Posts Tagged ‘Família’

Álbuns de família e jornais da família

sexta-feira, outubro 9th, 2020

Ler os jornais diários é como folhear um álbum antigo de fotografias de família, observamos como o tempo tem passado e como não o percebemos. Claro que a fotografia de meu avô, parado, com seu terno branco e chapéu criando condições para que vejamos o quão grossas eram suas sobrancelhas, é antiga, tomada antes do meu nascimento, pois que ele já havia morrido quando nasci, entretanto ele está vivo e carrego comigo o seu nome e quase tenho o sobreolho tão espesso quanto o dele. E quando olho a foto de Vó Alexandrina, quase sinto o balançar da cadeira, no fim da tarde, na calçada de sua casa em Serraria. Eu era tão pequeno, tão menino, faz tanto tempo, mas ela está viva. Claro que faltam algumas pessoas neste álbum, pois que elas quiseram sair e suas imagens e lembranças se apagam lentamente. Exigem até um esforço para lembrá-las no tempo em que me aceitaram como parte de sua família. Assim, são os jornais. Procuramos neles o que podem nos dizer de nossa família social, mas vemos apenas sombras.

Ler os jornais, do dia ou dos anos imediatamente passados, nos impedem de lembrar algumas passeatas, algumas listas coloridas nos rostos, alguns sorrisos que anunciavam uma possibilidade de Brasil. Mas as cores desbotaram muito rapidamente. Mais vivas estão as imagens da passeata dos Cem Mil, ali, no Rio de Janeiro. Eram rostos sérios, carregavam o peso da morte de um estudante, e ela simbolizava a morte de uma etapa da vida política brasileira. Na foto, que foi capa de revista, não aparecem negros. “O ano que não acabou” ainda não percebera, ao menos os jornais, que o estudante assassinado não era branco. Ali, naquele ano morria os Anos Dourados, começavam os anos em o chumbo começou a ceifar a vida de jovens filhos de “gente de bem”. Lembro de um padre, vigário geral, escandalizado porque haviam prendido, talvez matado o filho de uma ilustre família católica mineira (Mota Machado?), gente de estirpe. Ainda não haviam percebido que em 1964 houvera uma luta pelos direitos civis nos Estados Unidos e, nos bailes se cantava “as viuvinhas do artista James Dean”. O Brasil via morrer uma juventude que, segundo os governantes, deveria estar nas academias militares e nos bailes de formatura, ainda não percebera mudanças na sociedade. A morte dos universitários provocou a indignação e começou o declínio do poder que tudo podia. Não por considerar os brasileiros, mas porque tinham que salvar esses jovens da morte e do comunismo, mesmo que tivessem que matar alguns. Também pensaram assim em relação aos indígenas, e construíram a Transamazônica, escavaram a Serra Pelada, destruíram a Carajá enquanto o poeta melancólico dizia que “Itabira era um retrato na parede”. 

Os jornais diários dizem isso, hoje: Jovens oficiais dos anos setenta, hoje  generais, vingam-se, chamando de heróis os que mataram os jovens da elite que apressavam o fim da ditadura. Eles voltaram com o apoio dos que não entenderam que a vida em  liberdade está sempre em risco. Na época em que os atuais generais eram capitães costumava-se repetir que ‘o preço da liberdade é a eterna vigilância’. Os que deviam vigiar, viajaram no que parecia o poder, finalmente. Os jornais de hoje mostram que a sociedade não foi vigilante. Entre solipsismos e relativismos, com as drogas, as novelas, os filmes, as graças, as viagens internacionais, o degustar as belezas turísticas do país sem olhar o povo que vivia por ali; tudo virou um culto do prazer individual, da riqueza para si, de uma divindade que só agrada.

