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SEM ORIENTAÇÃO, OS BARÕES CONTINUAM A MATAR OS POVOS

terça-feira, março 22nd, 2022

SEM ORIENTAÇÃO, OS BARÕES CONTINUAM A MATAR OS POVOS

Prof. Severino Vicente da Silva 

Quase trinta dias do mês de março e a guerra, uma das muitas que atualmente estão ocorrendo no planeta, explicitada pelo ataque da Rússia à sua vizinha Ucrânia, continua sem perspectiva de fim, exceto quando se tornar semelhante a Canudos, defendida por velhos e crianças. No final, vencerá o que está melhor armado. A questão é que quando o relato de Canudos apareceu de maneira mais ordenada, já não havia mais a população no local para ser testemunha, o que não é o caso atual. Contudo, quase um século depois, quando o exército chegou a governar o Brasil em uma ditadura, a presença de Canudos ainda era tão forte que foi necessário afogar o defunto que, ainda vive. Talvez ocorra isso com a Ucrânia, derrotada militarmente, destruída fisicamente em sua estrutura, tornar-se-á viva simbolicamente. Os sertanejos que criaram o Brasil foram dizimados no sertão bahiano e, contudo, Édipo jamais teve paz.

Na década de setenta, um grupo de padres sociólogos, historiadores e teólogos, criaram uma Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina, deveria ser um organismo eclesiástico, pois que os teólogos achavam que a Igreja havia feito a opção pelos pobres, contudo, ocorria uma virada e, o papado que se iniciava apontava para um período de conservadorismo e reação, acompanhando o processo político então vivido na América Latina, com as ditaduras que vinham sendo criadas e incentivadas desde 1964, então a CEHILA foi criada como uma instituição laica, escapando, destarte, do controle eclesiástico. Assim foi possível uma trajetória de repensar a participação da Igreja Católica no processo de formação da América Latina. Essa ação foi fundamental para a compreensão da Igreja e o papel por ela desempenhado desde a Conquista e colonização; mas também veio a revelar-se importantíssima para mudanças na historiografia da região. Quando as universidades não ultrapassam os espaços da repetição, a história mostra, a sociedade aponta os caminhos que os acadêmicos depois tomam, no sentido de andar neles e no de tornar a coisa como sendo criação deles.

Naquele mesmo período, sob a regência de David Rockfeller, setores capitalistas viviam o sonho da Trilateral, uma comissão supra nacional que apontaria os rumos políticos do mundo sob a batuta dos Estados Unidos da América, Alemanha e Japão. Era secretário dessa Trilateral, o ainda jovem Jimmy Carter, que veio a ser presidente dos EUA e, um dos responsáveis pela desarticulação das ditaduras criadas por seus interesses duas décadas antes.

Enquanto o tempo girava, Eduardo Hoornaert, um dos fundadores da CEHILA, sonhava e realizava, com uma pequena equipe (Paulo Tannuci, Ir. Adélia, Frei Domingos Sávio, Biu Vicente), uma Cehila-Popular, uma estrada para escapar do vicio de pesar sobre o povo, deve-se favorecer o povo pensar, sobre si e sobre a elite que o domina. Por atuar na Cehila-Popular, não sem dificuldade, pude ser membro da CEHILA-Brasil e da Cehila-Latino-americana. Entre os muitos trabalhos que realizamos juntos na Cehila-Popular, houve aqueles que envolveram violeiros improvisadores, desde Sergipe até o Ceará. Fazíamos encontros para nos contar histórias, acrescendo nosso conhecimento com as trocas de saberes. Conversávamos sobre os temas de afloram a partir do Rio São Francisco, dos Sertões e das cidades de cada um. Também conversávamos sobre a relação que sempre existem entre qualquer arruado e a grande política que os arruados desconhecem. Contávamos e aprendíamos a história do Brasil, as histórias dos brasis; a história do mundo e as histórias dos mundos. A Comissão Trilateral entrou em uma dessas conversas, e olhando o mapa, sim havia mapas, veio a pergunta: e a China, onde entra nessa história? Eduardo tomou a conversa e mostrou que na tradição cristã, os reis vieram do Oriente trouxeram presentes e depois não mais ouvimos falar deles. Mas a primeira tradição do cristianismo voltava-se para o Oriente, lembrava que a expressão que se usava é que as pessoas devem “se orientar”; é voltados para o Oriente que formamos os pontos cardeais. Depois aprendemos que as especiarias chegavam do Oriente para a Europa pela Rota da Seda, iniciada na China e, pela mesma rota, mais tarde pela rota dos oceanos, as especiarias foram pagas com o ouro e prata retirada das Américas.

