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Festas marianas e as festas das mulheres

segunda-feira, maio 12th, 2014

Festas marianas e as festas das mulheres

Severino Vicente da Silva

Maio de 2014 já superou o dia dedicado às mães, nesse mundo de amores de datas marcadas no calendário das associações de comércio varejista. Tem-se uma medida dos amores relacionada com os relatórios de vendas. Vejamos como será o dia dos namorados, logo ali, no mês que segue a maio. Ao menos aqui nesta parte do mundo em que Santo Antonio cuida de substituir São Valentin. Mas os nomes dos santos tendem a desaparecer, quase são apenas vestígios; assim maio já não é mais mencionado como “mês das noivas”, tempo em que eram celebrados os casamentos, tempo próprio na primavera do Hemisfério Norte. Hoje os casamentos são mais comuns nos meses do recebimento dos salários extras, dos dividendos. As festas são caras. Mas os mais pobres continuam a colecionar dádivas de suas patroas para a formação do enxoval. Casamento continua sendo, para os mais pobres, a possibilidade de vencer as dificuldades das suas vidas, obrigados a seguirem os conceitos morais e sociais sem, contudo, terem condições de promover a festa que socializa o compromisso. Mas esse compromisso, como escreveu o poeta, tem a eternidade do tempo possível para quem possui pouco controle sobre a sua existência.

O mês de maio começa com o dia de louvação ao trabalhador. Não parece ser mais o mês de Maria, que ao final do mês costumava ser coroada rainha. Não mais se vive no tempo das monarquias. Maria, embora continue Rainha, é mais a Companheira das caminhadas, é a Maria que carrega as marcas de ser mulher: às vezes enaltecida por sua obediência e, também por sua capacidade de colaborar com os planos divinos e humanos. A extensão e o significado dessa colaboração também têm sido entendidos de novas maneiras. Ao final do mês de Maio, quando ocorre a coroação da Rainha dos Anjos, é também a festa da mulher que visita a prima Isabel, também grávida. A Rainha vai servir à prima, trabalhar com e para prima, com o objetivo de diminuir as preocupações que acompanham o processo de renovação da vida. Essas visões que faziam de Maio o mês das mulheres, celebrações de uma época de hegemonia religiosa cristã (foi no século XIV que os franciscanos começaram a celebrar a Festa da Visitação), agora a mulher é homenageada, na sociedade que quer negar relações com a religião, no mês de Março. Inversão das festas, criação de novos significados para os símbolos permanentes, ou sua destruição pelo esquecimento. Poucos se lembram de que a “pomba da paz” é a redução dos dons do Espírito Santo.

O mês de maio é uma oportunidade para refletir sobre as novas interpretações que são feitas das tradições; vivemos em uma sociedade que parece pretender tornar vestígio tradições religiosas que moldaram o nosso mundo cultural. Uma questão que se põe é se ainda seremos depois de destruir o que nos forma.