 Os jornais de hoje mostram que os poderosos do dia cultivam o temor de forças externas ao mundo que querem construir. Agora retomam os discurso de que forças estão sempre a conspirar contra os ideais dos capitães que foram impedidos de serem torturadores, como Ustra. De certa forma eles têm razão, pois com as torturas perderam o apoio externo que recebiam. A ditadura que permitiu Ustra começou a desmoronar quando franceses começaram a envergonhar-se do que fizeram na Argélia e quando os norte-americanos sucumbiram no Vietnam e passaram a acossar os antigos aliados, exigindo que deveriam mudar. Não mudaram, mudaram-se, mas parece que retornaram com maior cinismo e prepotência, de novo com o apoio da ignorância externa e da ganância interna. Bem que podemos

Os jornais de hoje mostram que esse passado está vivo. Morto, parece estar o presente, com os zumbis afogados em filmes que cultuam a vitória do mal, pastores estupradores, pastoras assassinas, padres pedófilos, médicos doentes, espiritualistas acumuladores, juízes venais, tudo facilitando a ditadura disfarçada. Sim, aprenderam que o pão distribuído pode parecer justiça social enquanto se produz famintos. E, contudo e por isso, aprova-se o governo, como se aprovava o governo Medici.

O ano que não acabou, só acaba se houver mudanças de objetivos, para além dos limites aos quis nos acostumamos usufruir envolvidos em questiúnculas que não permitem atentar aos perigos a que estamos levando a sociedade a natureza. Famílias que não se cuidam, desaparecem porque permitiram seus membros desaparecessem. Uma família deixa de existir quando coloca-se o interesse de um membro acima daqueles valores que construíram e mantiveram a família unida. Cada geração toma a decisão de continuar ou não a família, a tradição forjada pelos antepassados. É evidente que nem todos os valores vividos pelos antigos merecem ser cultivados e, talvez, na escolha dos valores, os que levariam o desaparecimento familiar devem ser abandonados. Esses devem ser chamados de desvalores. Em nossa sociedade são muitos os desvalores a serem esquecidos: o racismo e seus corolários: a mentira, a falsidade, a inescrupulosidade, entre outros. Mas essas são as cores mais vivas do jornais do dia, essas têm sido as notícias mais comuns em nossos dias. Nossa sociedade está murchando e as cores que alegravam a face de uma geração desbotou, foi esquecida ou vendida e tornada sem esperança.  

O poeta nos ensinou que Raimundo, para o mundo era só uma rima. Agora devemos entender que mourão embora pareça, nunca rimou com solução. Exceto para prender a boiada e matar os bois.

Em busca da liberdade e autonomia

domingo, novembro 30th, 2014

 

 

Somos pais em busca da liberdade e autonomia, nossa e de nossos filhos.[1]

Severino Vicente da Silva[2]

Mª Lana Monteiro[3]

 

Quando colocamos nossos filhos para iniciar sua convivência social nesta escola, o fizemos como resultado de reflexão: uma escola que pareça com a sociedade que desejamos para nós e nossos filhos. E nisso vai nossa responsabilidade e a responsabilidade da escola. E escolhemos uma escola que nasceu nos anos em que os grande educadores eram Carl Rogers (1902-1987), Ivan Illich (1926-2002) e Paulo Freire (1921-1997). Eles são conhecidos como educadores para a liberdade. Vamos conversar em torno de Paulo Freire.

Paulo Freire nasceu no Recife e participou intensamente da vida cultural local nos anos cinquenta e sessenta, extrapolando depois de 1964 para os diversos continentes do planeta. Seu escrito mais famoso foi a “Educação como prática da liberdade” (1959), pouco lido atualmente, pois é um livro de reflexão filosófica a partir da realidade que ele conhecera e decidiu agir para transformá-la. Professor, ele compreendeu que a educação não ocorre apenas na escola, mas em todos os ambientes da vida humana: em casa, no trabalho, no lazer, nas igrejas etc. Assim ele definiu que todas as pessoas são educadoras, inclusive os professores, estes especializados na transferência dos conhecimentos científicos sistematizados pela ciência. Mas a educação não é apenas o que se tem na escola, por isso é que Paulo Freire diz que todos os humanos são educadores. Nas sociedades que baseiam na escravidão e que pretendem manter o sistema de escravidão, a pedagogia, ou seja, o caminho de transferência dos saberes – os comuns e os científicos – é uma pedagogia que leva à servidão, à opressão. Daí a reflexão no livro a “Pedagogia do Oprimido” (1968), no qual ele explica os meios que são utilizados para manter as populações em uma situação de opressão, na aceitação da opressão e da falta de liberdade como uma situação natural. Ao mesmo tempo mostra caminhos possíveis para sair da opressão e construir um caminho para a liberdade.

