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O 20 de novembro que sonho

sexta-feira, novembro 20th, 2020

Semana da Consciência Negra, período do ano no qual se deve pensar um pouco mais no quanto somos negros, no Brasil. Claro que os que perambulam pelos Centros de Compra (diz-se Shoping Center)  em busca de liquidação (agora se diz Black Friday – uma sexta-feira negra), só rapidamente percebe gente de cor nos corredores. Historicamente fomos nos formando assim: vendo o mundo de pessoas brancas com alguns manchas negras e pardas perambulando com seus uniformes que os diferenciam dos não uniformizadas e entre si, de acordo com sua ocupação, sua tarefa, naquele lugar. Os uniformes são visíveis e passam com desenvoltura silenciosa e prestativa. Vez por outra aparece alguém de cor não branca sem uniforme e, dependendo do humor de quem o ver, pode ser parado para um pequeno inquérito que desvende sua presença. Caso seja jovem  e desacompanhado, problemas podem vir à tona, sim, os problemas criados pela nossa formação, como povo e como pessoa. Esta é uma semana para refletir um pouco nesse descompasso.

Meu filho mais jovem, oito anos, veio perguntar-me: Biu, é verdade que maltratavam muito os negros no Brasil? Disse que sim, que os maltratavam bem mais do que hoje; que seu trisavô havia sido escravo, escravizado, pois deve ter nascido alguns anos antes da Lei do Ventre Livre (1871), bem como seu tetravô, que possivelmente nasceu após a Lei Eusébio de Queiroz (1850) que proibia o comércio internacional de escravos. Esses dois antepassados sofreram bem mais que o seu bisavô (José), pois este já nasceu livre, nos primeiros anos da República.

Meu filho vez por outra pergunta, porque alguns de seus irmãos e tios têm a pele mais branca que a dele, a do seu irmão e a minha. São esses segredos da genética que expõem a intensa troca de informações realizadas pelas gerações anteriores e nos fazem um país multicolorido e, também multicultural. Essa troca genética ocorreu mais, e é mais notada, nas regiões de Pindorama que foram ocupadas primeiro pelos europeus, especialmente o português. Afirmar que houve essa troca genética para a criação do brasileiro, não significa dizer que ela foi realizada de maneira consensual, pois o intercâmbio genético tem, como principal fator o homem branco, não a mulher branca, que era em pequena quantidade nos anos iniciais da colonização portuguesa. Somente nos século XIX, com a chegada de uma grande quantidade de emigrantes vindos da Itália, Alemanha, Suíça, Polônia e outros países, que aqui chegaram com suas mulheres e filhos é que ocorreu um aumento substancial das pessoas de pele branca. E eles ficaram isolados em suas colônias, reproduzindo a mesma sociedade vivida na Europa. Foi pequena e pobre a troca genética e cultural. Eram poucos os negros entre eles, e quase sempre em condição de escravidão. O Brasil mestiço, mulato, é encontrado no Recife, em Salvador, São Luiz, e outras cidades do Nordeste, também no Rio de Janeiro e em Minas Gerais, mas sempre em condições periféricas.

A mestiçagem biológica não significou uma adesão à cultura dos índios e dos africanos que foram trazidos para o trabalho escravo. Sempre houve um muro sociocultural que nos separa de alguns ancestrais, os ancestrais dos primeiros habitantes e os ancestrais dos africanos. Durante anos, em nossas escolas, os padres católicos, os pastores protestantes, os legisladores, não cuidaram de nossas ancestralidades, cuidaram de nos mostrar apenas aquela que veio da Europa. Embora sempre houvesse havido pessoas que chamaram atenção à presença e contribuição de índios e negros na nossa formação, é apenas na segunda metade do século que este movimento é fortalecido socialmente. A quebra das cancelas culturais garantidas pelo isolamento geográfico das populações, desanuviaram muitas mentes e corações. As migrações internas, os boias-frias, esses trabalhadores transportados em caminhões para atender os interesses de fazendeiros, foram dando nova visibilidade aos brasileiros mais coloridos, morenos, pardos, cafuzos, negros. Seus costumes, suas tradições passaram a ser estudadas a partir e para eles mesmo, e foi sendo assumida a ideia de que o Brasil tem muitas culturas e muitas tradições que foram submersas pelo projeto de fazer o Brasil, país de uma só cultura e, apesar do que sempre disseram os olhos, tentaram fazer-nos o país de um cor única.

