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A Romaria de Francisco I, com a proteção do Padre Cícero

domingo, julho 21st, 2013

 

Três dias após o septuagésimo nono aniversário da morte do Padre Cícero Romão Batista, o Padim Ciço, ocorrida em Juazeiro do Norte, no Ceará, o papa Francisco I chega para passa alguns dias na companhia de milhares de jovens de todo o mundo. É uma grande Romaria, uma prática dos católicos, uma visita penitencial e de louvor ao centro do cristianismo católico, por isso dito romano. Nesta próxima semana, o Rio de Janeiro será Roma. A cidade de Deus no meio da cidade dos homens, sendo parte dela, indicando que aquela é bem maior que esta. Os simbolismos deixam claro. Esta, a cidade dos homens, preocupa-se principalmente com a segurança, com o temor de manifestações dos vândalos que venham a por em risco a beleza do evento daquela outra Roma, cujo líder não quer usar o papa-móvel, pois quer ficar mais próximo do povo, dos muitos romeiros que acorreram a vê-lo de perto e viver a experiência de estar juntos.

No ano de 1889 ocorreu na capela de Nossa Senhora das Dores do Joazeiro algo extraordinário: a hóstia recebida por Maria de Araújo virou sangue em sua boca. Maria de Araújo era uma beata nos moldes pensado pelo Padre Mestre Ibiapina.  O acontecimento repetiu-se por vários dias, chamando atenção das gentes que afluíram ao local. Joazeiro poderia tornar-se uma Nova Roma? Temoroso, o arcebispo de Fortaleza veio a  proibir o padre Cicero de celebrar publicamente. O padre do sertão resolve ir a Roma conversar com o papa. Os curiais impedem que tal encontro ocorra e o padre Cícero, obediente ao seu superior nunca mais celebrou publicamente, e seguiu a cumprir uma das obrigações presbiterais apenas com a presença de um acolito. Este tipo de celebração é quase o oposto do que significa a Missa: o encontro daqueles que celebram o amor de Cristo, e só em casos especiais, como  de doença   ou viagem, deve ocorrer. Enquanto celebrava em sua capela individualmente, o povo acorria para a Igreja de Nossa Senhora das dores e, após a missa ia conversar com o Padim Ciço, na varanda de sua casa.

Nesta semana alguns dos devotos do Padim Ciço estarão fazendo parte da imensa multidão que seguirá de perto os passos de Francisco I em sua primeira visita ao Brasil. Milhões de outros devotos do Padim Ciço estarão fazendo sua romaria espiritualmente, unidas ao bispo de Roma e papai de todos os católicos.

Por escolha pessoal, Francisco I deixará por algum tempo o Rio de Janeiro e irá ao Santuário de Nossa Senhora Aparecida, outro local de romaria do povo católico do Brasil. Naquele lugar, a devoção de pescadores e suas mulheres foram os primeiros construtores do catolicismo na região, um catolicismo leigo e reverente aos ensinamentos que saem de Roma.

Ao longo do século XX a Igreja Católica no Brasil esteve muito próxima do poder e dos poderosos. Muitos sacerdotes dedicaram-se à política partidária: alguns foram deputados e acreditavam que aquele era o jeito de ser padre, colaborando com as autoridades e, às vezes, confundindo-se com elas, misturando as coisas de Deus com as coisas de César. Confundiram a Cidade de Deus com a Cidade dos Homens, quiseram antecipar a Parusia. Esqueceram que quando o Vândalos invadiram Roma e São Jerônimo lamentou a destruição da cidade, Santo Agostinho escreveu o livro para dizer que são cidades diferentes, são projetos diferentes com uma, a Cidade de Deus, devendo viver na cidade dos homens e leva-los, à cidade de Deus.

Que o Papa Francisco I fique bem no Brasil e nos ajude a escapar das práticas corruptas que infelicitam os brasileiros e o Povo de Deus.   Com as bênçãos de Deus e a proteção do meu Padinho Cíço.

A pressa da mudança

terça-feira, abril 23rd, 2013

Seis horas da manhã. Salvas de fogos anunciam, em lugar do galo, que a manhã chegou brilhante. Não acontece todos os dias, mas alguns dias recebem tratamento especial pois fazem parte da enorme tradição religiosa que acompanha a humanidade desde seu início. Vinte e três de abril, além de ser o dia do nascimento de minha neta Tereza, marca, também o choque entre os sentimentos de afeição de temor, alumbramento, submissão amorosa às forças da natureza e a racionalidade do mundo moderno que a tudo analisa e procura entender objetivamente. O que não pode ser explicado pela razão não pode existir é a afirmação que se contrapõe à necessidade de se crer primeiro para então chegar ao conhecimento.