No mundo industrial no qual Pernambuco, o Nordeste e o Brasil estava sendo inserido nos anos cinquenta, Paulo Freire chamava atenção de que o domínio da leitura, da escrita e da fala era o caminho da liberdade, daí ele passou a organizar uma técnica com o objetivo de facilitar a alfabetização, o hoje conhecido como “Método Paulo Freire de Alfabetização”, que é um produto de sua reflexão filosófica no caminho da liberdade. Infelizmente as pessoas passaram a usar o ‘método’ sem a filosofia de Paulo Freire. Pouco antes de sua morte ele produziu o que forma a sua trilogia filosófica, e que só foi publicado pouco antes de sua morte, a Pedagogia da Autonomia (1996).   Não liberdade sem autonomia, a capacidade de decidir seu destino, suas ações diárias. Pois liberdade sem autonomia gera opressão, pessoas dependentes e, que podem permitir que opressores surjam, cresçam e dominem a sociedade, pondo fim à liberdade.

É esse anseio de liberdade com autonomia que reúne pessoas para refletirem sobre suas vidas, no intuito de melhorar e aperfeiçoar a prática da liberdade, a educação para a autonomia. Por isso nos perguntamos como agir na espera do segundo filho? Qual o momento que a criança não deve mais usar fralda? Quanto tempo eu devo permitir, ao meu filho assistir programas de televisão? E quais programas? Quais tipos de música eu devo ter em casa, para ouvir e educar o ouvido de meu filho? Será que tenho sido presente na vida do meu filho, ou sou um pai ou mãe ausente? Como conter a agressividade de meu filho? E esse egocentrismo do meu filho durará quanto tempo? Essas e outras são preocupações saudáveis e demonstram o sentimento de responsabilidade familiar e social daqueles que fazem tais perguntas. Mas então é que ficamos no dilema apontado por Paulo Freire: como se dá a educação como Prática da Liberdade?

Como fez Paulo Freire, que aprendeu nos tempos de Juventude Universitária Católica – JUC, o primeiro passo é ver a realidade. E qual a nossa realidade? Como nossos filhos, nós somos animais racionais; animais com inteligência, com a possibilidade e capacidade de compreender o mundo; somos animais com a possibilidade e capacidade de modificar, refazer o mundo; somos animais com a possibilidade e capacidade de criar redes de relacionamentos, terminá-las e reorganizá-las.

Bem, somos animais, temos um corpo com uma infinidade de necessidades: necessidade de movimentação para encontrar alimentos; necessidade de repouso quando o cansaço chega após a movimentação; necessidade de alimentação sólida, líquida ou gasosa; necessidade de comunicar as descobertas e necessidade de receber informações sobre as descobertas dos outros animais; necessidade de excreção de gases, líquidos e sólidos que já não interessam ao corpo. Sim somos animais e possuímos corpos e quase nos esquecemos disso; quase nos esquecemos de que nossas lembranças e nossos aprendizados estão armazenados em nossos corpos e que nosso cérebro é uma matéria e funciona com redes e ondas; quase nos esquecemos que conhecemos o mundo com os sete buracos da cabeça e com os milhões de buraquinhos que formam nossa pele.