A movimentação geográfica foi acompanhada de movimentos culturais e, os grupos foram surgindo no processo de descolonização interna, ao mesmo tempo que estava sendo realizada da Descolonização da Ásia e da África.

Com processo de Descolonização em andamento tivemos, como consequência, a exposição dos conflitos “invisíveis”, dos choques que existiam mas não eram comentados, apurados. Famoso foi o caso de uma senhora de fina estampa que colocou em colégio para a alta burguesia fluminese, o filho de sua empregada, logo expulso, por ser negro. Uma situação que gerou o primeiro caso de racismo julgado no Brasil, em 1955. Os donos do colégio foram presos, segundo a Lei Afonso Arinos, criada anos antes, que definia o racismo como crime.

O caminho das artes foi uma das rotas seguida para a apresentação das cores e sofrimentos sociais dos coloridos brasileiros. A música, o cinema, o teatro, a poesia, a dança, entre outros, foram espaços sócio-culturiais galgados pelos negros e mestiços brasileiros. Os esportes foram desde o mais antigo passado, uma atividade das elites, mas é o futebol, esporte que foi tomado pelos operários, tornou-se o espaço onde mais brilharam os negros, em uma época de terrenos baldios, próprios para o divertimento dos pobres que aprimoravam o modo de jogar e, em 1958, a seleção de negros, mestiços e brancos derrotou o modo europeu de jogar. São tantos os negros que tornaram o Brasil visível, para si e para o exterior.

E, então, vieram os tempos das conquistas educacionais, a ocupação dos bancos escolares, uma vez que os novos tempos forçaram os donos do poder a colocar escolas na favelas e periferias que o progresso e o enriquecimento de alguns. Sim, no início do século XX tivemos um presidente negro, mas o poder não está na presidência, está no Parlamento; este é um espaço que deve ser conquistado pelos brasileiros de todas as cores. Temos alguns deputados e vereadores negros, mas alguns deles ainda pensam como se o país fosse de apenas uma tradição, aquela que foi apontada pelos primeiros criadores da história do Brasil, uma história da tradição branca, como a proclamada por um cidadão “preto de alma branca” que foi posto na presidência da Fundação Palmares.

Quando olho para meus filhos e netos coloridos, meus sobrinhos brancos mestiços, penso que não desejo um Brasil Preto no Branco, nem Branco no Preto; tampouco desejo um Brasil bicolor, pois isso é falso, é um “brasil/colônia”. Desejo um Brasil ecumênico nas suas cores, nos seus ritmos, nas suas danças, nos seus sotaques, nos seus deuses. Desejo um Brasil conciliado com suas tradições, com a consciência de que é negro, que é branco, que é índio e que é muito mais e maior do que esse triângulo básico indica. E para isso é necessário, mais que lembrar o passado de sofrimento, afirmar que neste passado sofrido, os nossos ancestrais negros foram criadores de uma nação que ainda não tem consciência de sua beleza.  

Tiradentes, civismo, Covid 19

terça-feira, abril 21st, 2020

Esta é uma data muito interessante: 21 de abril, definida como feriado nacional, em homenagem à memória de José Joaquim da Silva Xavier, mais conhecido entre os brasileiros como Tiradentes. Este personagem é apresentado como símbolo e comportamento a ser seguido pelos cidadãos brasileiros. Tiradentes participou de uma tentativa de revolta contra a dominação de Portugal no Brasil, ocorrida nas Minas Gerais, terminada em 1789. A tentativa de revolta foi frustrada porque participantes da conspiração, em busca de vantagens pessoais,  procuraram o Governador das Gerais e denunciaram o que era propensão de ser feito. Assim foi frustrada a chamada Inconfidência Mineira. O título mostra que os envolvidos na conspiração foram vistos como pessoas que não mereceram a confiança do Império português. Eram muitos participantes dos grupos da elite local e dos intermediários: padres, advogados, funcionários do Estado, militares, comerciantes,  donos de lavras de ouro, conforme pode ser comprovado na leitura dos documentos que formam a devassa. Entretanto apenas o alfares, que antes havia sido tropeiro, que exercia a função de barbeiro e também exercia a função de arrancar dentes, recebeu a pena de morte como castigo, uma morte que deveria servir de exemplo para evitar novas tentativas de rebelião. Os demais conseguiram, se não o perdão pela inconfidência, a exclusão da morte por traição. Uns foram exilados para as colônias africanas, outros pagaram em dinheiro o direito de manter a sua vida, pois todos solicitaram perdão à piedosa e clemente rainha Dona Maria I que, clemente e piedosamente, definiu a execução de Tiradentes, o desmembramento e exposição dos pedaços do seu corpo ao longo da estrada que liga o Rio de Janeiro a Minas Gerais, em abril de 1789.

