Posts Tagged ‘História’

Nossa violência diária, nosso fracasso civilizacional

segunda-feira, julho 25th, 2016

Esses dias de julho têm sido atribulados. A vida corre e sua seiva é de sangue, mas a ideia básica da civilização é o controle do sangue derramado. A cultura e a civilização são essa organização da vida, esse cuidado para se evitar o derramamento desnecessário da seiva que mantém o homem. Todos os dias lemos sobre algum ato terrorista, esse que é realizado para matar qualquer pessoas com o simples intuito de manter um clima de medo e tensão. Mas há outros sangramentos.

Desde o século XVI que a civilização europeia vem construindo maneiras de controlar essa violência, procurando inibir comportamentos que coloquem em risco a vida social. Parte desse esforço foi a retirada das armas das mãos da gente comum, centralizando a violência no Estado. As penas foram sendo ‘humanizadas’ e nos últimos trezentos anos a pena de morte vem sendo posta de lado. Assim foram sendo criados lugares onde guardar por algum tempo os que estavam com problemas de adaptação na vida social. Cáceres passaram a ter função de readaptadores sociais. É isso que se espera das prisões neste início do século XX. Mas é isso que não se observa no sistema prisional brasileiro, como vem atestando as muitas rebeliões nesses lugares que, lembra o historiador da Casa de Detenção do Recife, Flávio de Sá Neto, são como sepulturas de homens vivos. A violência das ruas vem sendo combatidas desde que foram proibidos os duelos de honra, pois eles subtraiam o melhor da sociedade e seus futuros: os jovens aristocratas. E o que assistimos hoje?

Grande parte da população sente-se prisioneira, elevando os muros de suas casas, isolando-se da sociedade, mantendo guarda-costas e guaritas em frente as suas residências, temendo o ataque de indivíduos que, apesar do controle estatal, apoderaram-se das armas e das ruas. Nas ruas, ainda que a maior parte da sociedade não consiga perceber, está a ocorrer uma matança de jovens que combatem entre si, às vezes em nome de um grêmio esportivo, às vezes pelo controle de locais onde vendem drogas, matando lentamente uma outra parte da juventude. Alguns que escapam dessa matança, às vezes não conseguem escapar da ação descontrolada de alguns agentes do Estado. Os sobreviventes morrem aos poucos cada dia em trabalhos estafantes e mal pagos, com salários que não lhes permitem uma saudável recreação e, então, dedicam-se ao álcool e outras drogas. Não poucos terminam por terem seus passos encaminhados a alguma penitenciária que deveria abrigar duzentas ou trezentas pessoas, mas abrigam quase sempre três ou quatro vezes mais. E nesses espaços, também o Estado perdeu o controle. E assistimos, ouvimos e, às vezes vemos, o relato das violências e mortes que ocorrem nesses lugares. A violência está guiando a sociedade. Os valores que poderiam organizar a sociedade foram mal apreendidos e, mesmo esses, passaram a ser relativizados de maneira constante.
Para entender o tempo passado, cuidávamos da imaginação, acompanhando os romances históricos, fitas de cinema. Agora, no caso da violência descontrolada, realizada em nome de alguma divindade ou mesmo para a satisfação de algum magnata, basta sabermos olhar o que nos envolve, o ambiente.

Por não sabermos cuidar de nossos espaços sociais, não sabemos, também, cuidar dos espaços onde colocamos os que rejeitaram ou foram rejeitados pela sociedade. Quem disso duvidar, que faça uma pequena comparação entre o nosso transporte público e as penitenciárias; compare o cuidado com as calçadas e ruas com as celas carcerárias; observe nossas escolas sem bibliotecas, áreas de lazer e laboratórios e as prisões sem oficinas e atendimento reparador.

E, infelizmente, essa não é uma situação própria de nosso Estado. É uma situação semelhante encontrada, até mesmo, em alguns ditos países desenvolvidos. E não apenas nos países de nossa experiência civilizacional, mas verificamos que esse possível fracasso ocorre, também, naquelas civilizações que se tem como modelo para demonizar esse modelo que se organizou nos últimos seis séculos.

Cultura durante a ditadura iniciada em 1964

sexta-feira, junho 10th, 2016

CULTURA DURANTE A DITADURA iniciada em 1964
(Texto para palestra proferida na celebração do 35º ano da Associação dos Docentes da UFEPE, ADUFEPE, no dia 29 de abril de 2014)

Prof. Dr. Severino Vicente da Silva

Agora é o tempo de tudo, de tudo fazer, de tudo lembrar, de tudo esquecer e, porque não? de tudo refazer. Alguns estão a celebrar, outros dizem que apenas querem lembrar, mas há quem queira refazer os acontecimentos de 1964 e dos anos seguintes. O tempo foi passado, alguns dos personagens já morreram; os vivos, especialmente os mais vivos, apressam-se a reviver o que não viveram. A cada dia uma nova história é contada para explicar como nós chegamos até aqui. Foram muitos passos realizados naquele período, nem todos estão registrados, e mesmo os que foram registrados e guardados em malas, caixas de famílias ou arquivos de acordo com os padrões estabelecidos pela ciência, grande parte deles está intacta, esperando serem destruídos ou lidos e analisados. E a parte da parte já tocada e conhecida, é a história contada pela boca de quem tocou nos documentos e pensou, a seu modo, os segredos que julga ter desvendado. Só com o conhecimento desses segredos, junto com outros segredos guardados em muitas memórias, é que poderemos saber o que aconteceu conosco, enquanto indivíduos, enquanto grupo social, enquanto sociedade que construiu, viveu e superou a ditadura.

