Posts Tagged ‘Dom Hélder Câmara’

Uma ajuda a um historiador que deseja “desnaturalizar” uma visão sobre Dom Hélder

sábado, novembro 27th, 2021

Em junho deste ano escrevi um texto a respeito de artigo publicado em livro organizado pela professara Marcília Gama e por Thiago Nunes, no qual o autor dizia: “no decorrer deste capítulo, dedicaremos nossos esforços desnaturalizar uma visão de que Dom Hélder Câmara sempre esteve na oposição do regime ditatorial no Brasil, 1964 a 1985”. Para ler o que disse, à época, demonstrando a falácia do historiador, envio para o link  http://www.biuvicente.com/blog/?p=3300

Pois bem, volto ao tema para citar Chico Assis, militante do PCB, relatando a sua experiência e a de seus companheiros. publicado por Pedro Eurico em seu interessantíssimo O DOM QUE VIVE EM NÓS, publicado esta semana pela CEPE. Transcrevo: Mesmo nesse período de militância havia uma vinculação, e dom Hélder funcionava sempre como aquele que na hora do aperreio sempre a gente podia contar – era o porto seguro -, e por mais que existissem os preconceitos ideológicos tudo mundo reconhecia nele um cara de coragem. Desde o início, né?! Desde o Rio de Janeiro o cara já veio com uma história. Essa coisa de preconceito ideológico inda mais porque no início da vida ele tinha sido integralista (risos), aí havia toda uma resistência. [118]

A pressa de escrever, olhando apenas documentos, e utilizando apenas o óculos social que lhe foi dado por algum interesse, faz surgir Torquemada em cada linha. Dom Hélder foi bastante perseguido em sua vida, os que com ele convivemos sabemos o quanto sofreu e como foi capaz de viver o processo histórico. Aliás, Pedro Eurico publica a entrevista que tirou o Dom do silêncio, entrevista que concedeu a Divane Carvalho Fraticelli, o nosso historiador, quando a ler, entenderá que ele precisa ser mais cuidadoso nas suas conclusões.

Cultura durante a ditadura iniciada em 1964

sexta-feira, junho 10th, 2016

CULTURA DURANTE A DITADURA iniciada em 1964
(Texto para palestra proferida na celebração do 35º ano da Associação dos Docentes da UFEPE, ADUFEPE, no dia 29 de abril de 2014)

Prof. Dr. Severino Vicente da Silva

Agora é o tempo de tudo, de tudo fazer, de tudo lembrar, de tudo esquecer e, porque não? de tudo refazer. Alguns estão a celebrar, outros dizem que apenas querem lembrar, mas há quem queira refazer os acontecimentos de 1964 e dos anos seguintes. O tempo foi passado, alguns dos personagens já morreram; os vivos, especialmente os mais vivos, apressam-se a reviver o que não viveram. A cada dia uma nova história é contada para explicar como nós chegamos até aqui. Foram muitos passos realizados naquele período, nem todos estão registrados, e mesmo os que foram registrados e guardados em malas, caixas de famílias ou arquivos de acordo com os padrões estabelecidos pela ciência, grande parte deles está intacta, esperando serem destruídos ou lidos e analisados. E a parte da parte já tocada e conhecida, é a história contada pela boca de quem tocou nos documentos e pensou, a seu modo, os segredos que julga ter desvendado. Só com o conhecimento desses segredos, junto com outros segredos guardados em muitas memórias, é que poderemos saber o que aconteceu conosco, enquanto indivíduos, enquanto grupo social, enquanto sociedade que construiu, viveu e superou a ditadura.

Essa reunião que fazemos agora é uma tradição antiga: sentar em torno de uma fogueira para aquecer os corpos e fortalecer a memória. É para isso que, ao longo da história de nossa humanidade, nos sentamos em torno do fogo para ouvir a memória dos mais velhos, para atiçar as brasas de suas lembranças retirando as cinzas que as encobre, cinzas que fazem esquecer. Os mais jovens, com suas perguntas, auxiliam os mais velhos a aprender com a vida que viveram.

