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Pandemia, humanidade, Tomaz de Aquino

domingo, novembro 15th, 2020

Ainda não vencemos o pecado social, a fome que estrutura o nosso mundo, nossos relacionamentos. Ela é a principal distinção visível entre os humanos, mas ela não é a causa das diferenças, ela é a consequência mais visível. A maioria de nós, inclusive os que a sofrem de modo mais aguda, não percebe. Vivemos um desses momentos especiais da história, quando todos os grupos sociais são obrigados a enfrentar a fragilidade da vida, com a morte batendo à porta, na do vizinho que desconhecemos e na nossa. As epidemias sempre fazem com que as doenças deixem de ser algo privado, tornam a morte um assunto diário. Nos nosso dias há muitos meios de tergiversação e a morte raramente ocorre em casa. Em casa a vemos pelo frio das ondas concentradas em aparelhos de televisão. Em nossa época a morte que nos chega é aquela distante, as próximas atinge a poucos. A epidemia do Cólera, que atingiu o Nordeste do Brasil na segunda parte do século XIX, gerou grandes mortes e a ação do Padre Mestre Ibiapina criando as Casas de Caridade, amenizadora de muitas dores naquele momento, e na grande seca de 1877. Provocou o estabelecimento externo dos cemitérios, que nos sertões foram criados por missionários e devotos como o Antonio Conselheiro. Um ataque do Cólera em finais do século XX gerou, em Pernambuco, um banho de mar pelo então governador, para garantir que havia segurança na diversão. O que nos diz essa pandemia do Coronavirus 19, o que ela nos deixará, além da enorme mortandade, ainda nos é desconhecido. Talvez o entulho gerado por hospitais pressurosamente construídos e, rapidamente desmontados quando, aparentemente já não tenham utilidade. Estamos a viver uma epidemia, talvez com maior ciência, mas nosso comportamento não difere muito do comportamento dos não pobres dos século XVII. Talvez tenhamos algum Deccameron escrito em algum desses iates que serviram de refúgio para os herdeiros do comportamento de Carlos II, o rei alegre e moderno, que recriou sua cidade. Mas, nossas cidades e comportamentos serão recriados?

A pandemia tem sido uma oportunidade de expor as vísceras morais dos governantes do mundo. Os jornais apontam que os ditadores, enclausurados nos palácios que mandaram construir ou que a eles foram levados por votos, pouca preocupação tiveram com a população, e até mesmo negaram a existência da doença e suas consequência. Houve até quem pusesse a culpa dos problemas naqueles que morreram, que não souberam lutar e vencer.

Dizem que Nero tocava flauta enquanto a cidade ardia em chamas. Se esse comportamento houvesse ocorrido apenas no lado ocidental do planeta e da cultura, como alguns gostariam, haveria mais uma razão para promover o fim da Civilização Ocidental. Parece que é uma questão da demência dos seres humanos que se recusam aprender novas lições. Por isso nesse processo de mortandade, algumas fortunas pessoais cresceram e cresceu a acumulação. Santo Tomaz de Aquino lembrava que sempre que há algo sobrando para alguém é porque está faltando algo para outro. Alguém rouba, alguém está sendo roubado. Aliás, lê-se nos jornais do dia da eleição para vereadores, que mais de 10 mil candidatos estão recebendo auxílio emergencial para os que perderam empregos por conta da pandemia. Que mudanças advirão das ações desses futuros vereadores?

Nesta semana que passou, o presidente do Brasil reagiu negativamente à sugestão de desapropriar as terras florestais que sofreram os incêndios, ao grito de que “em nosso país a propriedade privada é sagrada”. Faz questão de esquecer que as terras queimadas são propriedade coletiva e, no fundo ele as quer privatizar, matando os animais, as árvores e destruindo os espaços das comunidades indígenas. O presidente nem percebe que a legislação brasileira já permite essa ação, nas terras usadas para o cultivo de drogas e que, neste país, a propriedade deve ter uma função social, seguindo a sabedoria de Tomaz de Aquino.

Hoje é dia de Santo Alberto Magno, professor de Tomaz de Aquino, Doutor da Igreja e Protetor da Ciência. Estudou Ciências Naturais em Pádua e, renunciou um episcopado para fazer o que mais gostava: lecionar.

O professor e sua janela virtual cheia de vazio

sábado, abril 9th, 2016

Da janela da casa uma pessoa pode ver a vida passar, lentamente como os passos de um velho que parece desejar alongar o momento do fim da caminhada; fugaz como o jovem motociclista, sempre atrasado para um encontro que em algum momento chegará ou como o sonolento passeio de ônibus do comerciário, pedreiro, estudante ou enfermeira, demorando em angustiantes paradas para receber mais alguns enquanto vomita outros. Tudo e todos se movem menos a janela e quem na janela está.

Vez por outra o olhar desvia-se para outras janelas, essas que são abertas para lugares inatingíveis, pois nem mesmo se sabe para onde se está olhando. A pequena tela do computador abre-se ao quase infinito, em uma estrada que leva a casas e caras conhecidas e estranhas. Estranha-se o que se vê e o que se lê. Algo chama atenção, um estranhamento maior. Estranha-se que um educador, professor de gerações de novos professores, coloque à disposição de olhares curiosos e sedentos que virão, notícias do tempo passado como se de hoje fosse. O que leva uma pessoa que se propõe a dar as últimas pinceladas na formação de jovens a falsificar o tempo?