Essa reunião que fazemos agora é uma tradição antiga: sentar em torno de uma fogueira para aquecer os corpos e fortalecer a memória. É para isso que, ao longo da história de nossa humanidade, nos sentamos em torno do fogo para ouvir a memória dos mais velhos, para atiçar as brasas de suas lembranças retirando as cinzas que as encobre, cinzas que fazem esquecer. Os mais jovens, com suas perguntas, auxiliam os mais velhos a aprender com a vida que viveram.

Esse encontro que objetiva celebrar o 35º aniversário da Associação dos Docentes da Universidade Federal de Pernambuco – ADUFEPE coincide com 50º aniversário do Golpe de estado protagonizado por civis e militares. É em 1979, quando a ditadura já começava a esboçar cansaço que foi criada a ADUFEPE, uma entidade de intelectuais formadores de intelectuais.

Lendo o que hoje se escreve sobre 1964 notamos que estão dando importância maior apenas aos que fizeram atos heroicos que foram amplamente registrados por amigos, partidos políticos e familiares dos heróis, aqueles que foram contemporâneos dos fatos ou herdeiros deles. Nos tempos de hoje há os que ainda estão vivos e há os que já morreram; entre os vivos e os mortos há os que deixaram herdeiros, e esses são muito falados; e há os que não deixaram herdeiros e pouco deles se fala, e se escreve sobre eles. E há alguns que morreram e seus herdeiros não sabiam ler, escrever, guardar documentos, desses, talvez, saberemos seus nomes e mais nada. Saberemos menos daqueles que não herdaram o poder do estado que combatiam, sabemos mais dos que herdaram o estado que combatiam. Embora se queira negar, a sociedade brasileira quis o golpe de estado ocorrido em 1964. Poucos se opuseram ao golpe e os mais prejudicados por ele não podem reclamar, nunca puderam. Eles nem tinham ciência do mal que estava atingindo a todos.

Os intelectuais tinham essa consciência de que algo havia mudado nas relações do Estado com os setores da cultura e tomaram atitudes naqueles anos de medo e de chumbo: alguns atuaram para garantir o retorno do tempo do silêncio que vinha sendo rompido desde o início dos anos cinquenta – eram os saudosistas do Estado Novo, outros estados e estamentos; outros agiram para resistir e recriar, é melhor dizer, criar em uma nova situação, pois, se na natureza tudo se transforma, na sociedade nada se recria.

O ambiente cultural vivido após abril de 1964 tem várias marcas, e uma delas é o “terrorismo cultural”. Embora Nelson Werneck Sodré, em 1965, tenha escrito na Revista da Civilização Brasileira artigo intitulado Terrorismo cultural , a expressão foi cunhada pelo pensador católico Alceu de Amoroso Lima indignado com as perseguições no meio universitário e como as demissões de Celso Furtado, Anísio Teixeira e Josué de Castro dos seus postos públicos, quem forjou a senha inicial para resistência intelectual ao regime… . Desde os primeiros dias daquele regime a sensibilidade daquele intelectual sentiu que era necessário dizer o que estava ocorrendo, correr o risco de pensar sobre a sociedade e a ela dizer o que ela estava a fazer, auxiliar a esclarecer o momento que ela vivia. A cultura é a reflexão sobre os atos humanos. “Intelectual” é conceito decorrente da conduta de Emile Zola (1840-1820), em acusar a sociedade de seus erros correndo risco ao defendê-la.

Como sabemos, nos primeiros dias da ditadura, esta afirmava que foi feita para evitar a comunização do Brasil. Aqui em Pernambuco foram presos poucos comunistas, como nos relata Fernando Coelho:
Dos líderes comunistas de expressão, após o golpe, em Pernambuco, além de intelectuais como Paulo Cavalcanti e Abelardo da Hora, somente Gregório Bezerra foi preso. A repressão inicial atingiu, principalmente, as lideranças dos movimentos populares e sindicais, a universidade e a chamada esquerda católica, além de políticos ligados ao governo deposto. (…) a falta de comunistas, os sindicalistas, os intelectuais ou assim considerados e os “cristãos progressistas”, entre os quais um número relativamente grande de eclesiásticos, pagaram as custas da febre policial dos primeiros dias”

Veja que o autor que nos socorre não diz que Paulo Cavalcanti e Abelardo da Hora são comunistas, ele prefere, escolhe, defini-los como “intelectuais”. Ali já está mencionada a presença de intelectuais aprisionados pelo regime que está iniciando. Outros foram encarcerados nas semanas seguintes. Assim foi sendo montado o cenário que a sociedade escolheu, talvez por engano, imaginavam que os militares voltariam para os quartéis, como sempre haviam feito; talvez por medo de um modelo de sociedade que permitiria pensamento diverso daquele enunciado pelos novos donos do poder. Vivia-se o tempo da Guerra Fria e eram muitos os que formavam o grupo dos que cultivavam o temor de que os acontecimentos cubanos e a república sindicalista argentina viessem a se repetir nos demais países da América Latina; talvez por isso, as igrejas se uniram aos empresários. Poderíamos continuar a buscar as razões para explicar os acontecimentos de 1964 até encontrarmos uma resposta que caiba em nossa ansiedade e nos acalme. Mas, nesta conversa em torno do fogo, é importante lembrar que os líderes da dita Revolução, tiveram medo dos intelectuais.