Esse encontro que objetiva celebrar o 35º aniversário da Associação dos Docentes da Universidade Federal de Pernambuco – ADUFEPE coincide com 50º aniversário do Golpe de estado protagonizado por civis e militares. É em 1979, quando a ditadura já começava a esboçar cansaço que foi criada a ADUFEPE, uma entidade de intelectuais formadores de intelectuais.

Lendo o que hoje se escreve sobre 1964 notamos que estão dando importância maior apenas aos que fizeram atos heroicos que foram amplamente registrados por amigos, partidos políticos e familiares dos heróis, aqueles que foram contemporâneos dos fatos ou herdeiros deles. Nos tempos de hoje há os que ainda estão vivos e há os que já morreram; entre os vivos e os mortos há os que deixaram herdeiros, e esses são muito falados; e há os que não deixaram herdeiros e pouco deles se fala, e se escreve sobre eles. E há alguns que morreram e seus herdeiros não sabiam ler, escrever, guardar documentos, desses, talvez, saberemos seus nomes e mais nada. Saberemos menos daqueles que não herdaram o poder do estado que combatiam, sabemos mais dos que herdaram o estado que combatiam. Embora se queira negar, a sociedade brasileira quis o golpe de estado ocorrido em 1964. Poucos se opuseram ao golpe e os mais prejudicados por ele não podem reclamar, nunca puderam. Eles nem tinham ciência do mal que estava atingindo a todos.

Os intelectuais tinham essa consciência de que algo havia mudado nas relações do Estado com os setores da cultura e tomaram atitudes naqueles anos de medo e de chumbo: alguns atuaram para garantir o retorno do tempo do silêncio que vinha sendo rompido desde o início dos anos cinquenta – eram os saudosistas do Estado Novo, outros estados e estamentos; outros agiram para resistir e recriar, é melhor dizer, criar em uma nova situação, pois, se na natureza tudo se transforma, na sociedade nada se recria.

O ambiente cultural vivido após abril de 1964 tem várias marcas, e uma delas é o “terrorismo cultural”. Embora Nelson Werneck Sodré, em 1965, tenha escrito na Revista da Civilização Brasileira artigo intitulado Terrorismo cultural , a expressão foi cunhada pelo pensador católico Alceu de Amoroso Lima indignado com as perseguições no meio universitário e como as demissões de Celso Furtado, Anísio Teixeira e Josué de Castro dos seus postos públicos, quem forjou a senha inicial para resistência intelectual ao regime… . Desde os primeiros dias daquele regime a sensibilidade daquele intelectual sentiu que era necessário dizer o que estava ocorrendo, correr o risco de pensar sobre a sociedade e a ela dizer o que ela estava a fazer, auxiliar a esclarecer o momento que ela vivia. A cultura é a reflexão sobre os atos humanos. “Intelectual” é conceito decorrente da conduta de Emile Zola (1840-1820), em acusar a sociedade de seus erros correndo risco ao defendê-la.

Como sabemos, nos primeiros dias da ditadura, esta afirmava que foi feita para evitar a comunização do Brasil. Aqui em Pernambuco foram presos poucos comunistas, como nos relata Fernando Coelho:
Dos líderes comunistas de expressão, após o golpe, em Pernambuco, além de intelectuais como Paulo Cavalcanti e Abelardo da Hora, somente Gregório Bezerra foi preso. A repressão inicial atingiu, principalmente, as lideranças dos movimentos populares e sindicais, a universidade e a chamada esquerda católica, além de políticos ligados ao governo deposto. (…) a falta de comunistas, os sindicalistas, os intelectuais ou assim considerados e os “cristãos progressistas”, entre os quais um número relativamente grande de eclesiásticos, pagaram as custas da febre policial dos primeiros dias”

Veja que o autor que nos socorre não diz que Paulo Cavalcanti e Abelardo da Hora são comunistas, ele prefere, escolhe, defini-los como “intelectuais”. Ali já está mencionada a presença de intelectuais aprisionados pelo regime que está iniciando. Outros foram encarcerados nas semanas seguintes. Assim foi sendo montado o cenário que a sociedade escolheu, talvez por engano, imaginavam que os militares voltariam para os quartéis, como sempre haviam feito; talvez por medo de um modelo de sociedade que permitiria pensamento diverso daquele enunciado pelos novos donos do poder. Vivia-se o tempo da Guerra Fria e eram muitos os que formavam o grupo dos que cultivavam o temor de que os acontecimentos cubanos e a república sindicalista argentina viessem a se repetir nos demais países da América Latina; talvez por isso, as igrejas se uniram aos empresários. Poderíamos continuar a buscar as razões para explicar os acontecimentos de 1964 até encontrarmos uma resposta que caiba em nossa ansiedade e nos acalme. Mas, nesta conversa em torno do fogo, é importante lembrar que os líderes da dita Revolução, tiveram medo dos intelectuais.