Por outro lado somos animais sociais, que só conseguimos sobreviver em grupos e, por isso, precisamos definir como nos relacionarmos em grupos. Foi para atender essa necessidade que nossos antepassados criaram normas de convivência, criaram os idiomas, as gramáticas, os demais códigos de comunicação, as formas de organização política, os instrumentos de trabalho, os meios de transportes, os sistemas religiosos, os sistemas políticos, etc. Olhando o passado verificamos que a maioria dos homens e mulheres estiveram em situação de dominação, em situação de servidão. E, em cada uma dessas sociedades existiram homens e mulheres que procuraram inventar a liberdade.  Assim também nós somos convidados a buscar a liberdade em uma sociedade que nos oprime com obrigações falsas, como as do consumo e ostentação. As campanhas publicitárias estão, a todo momento, a nos incitar hábitos de consumo como se fossem de primeira necessidade, a nos incitar a comprar carro novo ou vestuário novo com os quais impressionaremos os nossos vizinhos e colegas de trabalho, às vezes os humilhando e os forçando a endividar-se para concorrer conosco, assim como podemos nos ter endividados para mostrar o que somos ou fingimos ser. Programas de televisão nos dizem o que comer, como comer, onde comer. E somos levados a escolher o que escolheram para nós. Ficamos fragilizados de alguma forma e, em lugar de pararmos para perguntar: o que fiz para meu corpo esteja tendo essa reação? Foi algo que comi? Fiz mais esforço que o necessário? O que vem me causando essa tristeza? O que fiz para que meus sentimentos estejam tão embaralhados? Em lugar de buscar as respostas dessas e de outras perguntas semelhantes, vamos logo marcar uma consulta com o especialista médico, psicólogo para que eles nos digam o que fazer. Se formos aos especialistas, eles certamente nos farão as perguntas acima ou algo parecido com elas.

O mesmo ocorre em nossa relação com os nossos filhos. Ouvimos a opinião de outros sem prestar atenção à nossa própria opinião pessoal. Aos poucos vamos delegando à especialistas tudo que se refere à nossa vida e à nossa responsabilidade. Vamos perdendo a autonomia, o controle de nossas vidas. E é disso que trata a obra Pedagogia da Autonomia. Não é que não devamos procurar conselhos, informações com os especialistas, mas devemos ter o cuidado de, após ouvi-los assumirmos as decisões e o controle de nossas vidas! E assim saberemos como preparar nossos filhos para a vida na sociedade, transmitindo com tranquilidade os valores que vivemos e desejamos para eles e para o mundo no qual eles viverão, construído por eles, como nós construímos o nosso mundo a cada momento e a cada decisão.

 

Olinda, 29 de Novembro de 2014.

[1] Escrito para dia de estudo no ZAB, com os pais.

[2] Doutor em História do Brasil pela UFPE, Professor Adjunto do Departamento de História da UFPE, pai de Aluno no ZAB.

[3] Mestre em História do Brasil pela UFPE, professora da UPE , Campus Garanhuns.

Seu Crispim

domingo, junho 29th, 2014

 

Seu Crispim.

Para os netos que ele não conheceu

Os dias começam de modo semelhante: quando não está a chover os galos dos vizinhos anunciam que o sol já pode brilhar sobre a terra, logo em seguida alguns pássaros começam a chilrear. Em dias chuvosos o silêncio pode nos manter debaixo do cobertor por mais tempo. Mas se esse é o ritmo que a natureza parece querer repetir, ele tem o adicional da preguiça humana, ou esse lado animal da humanidade que se recusa a aceitar as obrigações culturais criadas de forma a garantir a sobrevivência pessoal e coletiva. Temos que nos levantar para trabalhar, não tanto pelo alimento imediato, mas pelo futuro que nosso cérebro concebe. E o mundo cultural, esse no qual nasci, herdou uma ideia de que devemos manter, ao menos, o rosto o rosto livre dos pelos. Claro que há, em ambientes que frequento, aqueles que cultivam a plena depilação, que deixa o corpo aparentemente com a juventude de um recém-nascido. E é no cumprimento desta pequena exigência da higiene diária que algumas pessoas que passaram em minha vida, no tempo de minha segunda formação, chegam à memória.

