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Dia Dois de Fevereiro

segunda-feira, fevereiro 1st, 2021

Amanhã é Dois de fevereiro, mas estamos vivendo quase sem amanhã. Amanhã é Dois de fevereiro, dia de muitas devoções, nas muitas religiões dos brasileiros. Povo de muitas origens, de múltiplas tradições.

Há uma tradição católica que preza a Senhora dos Despachos, uma devoção que nos leva aos tempos da dominação portuguesa, quando os colonos viviam à espera de respostas às suas demandas enviadas à Coroa. Viver à espera de um despacho, de um parecer escrito por algum funcionário, para saber se poderia continuar a usufruir de um privilégio ou se lhe foi negado algo que julgava ser seu direito. Então a população de Upatininga, Aliança, PE, pedia à mãe de Jesus que apressasse, que cuidasse para que o despacho lhe fosse favorável.  

Também católica é a celebração de Nossa Senhora dos Navegantes que ocorre em Porto Alegre, RS, uma celebração dos pescadores e de todos os que vivem tendo o mar como local de sua principal atividade econômica. É uma devoção mais antiga que a colonização ibérica nas Américas, pois que então a mãe de Jesus era celebrada como a Estrela Matutina, que orienta os que estão em alto mar.

 A mesma devoção mariana é encontrada São Salvador, BA, a Nossa Senhora da Conceição da Praia. O encontro de povos que atravessaram o mar em situações tão diversas, uns como senhores de navios, outros como mercadorias transportadas nos mesmos navios. Uns e outros rogavam, e rogam por proteção quando estão nas águas salgadas dos mares e pedem que os levem a um porto seguro. E nesse encontro de humanos de tradições distintas, é comum que as experiências sejam trocadas e, pacificamente ou não elas o são. Quando não há troca, há extermínio, como ocorreu com a maioria dos povos indígenas que conheceram a tradição anglo-saxônica da cristandade.

Na Bahia de São Salvador, a Estrela do Mar também é Iemanjá, a Rainha do Mar, a quem todos procuram com pedidos, solicitações e agradecimentos pelos bons despachos de seus sonhos.  

No Brasil, por circunstâncias várias, o contato promoveu assimilações, complementações, adições ainda que algumas divisões promovessem certas subtrações culturais. Mas, o que temos é uma multiplicação de devoções que envolvem tradições católico-romanas e afro-americanas. Amanhã, dia Dois de Fevereiro, é dia de Iemanjá, a Rainha do Mar, A Estrela Matutina, A Estrela Protetora, A Mãe das Águas, a Protetora dos Pescadores e dos Navegantes que de todos cuida com o zelo de uma mãe pressurosa.

Mas, mesmo sendo amanhã, dia Dois de Fevereiro, parece que estamos sem amanhã, sem a certeza do futuro, exceto que amanhã será hoje. Precisamos um bom Amparo para atravessar o oceano de dúvidas e sofrimentos que se aproxima nesses próximos anos. No refluxo das marés Iemanjá devolve muito do que recebe, mas não devolve o que não recebeu. O auxílio recebe quem pede, mas que pede deve providenciar, enviar a carta expondo os problemas e as esperanças.

Senhora Conceição, cultura da Mata Norte é Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil

domingo, dezembro 7th, 2014

 

Dezembro avança com poucas chuvas e muitas festas, como as que os católicos realizam em honra da mãe de Jesus. A tradição que admite a concepção sem pecado é muito antiga, bem mais antiga do que essa Igreja em seu louvor, construída, em 1887, quase no centro histórico de Goiana. Interessante é que, construída em plena chegada da indústria em Goiana, o templo foi construído seguindo o modelo barroco.

Embora presente na tradição desde o século  II, apenas no século XIX, 1854, é que veio a ser definido como dogma, o nascimento imaculado da Mãe de Jesus. Era o tempo de contrapor o mistério da fé ao secularismo prático dos tempos incertos da Revolução Industrial, da Unificação italiana.  A fé está sempre em diálogo com o mundo, pois diálogo não significa redução do outro ao mesmo, mas, o reconhecimento das diferenças sem desejar destrói-las.  Devoção romanizadora, a Conceição substituiu, substitui ou fez diminuir a devoção à Senhora do Rosário – a dos Homens Pretos e a dos Homens Brancos. Muitos foram os “filhos do Ventre Livre” amadrinhados por Nossa Senhora da Conceição. A mãe de meu pai era Florinda da Conceição e ele era seu afilhado de batismo.