É a cultura que nos envolve e nos molda, e as nossas ações reforçam os padrões ou indicam caminhos para novos padrões. Os intelectuais, esses homens e mulheres que cuidam de refletir sobre essa cultura que nos envolve podem nos ajudar a compreender o fazemos de nós mesmo, e parece ter sido este o grande temor daqueles que, pelas armas, ajudaram a manter no poder os grupos que de lá não queriam sair, tangidos pelo avanço de novos grupos sociais na direção do saber e da cultura que sempre foi mantida ao serviço e prazer dos poderosos de sempre. Mas, se eles temiam os intelectuais, não temiam a todos, pois alguns intelectuais estão sempre ao serviço do poder de então.

A cultura pode ser definida amplamente como tudo que os homens criam com suas mentes, com suas mãos e todo o seu corpo no contato com a natureza. Mas esse conceito antropológico é tão amplo que pode empobrecer nosso debate. Podemos ampliar nossa conversa ao dizer que a cultura é o resultado da reflexão e ação dos humanos sobre a natureza e a reflexão sobre os resultados. A cultura é a reflexão sobre si mesmo e sobre as ações humanas, e isso toma muito tempo. Do aparecimento do homem até a invenção do fogo e dos códigos mínimos de comunicação correram alguns milênios. Alguns milênios foram necessários para a invenção dos símbolos, das mitologias, da arquitetura, da engenharia de controle das águas, da engenharia social na organização das crenças, dos grupos sociais familiares até o estado. Leva tempo, também, criar novas expressões culturais após um cataclismo social, como o o que ocorreu conosco em meados do século passado.

Os tempos da ditadura militar foram momentos de esmagamento de algumas manifestações culturais, especialmente aquelas que eram mais representativas das mudanças sociais ocorridas na década de cinquenta que, em Pernambuco, ganharam espaço no Movimento de Cultura Popular . Desde os anos quarenta que aqui vinha ocorrendo a confluência de uma população carente de comida para o corpo e alimento para o seu espírito (desculpem mencionar essa palavra atualmente não politicamente correta ou conveniente) com uma sociedade que tradicionalmente cultivava um conceito de cultura e de vida discriminante e excludente. Essa população carente buscava aprender a ler, escrever e contar o salário e a sua história. Essa era uma grande novidade nos anos sessenta, pois a industrialização agitada por Juscelino Kubistchek precisava de gente que soubesse ler as orientações para o uso das máquinas e escrever as notas de balcão nas casas comerciais. Quando a população brasileira era mais dependente da atividade agrícola tradicional, a leitura do mundo que era exigida era bem menos complexa do que se exige na sociedade industrial.