A Comissão Trilateral não pretendia “Orientar-se”, mas sua meta era que todos olhassem para o norte. Nortear-se é um hábito que veio a ser criado recentemente, coisa do século XX. Foi no século XIX que a China deixou de ser o centro, o Império do Meio. Entretanto, mesmo quando a Inglaterra tinha o seu imenso Império, a joia da Coroa era o Oriente. O auge da Era Vitoriana foi a coroação de Vitória como Imperatriz da Índia.

Neste mês de março, no dia em que começa o outono, penso que assisto a parte final do fracasso da Comissão Trilateral, enquanto a tendência política parece confirmar que se torna explícito: Orientar-se será o verbo das próximas décadas.

A Cehila-Popular realizou um trabalho educacional muito interessante, além de, também produzir artigos hoje utilizados por um ou outro acadêmico, como que seguindo os passos da CEHILA-Brasil e Latino-americana. O esforço para refutar a CEHILA pode ser visto no esforço do historiador Jacobina Lacombe ter escrito um livro para criticar, aqui no sentido de falar mal, da obra de Eduardo Hoornaert. Soube do livro de Lacombe, pois uma influente historiadora de renome local, deu-me cópia do livro com riso nos lábios: “vê o que estão dizendo da obra dos teus historiadores”. Agora percebo que, desnorteada, ela precisava orientar-se para os novos tempos, esses que deploram as ações do Barão do Jeremoabo.

Amigos de Caminhada, construção da humanidade

segunda-feira, janeiro 25th, 2016

Sempre que caminho em uma praia lembro-me de dois professores que me permitiram a sua amizade, os padres Eduardo Hoornaert e José Comblin. Dois belgas que chegaram no Brasil no início dos anos cinquenta, quando eu ainda não passara dos cinco primeiros anos de minha vida, e aqui decidiram viver o resto de suas vidas. O padre Comblin já completou seu tempo de missão no Brasil e no mundo, em uma noite enquanto dormia, em uma cidade do interior baiano. Um seguidor de Jesus Cristo de maneira integral e total. Nós todos o amávamos pela sinceridade de sua seriedade e simplicidade no trato das coisas humanas. O mais livre dos teólogos da chamada Teologia da Libertação.

Mas o que tem a praia com esses homens que atravessaram o Oceano para servir aos pobres da terra? Uma vez, Eduardo confidenciou-me que caminhou, em uma praia, durante mais hora ao lado de José Comblin sem dizerem nenhuma palavra e, Eduardo concluiu: “acho que somos amigos, não precisamos falar, nos entendemos”. Talvez seja isso, a amizade, o amor, eles nos levam a compreender a necessidade do amigo e do ser amado antes que a necessidade seja pronunciada. E a palavra, contudo, é necessária na construção da amizade, da relação amorosa, na defesa daquilo que fez brotar a amizade. Mas não as palavras excessivas, desnecessárias, apenas as verdadeiras, as que estão carregadas das fragilidades que nos fortalecem.

Foi assim que, na caminhada desta tarde, nesta Praia de Pitimbu veio-me a lembrança de Ivone Gebara, uma das mulheres extraordinárias da minha vida, também minha professora. Sua lembrança veio-me após uma conversa na rede das amizades virtuais, o facebook, com um amigo real, o Sérgio Gusmão, a respeito do capitalismo, da libertação, da opressão do capital sobre o homem. Disse-lhe que a opressão não do capital sobre o homem, mas do homem sobre o homem. Ao dizer-lhe isso, lembrei-me que, quando comprei meu primeiro automóvel, um fusca, fui celebrar essa alegria com duas mulheres amigas: Ivone Gebara e Valéria Rezende. Na época trabalhava, com Valéria, um texto para a História da Classe Operária, uma solicitação da Ação Católica Operária – ACO. Essa celebração debateu alguns parágrafos escritos para o primeiro volume, voltado a contar a luta dos trabalhadores brasileiros durante o período de dominação portuguesa e o Império dos Orleans e Bragança. Depois veio o fusca como tema. Ainda lembro as palavras de Ivone: “lembre-se sempre que você é o dono do carro, não deixe que ele lhe domine”. Essa é a lição que a vida de Ivone, Valéria, Comblin, Eduardo, Hélder e tantos outros amigos/professores deixaram em minha vida.