Os da minha idade, nascidos nos anos seguintes à guerra Segunda do século XX, cresceram quando os usos dos objetos diminuíam rapidamente a dependência que os humanos sempre tiveram da natureza e, cada vez mais tornavam-se senhores dos segredos da vida, desde as visíveis até às invisíveis. Há mais coisa entre o céu e a terra que não se vê e, portanto não as podes compreender com a tua vã filosofia, dissera um poeta no início do mundo moderno e racional que ele intuía. É certo que o mundo do poeta ainda estava carregado da sacralidade cultivada desde os tempos mais antigos. Desde então mundo vem sendo compreendido de maneira mais ampla que a dualidade que sempre orientou as relações dos seres humanos com o meio que de seu pertencimento. Desde o tempo do poeta, os homens vem se tornando estranhos em seu lar. É isso que me sugere os fogos em homenagem a São Jorge, santo de devoção de muitos povos  gerados no pensamento religioso cristão que ensinava ser a crença o pressuposto da existência. Mesmo alguns dos povos que inventaram o mundo que dá primazia à experiência para se alcançar o conhecimento, mantiveram a  tradição de cultuar o herói que em seu cavalo salvou populações de males terríveis. Outros povos que vieram a tropeçar ou serem tropeçados pelos europeus, atualizaram as suas tradições e o guerreiro matador de dragões passou a ser o defensor pessoal contra as forças que irrompem nos mais profundos recônditos lugares.

Os fogos que me acordaram esta manhã, lembram-me que,  no afã de aggiornar-se ao mundo das técnicas racionais, o catolicismo romano, nos anos imediatamente após o Concílio Vaticano II, definiu que Jorge não mais poderia estar nos altares. Ele e muitos outros. A razão parecia ter chegado aos altares por caminhos diferentes daquele imaginado na França dos Robespierre e Danton. Os de minha geração, no Brasil, podiam fazer o paralelo entre a ação dos militares que chegaram ao poder no golpe de sessenta e quatro em cassar os direitos políticos de muitos  brasileiros com a racionalidade melancólica de Paulo VI retirando dos altares os santos cuja existência não puderam ser provadas cientificamente pela pesquisa histórica. Os batuques que hoje serão ouvidos em muitos lugares da América Católica parece nos indicar que o saudável desejo de teólogos e líderes católicos em aproximar-se do mundo moderno, em alguns aspectos foi realizado com muita sofreguidão e, em alguns casos, como um serviçal desatento, jogaram a água suja, sem perceber que a criança ainda estava na bacia.

Quando se apressa muito o caminhão da mudança corre-se o risco de esquecer no lugar de onde se sai algo muito querido. A perda provocada por esse esquecimento pode ser irreversível. Mas na parede da memória o perdido ficará, nos lembra outro poeta.

A força da renúncia – artigo de K. serbin

domingo, fevereiro 17th, 2013

O Artigo de Kenneth Serbin , publicado no estadão.com.br ontem, foge das menoridades políticas dos que buscam celebrar o poder.

A força da renúncia

 

16 de fevereiro de 2013

 

Kenneth Serbin

Indubitavelmente, o papa Bento XVI será mais lembrado pela história não por alguma realização particular ou falta dela durante seu pontificado, mas pela corajosa e humilde decisão de tornar-se o primeiro chefe da Igreja Católica a abdicar em sete séculos, e apenas o quinto em 2 mil anos de catolicismo.

 

Stefano Rellandini/Reuters

Anel de pescador. Ele reconhece que é humano num tempo em que se discute aborto e eutanásia

Não podemos deixar de nos comover diante de Bento XVI, hoje com 85 anos, que reconhece não ter mais suficiente “força da mente e do corpo” e se sente incapaz “de cumprir adequadamente o ministério” que lhe foi confiado.

Em um mundo em que muitos governos e instituições são dirigidos por idosos que não pretendem abrir mão do poder, Bento XVI deixa voluntariamente o leme da Igreja – o maior símbolo do domínio masculino – para ir viver num palácio que até agor tem sido um convento de clausura.

Na atual cultura global da juventude que anciãos procuram de todos os modos preservar por meio de cirurgias plásticas e implantes de cabelo, Bento XVI afirma que não há mal em envelhecer.

Muitas pessoas resistem a abrir mão de liberdades como a experiência prazerosa e poderosa de dirigir um carro depois de certa idade, até que um filho, preocupado com a segurança, lhes tire as chaves ou requeira judicialmente que o pai, ou a mãe, seja declarado incapaz.

Bento devolveu as chaves por espontânea vontade, poupando os outros de situações difíceis, embaraçosas, até mesmo perigosas.

Em vez de dar ao mundo o espetáculo de um papa que luta para manter as rédeas do poder escondido nos aposentos de seu palácio, Bento XVI poderá dar ao mundo a imagem de um papa retirado, hospitalizado ou hospedado num local que pode se tornar efetivamente uma casa de repouso.