O desconhecido alferes, pequeno comerciante sem sucesso, parece ter sido leitor da Constituição dos Estados Unidos da América e propagador, pelos lugares onde passava, das ideias de liberdade aprendidas com a experiência bem sucedida de Jefferson, Washington e outros fazendeiros e comerciantes.

O cultivo da imagem de Tiradentes foi crescendo ao longo do Império governado por Pedro II e, principalmente na República, tempo em que o exército passou a ser um dos principais protagonistas da história do Brasil. Evidente que foi durante a ditadura civil-militar iniciada em 1964 que o culto a Tiradentes cresceu sobremaneira, e sua imagem chegou a ser deformada de modo a parecer com a tradicional imagem de Jesus Cristo.

Mas me tornei admirador de Tiradentes antes de 1964, pois fui apresentado a ele na escola primária e secundária, antes dos meus quatorze anos. Os primeiros anos escolares são fundamentais para a formação do espírito cívico, pois quando vem a adolescência já é tempo de contestação à autoridade de maneira geral. Mas creio que o esforço de tornar Tiradentes uma figura sem defeito, o que ocorreu durante os governos ditatoriais, criou um sentimento de aversão ao civismo e seus símbolos. É que se mostrava o herói tão a favor do status quo que se esquecia que ele foi herói exatamente por não aceitar o status quo.  Quanto mais se impunha o civismo obtuso dos coronéis nas escolas, desde a pré- escola até a pós- graduação, mais afastaram as gerações desse sentimento tão necessário à vida social. Uma parte dos jovens se afastava desse falso civismo por desconfiar de tudo que vinha dos ditadores, e outra parte, não aprendeu ser cívica, por que aceitava, de maneira superficial, o civismo que lhes era pedido: uma obediência bovina, laudatória e não crítica. Perdeu-se o sentido do civismo, pois, a muitos pareceu que o civismo era o servilismo ao poder militar. Naquele período da ditadura os símbolos nacionais foram apropriados pelo que havia de mais triste em nossa sociedade: a Bandeira, o Hino Nacional pareciam ser apenas daqueles que cantavam “prá frente Brasil, salve a seleção” , ou dos que possuíam carro para colocar o adesivo “Brasil: ame-o ou deixe-o”. Fugia-se das aulas de Moral e Cívica mais do que das aulas de religião. Aliás, foram as aulas de religião que, em grande parte, salvaram um bom número de estudantes do falso civismo imposto pelos militares. Durante a ditadura aquelas aulas foram antídotos ao vírus da subserviência, hoje alguns professores a querem como catecismo, e os catecismos emburrecem. Essa disposição  de rejeição ao civismo, parece acontecer agora, quando muitos jovens recusam o Verde Amarelo, pois ele foi apropriado pelos que confundem o Brasil com os limites de suas fazendas, dos seus carros e clubes sociais, esses que se irritam quando encontram algum outsider nos aeroportos e navios de recreio. Foi nesse percurso que Tiradentes foi perdendo o charme e encanto, tornando-se um feriado, um dia para não ir à escola, não ir ao trabalho e passear na praia.

Neste ano, o feriado de Tiradentes  será passado, por muitos em suas casas. Os brasileiros mais pobres, os que moram em barracos, terão que ir para fora logo que acordarem, pois neles não cabem tanta gente em movimento simultaneamente. Podemos aproveitar a oportunidade para pensar sobre o significado cívico desse distanciamento social exigido para diminuir o número de brasileiros mortos pelo Covid 19.

Foi por todos os brasileiros que José Joaquim da Silva Xavier assumiu a responsabilidade da fracassada Inconfidência Mineira (assim ensinam os livros didáticos, mas eu sempre prefiro usar Conjuração Mineira) enquanto os engravatados juntavam parte de suas fortunas para comprar o perdão do Estado que os exploravam, fortuna que acumularam explorando os demais habitantes das Gerais.  

