Posts Tagged ‘Ética’

Nossa violência diária, nosso fracasso civilizacional

segunda-feira, julho 25th, 2016

Esses dias de julho têm sido atribulados. A vida corre e sua seiva é de sangue, mas a ideia básica da civilização é o controle do sangue derramado. A cultura e a civilização são essa organização da vida, esse cuidado para se evitar o derramamento desnecessário da seiva que mantém o homem. Todos os dias lemos sobre algum ato terrorista, esse que é realizado para matar qualquer pessoas com o simples intuito de manter um clima de medo e tensão. Mas há outros sangramentos.

Desde o século XVI que a civilização europeia vem construindo maneiras de controlar essa violência, procurando inibir comportamentos que coloquem em risco a vida social. Parte desse esforço foi a retirada das armas das mãos da gente comum, centralizando a violência no Estado. As penas foram sendo ‘humanizadas’ e nos últimos trezentos anos a pena de morte vem sendo posta de lado. Assim foram sendo criados lugares onde guardar por algum tempo os que estavam com problemas de adaptação na vida social. Cáceres passaram a ter função de readaptadores sociais. É isso que se espera das prisões neste início do século XX. Mas é isso que não se observa no sistema prisional brasileiro, como vem atestando as muitas rebeliões nesses lugares que, lembra o historiador da Casa de Detenção do Recife, Flávio de Sá Neto, são como sepulturas de homens vivos. A violência das ruas vem sendo combatidas desde que foram proibidos os duelos de honra, pois eles subtraiam o melhor da sociedade e seus futuros: os jovens aristocratas. E o que assistimos hoje?

Grande parte da população sente-se prisioneira, elevando os muros de suas casas, isolando-se da sociedade, mantendo guarda-costas e guaritas em frente as suas residências, temendo o ataque de indivíduos que, apesar do controle estatal, apoderaram-se das armas e das ruas. Nas ruas, ainda que a maior parte da sociedade não consiga perceber, está a ocorrer uma matança de jovens que combatem entre si, às vezes em nome de um grêmio esportivo, às vezes pelo controle de locais onde vendem drogas, matando lentamente uma outra parte da juventude. Alguns que escapam dessa matança, às vezes não conseguem escapar da ação descontrolada de alguns agentes do Estado. Os sobreviventes morrem aos poucos cada dia em trabalhos estafantes e mal pagos, com salários que não lhes permitem uma saudável recreação e, então, dedicam-se ao álcool e outras drogas. Não poucos terminam por terem seus passos encaminhados a alguma penitenciária que deveria abrigar duzentas ou trezentas pessoas, mas abrigam quase sempre três ou quatro vezes mais. E nesses espaços, também o Estado perdeu o controle. E assistimos, ouvimos e, às vezes vemos, o relato das violências e mortes que ocorrem nesses lugares. A violência está guiando a sociedade. Os valores que poderiam organizar a sociedade foram mal apreendidos e, mesmo esses, passaram a ser relativizados de maneira constante.
Para entender o tempo passado, cuidávamos da imaginação, acompanhando os romances históricos, fitas de cinema. Agora, no caso da violência descontrolada, realizada em nome de alguma divindade ou mesmo para a satisfação de algum magnata, basta sabermos olhar o que nos envolve, o ambiente.

Por não sabermos cuidar de nossos espaços sociais, não sabemos, também, cuidar dos espaços onde colocamos os que rejeitaram ou foram rejeitados pela sociedade. Quem disso duvidar, que faça uma pequena comparação entre o nosso transporte público e as penitenciárias; compare o cuidado com as calçadas e ruas com as celas carcerárias; observe nossas escolas sem bibliotecas, áreas de lazer e laboratórios e as prisões sem oficinas e atendimento reparador.

E, infelizmente, essa não é uma situação própria de nosso Estado. É uma situação semelhante encontrada, até mesmo, em alguns ditos países desenvolvidos. E não apenas nos países de nossa experiência civilizacional, mas verificamos que esse possível fracasso ocorre, também, naquelas civilizações que se tem como modelo para demonizar esse modelo que se organizou nos últimos seis séculos.