Se ele vier a sofrer, ou se já sofre, do mal de Alzheimer ou de outra doença neurodegenerativa, em lugar de ficar escondido atrás da burocracia vaticana, nervosa com a transição do poder e da imagem da Igreja, sua enfermidade será dada a conhecer ao mundo. (João Paulo II sofria do mal de Parkinson e defendeu o aprofundamento da pesquisa na busca de um tratamento.)

A renúncia de Bento XVI testemunha o envelhecimento e a mortalidade do homem. Ela ocorre em um momento em que a Igreja hierárquica, os fiéis católicos e a sociedade em geral lutam com todas as forças com outras questões de vida e morte, como o controle da natalidade, o aborto, a pesquisa com células-tronco e a eutanásia.

Bento XVI sustentou os ensinamentos da Igreja sobre esses temas, mas também pertence a uma geração de pensadores da Igreja confrontada com o desafio de formular um sistema de bioética católica a fim de conciliar as sempre crescentes promessas e os perigos da era da biotecnologia.

Assim, o testemunho de Bento sobre o envelhecimento poderá ajudar a Igreja a seguir em frente com uma bioética cuidadosamente concebida e equilibrada.

Abrindo repentinamente a Igreja à escolha de um novo papa, Bento XVI cria espaço para novas ideias que podem penetrar em sua bioética.

Se um papa consegue, humildemente, renunciar, talvez a Igreja possa, humildemente, admitir a necessidade de uma maior flexibilidade em sua ética.

O papa João XXIII, homem simples de origem camponesa, não esperava causar sensação, mas também surpreendeu o mundo, em 1959, com a convocação do Concílio Vaticano II, que tomou lugar de 1962 a 1965. Em junho se completarão os 50 anos da morte de João XXIII.

O Vaticano II trouxe a Igreja para a modernidade com a realização das reformas mais profundas da história do catolicismo. Entre elas, o início do diálogo com outras religiões e credos políticos antagônicos, como o marxismo.

O Vaticano II reagiu a uma grave sensação de mal-estar na Igreja nos anos 1950, causada pela censura a ideias inovadoras e uma dependência exagerada da tradição e do autoritarismo eclesial, um ambiente não muito diferente daquele provocado pelos padres, bispos e até cardeais hoje envolvidos com o escândalo dos abusos sexuais.

No final da década de 1960, impulsionada pela energia do Vaticano II, a Igreja pareceu prestes a se recuperar.

Como todos sabem, Bento XVI trabalhou intensamente para frear e até mesmo inverter as tendências desencadeadas pelo Vaticano II.

Entretanto, ao contrário dos anos 1960, quando tantas coisas pareciam possíveis para a Igreja, hoje a instituição sofre de uma crise de credibilidade.

Os católicos liberais recomeçaram a insistir para que a Igreja convoque um Vaticano III a fim de tratar de questões como o escândalo dos abusos sexuais e a ordenação de mulheres. Continua sem solução a do celibato obrigatório, a ordenação de padres casados e a hipocrisia a respeito da homossexualidade numa instituição com um grande número de padres gays.

Um Vaticano III seria praticamente impossível durante o papado de Bento XVI. Entretanto, sua saída radical agora torna um concílio possível. Não importa se o novo papa será outro conservador, porque a renúncia de Bento XVI, com o fato de ele ter testemunhado o envelhecimento, assinalou para os líderes da Igreja que ela pode e deve explorar novos caminhos, novas formas de ação.

A bioética poderá tornar-se o tema fundamental do Vaticano III. Assim como nos anos 1960 a Igreja clamou pela paz e pela justiça social, hoje, ela poderá assumir um novo e revigorante papel de liderança ajudando o mundo a adaptar-se aos desafios do genoma, do meio ambiente, de novas formas de relacionamento humano e do imenso ônus da assistência criado pela capacidade da ciência e da medicina de prolongar a vida do corpo, mas não ainda a da mente.

Em sua longa e muitas vezes sábia história, a Igreja evoluiu de maneira gradativa e deliberada. Agora, ela poderá começar a abraçar o mundo pós-moderno.