É a cultura que nos envolve e nos molda, e as nossas ações reforçam os padrões ou indicam caminhos para novos padrões. Os intelectuais, esses homens e mulheres que cuidam de refletir sobre essa cultura que nos envolve podem nos ajudar a compreender o fazemos de nós mesmo, e parece ter sido este o grande temor daqueles que, pelas armas, ajudaram a manter no poder os grupos que de lá não queriam sair, tangidos pelo avanço de novos grupos sociais na direção do saber e da cultura que sempre foi mantida ao serviço e prazer dos poderosos de sempre. Mas, se eles temiam os intelectuais, não temiam a todos, pois alguns intelectuais estão sempre ao serviço do poder de então.

A cultura pode ser definida amplamente como tudo que os homens criam com suas mentes, com suas mãos e todo o seu corpo no contato com a natureza. Mas esse conceito antropológico é tão amplo que pode empobrecer nosso debate. Podemos ampliar nossa conversa ao dizer que a cultura é o resultado da reflexão e ação dos humanos sobre a natureza e a reflexão sobre os resultados. A cultura é a reflexão sobre si mesmo e sobre as ações humanas, e isso toma muito tempo. Do aparecimento do homem até a invenção do fogo e dos códigos mínimos de comunicação correram alguns milênios. Alguns milênios foram necessários para a invenção dos símbolos, das mitologias, da arquitetura, da engenharia de controle das águas, da engenharia social na organização das crenças, dos grupos sociais familiares até o estado. Leva tempo, também, criar novas expressões culturais após um cataclismo social, como o o que ocorreu conosco em meados do século passado.

Os tempos da ditadura militar foram momentos de esmagamento de algumas manifestações culturais, especialmente aquelas que eram mais representativas das mudanças sociais ocorridas na década de cinquenta que, em Pernambuco, ganharam espaço no Movimento de Cultura Popular . Desde os anos quarenta que aqui vinha ocorrendo a confluência de uma população carente de comida para o corpo e alimento para o seu espírito (desculpem mencionar essa palavra atualmente não politicamente correta ou conveniente) com uma sociedade que tradicionalmente cultivava um conceito de cultura e de vida discriminante e excludente. Essa população carente buscava aprender a ler, escrever e contar o salário e a sua história. Essa era uma grande novidade nos anos sessenta, pois a industrialização agitada por Juscelino Kubistchek precisava de gente que soubesse ler as orientações para o uso das máquinas e escrever as notas de balcão nas casas comerciais. Quando a população brasileira era mais dependente da atividade agrícola tradicional, a leitura do mundo que era exigida era bem menos complexa do que se exige na sociedade industrial.

Ler, Escrever e Contar são instrumentos de multiuso e de ampliação dos espaços e interesses. E se há uma ampliação do mundo, também há uma ampliação das linguagens e de seus usos. Os intelectuais dos anos quarenta e cinquenta souberam ver, registrar e recriar as danças dramáticas do povo que vivia nas áreas rurais, mas, a partir dos anos sessenta os que formam o povo já estavam de mudança para esse outro lugar mais moderno que é o lugar das cidades. E não estou dizendo apenas a capital, mas cidades de médio e pequeno porte. E esse acontecimento implica novas criações, e novos sujeitos criadores.
Eles foram surgindo aos poucos, agindo sobre as novidades e criando novas novidades.
Temos que tomar um ponto inicial para conversar sobre o universo cultural em Pernambuco na época de poder dos generais. Poderia começar pensando nas atividades culturais que começaram em torno da personalidade e da obra de dom Hélder Câmara. A sua presença foi incômoda para muitos políticos e homens da cultura “varandística”, essa que cresceu nas varandas das casas grandes e dos sobrados. Consta que nos primeiros meses após sua chegada, em abril de 1964, o novo arcebispo promoveu vários saraus em sua casa, ainda no Palácio do Manguinhos, para conhecer os artistas pernambucanos. Era um caminho possível para conhecer o espaço cultural no qual ele foi metido abruptamente, retirado do Rio de Janeiro para cuidar do Rio Capibaribe. E para um Príncipe da Igreja, um trajeto possível era o trato com os bardos e artistas, pois eles são de conhecer a alma do povo que os rodeia. Esses encontros com a “juventude dourada”, além de assegurar alguns jovens que vieram a auxiliá-lo em suas obras sociais, também valeram a crítica da sociedade mais conservadora que não entendia o que fazia um bispo sentado nos batentes do palácio madrugada adentro conversando com jovens artistas e intelectuais. Outra senda aberta pelo bispo que chegava foi a criação da Operação Esperança e dos Conselhos de Moradores nos bairros periféricos, com ela Dom Hélder atingia outro público que normalmente não tinha acesso à cultura promovida pelos artistas que participaram dos “Saraus do Manguinhos”. Mas a Operação Esperança foi o caminho para que jovens universitários, das famílias melhor aquinhoadas pela história e pela economia entrassem em contato com o mundo da periferia, ensejando trocas culturais bastante vivas e fecundas com jovens que viviam no fio da navalha social.