Semana de aniversários

sexta-feira, abril 22nd, 2016

Este site completa sete anos neste mês. Esta semana tem início o meu 67º ano de vida. Para celebrar as duas efemérides, coletei as minhas intervenções na comunidade do Facebook, um pouco para verificar se disse muitas bobagens e coisas sem conexão. tudo foi escrito ente o dia 15 e o dia 22 de abril.

1. Desejo começar este novo dia agradecendo a todas as pessoas que dedicaram alguns momentos para abraçar-me e dizer o quanto podemos manter laços às distância; agradeço aos que me ajudaram a celebrar o tempo que já passou, o dia em que lembro minha entrada na vida e, também a continuar a viver na alegria e na esperança todos os dias que me restam (espero que sejam muitos) para viver e melhorar a vida. Obrigado a todos.
2. Todos nós estamos chocados com a fotografia do Brasil. Descobrimos a nós mesmos, ao verificar em cadeia nacional o verdadeiro resultado das eleições de outubro de 2014. Não sabíamos o que havia sido eleito, a maioria dos brasileiros que votou displicentemente pode verificar o conjunto da obra. Juízes e ré foram eleitos pelo mesmo povo. Nós devíamos é estar assustados não com esse ou aquele deputado (cada um deles representa uma parte dos eleitores/cidadãos), deveríamos é estar assustados com o nosso descuidado com o que é nosso. Fôssemos mais atentos, não entregaríamos o país a esse tipo de gente. Mas, a fotografia não mente. Veremos, nos próximos dias, o andar de distanciamento do PT em relação à dilma, seguindo o script lido por José Dirceu, alguns empresários ex-amigos e agora completamente desconhecidos. O PT chamará a militância que foi sonambolizada nas centenas de CC, para salvar o partido. dilma, que foi figurante, pode ser descartada. Vão tentar salvar o partido e o projeto de Lula. Pode ser que eu me engane, já me enganei com alguns seguidores dessa seita.
3. “Estou sendo golpista? Para alguns sim. Para quem sabe do meu caráter, não. Não tergiverso com minha honestidade e não vendo minha alma ao diabo na forma de pedidos, favores e dinheiro. Meu nariz está limpo porque jamais ajoelhei para lamber um traseiro ou solicitei um empenho. Quando, um dia, me perguntaram “O que você quer?”, disse sem tremer: “Nada!”” Roberto DaMatta.
4. Conversar com pessoas de mentalidade religiosa é difícil porque eles cegaram e mutilaram os ouvidos . Não estão abertos para além de seus dogmas. (…) Não pensei estar falando de dogmas, uma quase exigência dos grupos que encontraram a verdade e articularam em sentenças que servem de paradigmas para os crentes; referia-me a ‘mentalidade religiosa’ que alguns grupos assumiram na sua luta contra as demais mentalidades religiosas ou não. Certos grupos sociais elevaram os seus projetos sociais à condição de dogmas, verdades eternas e incontestáveis, e, nós sabemos, os projetos realizadas na sociedade podem ser conjunturais, adaptáveis e adaptados à circunstâncias. E com esse tipo de gente que está impossível conversar.
5. Como está ficando meio doido, lá vou eu: penso que esta aventura em Nova Iorque, a ser realizada pela presidente dilma, se propondo a dizer que está havendo um golpe (golpe no gerúndio é lasca!) no Brasil para, em seguida voltar ao Brasil e receber a presidência de volta das mãos do ‘golpista” , é uma encenação, um pedido de intervenção do Mercosul, igual àquele que ela e a moça da Argentina arquitetaram contra o Paraguai. Se for isso, mostra mais uma vez que a guerrilheira que queria implantar uma ditadura de esquerda para substituir uma ditadura de direita, continua sem saber fazer análise da conjuntura. E então fica no ridículo. e nós pagamos a conta da crise econômica, da crise ética, da crise moral além das viagens luxuosas, dignas dos ditadores mais loucos.
6. A maioria das pessoas esquece rápido, mas tem gente de memória, como o Senador Cristóvão Buarque, criador do Bolsa Escola, programa muito criticado pelo PT por ser assistencialista. Entretanto o recebimento da Bolsa Escola estava condicionado a presença das crianças na escola. FHC adotou o programa, com o mesmo nome em seu governo e quem o administrava era o Ministério da Educação. Quando o PT tomou posse do governo (pensou ter tomado posse do Brasil) esqueceu suas críticas , adotou o programa com o nome de Bolsa Família, retirando-o do ME, transferindo para A Assistência Social. Cristóvão que foi Ministro da Educação, foi demitido por telefone e desde então o Bolsa Família é um sucesso de votação, mas a educação não tem avançado, especialmente a educação básica e média. Hoje temos mais universidades, mas o nível médio não é tão alvissareiro.