* KENNETH SERBIN É DIRETOR DO DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA DA UNIVERSIDADE DE SAN DIEGO E AUTOR DE PADRES, CELIBATO E CONFLITO SOCIAL: UMA HISTÓRIA DA IGREJA CATÓLICA NO BRASIL (COMPANHIA DAS LETRAS)

 

Bento XVI anuncia a renúncia

segunda-feira, fevereiro 11th, 2013

 

Segunda feira de carnaval, a dois dias iniciar o Tempo da Quaresma, vem do Vaticano a notícia de que o Papa Bento XVI anuncia a renúncia ao cargo de Pontífice Maximo  do mundo católico. Uma surpresa para quase todos, exceto para os que leram com mais atenção os seus escrito, especialmente as suas memórias de si mesmo.  Ali escreveu   as lembranças possíveis até a sua escolha para o episcopado. A pena deixa passar uma passos que se entrega à vontade de Deus nas mais diversas ocasiões, situações perigosas em uma sociedade que ajudava a crescer a interpretação  e criação do mundo nazista. De várias maneiras foi tocado pelo estado totalitário, desde a sua primeira juventude, obrigado a pertencer a “juventude” reconhecida oficialmente. Mas parece que não perdeu a direção que lhe apontara a formação católica que lhe dirigia para o sacerdócio. Seus estudos foram tocados pela guerra, seminário dissolvido e retomado após o armistício. O sacerdócio estava ligado ao magistério teológico e ao Concílio Vaticano II. Conta, em sua memória as disputas teológicas que teve com colegas seus e, nessas lembranças não aparecem laivos de maldade, inveja ou orgulho.

No Brasil e na América Latina ele será lembrado como o “buldog de Deus” por razão do debate em torno da  Teologia da Libertação, especialmente por conta da censura do livro Cristo Libertador, resultante da tese doutoral do então Frei Leonardo Boff. A tese, aprovada academicamente sofreu restrições por expressar alguns conceitos ligados ao Velho Católicos Alemães, algumas proposições que receberam restrições no Concílio Vaticano I. A principal crítica não era, ainda a respeito da uso maior da sociologia de vertente marxista. Críticas semelhantes foram feitas ao criador da Teologia da Libertação Gustavo Gutierrez que também foi chamado pela Sagrada Congregação de Defesa da Fé. Gustavo foi, explicou-se e ainda hoje mantém suas atividades sacerdotais e de animação, como os Cursos de Verão.

Antes de Bento XVI renunciaram o papado Ponciano, no início do século IV, pois preso em 325, foi posto exilado nas minas da Sardenha; no século  XIII, Pedro Celestino, que vivia em reclusão voluntária e solitária foi escolhido para assumir a Cátedra Petrina por sua santidade de vida, mas viu-se obrigado a renunciar e voltar à reclusão; no século XV foi o papa Gregório XV, eleito octogenário durante crise de papado (havia três papas simultaneamente) e sua renúncia  promoveu a reunificação do papado.

A renúncia a um cargo nos dias de hoje, quando as mais diversas autoridades, presidentes, chefe de condomínios, chefes de departamentos, vereadores, e quejandos, agarram-se ao cargo de maneira, às vezes vergonhosa, surpreende que alguém reconheça que já é velho e doente o suficiente para deixar o cargo para outro. Discutia-se muito se o antecessor imediato de Bento XVI renunciaria, até mesmo foram feitas apostas em casas especializadas. Mas ele não renunciou.  Bento XVI sabe os limites da humanidade,  ensina a viver a saída da vida sem traumas, dramas, emocionalismo sedutores.

Alguns pensamentos sobre minha mãe

quarta-feira, setembro 5th, 2012

Alguns pensamentos sobre minha mãe

Severino Vicente da Silva

 

Estou na sala de velório, ao lado do corpo de minha mãe. É uma situação semelhante à que vivi quando da morte de meu pai, pois então fiquei toda a noite em silêncio, esperando que chegasse a madrugada e, com o sol, viesse a minha mãe para preparar o corpo para a sepultura. Hoje não espero a minha mãe. Ela nunca mais virá com seus passos miúdos e jeito silencioso enquanto organizava o mundo ao seu redor. Ela sempre foi assim. Sua irmã Beatriz uma vez disse-me isso. Das filhas de Severino Cota e Alexandrina, foi a única que frequentou pouco tempo os bancos escolares.

Nascida em fevereiro de 1923, Maria Ferreira casou com João Vicente aos 16 anos e concebeu onze filhos. Apenas sete vingaram e cresceram. Formavam uma escada a cada dois anos, Josefa Maria, José Vicente, Maria José, Severino Vicente, Terezinha de Jesus, Antonio Vicente e, depois de muito tempo Jorge Cláudio. Apenas Jorge Cláudio nasceu em maternidade, todos os demais partos foram em casa, assistidos por parteiras. Maria cuidava da casa, dos filhos, do marido e ajudava na venda. Quando o marido ficou muito doente, cortando o solo na seca de 1952, ficou internado no hospital Pedro II, Maria ficou com as crianças e o comércio do marido na propriedade Boa Esperança, em Eixo Grande, na beira do Rio Capibaribe. Foi nesse tempo que o marido decidiu que os seus filhos não ficariam presos na terra e no cabo da enxada. Retirou-se com a família para Casa Amarela, no Recife, mais exatamente no lugar Nova Descoberta. Era o ano 1954. E era mais uma família migrante na Zona Norte do Recife.

