação de extrema pobreza. Mas parece que não estava muito frio, pois naquela estrebaria só havia dois animais, os pastores preferiram ficar ao relento, apreciando as estrelas, conversando, contado casos e causos, em torno de uma pequena fogueira. Os que narram esses acontecimentos, Lucas e Mateus, chamam atenção a fatos surpreendentes e maravilhosos. Assim como eu, Lucas e Mateus não estavam no dia do nascimento do filho de José e Maria, a quem José deu o nome de JESUS, que quer dizer, Deus Salva.

Mateus diz que homens sábios estavam viajando desde muito longe para conhecer, ainda em criança, aquele que, diziam as estrelas, iria mudar o mundo. Seguiam uma estrela e ela havia parado naquela região. Como entendiam que essa criança que procuravam ia ser importante, um rei (sempre se deu muita importância aos reis), foram perguntar ao rei daquela região, Herodes. Logo Herodes ficou preocupado pois, se alguém ia ser rei, o seu emprego passou a correr perigo. Como Herodes sabia que um sábio do passado havia dito que de Belém viria um rei, nascido de uma jovem, resolveu usar os sábios que vieram do Oriente para ver o rei como seus auxiliares e pediu, gentilmente que, assim que soubessem onde estava essa criança que ia ser rei, mandassem um recado, pois ele desejava prestigiar a criança. Claro que os sábios do Oriente, que pareciam ser reis, conversaram entre si e chegaram à conclusão que Herodes não era de confiança, acharam muito estranho que o rei Herodes nada soubesse da criança. Decidiram que não mais se comunicariam com Herodes. Mateus diz que os reis encontraram o local do nascimento, viram o menino rei, deram-lhe presentes.

Lucas conta outros acontecimentos, esses sem reis. Ele nos conta que perto da gruta havia um grupo de pastores protegendo suas ovelhas e cabras contra a ação de animais famintos. Então os pastores sentiram-se envolvidos por luzes e sentiram medo, quando a voz de um anjo lhes informou que todos deviam alegrar-se pois havia nascido o Salvador na cidade de Belém. Eles viram vários anjos e ouviram que eles davam glória a Deus e aos homens que Ele ama. E o anjo os convidou a visitarem a criança e sua família, deu-lhes o endereço, com indicação para encontrar a família e a criança. E os anjos foram embora, e os pastores resolveram seguir as instruções recebidas. Encontraram a criança e foram logo contando como é que souberam da criança. Lucas diz que os que ouviram as palavras dos pastores ficaram admirados. Devem ter ficado algum tempo conversando sobre o menino. Lucas diz que a mãe de Jesus ouvia tudo, guardava tudo que ouvia. Ela estava maravilhada com o filho. Foi uma noite muito interessante, essa do nascimento de Jesus, nela se encontraram reis de vieram de longe, reis sábios, conhecedores das estrelas, capazes de ler os sinais do tempo, e pastores, talvez não estivesse cuidando de suas cabras e carneiros, mas cuidavam, no relento da noite, dos animais de outros que deviam estar sob seus lençóis, com aconchego de suas casas.

No dia seguinte, os reis voltaram para suas terras, os pastores para as colinas a cuidar dos animais. José e Maria que tinham ouvido dos reis, que trouxeram presentes de ouro, incenso e mirra, que deviam sair logo daquele lugar, pois Herodes poderia vir a fazer mal à criança. Devem ter começado a organizar os pequenos objetos que traziam consigo. É provável que a família chefiada por José tomou a decisão de sair do país, abandonar sua terra, a terra de seus antepassados, deixar para trás a oficina que ficara em Nazaré. Tornaram-se imigrantes. Parentes e amigos cuidariam dessas coisas até que pudessem retornar.