7. Há sociólogos que nos ensinam estar, tudo ao redor, liquefazendo-se; os artefatos técnicos são rapidamente ultrapassados em sua utilidade e desenhos, cedem lugar aos novos. Não mudam, não cedem e parecem cada vez mais sólidos os líderes partidários, veementemente defendidos por jovens adoradores que caminham rapidamente para o passado dos seus líderes.

8. Pensadores que desejam impedir que sejam ouvidos os que pensam.

9. Comece a pensar na próxima eleição. Não vote em vereador que recebe apoio e apoia deputado e senador envolvido em corrupção, que esteja sob investigação. Agora é cuidar disso para ver se melhoramos isso que vimos hoje. Seria o mesmo se o resultado fosse outro. Um povo faminto e iletrado, sem educação e sem possibilidades de debates, que para recrear tem apenas as igrejas e os bares está fadado ao fracasso ou ao sucesso aparente.

O colibri e a lama

terça-feira, dezembro 1st, 2015

“Setembro passou, outubro e novembro
Já estamos em dezembro, meu Deus, que é de nós?”
Assim, começa uma das mais belas e pungentes descrições da fenômeno social provocado pelo fenômeno físico da seca, poesia de Patativa do Assaré lamentando a saga de quem é obrigado a deixar o lugar de nascença e infância para buscar, em terras distantes e desconhecidas a ventura possível. É canção do sofrimento vivido por milhares de nordestino nos anos cinquenta, desde a tomada de decisão e a aprofundamento da sua pobreza nas vendas apressadas de seus animais, imediatamente aproveitada pela ganância do “feliz fazendeiro” . Ainda não havia as grandes estradas que hoje cortam o país, eram poucos os automóveis, é o período anterior à chegadas das grandes montadoras, e a longa viagem era feita em caminhão de escassa segurança, sem conforto exceto o da companhia de muitos semelhantes. Acompanha a viagem todas as lembranças e uma quase certa de que dificilmente voltariam a ver seu lugar. Não se volta ao passado, ele fica na memória de quem o viveu e, com o, tempo aquele tempo passado de sofrimento e dor, aquele tempo que expulsou tantos de seus lugares, ameniza-se, acomoda-se, fica terno. Inventa-se um passado, um outra história que passará para os netos.

Nessa manhã do primeiro dia de dezembro choveu em minha casa, molhando as mangas que se oferecem ao sol e que cairão para meu deleite durante algum tempo. Essa chuva que aprendi dizer ser a chuva da manga, durou pouco mais que três minutos, tempo suficiente para que pudesse ter a alegria de ver a dança de um colibri aproveitando cada respingo que as folhas provocavam ao receber a gota que lhe batia. Uma festa às seis horas da manhã. Mas estamos em dezembro de 2015 meu filho Isaac chama para tomar banho no Jardim., brincar com a mangueira para espantar a preguiça e as tristezas que o viver traz em si, além daquelas que acrescemos com a nossa racionalidade no convívio social.