15 de janeiro

quinta-feira, janeiro 15th, 2015

Enquanto almoçava hoje, o noticiário lembrou-me que o 15 de janeiro deveria ser mais lembrado por mim e por maoir número de pessoas. Nem sempre nos apercebemos, em nossas vidas, momentos de grave importância para nós e para nossa comunidade. Eventos que hoje são chamados, comumente, de ‘históricos’ não passam de curiosidades, ou talvez mesmo sejam históricos para os pequenos grupos por eles atingidos diretamente. Afinal de contas, a história é também dos pequenos acontecimentos de nossa vida comum. Entretanto, há acontecimentos que são preparados coletivamente, por grupos maiores e atingem milhares de existências, de imediato, e milhões de outras ao longo do tempo que se segue. Por isso, durante a tarde de hoje fiquei pensando sobre o que ocorreu no dia 15 de janeiro de 1985.

Naquela terça feira, estávamos todos – Tereza, Ângelo, Valéria e Tâmisa – na casa dos pais de Tereza – Paulo Ramos e Francis Noronha, em Olinda. Havia uma expectativa para o que estava ocorrendo no Brasil naquele dia, pois o Colégio Eleitoral – Congresso Nacional e mais alguns elementos postos pela ditadura, iria realizar a eleição indireta para a Presidência da República. Havia poucos meses ocorreu a grande decepção da rejeição da Proposta de Emenda Constitucional garantindo o retorno das eleições diretas para o cargo máximo da nação. Embora já houvéssemos ganho a anistia, a transição longa, planejada pelo ditador Geisel e seguida pelo seu sucessor Figueiredo, parecia não querer que o povo participasse da escolha de seus líderes. Durante aquele eleição que derrotou o movimento das Diretas Já, atemorizados, os sequazes da ditadura colocaram o exército na rua, o que parece ter sido a senha para que os deputados derrotassem o movimento do povo na rua. Desde então os fatos sucederam-se, o partido do governo cindiu-se e havia a possibilidade de vitória em um colégio que já havia derrotado as candidaturas de Ulisses Guimarães/Barbosa Lima Sobrinho -1974, Euler Bentes Monteiro/Paulo Bronsard -1978. Naquele ano o Tribunal Eleitoral suspendeu a fidelidade partidária e, embora se temesse o temor dos deputados, havia uma possibilidade de vitória.

Estávamos, Tereza e Eu, ansiosos e esperançosos. As crianças, além dos meus filhos havia Bárbara, Andréa (filhas de Ângela) e  gritavam nas salas aliviados quando os votos eram contra Paulo Maluf, candidato da ditadura; mas felizes com os votos que gritavam Tancredo Neves. O deputado João Cunha, PMDB –SP deu o 344º voto para Tancredo Neves.   Tereza e eu nos abraçamos em lágrimas e nos juntamos ao barulho das crianças e de todo o Brasil. Havíamos ido, “de nariz tapado” ao colégio eleitoral, como dissera Tancredo Neves, mas vencemos os ditadores, apesar de escrupulosos puristas de um partido recém-criado ter-se retirado do plenário para não validar a eleição. A alegria daquele dia foi enorme, mas que foi surpreendida pela doença e morte de Tancredo antes da posse. Assim, no dia 21 de abril do mesmo ano, Tereza, as crianças e eu. Chorávamos em nossa casa, que estão começávamos a construir e onde estou agora, a morte de Tancredo Neves e mantivemos a esperança, mesmo sob a presidência de Sarney, um eterno acólito da ditadura.

Talvez de nada sirvam essas lembranças, mas, eu e os que vivemos conscientemente aquela terça feira, já sabíamos que estávamos vivendo um dia que modificava a o sentir dos brasileiros de então, nós estávamos orgulhosos de que havíamos construído e, no fundo de nossa alma, sabíamos que estávamos comprometendo e nos comprometendo com o futuro e, ao mesmo tempo, sabíamos que não tínhamos certeza do que viria. Mas já são trinta anos que temos realizados eleições diretas, que estamos fortalecendo nossas instituições, que estamos criando um Brasil novo, que começou a muito tempo, não a uma décadas como dizem uns aloprados; um Brasil que vem crescendo a cada ano, vencendo as dificuldades que sempre colocam à sua frente aqueles que, unindo-se a novos súditos enriquecidos com novas modalidades de velhas praticas, pretendem ainda nos manter nas periferias da História, repetindo os atos de vandalismo ao patrimônio republicano que estamos construindo. 15 de janeiro de 1985 foi criação da gente brasileira que forçou as lideranças encontrarem um meio de superar o pedaço da história que alguns iniciaram em 1984.

 

Biu Vicente