Uma dessas lembranças é Edwaldo  Gomes, vigário colado da paróquia de Casa Forte, no Recife. Eu o conheci aos dez anos de idade quando entrei no Seminário Menor da Várzea e ele era o Vice-Reitor, do reitorado do padre Zeferino Rocha. Uma vez presenciei uma conversa dele com um colega mais adiantado na idade que queria manter a barba e o padre Edwaldo o proibia, de modo simpático, dizendo que “os padres teriam um acordo com a gilete, por isso eles não usavam barba”. E realmente, nenhum dos padres que eu conhecia usava barba, exceto os capuchinhos, e por isso eram conhecidos como “barbudinhos”. Mas quando faço a barba a primeira e constante lembrança é de “seu” Crispim. Nos primeiros movimentos para trazer a espuma ao rosto, é Seu Crispim que eu vejo de várias maneiras.

Seu Crispim era o barbeiro que alugou um espaço, ao lado da mercearia de papai, em Nova Descoberta e, atendia a muitas pessoas, homens, jovens e crianças na sua barbearia. Ele sempre estava ocupado, tinha boa freguesia. Além de cortar seus poucos cabelos, papai sempre fazia a barba com seu Crispim. Sobre a mesa do barbeiro, à direita e sob o espelho, havia uma pequena taça com água e, nela, um caroço de macaíba. A macaíba é uma palmeira que dá um coco pequeno e redondo, hoje quase em extinção. O caroço da macaíba era usado para fazer a barba daqueles homens já envelhecidos e desdentados, para diminuir os sulcos, rugas da bochecha e facilitar o trabalho de seu Crispim.

Em 1957 tive meu fêmur quebrado em uma partida de futebol, que jogávamos, meu irmão Doutô, Burú, Tão e eu, em um terreno ensombrado por um pé de Barriguda, que fornece um tipo de algodão, outra árvore quase em extinção nos dias de hoje. Minha irmã Lia estava em um dos seus galhos, escorregou e caiu sobre mim, o que ocasionou todas as dores que sentimos após a sua queda. Mas essa é outra história, história anterior à “Lei da Palmada”.

Atletas daquele jogo: Burú era um vizinho que a vida nos separou e essa é a lembrança mais viva que tenho dele, formava dupla com meu irmão Doutô. Tão, com quem eu fazia a dupla, era Sebastião Tavares, que veio a casar com minha irmã Zefinha, era filho de Seu Crispim. A fratura de meu fêmur marcou parte de minha infância, pois fui levado ao Hospital Infantil Maria Lucinda, onde permaneci internado durante alguns dias. Saí de lá com gesso que protegia toda a perna e envolvia até o abdômen. Durante dois meses minha vida social ficou sendo acompanhar o movimento da mercearia de meu pai e a barbearia de Seu Crispim. Então foi que aprendi a jogar Damas, pois Seu Crispim mantinha um tabuleiro para seus fregueses ocuparem-se enquanto esperavam a vez de cortar o cabelo ou fazer a barba. Nesse período fui acometido pela “febre asiática” da qual escapei com doses diárias de penicilina. Seu Crispim, homem que me parecia brusco, sempre estava preocupado com o minha saúde, acompanhava meu pai na tarefa de aplicar-me injeção. As  conversas na barbearia giravam em torno da vida comum, do desempenho dos times de futebol. Seu Crispim era torcedor do Esporte Clube e meu primo, Manuel Lopes do Santa Cruz Futebol Clube. E eu acompanhava as discursões e me aperfeiçoava na arte de jogar Damas. Desse período veio o meu gostar do Tricolor do Arruda que erguia o Tri-Supercampeonato e, no ano seguinte, acompanhar a seleção Brasileira de Futebol, a seleção de Didi, Djalma, Vavá, Pelé, Garrincha.