Ler, Escrever e Contar são instrumentos de multiuso e de ampliação dos espaços e interesses. E se há uma ampliação do mundo, também há uma ampliação das linguagens e de seus usos. Os intelectuais dos anos quarenta e cinquenta souberam ver, registrar e recriar as danças dramáticas do povo que vivia nas áreas rurais, mas, a partir dos anos sessenta os que formam o povo já estavam de mudança para esse outro lugar mais moderno que é o lugar das cidades. E não estou dizendo apenas a capital, mas cidades de médio e pequeno porte. E esse acontecimento implica novas criações, e novos sujeitos criadores.
Eles foram surgindo aos poucos, agindo sobre as novidades e criando novas novidades.
Temos que tomar um ponto inicial para conversar sobre o universo cultural em Pernambuco na época de poder dos generais. Poderia começar pensando nas atividades culturais que começaram em torno da personalidade e da obra de dom Hélder Câmara. A sua presença foi incômoda para muitos políticos e homens da cultura “varandística”, essa que cresceu nas varandas das casas grandes e dos sobrados. Consta que nos primeiros meses após sua chegada, em abril de 1964, o novo arcebispo promoveu vários saraus em sua casa, ainda no Palácio do Manguinhos, para conhecer os artistas pernambucanos. Era um caminho possível para conhecer o espaço cultural no qual ele foi metido abruptamente, retirado do Rio de Janeiro para cuidar do Rio Capibaribe. E para um Príncipe da Igreja, um trajeto possível era o trato com os bardos e artistas, pois eles são de conhecer a alma do povo que os rodeia. Esses encontros com a “juventude dourada”, além de assegurar alguns jovens que vieram a auxiliá-lo em suas obras sociais, também valeram a crítica da sociedade mais conservadora que não entendia o que fazia um bispo sentado nos batentes do palácio madrugada adentro conversando com jovens artistas e intelectuais. Outra senda aberta pelo bispo que chegava foi a criação da Operação Esperança e dos Conselhos de Moradores nos bairros periféricos, com ela Dom Hélder atingia outro público que normalmente não tinha acesso à cultura promovida pelos artistas que participaram dos “Saraus do Manguinhos”. Mas a Operação Esperança foi o caminho para que jovens universitários, das famílias melhor aquinhoadas pela história e pela economia entrassem em contato com o mundo da periferia, ensejando trocas culturais bastante vivas e fecundas com jovens que viviam no fio da navalha social.

Outro meio de iniciar nossa conversa sobre a vida cultural, artística e política na Ditadura Militar, é olhar os poetas da “geração 65”, da qual citaremos os nomes de Alberto da Cunha Melo, Marcos Cordeiro, José Mário Rodrigues, Celina de Holanda, Roberto Aguiar, Luiz Pessoa, Jaci Bezerra, Almir Castro Barros, Montez Magno, Sérgio Bernardo, Domingos Alexandre, que cultivam uma boa relação com a Livraria Livro 7 que, por mais de duas décadas serviu de local de resistência cultural à ditadura. Para aquele espaço da Rua Sete de Setembro, sonhado e criado por Tarcísio Pereira, convergiam poetas, escritores, professores e estudantes em constante troca de informações ou, no mínimo, um contato visual entre o leitor e o autor.

A sociedade foi inventando lugares e formas de formar-se e expressar-se. Na década de sessenta um caminho possível foi o cinema: a arte de assistir, discutir e fazer. Salas de exibições eram poucas, mas o cine clubismo foi um espaço de formação que atingiu muitas localidades, além da capital. Colégios do Recife, do Agreste (Limoeiro) e da Zona da Mata Norte (Vicência) promoveram sessões , e algumas delas foram incentivadas por Jomard Muniz Brito, cuja alma não se aquietou após a prisão ocorrida em 1964. Ele participou ativamente do ciclo do Super 8, nos anos 70, um período que produziu cerca de 200 filmes , documentários sobre a vida rural, injustiças sociais, filmes experimentais abordando temas culturais urbanos. Foram realizados três festivais de Super 8 (1977, 78, 79). É nesse período que as sessões de Arte nos cines São Luiz, Coliseu, Trianon, AIP eram o consolo e o local de formação, para as novas gerações, do hábito de degustação de filmes. Para muitos jovens estudantes as manhãs de sábado eram próximas dos cinemas. O cinema foi, pois, outro caminho para que jovens da classe média discutissem o mundo ao seu redor em pleno regime ditatorial. E foram muitos os resultados e vocações que se formaram a partir desses cineclubes, e também o sentimento de que havia a possibilidade de compreender o mundo a partir da utilização de uma câmera que, apesar da pouca sofisticação técnica, produziu trabalhos de referência. Relacionada ao cinema, devemos lembrar a participação dos jornais no debate dessas criações, especialmente a atuação de Celso Marconi que fez a crítica de cinema no Jornal do Commercio nos anos sessenta e setenta.

A dança foi um insuspeito caminho utilizado para a criação de novas possibilidades de educação, compreensão dos sentimentos de dores e alegrias que vivia a sociedade, e o interesse pela dança pode ter acompanhado a fundação da TV Jornal do Comércio em junho de 1960. Talvez devamos chamar atenção à existência de um corpo de balé que a TV Jornal do Commercio mantinha para os programas de auditório. Mas, nessa conversa, quero tomar por base, nos aos 70, a prática do aprendizado de dança no Recife, e podemos apontar Flávia Barros com a Escola de Ballet do Recife, fundado em 1972, formando pessoas em danças clássicas, e Flávia Barros teve entre seus alunos o Fred Salim.