João manteve o comércio e cuidava de criar os filhos. Maria cuidava da casa, do marido e ajudava na venda. Teve tempo para ajudar os padres Severino Santiago,  Paulo Crespo e Inácio Vieira a organizar a comunidade católica na Capela Santa Terezinha. Animava a comunidade quando acontecia as Santas Missões, pregadas pelos padres Redentoristas, em 1956.  Ajudou na construção da Igreja Matriz, fundou o Apostolado da Oração. Seus filhos estudavam, ajudavam nas missas, organizavam a Cruzada Eucarística e a Legião de Maria. Maria cuidava da casa, do Apostolado da Oração, animava a Conferência de São Vicente de Paula e viu ser criada a Paróquia Nossa Senhora de Lourdes de Nova Descoberta,no ano de 1959, e ajudava o marido na venda. Era última a ir dormir, mas às cinco horas da manhã começava o lenga-lenga para a criançada acordar e ir para a escola. Nunca faltou roupa limpa, nunca faltou a refeição no horário. Os filhos mais velhos foram matriculados em colégios particulares.

Maria Ficou contente quando seu filho Severino disse que queria ser padre. Toda semana preparava uma lata de doce de bata doce e levava para o filho no seminário da Várzea. Um dia o filho disse que ia sair do seminário. Maria ficou triste, mas jamais desencorajou o filho. Quando o marido exigia muitos dos filhos, ela dava um jeito de diminuir a dor deles. Mas o seu carinho não era derramado e pegajoso. Um carinho nas roupas da escola, as do cotidiano e aquelas usadas nos desfiles de gala nos dias Sete de Setembro ou nos desfiles dos jogos escolares que aconteciam no campo do Sport Club.  Era um carinho sério que era transmitido pelo trabalho diário, nem sempre compreendido pelos filhos e filhas. Sofreu silenciosa as dores causadas pelo orgulho dos filhos e filhas. Não me recordo de ouvir sua voz levantada contra o marido nem sempre carinhoso, mas sempre dedicado à família. João e Maria foram um casal da tradição e da parcimônia, da bondade, da seriedade.

Não deve ter sido fácil atravessar o século XX, mas a bagagem de caráter e a entrega irrestrita à vontade de Deus deu condições a Maria Ferreira ensinar seus filhos e filhas, aos netos e netas, o caminho da retidão, do respeito, do amor. Às vezes as encruzilhadas da vida não deixam que as lições sejam aprendidas pela arrogância da juventude ou pelo luzir dos entretenimentos. Quantas foram as provas que a vida pediu a esta mulher! Uma vez, lembro-me, menino de 12 anos, no Seminário da Várzea preparei um presente para ela, no dia das mães.  Comprei um livro, A Imitação de Cristo, fiz uma capa e entreguei. Nunca soube se leu, pois apenas sabia assinar o nome. Mas recebeu o presente com um riso e um abraço. Ela era muito econômica nos abraços. Mas ainda me lembro de minha insensibilidade em não notar seu limite na leitura e da sua sensibilidade em não me deixar perceber minha gafe. Quando ela já estava com sessenta anos começou a frequentar uma escola noturna. Algumas vezes a surpreendi com o lápis e caderno. Aprendeu muito, nos últimos anos cuidou de tudo com o seu tirocínio e fé inabalável no poder de Deus. Nenhum de seus filhos e filhas ouviu desespero quando a traquinagem de José Vicente, temeroso do castigo do pai fugiu de casa. João saiu pela cidade como um louco, eu o acompanhei a rádios e a muitas igrejas para promessas. José voltou e aconteceu a primeira grande festa da família, alem do São João, suas pamonhas e canjicas. Ah! Mamãe fez pamonha para a família até o último ano de sua vida. E as buchadas, os torresmos de galinha, os pés de moleque na folha de bananeira, os doces de coco com mamão, o café torrado no tachado e batido no pilão de assento. A comida que ela preparava tinha o sabor do céu, e gostava quando a casa estava cheia. Mas era o gostar silencioso, como o de Maria, a mãe de Jesus. Mamãe tinha o coração de Maria, pois tudo guardava no silêncio do seu coração.

Mulher disciplinada, sempre cuidou de sua saúde e da de muitos. Meu tio Abdias, figura difícil quando bebia – bebia muito – chegou em casa doente para ficar um tempo. Ficou muitos anos, tanto tempo dando todo tipo de trabalho, nunca saiu, exceto para morrer, e mamãe o preparou para a sepultura. No mesmo hospital Evangélico onde cuidou do corpo de sua mãe, Vó Xandina, a avó que tinha um riso manso, um colo doce da minha infância em Serraria. Mamãe também cuidou da sua sogra, a minha Vó Florinda. Cuidou de sua irmã Juliana que a gente chamava de Julinha e de seu irmão Sérgio Cota. E tinha um apreço especial pelo cuidado dos enfermos na paróquia. Todos os anos havia uma festa na igreja porque os doentes eram levados lá, os doentes que ela visitava com o viático.