É quando o homem se deixa dominar por aquilo que ele construiu que o faz imaginar e justificar dominar os demais na defesa das coisas que o dominam. Se você não se deixa escravizar pelas coisas jamais poderá escravizar nenhum ser humano.

Memórias do ITER e de um prédio

terça-feira, agosto 26th, 2014

 Algumas memórias de um tempo quente

Severino Vicente da Silva

 

O que ocorre com agosto? A cada ano o mês parece trazer novidades para o que parece ser sua sina: tempo de acontecimentos e experiências pouco agradáveis à lembrança. Desde a fatídica Noite de São Bartolomeu, no século XVII, massacre físico de um grupo que intendia dominar a França e foi interceptado pela força astuciosa de Catarina de Médicis na defesa do trono francês para seus filhos, até o início de agosto de 1945, na explosão das bombas atômicas que puseram fim a uma época que insiste em permanecer: a época das modernas e permanentes verdades, sejam elas religiosas ou científicas. O mês que Augusto criou para sua exaltação como a realização da felicidade da Paz Romana vem se tornando a época dos desastres promovidos pelos aprendizes de feiticeiros, que desejam ser senhores da história. Mas esse peso que carrega agosto pode ser mais uma maneira religiosa de ler os acontecimentos, mas de tão repetida pelas gerações, talvez desde tempos imemoriais.

No mesmo dia, 25 de agosto, que recebi informação sobre missa que “celebra os 15 anos da páscoa definitiva de Dom Hélder Câmara” ocorreu o incêndio em prédio que pertence à Arquidiocese de Olinda e Recife, onde estava funcionando  o Pró-Criança, atividade da mesma arquidiocese, criada pelo arcebispo emérito Dom José Cardoso, sucessor de Dom Hélder.  O mês de agosto não pode ser descrito de maneira negativa na vida de Dom Hélder pois nele ocorreu a sua ordenação sacerdotal e, como disse a correspondência de Normandia, foi a sua Páscoa. Mas o prédio que sofreu incêndio neste 25 de agosto, como o Pavão Misterioso “tem muitas histórias prá contar”. As casas, os edifícios são carregados de história e de significados. Foram imaginados pelos homens, construídos intencionalmente para algumas atividades. E eles cumprem essa tarefa de maneira a cada tempo de sua existência. Vamos conversar um pouco sobre o que eu sei da história do prédio situado na Rua dos Coelhos, que durante algum tempo ficou conhecido como o prédio do ITER.

No início do século XX os comerciantes do Recife, especialmente os das Ruas Barão de São Borja e da Imperatriz sentiam-se pressionados pelo número de pedintes que “atrapalhavam” a sua atividade. A modernização trazia consigo o crescimento desordenado da cidade e um dos caminhos para socorrer os que não são incluídos positivamente, mas apenas enquanto forem saudáveis trabalhadores, é a caridade, entendida como adjutório. Nesse contexto surgem padres que procuram atender as demandas sociais e espirituais da sociedade, como o Padre Machado, o Padre Félix e o Padre José Venâncio de Melo. O padre Machado dedicou-se no serviço educacional dos jovens, especialmente os que viviam na área portuária. O padre Félix na organização de escolas de ensino secundário e médio. Já o padre Venâncio estava mais voltado à assistência dos que viviam em torno do Hospital Pedro II e da rodoviária que então estava na propriedade dos Coelhos. Era presidente Companhia de Caridade. Conseguiu terreno e construiu prédio inaugurado, em 1918, que servia de hospício aos que iam ao hospital ou estavam de passagem na capital. Também organizou uma cozinha que preparava almoço para os pobres, usando as esmolas conseguidas no comércio. Assim, quando um desses pobres chegavam no comércio em busca de dinheiro para alimentação, os comerciantes os mandavam para a casa do Padre Venâncio, esta que o fogo derrubou parte de suas estruturas no dia 25 de agosto deste 2014. Nos anos cinquenta a cidade cresceu e renovou-se em torno da Avenida Guararapes e da Avenida Conde da Boa Vista, a rodoviária é levada para a proximidade da Forte das Cinco Pontas, no bairro de São José e o Hospital Pedro II inicia o processo de declínio que levará aos encerramento de suas atividades. O bairro dos Coelhos é esquecido dos grandes acontecimentos sociais.