Esses acontecimentos, junto a muitos outros que fizeram a vida de jesus, foram sendo repetidos de uma geração a outra, chegaram até nossos dias. E essa história é contada para que todos nos vejamos nesse menino, para que vejamos todos os que são obrigados a sair de suas terras originárias, ou ficarem em suas terras, desconhecidos, perseguidos pelos poderosos que semelhantes a Herodes, desejando manter-se permanentemente no poder, perseguem crianças pobres, indefesas, pois são filhos de pais pobres, recusam alimento às crianças, enquanto festejam seus desejos iludindo que louvam aquele que nasceu pobre e foi perseguido desde o nascimento. 

Na festa de aniversário de Jesus, quem pode, como os Reis do Oriente, dá presente; os que não podem dar presente, como os pastores, apresentam-se para alegrar os pais e cantar alegria, canções de ninar.

Cuidemos do Menino Jesus, continuamente ameaçado por reis malvados. Evitemos ser causadores da dor das crianças, não esqueçamos que adultos são crianças crescidas. Vamos perfumar o mundo com o incenso, com o perfume da vida, esse que nos vem das flores.   

Esquecimentos históricos, falha na educação histórica

domingo, dezembro 6th, 2015

Em entrevista ao canal Globo News, o ex-ministro Joaquim Barbosa afirmou que “O Brasil não se conhece. O brasileiro não sabe direito como a nação, como o estado brasileiro se formou”. Essa é uma observação bastante interessante, pois ela nos leva debater a razão dessa ignorância, uma vez que há um ministério dedicado a pensar, promover a educação formal, sendo o ensino da história pátria um dos objetivos do ensino fundamental e médio, estudos preparatórios para o exercício da cidadania, além de preparar os estudantes para os cursos universitários. Isso quer dizer que são muitos os anos que um brasileiro fica exposto, nas escola a informações sobre o Brasil, sua história, as pessoas e instituições que, em suas vidas, deram feição ao que é o Estado Brasileiro e os valores que formam a nação.

Claro que, um país com uma vastidão territorial que temos e uma população heterogênea na sua origem, e sendo ainda jovem, tem algumas dificuldades para formar, o que se chamava, algum tempo passado, de ‘caráter nacional’. Bem, embora isso tenha alguma verdade, ela pode ser aplicada a países como os Estados Unidos da América possuem uma população formada por imigrantes de todos os continentes e, por suposto, levaram suas tradições que, bem ou mal foram incorporadas ou justapostas. E hoje, os americanos sabem quem são, bem como seus amigos e inimigos sabem o que dizem sobre os americanos. Seu território é tão vasto quanto o do Brasil e é apenas 46 anos mais velho que o Brasil. A Argentina tem alguns anos a mais que o Brasil; o mesmo pode ser dito do Chile e, eles também são países formados por imigrantes. Mas eles parecem que sabem que são. Talvez devamos pensar um pouco no processo educacional, no processo de integração dos imigrantes, já integrados no cotidiano, mas ainda não participante das explicações que são dadas sobre o Brasil e sua formação.

