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Domingos Sávio e a Cehila-Popular

terça-feira, agosto 19th, 2014

Hoje, aos dezenove de agosto, leio email no qual Eduardo Hoornaert faz-me a comunicação do falecimento de frei Domingos Sávio, ou simplesmente Mingo, como o chamávamos em nossas reuniões e nos momentos de intimidade, comuns em amizades fraternas de cristãos que trabalham juntos em alguma tarefa. Embora datado do dia 15, o bilhete de Eduardo não menciona o dia do falecimento, mas deu-me a impressão que já fazia alguns dias, pois ele supunha que eu já houvesse recebido a informação.

Domingos Sávio era um dessas figuras abençoadas pela graça de colocar em desenho e tintas os seus sonhos e também captar o que era desejo dos seus amigos. Quando eu o conheci ele fazia atividade missionária no alto da Bondade, em Olinda. Era um irmão franciscano, e embora estivesse tomando aulas de teologia do ITER, não carregou o desejo do presbiterato.  A sua presença foi marcante em várias reuniões das Comunidades Eclesiais de Base, ali ele exercia o seu múnus ao resumir, pictoriamente, o que captava dos relatos e das propostas dos grupos. Foi assim no Canidé, em São Paulo e na cidade do México. Juntamente com a salesiana Irmã Adélia, Sávio formava o núcleo de artistas dos traços e das cores nas reuniões e trabalhos da Cehila-Popular, uma parte criada aqui no Nordeste pela criatividade de Eduardo Hoornaert, e reunia frei Hugo Fragoso, padre Paulo Tonnuci (já falecido), Cândido silva, e também eu. Eduardo vivia em Fortaleza, CE; Hugo Fragoso morava em Salvador, BA; Paulo Tannucci era vigário de Camaçari, BA, Cândido em Salvador, BA; Adélia, Domingos e eu morávamos entre Recife e Olinda.

A Comissão de Estudos de História da Igreja na América Latina deveria ser uma instituição ligada ao CELAM com o objetivo de pensar e fazer uma história a partir do povo e não da instituição; projeto belo que envolveu todo o continente e todas as vertentes cristãs. Foi criada em Quito, fora dos controles  eclesiásticos. De fora das academias, começamos a contar a história a partir do povo, sob a inspiração do Documento de Medellin.  Era um grupo pequeno com o desejo do mundo, sem as seguranças e entraves acadêmicos. Garantindo o rigor científico, os espaços foram sendo conquistados. A História da Igreja passava a ter novos protagonistas e novos enfoques nos anos setenta. Então veio a necessidade de popularizar essa história, colocá-la no lugar de onde ela veio e com a linguagem comum.

A Cehila–Popular reuniu violeiros, improvisadores das margens do Rio São Francisco (Porto da Folha, Penedo) que se encontraram com seus colegas do Ceará, Paraíba, Pernambuco para estudar histórias da história do Brasil e colocá-las em versos para animar as comunidades. E Domingos Sávio nessas reuniões, escutando, sonhando e pondo tintas nos versos, nos folhetos e nas capas dos livros da Cehila-Popular. Uma dos trabalhos mais interessantes foi as gravuras e os mapas desenhados para a Coleção Homens e Mulheres do Nordeste, que foi publicada pela Edições Paulinas, uma coleção que Eduardo Hoornaert e eu coordenamos. Todos os autores cederam seus direitos autorais e a encadernação foi simples para que os exemplares fossem vendidos ao preço de, no máximo C$5.00 (cinco cruzeiros). Padre Cícero, Beata Mocinha, Joaquim Nabuco, Bárbara de Alencar, Zumbi dos Palmares, Beato Lourenço, Ulisses Pernambucano, Padre Ibiapina, foram alguns dos biografados. Domingos Sávio participou de quase todos, mais especialmente doe Zumbi dos Palmares, que escrevi para celebrar o centenário da Abolição.

Aquelas duas décadas, de 1970 a 1990) sob a ditadura militar e inspirados pelo martírio dos povos latinos, foram anos de criatividade porque cheios de esperança na luta contra os ídolos. Esses pensamentos me chegaram com a notícia de que Domingos Sávio está na casa do Pai.

 

ps.  recebi este email de Eduardo Hoornaert que corrigiu-me acerca do local de criação da Cehila: foi em Quito em não em Sucre, como escrevi e fui corrido e corrigi o texto. Mais uma vez, agradeço ao meu professor.