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Carnaval – Alargamento do mundo –

domingo, fevereiro 7th, 2016

Interessante como nos colocamos como centro da vida. Não que o sejamos, mas devemos fazer parte desse núcleo que parece decidir tudo. A maior parte dos nossos amigos, assim como nós mesmos, são o centro do mundo que vivemos, ou do mundo que nos cabe viver e decidir, ao lado e dentro de outros mundos e outras decisões. Deve nos parecer claro que não afetamos o mundo tão fortemente como desejaríamos e julgamos. Nosso espaço de influência é bem pouco, pequeno e, quase sempre, nos vemos impotentes aos acontecimentos.

Antigamente, uma vez por ano a comunidade se reunia e celebrava o carnaval. Extrapolava-se em todas as direções. Os que dirigiam a grande sociedade escondiam-se em máscaras para dar-se o desfrute de pequenas emoções e sentirem-se vivos, para além de tomar decisões sobre guerras, quem fica vivo ou quem fica morto. Foram famosos os bailes renascentistas e todos os demais para onde afluíam os poderosos a tentar relaxar das suas “responsabilidades”. Eles também viviam e, ainda hoje, vivem em seu mundo à parte, separados dos demais mundos que sua vida afeta. Faziam seu carnaval nas salas de seus castelos, em espaços preparados para tal. Louvavam, também, a vida. Enquanto isso, fora dos muros, outros mundos faziam seus carnavais, cada um segundo as suas possibilidades e as possibilidades de suas castas.

Os tempos da indústria permitiram a um maior número de pessoas criarem seu próprio carnaval, antigamente previsto pelas religiões. A indústria precisa vender para viver e, o prazer de sentir poderoso pode ser vendido a preços variados, dependendo do poder de compra de cada um. A rua é o caminho de todos cotidianamente, mas dentro de regras, limitadas pelas calçadas, velocidades, atividades de produção e comércio. Entre nós, há muitos que não usam as ruas durante o ano para as atividades comuns da sociedade. Seus mundos geográficos são diminutos, sua vizinhança é pequena, seus contatos são repetitivos. Não podem andar muito, não pode ver muitas coisas, exceto pela caixinha mágica colocada em local central da casa.

O Carnaval é um momento especial para experimentar novas sensações e sair de casa, da sua rua, do seu bairro e, por algumas horas sentir-se senhor de espaços que dominam e determinam o comportamento. Por isso esse rapaz que observa o mundo pela janela do ônibus, juntamente com seus amigos, estão ansiosos para saber se ainda estão em Olinda ou no Recife. Descem do coletivo, que veio barulhento e alegre, e não sabem em que direção devem ir para encontrar o Galo da Madrugada. E já são onze horas. E seguem uma multidão em direção de algum ponto e encontram outros que parecem estar voltando. Finalmente vêm o Galo sobre a ponte e apressam o passo para que ele não lhes fuja. E vão pelo centro da avenida, hoje sem carro, com policiais que garantem que os automóveis não irão lhe perturbar. A polícia hoje não lhe afronta e eles seguem dominando o mundo, o seu mundo alargado nesse dia específico, este sábado em que fará parte do “maior clube de máscaras do mundo”. Sim, agora ele faz parte do grupo que decide e sorrir embriagado, ainda não do álcool que carrega em suas mãos, mas do orgulho de estar em um outro mundo, com todas as gentes seguindo os seus passos.
‘De chapéu de sol aberto pelas ruas, eu vou
A multidão me acompanha, eu vou
Eu vou e venho de onde eu não sei
Só sei que trago alegria prá dar e vender
…….”

Carnaval: o cheiro do povo e o povo dos camarotes

quinta-feira, fevereiro 4th, 2016

O Carnaval que começaria no próximo sábado, conforme uma tradição, está ocorrendo a pleno vapor, de acordo com a nova tradição iniciada na segunda metade do século XX, quando nossa sociedade buscava encontrar uma maneira de escapar da repressão política imposta pelos civis e militares a partir de 1964. O protesto musical e o deboche dos costumes foi um dos caminhos encontrados para diluir o mecanismo repressivo. O golpe interrompeu a criação da alegria, amorteceu muitas utopias, milhares de desejos. O povo parecia ter desaparecido, mas nos subúrbios continuava a existir o processo de criação do povo, de manutenção de suas alegrias. Esse processo parece ter acontecido em todo o país. Apenas nas pequenas cidades e nos subúrbios das grandes, é que o carnaval, a alegria popular mantinha-se.

“Os anos setenta foram muito duros, para os pobres que empobreciam com a politica do arrocho salarial, e para a classe média, que ainda corria atrás do “corcel cor de mel”, mas foram também o início do processo de reconstrução da alegria. O ano de 1972 trouxe o filme de Cacá Diegues Para quando o carnaval chegar que parece ter tocado na letargia. Lembrança rápida nos chega a Banda de Ipanema em 1973, o Nóis sofre mais nós goza, em 1976, o Galo da Madrugada em 1977. Em Olinda, naquele 77 ocorreu a vitória de Germano Coelho e reinvenção do carnaval de rua de Olinda, experimentado ao longo do ano com o Forró Cheiro de povo. Voltava a irreverência no carnaval. Uma explosão de criatividade foi acionada e muitos blocos foram criados e tomaram as ruas das cidades, ofuscando os bailes de clubes e os corsos dos automóveis – palanques ambulantes de exibicionismos.

Mais uma vez o povo recriou a rua, como o fizera nos primeiros anos da República Velha, o que gerou a criação de instituições para ‘organizar’ o carnaval, orientar os desfiles dos blocos e escolas de samba. Processo semelhante ocorre nesses anos finais da ditadura, com a criação de uma política de incentivo ao turismo – o que é muito bom pois leva o brasileiro a conhecer o Brasil ao menos no período do mundo de ponta cabeça – mas que foi, aos poucos, domando a alegria livre em espetáculo para os visitantes ou, o que pior, para as elites locais, que passaram a transferir os camarotes dos clubes para as ruas, estreitando o espaço para o largos movimentos da alegria que, no carnaval é a vitória contra a mesmice da exploração diária. Novas formas de controle vieram. Cordões de isolamento, passarelas que pretendem tornar o povo observador, admirador da alegria e não o fruidor de sua espontaneidade. Agora é espetáculo o carnaval. O Galo da Madrugada agora sai às dez horas da manhã e, para ele ser o espetáculo para o mundo via televisão, as ruas são fechadas para os “blocos de sujo”; as agremiações que se formam sem pretensões outras que a celebração da amizade e o conforto de zombar do desconforto das roupas europeias em clima tropical. Pelo contrário, agora, até os maracatus de baque solto, criação e caboclos, gente de origem silvícola, de índios da terra, são obrigados a desfilarem como se fossem uma corte europeia do século XVIII.

E se o carnaval continua além da Quarta Feira de Cinzas e, parece-me para recuperar o tempo que perde nos três dias tradicionais em desfiles para agradar os poderosos que só gostam do povo abaixo dos seus camarotes. Eles, como aquele general presidente, preferem o cheiro dos cavalos, não gostam do cheiro do povo.