Bem, na próxima semana, poucos brasileiros sabem que o Brasil completará 200 anos de idade, como Estado, um estado livremente unido ao Estado de Portugal e Algarves. É o que se ensina nas aulas de história sem refletir o que é que essa situação significou como parte da formação do que somos hoje. Claro que, da mesma maneira que o significado do 15 de novembro de 1889, data da proclamação da República, passou despercebido na maioria das escolas e dos instrumentos e órgãos de formação social, o 16 de dezembro de 1815 também não receberá comentário algum, nem mesmo nas comunidades acadêmicas cuja função precípua é formar professores de história do Brasil. Nesse momento de nossa história em que a República Brasileira está sendo posta à prova, teria sido interessante um debate sobre o processo que levou ao estabelecimento da República, um movimento que envolveu setores da classe média (advogados, professores, jornalistas), fazendeiros de café e açúcar, além dos militares. Também creio, seria muito interessante perguntar publicamente o que significou a criação do Reino do Brasil, Unido aos Reinos de Portugal e Algarves. Ali já notamos que é foi uma empreitada casuística, um jeitinho português para facilitar a vida do Príncipe Regente Dom João que desejava ficar mais algum tempo na zona subtropical da América e evitar um confronto direto com a burguesia e a nobreza portuguesa que se sentia prejudicada com a ausência do seu rei em Lisboa. Mas esse episódio é tão pouco aproveitado para a reflexão sobre como chegamos a ser o que somos, que nem reconhecemos o esforço do príncipe regente que, continuava regente no que concerne a Portugal, mas passou a ser Rei do Brasil. Esse esforço de Dom João a nossa historiografia nega, pois sempre o consideramos Rei de Portugal e não do Brasil, de tal forma que ainda hoje agimos como súditos portugueses e ensinamos nossas crianças e futuros cidadãos dessa maneira. Sempre o chamamos de Dom João VI, o que ele é em Portugal, e não o reconhecemos como rei do Brasil. E nem consideramos que, no processo de independência, José Bonifácio de Andrade Silva, o Patriarca da Independência, ao escrever o Manifesto às Nações, lembrou que Portugal se recusava a respeitar os direitos do Reino do Brasil, um Estado reconhecido por toda a Europa, que aceitou a participação de Portugal no Congresso de Viena, pois Dom João estava na sede do seu reino, o Rio de Janeiro, onde também se encontrava Dona Maria I, rainha de Portugal, trono do qual ele era herdeiro e seu regente.

Se, em lugar de silenciar sobre esse acontecimento, nossa historiografia cuidasse de examinar mais detidamente esse fato, talvez nossa estima de nós mesmos aumentasse e, os cidadãos brasileiros entenderiam melhor os acontecimentos relacionados com a chamada Revolução Pernambucana de 1817, as disputas, ou ausência delas, para enviar representantes para a Assembleia Constituinte do Porto, as lutas para a formação das Juntas Governamentativas. No caso de Pernambuco estudaríamos com mais interesse a Junta de Goiana e a Convenção de Beberibe. Claro que tudo isso deixaria mais claro que não foi por falta de oportunidade que o Brasil manteve-se monárquico, escravocrático, acentuando a sua tendência à oligarquia, à manutenção de privilégios e regalias, enquanto decidia excluir grande parte da população da vida política. Evidente somos resultado desses e de outros “esquecimentos” enquanto se oferecem migalhas de reconhecimento àqueles que aceitam situações subalternas, desde que possam ter seus subalternos. E então temos uma sociedade na qual o escravo compra sua liberdade e, logo em seguida compra um escravo para si. Aliás este é outro “esquecimento” atual, para não milindrar as mais recentes oligarquias afirmativas.

Outro esquecimento é que, centro e quarenta anos após a chegada de imigrantes alemães, italianos, poloneses, e outros, continuamos a dizer que o Brasil é formado do encontro de indígenas, africanos e portugueses. E, já tivemos dirigindo a república brasileira descendentes de Alemães, de Italianos; também tivemos ministros de ascendência japonesa e atualmente somos governados (?) por uma filha de um migrante húngaro.
Essas e outras reflexões semelhantes é que poderiam nos ajudar a compreender o processo de nossa formação. Enquanto nossa reflexão histórica ficar sendo direcionada pela diretoria que fundou o Instituto Histórico e Geográfico Brasil (Rio de Janeiro), ou pelo desejo de negar a história do Brasil e seus símbolos (parece haver um vertente que deseja trocar a bandeira que lembra nossa relação com Portugal por outra mais orientalizada), não iremos muito longe como nação. Vamos estudar nossa história a partir de nossas tradições, com respeito e não deboche, como querem aqueles que recusam, implícita ou explicitamente, nossa mestiçagem por orgulhos de partes que se opõem e abrem caminhos que aprofundam a crise de identidade, de nosso caráter nacional.

Importante, também, resgatar os esquecimento que são praticados para facilitar a permanência de privilégios que afrontam a ordem republicana, tais como foro privilegiados em tribunais e prisões.