Muitas são as Marias da Conceição, ou Conceptas, de acordo com a classe social. Em samba canção famoso, de autoria de Jair Amorim e Dunga, Cauby Peixoto lamenta  que Conceição desceu do morro pensando em subir na vida e, depois de muitas andanças no asfalto da cidade, sonha em voltar a ser Conceição.

No Recife, a Nossa Senhora da Conceição do Morro, também conhecida como Nossa Senhora do Morro da Conceição, passou a ser reconhecida como Padroeira da Cidade, a despeito  de Santo Antonio, Sargento protetor da cidade desde os tempo da colonização portuguesa e, também a despeito de Nossa Senhora do Carmo, também protetora da cidade, a pedido do comércio modernizado na segunda metade do século XIX e início do século XX. A Virgem da Conceição virou a Santa dos pobres dos morros do Recife, morros que foram habitados pelos “bestializados” no processo da República comandada, em Pernambuco pelos senhores das terras, dos engenhos, das usinas. E ao longo do século XX, A Conceição foi sendo, também, Iemanjá. Tangidos pelas estiagens e pelas modernizações conservadores, os trabalhadores da cana desceram da Zona da Mata Norte e foram fazer companhia aos retirados dos mangues e dos mocambos, pela política de higienização e pela exploração. Ali, ao longo do século XX, encontram-se as criações dos trabalhadores rurais e urbanos. Os senhores que viviam nos sobrados e nas casas senhoriais, governavam Pernambuco e definiam o que era ou não cultura. Com certo cuidado, eles conviviam com o Maracatu Nação, herdeiro das procissões da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos e, com auxílio de antropóloga americana, não foi muito difícil acatar o Maracatu de Baque Virado como expressão cultural. A mesma antropóloga, contudo, não conseguiu vislumbrar o que está no movimento do maracatu rural, a ponto de lamentar a sua presença no carnaval do Recife. Ainda nos anos de 1990, editores do Jornal do Commercio denunciavam o “cheiro de urina” deixado pelos caboclos de lança e “o brilho falso das lantejoulas”. Mas os “bestializados” da Zona da Mata Norte organizaram-se na Associação dos Maracatus de Baque Solto, sob a liderança de Mestre Batista, do Mestre Salustiano e do Mestre Biu Hermenegildo, e continuaram a conquista das ruas e das cidades. No final dos anos 90  o Diário de Pernambuco já diz “uma das mais belas representações de nossa cultura é feita de homens simples e resistentes  e mulheres fortes e com coragem invejável, espalhados pelos 87 maracatus de baque solto de Pernambuco”. A primeira década do século XXI foi marcada por publicações sobre o as tradições culturais da Mata Norte:  “Maracatu Rural, o espetáculo como espaço social” (Ana Valéria Vicente); “João Manoel e Maciel Salustiano, três gerações de artistas populares recriando os brinquedos de Pernambuco (Mariana Cunha Mesquita do Nascimento) “Festa de Caboclo”, “Maracatu Estrela de Ouro de Aliança, a saga de uma tradição” (Severino Vicente da Silva) foram postos a público em 2005, e também “a mulher no maracatu rural” (Tamar Alessandra Thalez Vasconcelos), em 2012. Outros estudos acadêmicos foram e continuam sendo realizados sobre a criatividade da população cortadora de cana da Mata Norte.

Ao final da Olimpíadas de Londres, o Caboclo de lança foi apresentado ao mundo como símbolo do Brasil e neste 3 de dezembro foi estabelecido que o Maracatu de Baque Virado, o Maracatu de Baque Solto e o Cavalo Marinho, todos filhos da criatividade dos povos da Mata, passa a ser, oficialmente, Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil.

Só temos que agradecer a nossa Madrinha, Senhora da Conceição, também louvada como Iemanjá.

ps. Todos os livros citados foram publicados pela Editora Associação Reviva. Olinda, PE