Entretanto o prédio passou a ter outras ocupações. Era um tempo de renovação da pastoral de igreja, de nova Ação Católica e o hospício, casa de refrigério para os viajantes passou a receber jovens da Juventude Operária Católica – JOC e dos outros ramos da Ação Católica. A casa do padre Venâncio já esquecera seu fundador, pois cada geração, parece querer ser a primeira. Duas décadas a casa acolheu jovens de todo o Brasil e, talvez devamos pesquisar para lembrar quais os Assistentes eclesiásticos da JAC, JEC. JUC que mantiveram encontros de oração e trabalho naquela casa. Mas então veio 1964 e o choque entre os jovens católicos e a hierarquia. Aos poucos o prédio foi esvaziando, mantendo-se vivo porque antigos jocistas e jucistas estabeleceram no térreo um Centro de Trabalho e Educação. O século XX assistiu e foi tempo de grandes transformações que tomam seu quase exato tamanho com o passar do tempo que engole as experiências como que para melhor entender o que esteve acontecendo. Faltamos uma reflexão do padre Sena, talvez um descrição daquele tempo, ou de Almery. Esses silêncios é que fazem os mais novos pensarem que estão a iniciar a história.

E foi em 1968, quando ocorreu um desquite entre a Juventude Católica e a Igreja Católica, que foi fundado o Instituto de Teologia do Recife – ITER, o quase ainda não estudado ano de 1968, nas dioceses e paróquias católicas. Inicialmente funcionando no primeiro andar da Universidade Católica de Pernambuco, no ano seguinte já na Faculdade de Filosofia do Recife – FAFIRE; em 1971 mudou para o Juvenato Dom Vital, na Rua do Giriquiti, mesmo prédio onde funcionavam a Chancelaria da Arquidiocese e o Secretariado da CNBB – NE, finalmente, em 1978 o ITER foi para o prédio construído pelo padre Venâncio. É quando comecei a ministrar aulas de História Geral da Igreja. Os jovens estudantes de filosofia e teologia passaram a ser parte da dinâmica do velho bairro. Um quase rejuvenescimento, com esses jovens chegando a cada manhã. A biblioteca ocupou o térreo, uma rica biblioteca que teve Eduardo Hoornaert como guardião quando o Seminário Regional do Nordeste esteve em Olinda e Camaragibe. Muitas tardes fiquei naquele espaço lendo e estudando para entender o percurso da Igreja Militante. O ITER foi local de muitas experiências e reflexões. Instituto de formação para de presbíteros e agentes pastorais leigos, Aos sábados o prédio continuava recebendo estudantes em um curso de teologia mais voltado para agentes pastorais que atuavam nas paróquias e não podiam assistir as aulas durante a semana. E havia mulheres consagradas ensinando teologia e teólogos cristãos não católicos ministrando e recebendo aulas. E vieram estudantes e professores do Rio Grande do Sul, dos estados do Nordeste e do Norte do Brasil, do Sudeste. E vieram da Alemanha, da Holanda, da França, dos Estados Unidos. E havia muitos debates. E muitas contradições. Recebemos pesquisadores da Europa e dos Estados Unidos. Foi de uma riqueza enorme para os que participaram do ITER. E, claro, os ventos que sopraram no imediato pós Vaticano II foram sendo dispersos no pontificado de João Paulo II, como a fazer cumprir a profecia de Paulo VI ao comparar as vagas da história com as ondas do mar.