E depois de crescer os filhos, também cuidou para que sua filha mais velha pudesse trabalhar e estudar com tranquilidade, pois dona Maria ficava com os netos e netas em crescimento. A casa que criara os filhos continuava a sua função de casa-mãe, lugar de permanente  recriação de vida. A casa 1420 da Rua Nova Descoberta esteve sempre aberta para as novidades, com a aprovação sem alardes. Acompanhou seus filhos na aventura da criação do Conselho de Moradores de Nova Descoberta; recebeu estudantes de teologia vindos dos Estados Unidos, do Rio Grande do Sul, e do Rio Grande do Norte. Mamãe, mulher de silêncio, suportou a aventura de um conjunto de rock and roll, juntamente com o esposo, para o crescimento do filho. E como ficou desolada e temerosa quando o filho José entrou para a Marinha de Guerra e foi conhecer o mundo. E que alegria os almoços festivos dos retornos, como a feijoada que me recebeu após um ano nos Estados Unidos da América do Norte. E a alma da casa 1420 sofreu com a prisão do filho durante a ditadura militar, mas fortaleceu-se com o apoio que recebeu da comunidade que salvou os livros do filho. Apresentou diante das poderosas autoridades a mesma fortaleza com que defendeu o seu direito de voto quando enfrentou o marido autoritário que quis lhe impor a vontade. Dona Maria Ferreira sempre cuidou de não se deixar intimidar, nem mesmo quando uma certa “doutora” quis envergonhar seu filho. Ela cuidou de pôr a suposta aristocrata no seu lugar, ou seja, no lugar de respeito a Dona Maria Ferreira, que, com um pequeno comentário expôs a pouca sabedoria da douta senhora. Dona Maria, mulher religiosa, que recebeu Dom Hélder Câmara várias vezes em sua casa, jamais disso fez sua glória, mas sempre cuidou de todos com o mesmo respeito. Em sua casa também almoçou Dom Antonio Saburido.  Seu exemplo de vida e hospitalidade deve ser doloroso para os que se julgam melhor por terem sapatos mais finos, embora seus corações sejam duros como pedras impermeáveis para o amor.

Muitas mulheres viveram as mesmas angústias de Mamãe, mulher nascida na Zona da Mata e que soube atravessar as grandes mudanças do século conflituoso e mudanças tantas que filósofos não conseguem acompanhar e se deixam cair dos andaimes de seus pressupostos e à  mudanças mais radicais nos costumes. Olho para o seu corpo inerte e lembro da noite em que me procurou para conversar sobre os modos de minhas irmãs, pois não sabia como fazer para comunicar-se com elas. Mas teve outro momento, ela que não ia a festas, incentivava-me a levar as meninas para bailes, uma vez que o irmão mais velho não o faria. Mas esses eram movimentos tão sutis que quase nunca eram compreendidos pelos filhos. Como seu marido, dona Maria Ferreira conviveu com as diferenças mais improváveis, tolerando-as, aceitando-as. Sem discursos ideológicos, sem militâncias ostensivas abriu veredas diversas para seus filhos, e jamais cedeu no essencial, no respeito a cada um como Filho de Deus, como ser humano. A prática da caridade, quase sempre tangível na entrega de alimentos, roupas ou outros objetos, era mais que isso: era a caridade da visita, da preocupação com outro, de atender o pedido que não foi solicitado e, mais que tudo, jamais incomodar o outro com os seus problemas pessoais.   Que força tinha essa mulher para aceitar mudanças de credos religiosos e políticos, no seio de sua família, sem que seu amor diminuísse! Como diz boa doutrina católica, só não é aceito aquele que não quer ser aceito na gratuidade, só não recebe o perdão aquele que exige condições para o amor. Como mulher religiosa e da boa doutrina católica, Dona Maria Ferreira era o sopro do Divino Espírito Santo

A morte do marido tornou explícito o espírito de uma mulher empreendedora. Continuou mantendo a família que crescia. Diminuiu suas atividades  após o atropelamento que sofreu uma noite quando estava a caminho da igreja. Suas pernas começaram a ceder e ela perdeu a sua autonomia de sair sozinha. Comprou um carro para a filha, assim realizava dois sonhos: o seu e o da filha. Também cumpriu alguns desejos, como conhecer o Santuário de Nossa Senhora Aparecida.