Uma vez, um professor de história, que leciona em uma universidade federal reclamou que meus textos sempre acabam com alguma reflexão política e pediu que não mais enviasse o que escrevo para ele. Assim o faço, mas nunca entendi como um professor pode ensinar história sem refletir sobre o seu cotidiano e sobre o cotidiano da humanidade e, creio esse cotidiano é cheio de poderes e de lutas pelo controle desses poderes. E, quando hoje percebi que estamos em dezembro, com uma seca tão dolorida quanto a dos anos cinquenta, lembro que ainda há uma grande parte da sociedade nordestina que seria capaz de bailar como aquele colibri que vi da porta da cozinha de minha casa, enquanto outra parte nem mesmom perceberia que ocorreu o que Lucivânio Jatobá diz ser ‘uma precipitação’. Naquela seca de 50, o doutor Zé Dantas também versejou sobre o fenômeno físico e social, pedia ajuda ao governo mas não deseja a esmola, pois quando ela é dada a “um homem que é são, ou lhe mata de vergonha, ou vivia o cidadão”. Desde então as secas continuam sendo esperadas, pesar de todo o conhecimento e possibilidades que a inteligência humana já criou para diminuir o sofrimento físico – a fome, a sede, as doenças, – e a desesperança, a ganância dos gestores públicos impede que a vitória da humanidade neste caso específico. E isso é política e, é o cotidiano e a expressão de nossa incompetência social para solucionar problemas que são sociais, e, ainda por cima, acrescemos a destruição do ambiente físico, fazendo crescer as possibilidades de miséria. Nossos rios e riachos estão morrendo porque arracamos as florestas e as matas que o protegiam e chamavam a chuva e guardavam o solo. Mas não queremos assumir a responsabilidade política de nada, nem dos desastres que se anunciam pelo descaso dos governos e, depois nem queremos olhar ou escutar que se fale dessas tragédias.

Gosto de ver o colibri bailar sob a chuva passageira, mas não sou totalmente ele, mas só posso vê-lo em minha casa por resistir a tantas sugestões de retirar as árvores. E isso é ação política e é o meu cotidiano. E meu cotidiano é saber que o Rio Doce, que vinha sendo morto desde o início do século XX com o corte do jacarandá, da peroba e das árvores que lhe protegiam, recebeu o ’tiro de misericórdia’ com a lama da ganância das companhias de mineração e daqueles e daquela que elas financiaram.

Hélio Bicudo e outros heróis

terça-feira, setembro 1st, 2015

A caminho da Universidade escuto que o jurista Hélio Bicudo foi à Câmara dos Deputados e entregou um documento solicitando o impeachment da presidente Dilma Roussef. Em seguida a repórter informava que este é o décimo segundo pedido já apresentado, sendo que quatro deles já foram arquivados pela presidência da Câmara. Um dos argumentos apresentados foi que a atual presidente mentiu profusamente para a nação durante a campanha que ela realizou tendo em vista a sua reeleição para o cargo. A mentira, para Hélio Bicudo, é insuportável, especialmente porque ela mentiu ao afirmar que não havia grandes problemas no país, mentiu também ao modificar informações sobre o estado da economia no país, referindo-se às pedaladas fiscais, ao atraso de repasse aos agentes financeiros para saldar compromissos governamentais, realizando, dessa forma, empréstimos não autorizados e, assim, ferindo a Lei de Responsabilidade Fiscal. O que ocorrerá com este pedido nós não sabemos, pois há 11 outros a serem examinados antes.

Hélio Bicudo nasceu em São Paulo no ano de 1922 e bacharelou-se em Direito em 1947. Tem tido uma importante atuação na defesa dos Direitos Humanos, tendo sido ministro da economia no governo de João Goulart. Sua atuação como Procurado do Estado de São Paulo no desmantelamento do Esquadrão da Morte, ainda durante a ditadura civil-militar, fez com que o Serviço Nacional de Informação incluísse seu nome como um dos inimigos daquele regime autoritário. Foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores e candidato do Partido para o Senado Federal, mas recebeu menos votos que Fernando Henrique Cardoso e Mário Covas.