Várias visitas apostólicas indicavam que o tempo da experiência estava sendo esgotado e, como disse um sábio jesuíta, voltava a “velha disciplina”. Na sala da Diretoria do ITER compreendi o que significa essa expressão em uma reunião com o Conselho Superior do Centro Nordestino de Pastoral – CENEPAL, para a escolha da diretoria do ITER após a aposentadoria de Dom Hélder Câmara, no comportamento de submissão ao novo Arcebispo e, foi graças ao apego à letra da lei que o padre Cláudio Sartori e eu fomos mantidos na direção do ITER.

Em 1989 veio a resposta a perguntas saídas das reuniões episcopais; eram perguntas que não seriam feitas, e não foram, em outros tempos. A resposta foi o encerramento das atividades do Instituto de Teologia do Recife que prestou grande serviço à Igreja formando 21 anos quase duzentos presbíteros para servir nas dioceses do Norte e Nordeste, além de fornecer pessoas qualificadas para as diversas pastorais e instituições da sociedade. Foram momentos difíceis, especialmente para os diretores naquele momento. Dói demasiado, para quem vive do magistério, fechar uma escola. Dói muito ter que controlar a dor de jovens insatisfeitos e desejosos de mudanças verem ruir seus sonhos, bater na parede do tempo, envelhecer em minutos sem compreender o que está ocorrendo. Ainda hoje carrego a dor de juntar professores e alunos para convencê-los que nada adiantaria lutar, fazer protestos, caminhadas. Roma havia falado, e a obediência era pedida. Como doeu aquela manhã, aquele vento frio que queimava as nossas entranhas. Foi um sofrimento que durou anos e ainda dói.

Depois foi arrumar o final do semestre enquanto as dioceses e congregações encontravam um meio de diminuir as perdas. No final do ano a celebração de despedida no auditório que havia sido reconstruído poucos meses antes. Vários bispos lamentando a resposta às suas perguntas à Santa Sé. Depois que todos falaram os alunos pediram que eu dissesse algo. Talvez fosse melhor não dizer o que todos ali sabiam. Eu vivi o ITER desde 1969, de aluno a Vice-diretor. Não esqueço as palavras que disse, mas não as repetirei aqui, como dizia Dom Hélder, fica como um segredo entre nós, nós os que estavam naquela última missa do ITER.

A biblioteca foi partida: uma parte para Seminário de João Pessoa e outra para o Seminário de Olinda. Não fui convidado a participar de nenhuma dessa nova etapa na formação de sacerdotes, por isso chego a ter remorso de não ter ficado com nada como espólio, só a saudade e a fé que independe do ordinário que esteja à frente da diocese, paróquia ou capela. Padre Diomar Lopes uma vez disse que ‘invejava’ a fé de sua mãe, pois ela o ensinara que Deus é maior que a Igreja. Assim também aprendi com minha mãe, com padre José Comblin, com padre René Guerre, Com Irmã Ivone Gebara, com Irmã Valéria Rezende, com o padre Eduardo Hoornaert, com padre Lourenço Mullemberg, com o irmão Michel Bergman, com o padre Yves Morpeaux, e muitos outros que dedicaram-se aos estudantes do ITER.

As chamas que neste mês de agosto de 2014 destruíram os objetos do Pró-Criança, programa criado por Dom José Cardoso que encontrou novos modos de dar continuidade ao uso do prédio criado pelo Padre Venâncio. Estive naquele prédio para atender vários organismo não governamentais que queriam saber como foi a história antes deles se organizarem. Hoje vi parte do prédio interditado pois uma parte dele deverá ser derrubada, exatamente o lado onde estava a biblioteca do ITER, no térreo e as salas de aulas nos andares superiores.

O ITER está presente no Acre, onde alguns de nós estão envolvidos na administração pública, na política e também na Igreja; o ITER está presente em Santarém, PA; o ITER está presente no episcopado nacional; está presente no CIMI; em várias dioceses na Bahia, em Sergipe, em Alagoas, na Paraíba, na Câmara dos Deputados, o ITER está presente em comunidades luteranas no Rio Grande do Sul e em muitas universidades e faculdades em cidades de porte médio e grande.  Como disse Dom Hélder uma vez quando de sua visita em 1983: iter é caminho.