Outro meio de iniciar nossa conversa sobre a vida cultural, artística e política na Ditadura Militar, é olhar os poetas da “geração 65”, da qual citaremos os nomes de Alberto da Cunha Melo, Marcos Cordeiro, José Mário Rodrigues, Celina de Holanda, Roberto Aguiar, Luiz Pessoa, Jaci Bezerra, Almir Castro Barros, Montez Magno, Sérgio Bernardo, Domingos Alexandre, que cultivam uma boa relação com a Livraria Livro 7 que, por mais de duas décadas serviu de local de resistência cultural à ditadura. Para aquele espaço da Rua Sete de Setembro, sonhado e criado por Tarcísio Pereira, convergiam poetas, escritores, professores e estudantes em constante troca de informações ou, no mínimo, um contato visual entre o leitor e o autor.

A sociedade foi inventando lugares e formas de formar-se e expressar-se. Na década de sessenta um caminho possível foi o cinema: a arte de assistir, discutir e fazer. Salas de exibições eram poucas, mas o cine clubismo foi um espaço de formação que atingiu muitas localidades, além da capital. Colégios do Recife, do Agreste (Limoeiro) e da Zona da Mata Norte (Vicência) promoveram sessões , e algumas delas foram incentivadas por Jomard Muniz Brito, cuja alma não se aquietou após a prisão ocorrida em 1964. Ele participou ativamente do ciclo do Super 8, nos anos 70, um período que produziu cerca de 200 filmes , documentários sobre a vida rural, injustiças sociais, filmes experimentais abordando temas culturais urbanos. Foram realizados três festivais de Super 8 (1977, 78, 79). É nesse período que as sessões de Arte nos cines São Luiz, Coliseu, Trianon, AIP eram o consolo e o local de formação, para as novas gerações, do hábito de degustação de filmes. Para muitos jovens estudantes as manhãs de sábado eram próximas dos cinemas. O cinema foi, pois, outro caminho para que jovens da classe média discutissem o mundo ao seu redor em pleno regime ditatorial. E foram muitos os resultados e vocações que se formaram a partir desses cineclubes, e também o sentimento de que havia a possibilidade de compreender o mundo a partir da utilização de uma câmera que, apesar da pouca sofisticação técnica, produziu trabalhos de referência. Relacionada ao cinema, devemos lembrar a participação dos jornais no debate dessas criações, especialmente a atuação de Celso Marconi que fez a crítica de cinema no Jornal do Commercio nos anos sessenta e setenta.

A dança foi um insuspeito caminho utilizado para a criação de novas possibilidades de educação, compreensão dos sentimentos de dores e alegrias que vivia a sociedade, e o interesse pela dança pode ter acompanhado a fundação da TV Jornal do Comércio em junho de 1960. Talvez devamos chamar atenção à existência de um corpo de balé que a TV Jornal do Commercio mantinha para os programas de auditório. Mas, nessa conversa, quero tomar por base, nos aos 70, a prática do aprendizado de dança no Recife, e podemos apontar Flávia Barros com a Escola de Ballet do Recife, fundado em 1972, formando pessoas em danças clássicas, e Flávia Barros teve entre seus alunos o Fred Salim.

Valdi Coutinho, ator e crítico de arte, publicou, no livro Palco da memória, os artigos de sua coluna “Cena Aberta” no Diário de Pernambuco e se dá conta de que abriu espaço para grupos de dança que nasciam nos anos 70 e 80, gente como Mônica Japiassu, que coreografou Morte Vida Severina, e O Capataz de Salema; Rubem Rocha Filho, que foi o diretor de Tempos perdidos… nossos tempos e Morte e vida Severina; Zdenek Hampl foi o coreógrafo de O capataz de Salema, que teve a direção musical de José Madureira, e também coreografou Lua Cambará, um texto de Ronaldo Lima Brito, também o e criador de A toda Prova; Zumbi Bahia e Ubiracy Ferreira fundaram o Balé Primitivo de Arte Negra; Carol Lemos, Lúcia Helena, André Madureira, este o fundador do Balé Popular do Recife. A dança foi um caminho que não ficou restrito aos jovens da classe média, mas que abria espaços para a participação de jovens das periferias da cidade, estas que fizeram o crescimento populacional da cidade nas décadas de quarenta e cinquenta com a migração e que, nos setenta e oitenta já exibia jovens nascidos na capital. Cabe destacar atuação do amazonense Nascimento Filho, rebatizado Nascimento do Passo pela atuação como difusor do Passo.

Nos anos setenta, algumas novidades que vinham sendo gestadas há algum tempo, tomam forma no Movimento Armorial pensado por Ariano Suassuna e outros intelectuais/artistas como Francisco Brenand (recentemente ele negou essa aderência), Raimundo Carrero, Samico que também disse “não aderi ao movimento armorial, fui colocado nele”, Ângelo Monteiro, entre outros , pretendendo criar uma arte erudita própria da região a partir da criatividade cultural nordestina, utilizando a música, a literatura, dança, teatro. Tendo sido iniciado na Pró-Reitoria para assuntos Comunitários da UFPE, logo o Movimento Armorial recebeu a adesão oficial dos governos do município do Recife e do estado de Pernambuco. Desse momento inicial vieram o Balé Armorial do Nordeste, Orquestra Armorial do Nordeste, Orquestra Armorial, Quinteto Armorial. Aqui devemos recordar que Ariano Suassuna foi, em 1967, membro fundador do Conselho Federal de Cultura.