Após ter sido secretário de Assuntos Jurídicos quando Luíza Erundina foi prefeita da cidade de São Paulo. Depois foi eleito Deputado Estadual pelo PT e Vice-Prefeito no governo de Marta Suplicy. Em 2005 saiu do PT pois começava a envergonhar-se do via acontecer com o Partido que caminhava passos largos para desdizer o que prometera aos trabalhadores e aos brasileiros em geral. Afinal ele foi fundador e presidente da Fundação Interamericana de Defesa dos Direitos Humanos. Esta fundação foi fechada por falta de recursos e sua biblioteca foi entregue à Pontifícia Universidade Católica de São Paulo em 2013.

Reflito, neste começo de tarde sobre a honra que tive e tenho por ser contemporâneos de uma geração ilustre pelo caráter, coerência e honradez, homens e mulheres que se colocaram à serviço de ideias e da humanidade, gente como Hélio Bicudo, Heráclito Sobral Pinto, Alceu de Amoroso Lima, Mário Covas, Plínio de Arruda Sampaio, Hélder Câmara, Ulisses Guimarães, Miguel Arraes, Pedro Casaldáliga, Evaristo Arns, Ruth Cardoso, Anita Paes Barreto, Silke Weber e tantos outros que servem de bússola para a vida.

Elite ou malta

terça-feira, março 17th, 2015

O mês de março vai passando de surpresa em surpresa. As águas e magoas desfilaram nas ruas de muitas cidades do país na esperança que ouvidos deixassem de ser de mercadores ou de mercadantes e, seriamente entendessem o que estava a se dizer. Foram muitos os recados, mas como dizia famoso teatrólogo, cada um vê e entende o que deseja: assim é se assim lhe parece. Pois bem, houve quem simplificasse todas as vozes à um desabafo contra a corrupção que está borbulhando e saindo pelos buracos que os ratos costumam fazer nas fossas. E tudo foi resumido em corrupção.

Se o problema é a corrupção, logo vem o receituário: nada se pode fazer pois a corrupção é “uma velha senhora” que vive no Brasil a muito tempo, “ela não perdoa ninguém”, não há como derrotá-la, pois parece fazer parte do DNA da sociedade. A pessoa que disse tal asneira não poderia ser mais honesta. Talvez mais explícita e dizer: ‘os brasileiros são todos corruptos, assim temos que conviver com isso” e, seguindo a lógica de salão de manicure, se todos os brasileiros são corruptos, a pessoa que disse assim, apesar de ser brasileira de primeira geração, é também corrupta, e está assumindo-se como tal. Comportando-se como os Donos do Poder para colocar-se acima de todos, a todos chama pelo que ela é. Ora, quem disse tal asneira, desrespeitando os brasileiros trabalhadores, é uma senhora que faz parte da “elite, branca, de olhos verdes”. E, todos nós sabemos que a corrupção moral não faz parte do DNA de nenhum povo, que a corrupção moral é construída pelo exemplo que a vida da elite social oferece aos demais sócios.

Para convencer os brasileiros a aceitarem a sua bobagem, ela vem lembrar que lutou pela democracia. Lá em Nova Descoberta, onde cresci, nós sempre achamos horrorosa esse tipo de pessoa que faz algo e depois fica passando na cara da gente que fez. É gente que enxerga o mundo olhando para o seu umbigo. Ora, precisamos entender que nem todos que lutaram contra a ditadura estavam desejando construir uma democracia, alguns estavam querendo colocar outro tipo de ditadura. Hoje à tarde estive com Antonio Vieira, um homem de setenta e dois anos, que está doente, que foi prisioneiro da ditadura, que comeu o pão que o diabo deu a ele, mas que, após o fim da ditadura continuou lutando no meio rural e jamais foi pedir a ‘bolsa ditadura’, não saiu por aí, como fazem alguns, dizendo: “eu fiz isso, eu fiz aquilo, sou coragem e fiz isso por vocês”, passando na cara o sofrimento que passou, posando para história. Ah! essa gente mesquinha diminui, pensando que cresce ao diminuir os outros, fazendo deles seus devedores. Não devemos nada a ninguém, cada um senhor de suas opções.

