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Que País é este?

terça-feira, julho 7th, 2015

Todos nós somos a idade que vivemos e, entretanto, às vezes, gostaríamos de ter outra idade, sermos de outro tempo. Ficamos eternizados por algum momento, enquanto os outros, os que ficarem depois de nossa morte, lembrarem-se de nós. Os tempos atuais, com essas tecnologias que foram sendo criadas nos últimos quinhentos anos dão-nos uma eternidade que a maioria absoluta dos homens jamais teve. Jamais saberemos as angústias amorosas dos adolescentes romanos, egípcios, caldeus, assírios, os do Império do Meio e dos que morreram nas lutas dos shoguns. Podemos até imaginar a angústia dos jovens toltecas sendo levados para o sacrifício da primavera, mas não registro algum de suas palavras ou pensamentos. Colocamos neles as nossas imaginações para adivinharmos os seus pensamentos e temores. Assim os eternizamos no anonimato. Também anônimas e eternas escravas de Sara, de Raquel e de Lia, que lhes deram, e aos seus maridos, os filhos que não puderam gerar. E o que pensaram elas? Não saberemos. Das suas amas sabemos o nome e algumas palavras que, imaginaram os autores da Bíblia, disseram elas em algumas situações.

A escrita começou a tornar alguns dos homens e algumas das mulheres eternas e, nelas e neles, todos ficaram eternos nas lembranças que foram escritas. Assim ocorreu em muitos lugares do planeta. Certo que alguns procuraram se eternizar em construções, como as pirâmides, os obeliscos, estátuas construídas nas montanhas, eternizando e divinizando um homem enquanto símbolo do lugar onde as pessoas desejam chegar. Mas nem sempre é o homem que é lembrado e sim um dos momentos por ele vivido. Até que a maioria já nem sabe se está vivo ainda, ou de sua existência.

Todas essas palavras e pensamentos brotaram ao tocar em um livro que eu comprei em sua segunda edição, no ano de 1978. Millor Fernandes dedicou o livro Que país é este? a Carlos Frederico Polari de Alverga, então com 9 anos de idade, o seu “melhor amigo na esperança de que um dia não precise fazer a pergunta.” A pergunta é o título do livro, foi uma resposta à pergunta feita por um presidente da Aliança Renovadora Nacional, partido do “sim senhor” na ditadura civil-militar, surpreso por a oposição não acreditar que Geisel iria promover a abertura: “Que país é esse em que o povo não acredita no calendário eleitoral estabelecido pelo próprio presidente?” Foi uma surpresa para quem presidia “o maior partido da maior democracia do Ocidente” que o povo não reconhecesse as benfeitorias da ditadura. Algum tempo depois Geisel fechou o Congresso Nacional e criou o Senador Biônico. Pois bem, o piauiense que veio a ser escolhido por Ernesto Geisel para governar Minas Gerais (Francelino Pereira chegou à Belo Horizonte ainda menino, migrante com a família), recentemente esteve ao lado de Luiz Inácio Lula da Silva no enterro de José de Alencar, o vice do “presidente operário”.

Neste dia 7 de julho completa 25 anos da morte de Cazuza. São muitos os jovens e adultos que, julgam essa frase ter sido formulada pela primeira vez por Renato Russo em famosa música, escrita em 1978, mas só gravada em 1987. Também Affonso Romano de Santana, em 1980 lançou livro de poemas com o título “Que país é este e outros poemas”.

A pergunta continua fazendo sucesso, pois, parece, ainda não sabemos que país é esse. Também não o sabia Machado de Assis que assim escreveu: “Em que tempos estamos? Que país é este? Pois um funcionário público, elevado às primeiras posições, – não para a satisfação da vaidade, mas para servir o país – responde daquele modo a uma intimação grave?”

E continuamos a verificar que alguns alcançam as mais altas funções públicas e, contrariamente do esperado, servem-se da coisa pública para o contentamento de suas vaidades.