Valdi Coutinho, ator e crítico de arte, publicou, no livro Palco da memória, os artigos de sua coluna “Cena Aberta” no Diário de Pernambuco e se dá conta de que abriu espaço para grupos de dança que nasciam nos anos 70 e 80, gente como Mônica Japiassu, que coreografou Morte Vida Severina, e O Capataz de Salema; Rubem Rocha Filho, que foi o diretor de Tempos perdidos… nossos tempos e Morte e vida Severina; Zdenek Hampl foi o coreógrafo de O capataz de Salema, que teve a direção musical de José Madureira, e também coreografou Lua Cambará, um texto de Ronaldo Lima Brito, também o e criador de A toda Prova; Zumbi Bahia e Ubiracy Ferreira fundaram o Balé Primitivo de Arte Negra; Carol Lemos, Lúcia Helena, André Madureira, este o fundador do Balé Popular do Recife. A dança foi um caminho que não ficou restrito aos jovens da classe média, mas que abria espaços para a participação de jovens das periferias da cidade, estas que fizeram o crescimento populacional da cidade nas décadas de quarenta e cinquenta com a migração e que, nos setenta e oitenta já exibia jovens nascidos na capital. Cabe destacar atuação do amazonense Nascimento Filho, rebatizado Nascimento do Passo pela atuação como difusor do Passo.

Nos anos setenta, algumas novidades que vinham sendo gestadas há algum tempo, tomam forma no Movimento Armorial pensado por Ariano Suassuna e outros intelectuais/artistas como Francisco Brenand (recentemente ele negou essa aderência), Raimundo Carrero, Samico que também disse “não aderi ao movimento armorial, fui colocado nele”, Ângelo Monteiro, entre outros , pretendendo criar uma arte erudita própria da região a partir da criatividade cultural nordestina, utilizando a música, a literatura, dança, teatro. Tendo sido iniciado na Pró-Reitoria para assuntos Comunitários da UFPE, logo o Movimento Armorial recebeu a adesão oficial dos governos do município do Recife e do estado de Pernambuco. Desse momento inicial vieram o Balé Armorial do Nordeste, Orquestra Armorial do Nordeste, Orquestra Armorial, Quinteto Armorial. Aqui devemos recordar que Ariano Suassuna foi, em 1967, membro fundador do Conselho Federal de Cultura.

Voltemos ao depoimento de Valdi Coutinho:
“Nos anos 80 era muito difícil fazer um espetáculo de dança atraente para o público, que perdurasse muito tempo em cartaz, que retirasse da bilheteria o investimento financeiro. As escolas e academias lotavam as casas de espetáculo no final do ano, com familiares e amigos das garotas que se apresentavam preocupadas quase sempre em busca da perfeição técnica, mas sem qualquer expressividade dramática no rosto, sem dramaticidade na dança. Era um tabu para o homem estudar dança, enfrentando o preconceito do machismo, que era gritante especialmente no Nordeste. Mas isso ficou para trás, graças ao destemor de alguns que enfrentaram a discriminação mostrando que dançar era uma arte para ser exercida por ambos os sexos.”