Esses acontecimentos levaram-me a pensar que fizeram nos acostumar a entender que ser da elite é ter acumulado riqueza material, contas bancárias, casas imponentes, apartamentos de cobertura nas principais praias do país e, viajar constantemente ao exterior e voltar carregados bregueços e bugigangas com o objetivo de expor-se e seduzir os adoradores de materialidades. Mas isso, esse conjunto de coisas não é a elite, é a estupidez humana enriquecida e abestada. É quase uma malta. Uma elite é o grupo de membros da sociedade que é capaz de auxiliá-la a definir seus objetivos e de organizá-la para alcançar o maior bem estar moral, o enriquecimento intelectual e material da nação. Assim, essas pessoas que, em situação de mando e comando, induzem à sociedade ao desespero ao afirmar que nada pode ser mudado para melhorar e que ela deve adequar-se à miséria moral que corrompe, não apenas a economia das empresas, mas alma das gerações.

Talvez seja o tempo de criarmos uma elite, nos tornando nós mesmos. Esses que se apresentaram para orientar o Brasil, mas que sucumbiram ao canto das sereias, eles não possuem a coragem de Ulisses, nem desejam a felicidade que Prometeu arrancou dos deuses, não para si, mas para fazer os humanos livres das idiossincrasias das divindades. Se desejamos ser livres devemos rever o tipo de elite que nos querem impor e, não seremos liderados por quem acaricia ditadores e tolera o mal por preguiça de lutar contra ele ou por ter já optado por ele.

Rumos: de junho de 13 a fevereiro de 15

quarta-feira, fevereiro 4th, 2015

Em tempo não muito distante, líamos nos jornais, víamos nos noticiosos televisivos e, em alguns casos, víamos, nas ruas, multidões de jovens protestando contra os abusos na política e da polícia, abuso no aumento das passagens de ônibus, na luta contra o capitalismo, etc. As ruas das principais capitais do Sudeste foram tomadas manifestantes e, eram de tal forma, que seminários foram celebrados, debates realizados nos canais de formação e informação para entender o desejo mudancista de uma geração que, segundo profundos sociólogos, filósofos, historiadores, e políticos profissionais, anunciava um novo tempo na vida brasileira. Estaria acontecendo o despertar do gigante que saia de hibernação, sarando-se da grande quantidade de entorpecentes que lhe estavam sendo ministrado de maneiras diversas na sociedade. As massas, diziam, estavam tão azedas que até discutiam se queriam o circo da Copa do Mundo da FIFA. O medo acendeu-se e espalhou-se como incêndio no serrado do Planalto Central do Brasil. As janelas do palácio assistiam, apavoradas, uma juventude quase destruindo um dos palácios pensados pelo arquiteto que planejava cidades para que as autoridade ficassem fora do alcance da fúria popular.

Entretanto, passado alguns meses, a juventude do gigante que parecia sair de sua longa sesta, foi sonolenta às urnas e manteve no poder os responsáveis pela situação contra a qual protestavam. Mais ainda, se olharmos com atenção, não encontraremos nenhum desses ‘líderes’ de junho de 2013’ entre os candidatos a política. Talvez, nem mesmo os partidos conseguiram novas filiações para suas fileiras. Ali não havia motivação política, mas, quase somos tentados a dizer hoje, indignação de alguns bolsos – uns parcos de moeda para suprir suas necessidades e outros que se encheram por estar na rua e promover fogaréus em determinadas cidades. Agora também continuamos a ouvir o ronco do gigante enquanto assistimos o desenrolar dos crime contra a Petrobrás, que começaram a ser descobertos em um lavajato onde se lavava dinheiro além de carros.

Hoje ouvi dois sociólogos, um deles Álvaro Moisés, dizerem que o governo de dilma está sem rumo; em seguida, historiadora publica que o Data folha deste domingo diz que a aprovação ao governo dilma supera 70%.   Há três hipóteses: a) os sociólogos estão sem rumo ou bússola, b) o não tem sociólogos em seu quadro de pesquisadores, c) o povo está sem rumo.

Severino Vicente da Silva