Este texto não é a biografia de Maria Ferreira da Silva, é um monte de pensamentos que chegam à minha memória, olhando seu corpo inerte tendo ao peito a fita de zeladora do Apostolado da Oração, do qual foi fundadora em Nova Descoberta e sua presidente durante muitos anos. Custa crer que tantas atividades foram realizadas por este corpo, agora sem vida, e nem todos notamos o quanto elas demonstram uma mulher generosa, corajosa, sensível, humilde e agente da sua história e da história de sua comunidade, de sua igreja, do seu bairro.

Termino este texto testemunhando que a comunidade católica de Nova Descoberta conseguiu um ônibus para vir até Paulista e ser uma representação daquelas ações de Dona Maria Ferreira, da importância histórica de sua vida para aquela comunidade à qual ela dedicou-se desde 1954 quando ali chegou. Várias gerações vieram testemunhar a importância de sua vida. Como sempre acontece, as gerações seguintes não conseguem compreender  de imediato a história. É sempre necessário tempo para que se possa compreender o tempo que passou no tempo que se está vivendo. Luiza, catequista da comunidade nos anos cinquenta e sessenta, atuante no movimento Encontro de Irmãos, não se conteve e lembrou que Dona Maria Ferreira fez história, disse que mais que missionária foi ela, Maria Ferreira, profeta da vida e da esperança; falou de que a caridade de Maria era a sua vida, a sua doação, e que ela foi um sopro de Deus entre nós. Um sopro desde 8 de  fevereiro de 1923 até 4 de setembro 2012.

Que sejamos Dignos dela, como ela foi e é digna das promessas de Cristo.

 

Escrito no 5 de setembro de 2012.

A Inquisição de hoje e as religiosas norte-americanas – escrito por Ivone Gebara

sexta-feira, abril 27th, 2012

A Inquisição de hoje e as religiosas norte-americanas (por Ivone Gebara)

Mais uma vez assistimos estarrecidas “a avaliação doutrinal” ou a chamada de atenção ou a punição dirigida pela Congregação da Doutrina da fé para quem, segundo ela, foge da observância à correta doutrina católica. Só que agora não apontaram o dedo acusador para uma pessoa, mas para uma instituição que congrega e representa mais de 55.000 religiosas norte-americanas. Trata-se da Conferencia Nacional das Religiosas conhecida pela sigla LRWC – Conferência da Liderança Religiosa Feminina. Estas religiosas ao longo de sua história desenvolveram e ainda desenvolvem uma missão educativa ampla em favor da dignidade de muitas pessoas e grupos dentro e fora dos Estados Unidos.

A maioria dessas mulheres pertencentes a diferentes congregações nacionais e internacionais além de sua formação humanista cristã são intelectuais e profissionais nas várias áreas do conhecimento. São escritoras, filósofas, biólogas, sociólogas, advogadas, teólogas e têm um vasto currículo e reconhecida competência nacional e internacional. São igualmente educadoras, catequistas e ativistas em direitos humanos. Em muitas situações foram capazes de expor sua vida em favor de injustiçados ou se opor a comportamentos graves assumidos pelo governo norte-americano. Tive a honra de conhecer algumas delas que foram presas porque se colocaram na linha de frente das manifestações para o fechamento da Escola das Américas, instituição do governo norte-americano que prepara militares para atuarem em nossos países de forma repressiva e cruel. Estas religiosas são mulheres de reflexão e ação com uma longa história de serviços não apenas em seu país, mas em muitos outros. Hoje estão sob suspeita e sob tutela do Vaticano. São criticadas por discordar dos bispos considerados “os autênticos mestres da fé e da moral”.E mais, são acusadas de serem partidárias de um feminismo radical, de desvios em relação à doutrina católica romana, de cumplicidade na aprovação das uniões homossexuais e outras acusações que chegam a nos espantar dado o seu anacronismo. O que seria um feminismo radical? Quais seriam suas manifestações reais na vida das congregações religiosas femininas? Que desvios teológicos estariam as religiosas vivendo? Estaríamos nós mulheres sendo vigiadas e punidas por não conseguirmos mais ser fiéis a nós mesmas e à tradição do Evangelho por intermédio de uma cega sujeição à ordem hierárquica masculina? Estariam os responsáveis das Congregações vaticanas alheios à grande revolução mundial feminista que tocou todos os continentes e inclusive as congregações religiosas?

Muitas mulheres religiosas nos Estados Unidos e em outros países são de fato herdeiras, mestras e discípulas de uma das mais interessantes expressões do feminismo mundial, sobretudo do feminismo teológico que se desenvolveu nos Estados Unidos a partir do final da década de 1960. Suas idéias originais, críticas e posturas libertárias permitiram uma nova leitura teológica que por sua vez pode acompanhar os movimentos de emancipação das mulheres. Dessa forma puderam contribuir para repensar nossa tradição religiosa cristã para além da invisibilização e opressão das mulheres. Criaram igualmente espaços alternativos de formação, textos teológicos e celebrativos para que a tradição do Movimento de Jesus continuasse a nutrir nosso presente e não fosse abandonada por milhares de pessoas cansadas com o peso das normas e das estruturas religiosas patriarcais.