Domingos Sávio e a Cehila-Popular

terça-feira, agosto 19th, 2014

Hoje, aos dezenove de agosto, leio email no qual Eduardo Hoornaert faz-me a comunicação do falecimento de frei Domingos Sávio, ou simplesmente Mingo, como o chamávamos em nossas reuniões e nos momentos de intimidade, comuns em amizades fraternas de cristãos que trabalham juntos em alguma tarefa. Embora datado do dia 15, o bilhete de Eduardo não menciona o dia do falecimento, mas deu-me a impressão que já fazia alguns dias, pois ele supunha que eu já houvesse recebido a informação.

Domingos Sávio era um dessas figuras abençoadas pela graça de colocar em desenho e tintas os seus sonhos e também captar o que era desejo dos seus amigos. Quando eu o conheci ele fazia atividade missionária no alto da Bondade, em Olinda. Era um irmão franciscano, e embora estivesse tomando aulas de teologia do ITER, não carregou o desejo do presbiterato.  A sua presença foi marcante em várias reuniões das Comunidades Eclesiais de Base, ali ele exercia o seu múnus ao resumir, pictoriamente, o que captava dos relatos e das propostas dos grupos. Foi assim no Canidé, em São Paulo e na cidade do México. Juntamente com a salesiana Irmã Adélia, Sávio formava o núcleo de artistas dos traços e das cores nas reuniões e trabalhos da Cehila-Popular, uma parte criada aqui no Nordeste pela criatividade de Eduardo Hoornaert, e reunia frei Hugo Fragoso, padre Paulo Tonnuci (já falecido), Cândido silva, e também eu. Eduardo vivia em Fortaleza, CE; Hugo Fragoso morava em Salvador, BA; Paulo Tannucci era vigário de Camaçari, BA, Cândido em Salvador, BA; Adélia, Domingos e eu morávamos entre Recife e Olinda.

A Comissão de Estudos de História da Igreja na América Latina deveria ser uma instituição ligada ao CELAM com o objetivo de pensar e fazer uma história a partir do povo e não da instituição; projeto belo que envolveu todo o continente e todas as vertentes cristãs. Foi criada em Quito, fora dos controles  eclesiásticos. De fora das academias, começamos a contar a história a partir do povo, sob a inspiração do Documento de Medellin.  Era um grupo pequeno com o desejo do mundo, sem as seguranças e entraves acadêmicos. Garantindo o rigor científico, os espaços foram sendo conquistados. A História da Igreja passava a ter novos protagonistas e novos enfoques nos anos setenta. Então veio a necessidade de popularizar essa história, colocá-la no lugar de onde ela veio e com a linguagem comum.

A Cehila–Popular reuniu violeiros, improvisadores das margens do Rio São Francisco (Porto da Folha, Penedo) que se encontraram com seus colegas do Ceará, Paraíba, Pernambuco para estudar histórias da história do Brasil e colocá-las em versos para animar as comunidades. E Domingos Sávio nessas reuniões, escutando, sonhando e pondo tintas nos versos, nos folhetos e nas capas dos livros da Cehila-Popular. Uma dos trabalhos mais interessantes foi as gravuras e os mapas desenhados para a Coleção Homens e Mulheres do Nordeste, que foi publicada pela Edições Paulinas, uma coleção que Eduardo Hoornaert e eu coordenamos. Todos os autores cederam seus direitos autorais e a encadernação foi simples para que os exemplares fossem vendidos ao preço de, no máximo C$5.00 (cinco cruzeiros). Padre Cícero, Beata Mocinha, Joaquim Nabuco, Bárbara de Alencar, Zumbi dos Palmares, Beato Lourenço, Ulisses Pernambucano, Padre Ibiapina, foram alguns dos biografados. Domingos Sávio participou de quase todos, mais especialmente doe Zumbi dos Palmares, que escrevi para celebrar o centenário da Abolição.

Aquelas duas décadas, de 1970 a 1990) sob a ditadura militar e inspirados pelo martírio dos povos latinos, foram anos de criatividade porque cheios de esperança na luta contra os ídolos. Esses pensamentos me chegaram com a notícia de que Domingos Sávio está na casa do Pai.