Voltemos ao depoimento de Valdi Coutinho:
“Nos anos 80 era muito difícil fazer um espetáculo de dança atraente para o público, que perdurasse muito tempo em cartaz, que retirasse da bilheteria o investimento financeiro. As escolas e academias lotavam as casas de espetáculo no final do ano, com familiares e amigos das garotas que se apresentavam preocupadas quase sempre em busca da perfeição técnica, mas sem qualquer expressividade dramática no rosto, sem dramaticidade na dança. Era um tabu para o homem estudar dança, enfrentando o preconceito do machismo, que era gritante especialmente no Nordeste. Mas isso ficou para trás, graças ao destemor de alguns que enfrentaram a discriminação mostrando que dançar era uma arte para ser exercida por ambos os sexos.”

E, sem dúvida, a arte teatral encontrou modos de sair do amadorismo histórico do Teatro de Amadores de Pernambuco para a profissionalização buscada por Hermilo Borba Filho desde o Teatro do Estudante até o Teatro Popular do Nordeste. O teatro foi sempre uma tradição e um local de exibição do bom gosto senhorial que, na segunda metade do século XIX fez construir o Teatro de Santa Isabel. Mas aqui estamos conversando como se viveu a arte nos anos da Ditadura Militar e, mantendo a ideia de que podemos iniciar nossa conversa tomando por base a presença de Dom Hélder Câmara, quero destacar que em 1974, Guilherme Coelho, postulante ao monacato beneditino e envolvido na Pastoral da Juventude, para comemorar os dez anos da Associação dos Rapazes e Moças do Amparo, ARMA, montou o espetáculo Vivencial I, com improvisações sobre vários textos de dramaturgos e filósofos e jornalistas. Abordando assuntos polêmicos como homossexualidade, violência, drogas, política, tecnologia e massificação. A estreia ocorreu no colégio São Bento e o público recebeu o espetáculo com estranheza e encantamento. Desalojado do São Bento, o grupo peregrinou por diversos teatros e montou várias outros espetáculos como MADALENA EM LINHA RETA, JOÃO ANDRADE EM CONVERSA DE BOTEQUIM E UM AUTO DE NATAL ainda em 1974. O PÁSSARO ENCANTADO DE UBAJABA (1975) e, no mesmo ano, montou NOS ABISMOS DA PERNAMBUCÁLIA, de Jomar Muniz Brito. Em 1976, Jomard Muniz escreveu 7 FÔLEGOS especialmente para Pernalonga. O grupo também fez a montagem de SOBRADOS E MOCAMBOS de Hermilo Borba Filho, em 1977. O grupo atuou até 1983.

Várias outras experiências teatrais ocorreram no período, como a encenação da Paixão de Cristo, dirigida pelo professor Isaac Gondin Filho, em espaços ligados à diocese, mas sempre em áreas periféricas. Nesse espetáculo Jesus Cristo foi interpretado por um ator negro. Interessante notar no período o interesse pelo drama vivido por Jesus, seu projeto, prisão, tortura e morte, realidade que ocorria nos porões da ditadura. Em 1968 Plínio Pacheco, com texto escrito por ele em 1956, iniciou a encenação da Paixão de Cristo em Nova Jerusalém, no município de Brejo da Madre de Deus.

O caminho da profissionalização do teatro no estado parece ter início no sucesso de montagens realizadas na segunda metade da década de 70. Em 1975 foi montada CANÇÃO DE FOGO, de Jairo Lima que lotou o teatro; em 1976, Antônio Cadengue dirigiu A LIÇÃO de Eugene Ionesco. Essas experiências estão na origem da Praxis Dramática. A Companhia Praxis Dramática, realização de José Mário Austregésilo e Paulo Fernando Goes, foi fundada em 1976, e representou importante passo para a profissionalização do teatro em Pernambuco, iniciando com a montagem de ESSA NOITE SE IMPROVISA de Luigi Pirandello. Esta foi seguida por GALILEU GALILEI de Bertold Brecht e direção de Milton Bacarelli. Uma sequencia de grandes espetáculos como EQUUS garante a chegada dos anos 80 com TAL & QUAL NADA IGUAL, texto de Jomard Muniz Brito e direção de Guilherme Coelho; e na comemoração de 10 anos de sua primeira apresentação, encena VIVA O CORDÃO ENCARNADO, peça de Luiz Marinho.
Podemos ainda mencionar o quanto a poesia e a música foram espaços para a criatividade dos novos. Como não podemos citar a todos, pois o tempo não permite, lembremos de Don Tronxo, Ave Sangria, Marconi Notaro, Alceu Valença, Laíson, Lula Cortez e os festivais de música.

Quero não deixar passar a oportunidade de lembrar os festivais de Ciranda, iniciados no Bar Cobiçado, no Janga e que serviram de motivo para tornar essa dança coletiva e popular a dança da moda e, que durante anos embelezou o Pátio de São Pedro, local secular tornado, por um tempo, o espaço do turismo em Pernambuco nos anos de 1973 a 1980.

