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Como a Grécia, temos que confrontar o destino

quinta-feira, julho 2nd, 2015

E então metade do ano de 2015 já foi engolida pelo tempo. Nesse curto espaço o mundo aconteceu de diversos modos. Muitas lições foram oferecidas, como assistir alguns jovens ocidentais aceitarem a sedução de tornar-se soldado do Estado Islâmico, que tem como um dos objetivos a superação ou destruição do Ocidente, local onde vivem os ‘infiéis seguidores da maldade’. A propaganda bem sucedida do EI, em mostrar-se em toda sua fúria e majestade, decapitando, afogando ou queimando infiéis, foi antecedida por uma desconstrução dos valores que criaram o Ocidente desde o século XII, momento de inflexão da grande cultura civilizacional islâmica. O desconforto de Omar Kahyyán já apontava que a dominação dos fundamentalistas religiosos traria o declínio de uma das mais expressivas experiências humana. Jovens cansados de um Ocidente que se cansou de se mesmo buscam afirmar-se em outros lugares e, lamentavelmente afirmam-se destruindo a vida. Atentados ocorridos em cidade francesa e em duas cidades do mundo árabe/islâmico testemunharam a o culto da morte como celebração da vida.

Este meio ano foi tempo de angústia para muitos que viram seus projetos ruírem, suas esperanças mitigarem diante do inexorável das disputas por espaços e coisas. A Grécia que desde muito tempo vem vivendo da construção de navios e dos turistas em busca de divertimento enquanto fingem estar consolidando cultura, vê-se, de novo, diante da Esfinge, obrigando-se a decifrar seu destino, o que ocorre cotidianamente com todas as pessoas, mas que é trágico quando a República está em jogo.

A tragédia, como sabemos, é a impossibilidade de vencer o destino contra o qual se luta bravamente, embora se saiba da inevitabilidade da vitória. Mas se na antiguidade o destino era definido pelos deuses, sabemos hoje que cada um constrói seu próprio caminho, consciente ou não, criando as inevitabilidades. Somos, hoje sabemos, construtores de nossos destinos. Assim, já não nos cabe lamentar o que nos ocorre por encontrarmos a esfinge depois de, por orgulho estúpido, por desrespeito aos mais jovens e aos mais velhos, produzimos a morte de quem nos gerou, como ocorreu a Édipo, assassino de seu pai, a quem não conhecia. O segredo de seu destino é decifrado enquanto vive, e vive condenado por sua própria arrogância.

Os contemporâneos de Édipo foram obrigados, pelas leis criadas pelo rei Édipo, a não dirigir nenhum gesto ou palavra àquele que provocou tanta miséria ao povo por conta do crime de ter destruído, ainda que sem consciência disso, os valores fundamentais de sua cidade.

Simular não saber o que sabia, ou intuía, foi o crime que levou à cegueira e a sua cidade ao declínio. E, como ouvimos, em nossa cidade, os poderosos afirmarem não saber o que sabem. É seu destino, será o da cidade?