Depois, não lembro quando seu Crispim morreu. Deve ter sido no tempo em que eu vivi no Seminário da Várzea. Anos depois, como passo de minha autonomia, aluguei o quarto da barbearia para ser o meu quarto de estudos. Hoje, lembro que só uma vez paguei para alguém tirar minha barba. Mas todas as manhãs eu lembro de Seu Crispim., que reclamava das caretas que fazia olhando o espelho enquanto ele cortava o meu cabelo.

Nova Vida,Valores que devem continuar

sexta-feira, junho 6th, 2014

Primeira semana de junho, não consegui  que as operadoras de telefonia me pusessem em contato com as minhas irmãs aniversariantes, Lia e Teca, que nasceram no mesmo dia, mas separadas em anos. Lia deixou de comemorar seu aniversário desde  a morte de João XXIII, ocorrida no dia 4 de junho.  Agora creio que ela deve retornar a fazer alguma festa, pois o papa de nossa juventude agora pode ser louvado publicamente como Santo da Igreja Católica Apostólica  Romana.  Teca está exuberante de felicidade, pois agora tem um neto, João Miguel, filho de Cristiano e Andréa, que logo será batizado na fé cristã, para a Glória de Deus.

Esta semana a minha mãe, dona Maria Ferreira, receberá uma homenagem na igreja Matriz da Paróquia Nossa Senhora de Lourdes de Nova Descoberta, a mesma matriz que ela ajudou a construir e fundar como paróquia no distante ano de 1959. Homenagem justa de seus irmãos de fé, muitos que viveram com ela a vida paroquial e alguns que só a conheceram nos últimos dias de suja vida na terra. Ela e meu pai, João Vicente, ensinaram-me a ser irmão de todos, de respeitar e amar as diferenças. Jamais discriminar por ser pobre, feio, rico, preto, branco, amarelo: todos somos filhos do mesmo pai.   Ensinaram-me a respeitar os mais velhos, ainda que julguemos que eles estejam errados; se eles nos indiquem que devemos seguir os caminhos  que nos afastem de Deus, não os seguimos, mas os respeitemos. Graças à minha mãe, que é a avó dos meus filhos e sobrinhos, sei que não podemos rejeitar alguém por ser branco, ou preto. E não foi necessária nenhuma lei além do segundo mandamento que está na Bíblia, a mesma que eu leio, a que é lida nos Encontro de Casais com Cristo, nos acampamentos de jovens cristãos, sejam eles promovidos por paróquias pobres ou por colégios ricos. O livro de Tobias nos ensina a cuidar dos mortos, e a respeitar os mais velhos. Foi por respeito ao seu velho pai Isaac que Esaú não se levantou contras seu irmão Jacó por ele ter se apropriado da benção que seria sua. Respeitar os mais velhos, defende-los contra a agressão de jovens irresolutos,  às vezes parentes que se deixaram guiar pelos não-valores, anteriores ao que chamamos de civilização. Pois aquele ou aquela que não respeita ou ataca  o outro por ser de estrutura débil, ter a pele diferente ou não pertencer ao seu grupo social é alguém que ainda está no mais inferior patamar da civilização.  Minha mãe, avó dos meus filhos e sobrinhos, é um exemplar humano que estava muito próximo do que chamamos santidade.

Sempre que nasce alguém na família, é bom lembrarmos dos valores que nossos antepassados nos legaram, a marca da família que quiseram construir e, então assumirmos,  mais  uma vez, o compromisso de fazer este mundo menos mesquinho, que a nossa mesa seja sempre como a mesa de Vovô João e Vovó Maria, sempre com espaço para quem nos encontra.