Poucos dias antes de meu sequestro ocorrido em agosto de 1973 escrevi um poema que assim diz: Recife, minha ilha de água doce, está ficando amargo te ver hoje!

Como essa conversa procurou demonstrar, o amargor da ditadura não impediu a criação artística, o surgimento de expressões do belo, o belo que é a busca de toda a vida humana

BIBLIOGRAFIA
COELHO, Fernando. COELHO, Fernando. Direita, Volver: O Golpe de 1964 em Pernambuco. Recife: Editora Bagaço, 2004.
Dossiê dos Mortos e Desaparecidos políticos desde 1964. Amparo Caridade (Organizadora). Recife: Companhia Editora de Pernambuco, 1995.
ENCICLOPÉDIA ITAÚ CULTURAL DE TEATRO.
http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_teatro/index.cfm
FIGUEREDO, Haroldo Morais. Vigilante Cura: uma educação cinematográfica nos colégios católicos de Pernambuco, 1950-1960. Doutorado em Educação. Recife: Centro de Educação, UFPE, 2012.
INTERPOÉTICA – http://interpoetica.com/site/index.php?option=com_content&view=article&id=703&catid=0
NAPOLITANO, Marcos. 1964, História do Regime Militar Brasileiro. São Paulo: Editora Contexto, 2014.
NOGUEIRA, Armanda Mansur Custódio. O novo ciclo do cinema em Pernambuco, a questão do estilo. Dissertação de mestrado, Programa de Pós Graduação em Comunicação, Centro de Arte e Comunicação. Recife. Universidade Federal de Pernambuco, 2009. Mimeo.
RECORDANÇA – http://www.recordanca.com.br/?page_id=3732
COMO PROMETEU- Natanael SARMENTO, Luiz MAGALHÃES, Biu VICENTE. Recife: Edições do autor.
VICENTE, Tâmisa Ramos. Vamos Cirandar. Recife: Editora Universitária; Olinda: Associação Reviva. 2001.

Março das águas e dos mosquitos

quarta-feira, março 2nd, 2016

Pois que começou março e, a cada ano esperam-se as chuvas que, diz a sabedoria de Tom Jobim, fecham o verão. Os que vivem no sertão olham o calendário em busca da chuva de São José que, caso cheguem, podem garantir 20 espigas em cada pé de milho, como reza famoso baião de Luiz Gonzaga.

O mês de março passou a ser conhecido como o mês das mulheres, porque a ONU estabeleceu, com justiça e justeza, a homenagem à mulheres operárias que foram sacrificadas no fogo de uma fábrica de tecidos no século XIX para que, as meninas de classe média aprendessem que as mulheres começaram a chegar ao mercado de trabalho na terceira década do século XX. Afinal, esse pessoal do sexo feminino que, morando na periferia e cuida das casas nos bairros mais ricos, serão que são parte do gênero, ou são apenas do sexo? São as contradições do mês de março.

Antigamente o ano começava em março, como está definido nos horóscopos. Lá no hemisfério norte, é o tempo que começa a primavera e a fertilidade campeia, domina os campos após o tempo gélido do inverno, e as Festas de Maio lembravam que era tempo de namorar, noivar e até mesmo casar ou acasalar. Tempo de brincadeira, tempo da páscoa, após os sofrimentos do frio, a experiência da quase morte. Mas a segunda quinzena de março anuncia o tempo fértil, mesmo em terras abaixo da linha do Equador, onde o outono prepara o tempo da chuva. Mas nossa imaginação adequou muito bem os tempos geográficos aos tempos culturais criados acima do equador. Criamos um mundo quase falseado, nem percebemos que estamos nos trópicos. Os nossos ricos, esse um por cento da população, cuida de viajar, alguns dizem que vão estudar no hemisfério norte, que vão fazer cursos, imersão cultural, aprender outro idioma. E viajam muito porque, dizem, as viagens ilustram, e precisam viajar muito, para ver se aprendem algo mais que entrar e sair dos aviões. Antigamente faziam sessão de fotografias em suas casas para os amigos e, quando alguém perguntava: mas onde é isso? Quase sempre diziam que “tudo é tão bonito que a gente se confunde”. Hoje são os selfies ou fotos que não apresentam referências, algumas parecem retiradas de revistas especializadas. No mundo virtual tudo é quase real. Alguns viajarão sempre e pouco lerão do mundo visitado.

Pesquisa recente do Instituto Paulo Montenegro e Ação Educativo diz aponta que apenas 8% dos brasileiros estão plenamente alfabetizados e capazes de ler e interpretar um texto, analisar uma tabela e que 27% da população é analfabeta funcional, gente que não entende o que ouve nem o que ler, apenas segue o instinto para não ser extinta. Essa população, de vocabulário pequeno é que faz o sucesso de programas como os apresentados nos sábados e domingos à tarde nas televisões e na apresentação de partidos políticos nos programas ditos ‘gratuitos’. Apela-se para as cores e para os sentimentos de “paz e amor”, os discursos infantis e infantilisantes do ‘nós e eles’ e do ‘isso ou aquilo’. Pesquisa recente nos Estados Unidos mostra que essa é a razão dos sucesso do bilionário Donald Trump como possível candidato à eleição presidencial dos Estados Unidos. Discurso fácil, que alimenta a docilidade, a fera do nacionalismo, a aceitação do caminho mais fácil que não exige nem mesmo a leitura de um mapa, pois o mundo para esses não têm coordenadas nem abscissas. Tudo é plano e úmido, como as terras de esgoto a céu aberto, ou mesmo da felicidade de ruas calçadas ou asfaltadas que escondem a ausência da rede de esgoto, que nos chegam nas visitas de ratos, baratas, muriçocas e outros voadores que carregam de doenças aos eleitores incapazes de ler o mundo que os rodeia e, também de contar e escrever a história que vivem. São apenas 8% o que conseguem dominar essa tecnologia básica para viver com mais justeza os direitos. Os demais, por essa deficiência que foi construída social e culturalmente, continuarão a confundir direito com favor, mérito com favorecimento.