Ao abrir minha janela deparei com o recado desse professor. Encontrei esse recado que me falava de percentuais, números representativos da querença a respeito de certa autoridade, números que demonstram uma adesão a essa pessoa e à sua obra. Mas, os números referem ao tempo que passou, foi um momento já vivido e superado. Não é o momento atual, mas ele não informa aos seus leitores que é de um tempo passado. E esse educador apaixonado, não consegue admitir como foi fugaz a ação que lhe provocou a paixão, recusa-se a aceitar a mudança. É notório o direito que cada um tem de se auto enganar. Algum psicólogo poderia auxiliar a entender essa negação da realidade como possibilidade de sobrevivência pessoal, esse distúrbio pode ser tratado pelo uso de medicamento ou análise. Mas, nos dois casos há que se ter aquiescência do possível deslocado e deslocador da realidade.

Um professor pode ser um catalisador de novas realidades descobertas para aquele que se entrega aos seus cuidados; pode ser indutor de uma caminhada em busca do saber, da sabedoria, da verdade. De certa maneira é assim que se pensa um professor. Mas a janela que vi hoje pela manhã, a janela que esse professor abriu para que eu e todos que passassem em sua avenida virtual pudéssemos aprender de seu saber, permitiu-me ver uma pessoa que está induzindo ao erro, ao erro ao qual ele se agarrou. Como professor ele sabe que a maioria das pessoas não buscam as razões de sua presença no mundo; como professor ele sabe que sua função social é auxiliar aqueles que o procuram a aproximar-se da verdade, e quando ele nega a informação correta ou induz à uma compreensão falsa da realidade, levando os que conversam com ele ao erro, ele comete um crime contra a humanidade.

Da minha janela fico angustiado ao ver, pela janela desse professor, o oco que ficou sua existência ao perceber que suas crenças careciam de realidade e, em lugar de enfrentar esse problema resolveu cultivar seu vazio oferecendo informações verdadeiras no passado, como sendo atuais. E faz isso conscientemente. Não informando que os dados apresentados referem ao passado, ele optou pela mentira como forma de vida e, ao ensinar essas mentiras, comete um crime contra a humanidade.

Dois dias de novembro

sábado, novembro 23rd, 2013

 

Vinte e dois de novembro é data marcada definitivamente em minha vida, como os dias 23 de cada mês.  Esta última data lembra um bolerão cantado por Orlando Dias, nome artístico de José Adauto Michiles, cantor pernambucano que podemos dizer antecipador do “brega romântico”, tão presente em nosso cotidiano. Mas no dia 23 de cada mês foi para mim um tempo de devoção ostensiva ao Santíssimo Sacramento na Matriz da Boa Vista. Essas visitas, que foram físicas e constantes por vários anos, continuam mentalmente hoje, nos primeiros momentos do dia.

O dia 22 de novembro ficou marcado por conta do assassinato de John Kennedy, no ano de 1963, em um tempo vivido por mim no Seminário Nossa Senhora da Conceição, da Várzea.  Naquele lugar acompanhei o drama do confronto das potências, a crise dos mísseis russos a caminho de Cuba. A tensão e as informações, sempre simpáticas que recebi a respeito do presidente dos Estados Unidos, o tornaram um dos meus heróis no início de minha adolescência. “não perguntem o que o seu país pode fazer por vocês, mas perguntem o que vocês podem fazer por seu país”, é uma sentença que marcou minha relação com o mundo desde então.

A morte de Kennedy foi tão marcante quanto a morte do papa João XXIII, em junho do mesmo ano. Esses dois líderes viveram momentos especiais do século, especial quase confronto armado entre as potências. O João da Igreja não tinha armas além da força da tradição e o desejo de renovação, o que envolvia dúvidas; o João da América confrontava-se com Nikita soviético. Estes dois estavam cheio de certeza, as suas certezas, mas a Era das Certezas, embora não parecesse estava a se aproximar ao final. A Igreja de João, que confundira a certeza do Reino com a certeza dos reis, iria descobrir, temorosa, que o certo pode ser a dúvida.

O que foi assistido em 1962, navios navegando em direção a Cuba, uma ilha de certeza até os dias de hoje, observados por aviões. Seria o início do confronto direto dos possuidores das verdades certas, perguntava-se um mundo temoroso.   Acordo foi realizado por famoso telefone que ligava os dois líderes guerreiros. Dois anos depois o João XXIII sucumbiu à doença, o João Kennedy foi Assassinado, o Nikita foi afastado em 1964. O mundo continua a ser construído e as certezas foram perdendo estatura desde então.

Cinquenta anos depois, sabemos que o espírito guerreiro dos homens ainda não foi domado, nem individualmente nem coletivamente. Continuamos, a maioria de nós, a esperar que se faça algo por nós, ainda não aprofundamos suficientemente o espírito da cooperação sem o medo a nos dominar, e ele sempre nos domina enquanto quisermos impor nossas certezas aos que não estão do nosso lado. Ainda vivemos criando lados de certezas capazes de nos levar à morte, continuamos a expulsar o mundo das possibilidades amorosas.