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Drama 18 – Hiroshima, Xingu e Casaldáliga

quinta-feira, agosto 6th, 2020

É madrugada do dia 6 de agosto, setenta e cinco anos depois da explosão de uma bomba sobre a cidade de Hiroshima, no Japão. Naquela manhã cerca de 80.000 pessoas morreram imediatamente após a passagem do Enola Gay. Três dias depois, o Bocks’Car lançou outra bomba sobre Nagasaki, e 40.000 pessoas tiveram o mesmo destino. Assim terminava a Guerra do Pacífico e tinha início a Era Atômica, uma era na qual todos os habitantes da terra podem ser evaporados instantaneamente, as civilizações destruídas, pois elas só existem se os homens existirem. Neste 6 de agosto, um vírus que parece ter chegado no Brasil no final do ano 2019, provocou a morte de 90.000 pessoas e, ao término do mês de agosto, possivelmente terá matado cerca de 120.000 brasileiros. Não foram mortas instantâneas, como as que ocorreram no final do Império Japonês, forçando o imperador admitir         que não era uma divindade. As divindades morrem quando expostas ao público, perdem suas forças quando deixam de ser mistério. Ao longo da jornada, os homens tiveram muitos deuses e ainda os têm, mas eles perdem com a racionalidade das bombas. As bombas são racionais, os deuses, seus crentes e os vírus não o são.

No  começo dessa madrugada, um historiador lembra-me que em 1960, “pela primeira vez, em toda a história do Brasil, um candidato da oposição ganhou uma eleição para a chefia do executivo”, seu nome era Jânio Quadros, governou com minoria no Parlamento, pois quatro quintos dos parlamentares estavam ligados à eterna situação que governa o Brasil desde sua fundação: a defesa da propriedade da terra para si. Esses parlamentares ficaram bastante surpresos quando, por decreto, Jânio Quadros criou, em 14 de abril de 1961, o Parque do Xingu, a primeira demarcação de terras indígenas da história republicana. Foi uma mexida na tradicional política de controle de terras. Um dos grandes sucessos do carnaval de 1961 foi uma marchinha que dizia: “eu não quer colar, índio quer apito”, uma mostra de como a questão era de conhecimento geral.  Começava um novo tipo de barulho. Em agosto o presidente disse que não suportava as pressões de “forças ocultas” e renunciou. Então, quarenta anos depois, a floresta amazônica arde em chamas, o Pantanal arde em chamas, terras indígenas demarcadas são invadidas, motosserras são acionadas e o chefe do executivo nacional tenta passar uma lei que proíbe fornecer água potável, atendimento médico aos índios atingidos pelo vírus que tem matado mais pessoas que as bombas sobre o Japão. A racionalidade de Truman, que o levou à decisão de jogar à bomba sobre o Japão para pôr fim ao conflito, ainda que isso promovesse tantas mortes, é semelhante à decisão do presidente do Brasil a negar água e atendimento à saúde aos índios: é uma questão de gasto, uma questão econômica.

É essa racionalidade econômica que tem impedido a expansão do saneamento básico: fornecimento de água, recolhimento de lixo e esgoto, para todo o país, para toda a população. Nota-se que o vírus Corona 19 mata mais nos lugares onde não há a oferta e uso desses bens sociais, embora sejam as pessoas que moram nesses locais, os que trabalham e vivem pelo pão diário. Os que sempre estão governando fazem com que seja sempre baixo o pagamento do trabalhador. O mesmo arrocho salarial que vem sendo posto aos trabalhadores brasileiros desde sempre, vem se confirmando com a aprovação das atuais reformas econômicas e sociais, sempre em detrimento do trabalhador, pois a razão sempre aponta que o sucesso é o acúmulo de renda, é ser participante dos clubes dos 20, dos 15, dos 9, dos 5, dependendo do grupo que represente, em determinado momento, o interesse dos que sempre governam.

6 de agosto de 2020, o número de mortes pela Covid 19, no Brasil, ultrapassará 95.000.

Enquanto isso, está vivendo seus últimos dias o primeiro bispo da Prelazia do Alto Xingu, Dom Pedro Casaldáliga, morre de uma vida gasta na defesa dos mais pobres, dos brasileiros roubados de seus direitos básicos.

PS. Historiador Jorge Caldeira, História da Riqueza no Brasil; Haroldo Lobo é o autor da marchinha Índio quer apito.

Setenta anos depois :Humanos, não deuses

domingo, agosto 9th, 2015

São sete décadas do momento em que o homem testou, efetivamente, o seu potencial de destruição. A brincadeira de ser como uma divindade grega que, de sua residência olímpica, observa os humanos a moverem-se, a angustiarem-se nos afazeres cotidianos para juntar pedaços de vida e ofertar a quem os domina. Sete décadas do acontecimento duplo, Hiroxima e Nagasaqui, o teste e sua confirmação de poder sobre a vida e talvez sua inutilidade.

Após milhões mortos em campos de batalhas, nas cidades bombardeadas, nos campos de concentração de gente juntada para experiências e finalizações, a brincadeira de endeusar-se, de fazer-se deus continuou. O que ocorreu no arquipélago japonês não foi o final da guerra, mas uma nova etapa da autodivinização do homem, mais uma etapa na superação dos escrúpulos. O que antes era prerrogativa dos que se diziam, e foi reconhecido, como filhos de alguma divindade, o poder de terminar a vida de outrem, agora e cada vez tornar-se-á mais comum. Comum no sentido de que qualquer um passa a ter o direito de vida e de morte.

No intuito de estancar essa correnteza, alguns anos depois, foi proclamada a Declaração Universal dos Direitos dos Homens. Busca-se, naquela declaração, evitar que os estados, seus gestores, ajam voluntariosamente e destruam o conjunto dos seres humanos. A Organização das Nações Unidas, apesar de nascerem com o germe da separação, da discriminação, compreenderam estar-se em novo momento da humanidade e se tornava necessário impor limites ao que parece ilimitado. Se na tradição judaica foram necessários 10 mandamentos, a ONU consagrou três dezenas. A explosão das bombas aliadas em Hiroxima e Nagasaqui e a declaração Universal dos Direitos Humanos são dois momentos de um só drama, de uma tragédia: como ser criatura e criador simultaneamente? Como dar-se a liberdade de matar, destruir e, ao mesmo tempo, ser guardião da vida? Como preservar a vida e cultivar o bem quando, sem cerimônia se aceita a banalização do mal?

Aprendizes na arte de usar os instrumentos que criou, e sabendo do perigo que é disseminação do conhecimento que leva à destruição da vida, cuida-se de evitar seu uso, mas não de evitar a morte controlada. Como nos tempos de outras civilizações, os Estados e seus controladores, continuam a decidir como deve ocorrer o curso da vida. Aos comuns são permitidas brincadeiras de pequenos poderes.

Quase sempre colocamos a nós mesmos no Olimpo, cuidamos de assistir ao passar dos tempos e observar as mudanças conjunturais, uma vez que mudanças estruturais pouquíssimas gerações tiveram esta oportunidade e pagaram com muito sangue tal privilégio. Mas fazemos a crônica dos acontecimentos e, cultivamos a ideia de nossa divinização. E parece ser este nossa situação, a situação dos Hércules e semelhantes: não mais seres humanos e jamais, como eles, seremos deuses.