E, sem dúvida, a arte teatral encontrou modos de sair do amadorismo histórico do Teatro de Amadores de Pernambuco para a profissionalização buscada por Hermilo Borba Filho desde o Teatro do Estudante até o Teatro Popular do Nordeste. O teatro foi sempre uma tradição e um local de exibição do bom gosto senhorial que, na segunda metade do século XIX fez construir o Teatro de Santa Isabel. Mas aqui estamos conversando como se viveu a arte nos anos da Ditadura Militar e, mantendo a ideia de que podemos iniciar nossa conversa tomando por base a presença de Dom Hélder Câmara, quero destacar que em 1974, Guilherme Coelho, postulante ao monacato beneditino e envolvido na Pastoral da Juventude, para comemorar os dez anos da Associação dos Rapazes e Moças do Amparo, ARMA, montou o espetáculo Vivencial I, com improvisações sobre vários textos de dramaturgos e filósofos e jornalistas. Abordando assuntos polêmicos como homossexualidade, violência, drogas, política, tecnologia e massificação. A estreia ocorreu no colégio São Bento e o público recebeu o espetáculo com estranheza e encantamento. Desalojado do São Bento, o grupo peregrinou por diversos teatros e montou várias outros espetáculos como MADALENA EM LINHA RETA, JOÃO ANDRADE EM CONVERSA DE BOTEQUIM E UM AUTO DE NATAL ainda em 1974. O PÁSSARO ENCANTADO DE UBAJABA (1975) e, no mesmo ano, montou NOS ABISMOS DA PERNAMBUCÁLIA, de Jomar Muniz Brito. Em 1976, Jomard Muniz escreveu 7 FÔLEGOS especialmente para Pernalonga. O grupo também fez a montagem de SOBRADOS E MOCAMBOS de Hermilo Borba Filho, em 1977. O grupo atuou até 1983.

Várias outras experiências teatrais ocorreram no período, como a encenação da Paixão de Cristo, dirigida pelo professor Isaac Gondin Filho, em espaços ligados à diocese, mas sempre em áreas periféricas. Nesse espetáculo Jesus Cristo foi interpretado por um ator negro. Interessante notar no período o interesse pelo drama vivido por Jesus, seu projeto, prisão, tortura e morte, realidade que ocorria nos porões da ditadura. Em 1968 Plínio Pacheco, com texto escrito por ele em 1956, iniciou a encenação da Paixão de Cristo em Nova Jerusalém, no município de Brejo da Madre de Deus.

O caminho da profissionalização do teatro no estado parece ter início no sucesso de montagens realizadas na segunda metade da década de 70. Em 1975 foi montada CANÇÃO DE FOGO, de Jairo Lima que lotou o teatro; em 1976, Antônio Cadengue dirigiu A LIÇÃO de Eugene Ionesco. Essas experiências estão na origem da Praxis Dramática. A Companhia Praxis Dramática, realização de José Mário Austregésilo e Paulo Fernando Goes, foi fundada em 1976, e representou importante passo para a profissionalização do teatro em Pernambuco, iniciando com a montagem de ESSA NOITE SE IMPROVISA de Luigi Pirandello. Esta foi seguida por GALILEU GALILEI de Bertold Brecht e direção de Milton Bacarelli. Uma sequencia de grandes espetáculos como EQUUS garante a chegada dos anos 80 com TAL & QUAL NADA IGUAL, texto de Jomard Muniz Brito e direção de Guilherme Coelho; e na comemoração de 10 anos de sua primeira apresentação, encena VIVA O CORDÃO ENCARNADO, peça de Luiz Marinho.
Podemos ainda mencionar o quanto a poesia e a música foram espaços para a criatividade dos novos. Como não podemos citar a todos, pois o tempo não permite, lembremos de Don Tronxo, Ave Sangria, Marconi Notaro, Alceu Valença, Laíson, Lula Cortez e os festivais de música.

Quero não deixar passar a oportunidade de lembrar os festivais de Ciranda, iniciados no Bar Cobiçado, no Janga e que serviram de motivo para tornar essa dança coletiva e popular a dança da moda e, que durante anos embelezou o Pátio de São Pedro, local secular tornado, por um tempo, o espaço do turismo em Pernambuco nos anos de 1973 a 1980.

Poucos dias antes de meu sequestro ocorrido em agosto de 1973 escrevi um poema que assim diz: Recife, minha ilha de água doce, está ficando amargo te ver hoje!

Como essa conversa procurou demonstrar, o amargor da ditadura não impediu a criação artística, o surgimento de expressões do belo, o belo que é a busca de toda a vida humana