O mês de Março é sempre a possibilidade das chuvas de São José, cujo cajado floresce, como mandacaru que informa o fim da estiagem, como o movimento de meninas gaúchas que abandonam as bonecas e, comemoram a chegada da primavera/outono lutando pelo direito de tornar menores os shorts, cada mais shorts.

O Mundo de Ponta Cabeça – o Carnaval

terça-feira, fevereiro 2nd, 2016

Fevereiro no início e o carnaval chegando para marcar o início do ano religioso. O Sábado Gordo do Zé Pereira e do Rei Momo põe o Mundo de Ponta Cabeça: tudo vira o contrário da medíocre vida comum. Com uma semana de antecedência, o ex e eterno presidente chamou a imprensa que conta para ele e anunciou que era a alma mais honesta do país e até mesmo do Vaticano. Assim, enquanto as Virgens de Verdade não desfilaram este ano na orla olindense, foi o dono/não dono do sítio de Atibaia e do tríplex de Guarujá que deu início à Semana Pré-carnavalesca. Claro que neste mundo invertido que é o carnaval, o Poste filha do Honesto, também chamou a imprensa e disse que é urgente combater o mosquito que expõe a sujeira em que vive cerca da metade do Brasil, e essa urgência é tal, que o combate a esse mosquito que invadiu até o lago do Palácio da Presidente, terá início depois do Carnaval, em plena Quaresma. Até lá a produção de mosquito continuará e, não ocorrerá o que disse O/A Poste: “matar o mosquito antes que ele nasça”.

Nesse processo de inversão, no Primeiro dia de fevereiro deste ano, assistimos à consagração da falta de etiqueta e atingimos o clímax da incivilidade, a falência do processo civilizador, como nos ensinou Norberto Elias, traduzido ao vernáculo e comentado por filósofo que tentou, e fracassou em decifrar dilma, a Esfinge da Nova/velha Matriz Econômica. O fracasso do ministro filósofo em sua breve passagem pelo Planalto, escancarou-se quando o Procurado Geral da República, em ato solene da Abertura do ano Judiciário, no plenário do Supremo Tribunal Federal, não menciona o presidente da Câmara dos Deputados, representantes eleito pelo povo, confundido a sua briga pessoal com as suas obrigações públicas. Surpreende pouco, uma vez que a privatização das coisas e dos dinheiros públicos tem se tornado a norma. É o carnaval que nos governa e, da mesma maneira que os foliões em suas loucuras não reconhecem e zombam das autoridades no período momesco, agora são as autoridades que, definitivamente, não respeitam mais o povo que lhes paga salário. Reis e princesas nas monarquias sempre estão a sorrir para o seu povo, pois eles sabem que esta é a sua função. No carnaval que se tornou a nossa vida, as lideranças dos poderes de nossa/deles república já não sorriem externamente. Apenas externam seu desprezo pelo povo.

Nosso carnaval põe tudo de Ponta Cabeça. Na passagem do século XIX para o XX, o povo criou o carnaval de rua, pois até então os bailes eram em recintos fechados, em clubes inacessíveis aos ‘bestializados’. Reprimidos nos primeiros anos, já na segunda década do século, as autoridades saíram dos clubes e foram às ruas ‘organizar’ o carnaval. Hoje, as ruas são grandes salões com camarotes, dos quais ‘eles’ podem observar os ‘bestializados’, agora quase abestados, dançarem para o seu gáudio. Na segunda década do século XXI está invertido o carnaval, pois já não há mais inversão. Não é o avesso, mas o avesso do avesso, como disse o poeta quando ainda era o avesso.

Os rios que temos e os que desejamos

quinta-feira, janeiro 7th, 2016

O ano de 2016 tem começado como uma apresentação dos resultados obtidos após anos da prática de diminuir o valor das instituições e dos valores ligados à dignidade humana. Como sabemos comportamentos culturais tomam algum tempo para modificação. Mas, se essa atividade educacional de desconstrução vem aliada a propaganda massiva, pressão (bulling social) a partir de grupos e defesa inabalável dos dogmas, ganha-se algum tempo, abrevia-se o tempo de absorção dos novos valores que são ensinados, como a mendacidade, praticada pelos governantes e senhores que se pensam acima de qualquer instituição.