Meu pai

sexta-feira, maio 16th, 2014

Meu pai

Severino Vicente da Silva

 

Dezoito anos da morte de meu pai, o agricultor João Vicente da Silva. Começou sua vida em 1913, menino de engenho em Nazaré da Mata. Vivia no engenho e cedo aprendeu a cuidar da cana que não era dele, juntamente com seu pai e seus dezoito irmãos, todos eles filhos da mesma mulher, Maria Florinda. Não conheci o pai dele, José Vicente da Silva, que dizem ter sido um negro trabalhador, mas que teve a vida terminada antes de iniciar a minha. Meu pai tinha vocação para o comércio e conseguiu plantar no sítio além da macaxeira, o algodão e, comprava, dos vizinhos, algodão para levar até Timbaúba ou Limoeiro. O comércio é um mistério que se revela aos que dele cuida e a ele se dedica. Assim são os mistérios. Exigem dedicação aos que pretendem se iniciar e neles viver. Meu pai vivia no mistério da vida: cuidava das canas, foi ao comércio, bom na conversa e respeitador com quem convivia ampliou o terreiro do engenho e seu gênio o libertou da canga do trabalho alugado. Constituiu família com Maria Ferreira, jovem prendada e trabalhadora que vivia no sítio Serraria, perto de Campo Alegre, em Limoeiro. Fez família crescer  e sem abandonar a agricultura, tornou-se pequeno proprietário e pequeno comerciante. A seca de 1952 quase o levou à morte, enquanto via o sangue na urina. Curado sem saber a doença, migrou para o Recife, morador de Nova Descoberta, sonhou e cuidou para que seus filhos virassem “doutores”. Um foi para a marinha de guerra, uma filha começou a dar aulas no início da Fundação Guararapes, da prefeitura do Recife;  a administração da PCR ficou outra filha e outro filho. Recebeu a bênção bíblica de conhecer os filhos de seus filhos. Morreu, em meus braços, quatro dias depois que eu lhe disse que assinara contrato como professor mestre na UFPE. Vivo com ele em meu pensamento cada dia, agradecido por ter tido a bênção de ser seu filho. Seu trato com as pessoas, a honestidade de seus propósitos, a crença de que mais importante que os bens materiais eram os valores: honestidade, falar a verdade, sinceridade, trabalho constante, humildade sem submissão; ele sempre esteve aberto para ajudar e, tantas vezes enganado por aqueles que o procuraram, e sempre garantiu a liberdade de escolha de seus filhos, ainda que isso não fosse o exato sonho que ele sonhara. Meu pai continua sendo o meu herói, a mais próxima aproximação de Deus, junto com minha mãe.

A bênção papai!

Amigos – Amizade

domingo, janeiro 19th, 2014

Muito bom encontrarmos amigos, desses que ficaram arraigados no fundo da alma, que jamais ficaram longe, embora 17 mil léguas e meia nos separem fisicamente e mais que sete mil e sessenta dias nossos olhos ficaram sem vê-los. E retomamos conversas antigas e vivemos lugares que não mais existem e, entretanto os vemos e sentimos o sabor da pizza que nos alimentou faz quarenta anos. Bom encontrarmos esses amigos, que fizemos quando jovens, pois tínhamos tempos e desejos. As camaradagens depois dos quarenta são apenas coisas às vezes calculadas, racionais. Ao encontrarmos amigos quase nos tornamos humanos, sim, pois ser humano parece ser viver essa imensa tranquilidade de falar sem medo, de entregar-se ao outro sem julgamento, sem presunções. Encontrar amigos é ficar livre, caminhar para ser livre.

E foi assim que conversamos um pouco sobre tudo e sobre pessoas que nos foram caras e que sumiram nas esquinas da vida, das decisões, das indecisões, mas que estão lá dentro de nós e as temos vivas. Sempre as teremos vivas, pois jamais saberemos se morreram. Morreram conosco. E penso que nós morreremos quando elas morrerem. Nós não morremos quando deixamos de respirar, quando nosso cérebro parar: nós morreremos quando nossos amigos morrerem, quando aqueles que nos amam morrerem. Enquanto formos amados estaremos vivos, pouco importa se fomos, ou não, à Bagdá, São Lourenço da Mata, Vancouver, Disneylandia, Paris ou Sairé. Estaremos naqueles que amamos e nos amam.