 

ps.  recebi este email de Eduardo Hoornaert que corrigiu-me acerca do local de criação da Cehila: foi em Quito em não em Sucre, como escrevi e fui corrido e corrigi o texto. Mais uma vez, agradeço ao meu professor.

de primaveras,bodes e esperança

quinta-feira, setembro 19th, 2013

 

Meados de setembro, o fim do inverno no Brasil não garantiu a primavera, como as celebradas primaveras que prenunciavam, para alguns, o fim de regimes privilegiadores dos poderes de alguns sobre a sociedade. E como a primavera não chegou, e parecia tão perto, veio à memória a estranha frase “uma andorinha não faz verão, mas anuncia”. Assim passamos do inverno ao verão, ao sol causticante do domínio da letra em detrimento do Espírito. O sentimento é de tristeza e temor, comparável ao sentido na tarde do dia 13 de dezembro de 1968 ao ouvir a notícia do AI 5 enquanto datilografava um stencil que seria mais um número do jornal do bairro, intitulado A VOZ. Naquele momento A VOZ parou de ser escrita e os pés lepidamente levaram o corpo e a notícia para muitos. Naquela tarde de verão começara um inverno.

Muitos anos depois, em época democrática, ouvi um colega perguntar-me “quem mandou você pensar?”, quase replicando um professor de Bíblia que, durante os tempos de vigência do AI 5, me alertou dizendo que “a próxima pergunta é uma heresia!” Essas cenas surgem após os juízes do Supremo Tribunal Federal recusarem a pensar para além das tradições Manuelinas. E veio à mente o ensinamento do professor Marc Hoffnagel, que não perdeu a oportunidade de naturalizar-se dizer, a dizer que “o Brasil é um país de oportunidades perdidas”. Perdemos mais uma oportunidade no dia 18 de setembro, a oportunidade de inovar, de superar a Letra da Lei, alcançando-lhe o Espírito para dar início a uma era nova na justiça brasileira, a de colocar os poderosos na prisão. Mas se preferiu as Ordenações Manuelinas, o apego à lei, o medo da heresia. Por não querer ouvir clamor das ruas Luiz XVI mandou fechar a Assembleia dos Estados Gerais; por ouvir o clamor das ruas, a Assembleia Nacional superou a legislação feudal na Jornada de Agosto. Ler a letra das leis sem ouvir as ruas leva muitos a ouvir o rumor das piscinas dos palácios e condomínios. Não se fazem leis sem o clamor das ruas.

E sabemos que um texto por mais abstrato e metafísico que seja é sempre um retrato do tempo em que foi escrito e de quem o escreveu. Na disposição de manter o que sempre favoreceu a alguns, amigo meu lembrou-se da tradição do “bode expiatório”, desejando nos convencer de estávamos a mirar José Dirceu como sendo um bode que, se condenado, viria a expiar os pecados da sociedade Brasileira. Claro que não heresia comparar José Dirceu com Jesus Cristo, afinal ele é feito à imagem e semelhança de Deus, contudo não é Deus nem o povo o via como Bode expiatório. Essa foi a imagem que seus amigos e correligionários estiveram a querer impor aos brasileiros. Apenas o víamos, e ainda o vemos, como uma pessoa que, ultrapassando os limites do cargo que ocupava, promoveu ou auxiliou a promover uma prática criminosa na cúpula da República brasileira. Ele praticou um crime e, por isso é que, apenas os devotos da sua seita o vê como bode expiatório, esse são animais sem mácula, sem defeito. Ora, sei que o Brasil não precisa de “bodes expiatórios” de “salvadores da pátria”, como um dia ensinou-me outro professor, o Eduardo Hoornaert.

Sim, dá um desânimo em assistir o “ex celso”, o Supremo Tribunal Federal está ocupado por juízes que julgam a partir da letra da lei, esquecendo que a lei foi feita para e pelos homens. A tradição manuelina é uma lei de um tempo anterior ao clamor das ruas, feita por homens que se julgavam superiores aos demais e, feita para garantir essa pretensa superioridade. Mas, como me ensinou o biblista Nércio Rodrigues, o que parece loucura para os homens é a sabedoria de Deus. Por isso é que Hélder Câmara clamava que “quanto mais escura a noite mais ela anuncia a madrugada”.