Que atitudes tomar diante desse anacronismo e violência simbólica das instâncias curiais e administrativas da Igreja Católica Romana? Que pensar de seu referencial filosófico rígido que assimila o melhor do ser humano ao masculino? Que dizer de sua visão antropológica unilateral e misógena a partir da qual interpretam a tradição de Jesus? Que pensar desse tratamento administrativo/punitivo a partir do qual se nomeia um arcebispo para rever, orientar e aprovar decisões tomadas pela Conferência de Religiosas como se fôssemos incapazes de discernimento e lucidez? Seríamos acaso uma empresa capitalista multinacional em que nossos “produtos” deveriam obedecer aos ditames de uma linha de produção única? E para mantê-la devemos ser controladas como autômatos pelos que se consideram os donos e guardiões da instituição? Onde fica a liberdade, a caridade, a criatividade histórica, o amor sororal e fraternal?
Ao mesmo tempo em que a indignação toma conta de nós, um sentimento de fidelidade à nossa dignidade de mulheres e ao Evangelho anunciado aos pobres e marginalizados nos convida a reagir a mais esse ato de repugnante injustiça.

Não é de hoje que os prelados e funcionários da Igreja agem com dois pesos e duas medidas. Por um lado as altas instâncias da Igreja Católica Romana foram capazes de acolher de novo para seu seio os grupos de extrema direita cuja história nociva, sobretudo a jovens e crianças é amplamente conhecida. Penso especialmente nos Legionários de Cristo de Marcial Maciel (México) ou nos religiosos de Monsenhor Lefevre (Suíça) cuja desobediência ao papa e os métodos coercitivos de fazer discípulos é testemunhada por muitos. Essa mesma Igreja institucional acolhe os homens que lhes interessa por seu poder e repudia as mulheres que deseja manter submissas. Com sua atitude as expõem a críticas ridículas veiculadas até por mídias religiosas católicas de má fé. Dessas mulheres os prelados parecem reconhecer formalmente algum mérito quando suas ações se referem àquelas tradicionalmente exercidas pelas religiosas nas escolas e nos hospitais. Mas somos apenas isso? Sabemos bem que em nenhum momento nos Estados Unidos se levantou a menor hipótese de que essas religiosas teriam violentado jovens, crianças e anciãos. Nenhuma denúncia pública maculou sua imagem. Delas não se falou que se aliaram a grandes bancos internacionais em benefício próprio. Nenhuma denúncia de tráfico de influencias, de troca de favores para guardar o silencio da impunidade. E mesmo assim nenhuma delas foi canonizada e nem beatificada pelas autoridades eclesiásticas como o fizeram em relação a homens de poder. O reconhecimento dessas mulheres vem das muitas comunidades e grupos cristãos ou não, que partilharam a vida e os trabalhos com muitas delas. E estes grupos com certeza não se calarão diante dessa “avaliação doutrinal” injusta que também os toca diretamente.

Plagiando Jesus no seu Evangelho ouso dizer: “Tenho pena desses homens” que não conhecem as contradições e as belezas da vida de perto, que não deixam seu coração vibrar às claras com as alegrias e os sofrimentos das pessoas, que não amam o tempo presente, que ainda preferem a lei estrita à festa da vida. Apenas aprenderam as regras fechadas de uma doutrina fechada numa racionalidade já ultrapassada e a partir dela julgam a fé alheia e especialmente as mulheres. Pensam talvez que Deus aprova e se submete a eles e às suas elucubrações tão distantes dos que têm fome de pão e de justiça, dos famintos, dos abandonados, das prostituídas, das violentadas e esquecidas. Até quando teremos que sofrer sob seu jugo? Que posturas nos inspirará o “Espírito que sopra onde quer” para continuarmos fiéis à VIDA em nós?

Às queridas irmãs norte-americanas da LWRC meu agradecimento, carinho e solidariedade. Se vocês estão sendo perseguidas pelo bem que fazem provavelmente seu trabalho produzirá abundantes e bons frutos. Saibam que com vocês mulheres religiosas de outros continentes não permitiremos que calem nossa voz. Mas, se calarem por um decreto de papel, nós faremos dele uma razão a mais para seguirmos lutando pela dignidade humana e pela liberdade que nos constitui. Seguiremos de muitas maneiras anunciando o amor ao próximo como a chave da comunhão humana e cósmica presente na tradição de Jesus de Nazaré e em muitas outras, embora de formas diferentes. Continuaremos juntas a tecer para o nosso momento histórico mais um pedaço da vasta história da afirmação da liberdade, do direito de ser diferente e de pensar diferente e tudo isso tentando não ter medo de ser feliz.