E conversamos sobre nossos netos e sua educação. E escutei a vovó entusiasmada relatando uma conversa sobre o que havia sido aprendido na escola, em determinado dia. A resposta veio: hoje aprendi que somos diferentes. Tem gente que é diferente no rosto, tem gente que é diferente no cabelo, tem gente que é diferente por causa do nariz,….  Então sorri. E lembrei que, quando criança, fui ensinado que éramos iguais, embora tivéssemos algumas diferenças. A ênfase era na igualdade; aprendi que devíamos nos tratar com respeito pois éramos todos iguais perante a lei; aprendi que os seres humanos éramos – somos – essencialmente iguais. E essa crença na igualdade fez-me e faz-me viver, deu sentido e dá sentido à minha vida, como também ocorreu a muitos de minha geração. Aprendi que a humanidade desenvolvia um projeto que está na Declaração Universal dos Direitos Humanos  e, com tristeza, sim, com tristeza, vejo que os filhos de meus filhos são educados para acreditarem na diferença como essencial.

A beleza da vida é que ela é diversa mantendo-se sempre a mesma vida. A diferença que há é superficial, epidérmica, não essencial. Colocar a diferença como ponto básico das relações humanas é criar espaços de exclusão, de negação. É confundir as estruturas com as conjunturas, é confundir o perfume com a rosa, é diminuir a rosa. Essas confusões geram outras mais profundas, bem mais danosas, essas que nos tiram a humanidade, ao reconhecer-me não pelo que sou, mas pelo que percebem externamente de mim. Assim como há quem confunda as mulheres pelo perfume, as pessoas pelas roupas, o amor pelo presente, o querer bem pela adulação.

Disse a meus amigos que eu ficarei bem mais contente quando, finalmente aprendermos e ensinarmos aos nossos filhos e aos filhos de nossos filhos e eles nos relatarem: hoje eu aprendi que temos algumas diferenças: alguns têm olhos verdes, outros castanhos, alguns possuem cabeças redondas outros mais ovais; algumas pessoas têm cabelos lisos, outros encrespados; uns gostam da cor rosa, outros do amarelo e há que goste do marrom; alguns são negros outros morenos, outros brancos, alguns aginipapados; uns altos outros baixos; alguns nasceram no Cáucaso, outros na América do Sul, outros na África e muitos na Ásia; uns usam animais como alimentos outros como companheiros de estimação mas, com essas e outras diferenças, somos todos iguais, todos somos desejosos de felicidade, queremos chorar de alegria, sorrir das tristezas.

Fico sempre muito feliz quando encontro amigos. Um dia um deles, depois de ler texto no qual Rubem Alves comparava o professor a um carvalho, disse-me: prefiro ser um pé de jaca, para poder oferecer sombra e ser possibilidade de fartura. Carvalho ou Jaqueira. Na essência árvores, vida que protege vida, Seres humanos que podem ser mulher, homem, criança, negro, índio, cigano, anão, gordo, magro, zarolho, corcunda, qualquer  coisa conjuntural, mas essencialmente humano, até mesmo na possibilidade de negar a outrem a humanidade. Mas só faz isso que já não se reconhece pela essência, senão pela aparência.

É muito bom ter amigos. Mas dá um trabalho danado. Por isso temos poucos. É mais fácil ter colega. Amigo é essência, é essencial. Quis tanto que uns colegas se tornassem meus amigos, que parentes fossem meus amigos, mas eles só quiseram ser parentes. Coisa de facebook, realidade aparente.

“..mesmo longe, na saudade, a amizade vai ficando até mais forte.

Amizade é na vida uma canção, Amizade fz cantar o coração

ser amigo é fazer ao amigo todo bem,

como é bom saber amar a alguém””

Dedicado a muitos amigos, especialmente a Herb/ Bernadete Mansfield e Kenneth/Neide Steiner.