Nas notícias que escutei ontem e hoje estão: uma ambulância do SAMU abandona um paciente na calçada de uma rua em uma cidade do Rio de Janeiro – em sua defesa ele disse que não havia vaga na Unidade de Pronto Socorro; enquanto o Rio de Janeiro sofre uma crise no sistema de saúde, o Ministério Público teve cortado o se acesso aos dados da Receita Estadual que mostram os grandes devedores do Estado (entre eles, o fabricante da cerveja Itaipava, a cerveja que o ex-presidente veio inaugurar em Igarassu). Ficamos sabendo que a lama de tóxicos, jogada no Rio Doce, por irresponsabilidade da mineradora e dos que governaram Minas Gerais com o seu apoio, está a destruir as praias do Espírito Santo e aproximando-se do Arquipélago de Abrolhos. Este ano vem com tantos rescaldos do que ocorreu em 2015 que ainda teremos a confirmação de muitas questões ainda pouco esclarecidas. Surpresa foi, sem dúvida, ouvir a presidente afirmar que o seu governo errou por não ter compreendido a profundidade da crise em 2014. Assim, temos a intuição que, em algum momento do futuro, irão dizer que foi uma surpresa para os atuais governantes do Brasil a situação do Rio São Francisco, transformado em grandes lagos antes mesmo de completar-se o processo de transposição do Rio da Integração Nacional.

Um rio que continuará a crescer é o do sangue produzido pelos afluentes da intolerância cultural de todos os matizes: político, religioso, linguístico. Esses afluentes são vários, ricos em igarapés e estão às duas margens, à direita e à esquerda. E, infelizmente, neles há muitos barcos com comandantes de pouca instrução e de instrução elevadíssima. Esses afluentes são alimentados com o ódio da ignorância e com o ódio do conhecimento organizado. E também com o soro da dissimulação e da indiferença. Tem sido assim ao longo da história e, ainda por algum tempo mais será assim.

Contudo, continuaremos a remar contra os ódios até que os rios voltem a correr como os quatro rios primordiais. Essa é a nossa tarefa.

Revisão do ano – 1

sexta-feira, dezembro 25th, 2015

Aproxima-se o final do ano e começamos a refletir sobre o que os ocorreu fazer e sofrer nesse período de 365 dias.
O catolicismo tradicional ensinou muita gente a fazer Exame de Consciência, normalmente feito antes de uma confissão ou mesmo diariamente antes de dormir, uma prática pessoal que, levada a sério, poderia fazer a pessoa melhor, pois ela aprende a comparar-se consigo mesma, e conhecer-se. Depois, um catolicismo mais social, especialmente o praticado pelos militantes da Ação Católica, praticavam a Revisão de vida, que era mais coletiva, embora as perguntas fossem dirigidas também ao indivíduo. Naquele período começava-se a praticar a Análise de Conjuntura, um exame mais das ações da sociedade que as ações dos indivíduos. Tomava-se um caminho mais político, que auxiliava a compreender as mudanças ocorridas no curto espaço de tempo, que não afetavam à estrutura social, mas abria sendas para o entendimento do que fazer quase semanal, ajudava a entender os movimentos dos autores sociais.

Para os militantes da Ação Católica o modelo era o Ver (os acontecimentos da sociedade), Julgar (a partir da palavra de Jesus) e Agir (compromisso de ação para modificar a situação). Muitos se esquecem de lembrar, ou não sabem que esse modelo foi criado pelo jovem Padre José Cardjin, quando juntava os operários na sua paróquia na Bélgica do início do século XX, no início da Juventude Operária Católica, não simpatizada pelos bispos daquele país, mas assumida como mediação junto ao mundo, pelo papa Pio XI, o papa da Ação Católica. Essa ‘revisão de vida’ e proposta de ação auxiliou bastante a caminhada da Igreja na segunda metade do século XX, influenciou o comportamento de clérigos e leigos da Igreja católica e, sem dúvida, formou muitos para o exercício responsável da atividade profissional que vieram a exercer na sociedade. Esse hábito de reflexão (voltar-se para si) constante chegou ao Concílio Vaticano II pela ação de muitos prelados que viveram, com os leigos de sua diocese, o exercício cristão e democrático de avaliar a sua existência, as suas ações, seus compromissos para as mudanças sociais. No Brasil e na América Latina, bem como em outros continentes, as Comunidades Eclesiais de Base – CEBs aderiram ao método que também se popularizou fora dos limites católicos e eclesiásticos, neste último caso modificando a referência teórica, dependo do grupo. É assim que caminha a humanidade, grupos apropriando-se das boas iniciativas de outros grupos, desde que seja um ganho para todos. Foi assim que a festa romana de 25 de dezembro, dedicado à ao Sol Justiça passou a ser dedicado à lembrança do nascimento daquele que veio, para os seus seguidores, esse sol: Jesus, o Cristo. Não há nada de vergonhoso nessa apropriação cultural e re-significação, mesmo para um comunista ateu, seguidor de uma ideologia que é, em parte, decorrente dessa busca de justiça.

Este final de 2015, entre outros temas vividos, apresenta-se o a intolerância que parece ter crescido à medida que descobrimos e afirmamos nossas diferenças de tal maneira que muitos correram o risco de esquecer o quanto temos de semelhança e, ao agir dessa maneira tornaram-se violentos na defesa de suas diferenças. Assistimos isso em relação às grande religiões e aos pequenos grupos religiosos; nas nações e nos pequenos grupos sociais e em defensores deste ou daquele partido e, até mesmo na relação entre poetas e seu público. A superação dsese comportamento odioso, ás vezes assimilado e praticado sem consciência, deve ser um dos compromisso que os indivíduos e os grupos sociais devem assumir para o ano de 2016.