BIBLIOGRAFIA
COELHO, Fernando. COELHO, Fernando. Direita, Volver: O Golpe de 1964 em Pernambuco. Recife: Editora Bagaço, 2004.
Dossiê dos Mortos e Desaparecidos políticos desde 1964. Amparo Caridade (Organizadora). Recife: Companhia Editora de Pernambuco, 1995.
ENCICLOPÉDIA ITAÚ CULTURAL DE TEATRO.
http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_teatro/index.cfm
FIGUEREDO, Haroldo Morais. Vigilante Cura: uma educação cinematográfica nos colégios católicos de Pernambuco, 1950-1960. Doutorado em Educação. Recife: Centro de Educação, UFPE, 2012.
INTERPOÉTICA – http://interpoetica.com/site/index.php?option=com_content&view=article&id=703&catid=0
NAPOLITANO, Marcos. 1964, História do Regime Militar Brasileiro. São Paulo: Editora Contexto, 2014.
NOGUEIRA, Armanda Mansur Custódio. O novo ciclo do cinema em Pernambuco, a questão do estilo. Dissertação de mestrado, Programa de Pós Graduação em Comunicação, Centro de Arte e Comunicação. Recife. Universidade Federal de Pernambuco, 2009. Mimeo.
RECORDANÇA – http://www.recordanca.com.br/?page_id=3732
COMO PROMETEU- Natanael SARMENTO, Luiz MAGALHÃES, Biu VICENTE. Recife: Edições do autor.
VICENTE, Tâmisa Ramos. Vamos Cirandar. Recife: Editora Universitária; Olinda: Associação Reviva. 2001.

Fertilidade, chuvas e modernidade rarefeita

terça-feira, maio 10th, 2016

O mês de maio tem recebido muitos significados ao longo do tempo, representando muitos sonhos primaveris. Assim tem sido lembrado pelos que vivem no hemisfério norte da terra, costume que foi seguido pelos grupos humanos que foram afetados pela expansão da civilização europeia. Assim é que, para lembrar a fertilidade da terra festivais eram realizados e deram origem às grandes religiões, coisa séria que, apesar do ar festivo, o Maio era o momento de celebrar núpcias e dar início ao processo de renovação da vida.

No Recife e no litoral pernambucano, o mês de maio parece ser um momento especial para as grandes chuvas, ao menos a cada trinta anos. No passado, quando os pântanos ocupavam as várzeas do Rio Capibaribe, era coisa sem maior importância, pois as águas do rio também traziam o enriquecimento do solo para a agricultura. Mas ao final do século XX, após o processo que transformou áreas de agricultura em áreas residenciais, as chuvas de maio trazem graves problemas. Em 1975, a enchente do Capibaribe e as chuvas tornaram explícito que o processo de urbanização não considerou o espaço para o rio, da mesma forma que lembrou a necessidade de cuidar melhor da parte da população que foi levada a morar nos morros. Daquela chuva de três dias surgiram novos bairros na cidade que foi se aproximando de Jaboatão. Situação semelhante, dez anos antes, fez nascer a Operação Esperança, liderada por Dom Hélder Câmara para animar a solidariedade dos mais pobres e com os mais pobres. Era uma tradução prática do sonho do Irmão Roger, de Taizé. Além disso, para cuidar dos homens, os governantes da época tomaram a decisão de domar o rio e cuidaram de construir uma barragem. Mas o cuidado com os homens foi menor, e neste ano de 2015, sem a enchente, as chuvas mostraram que a cidade não se organizou culturalmente para a nova sociedade, e os hábitos rurais da população que foi escorraçada para a expansão da agricultura, permanecem na cidade. Educados para viver de forma quase natural, a população – pobre ou rica – do Recife e suas vizinhas, não se habituou, ou não aprendeu, as novas exigências da guarda dos resíduos que produz, pois, nesta nova sociedade, eles não são absorvidos naturalmente.

E maio vai sendo marcado pelas invasões das águas sobre as ruas e as casas, pois foi próximo aos rios e a antigos riachos que novos conjuntos habitacionais foram construídos sem considerar a natureza. Esse fenômeno pode ser encontrado em quase todas as capitais brasileiras que, desejando muito serem reconhecidas como modernas, fazem rápido curso de Atualização Histórica, como ensinou Darcy Ribeiro, e vivem uma modernidade superficial, uma modernidade de consumo, mas sem entender o que e porque consome tanto. Maio, que era o mês da fertilidade, agora vai se tornando o mês do temor das chuvas. Mas essa situação vale apenas para os que cultivam a memória, como os festivais antigamente faziam.

No mais, é como canta o poeta quase moderno: “deixa a vida me levar, vida leva …”
E esse desleixo vale também para outra parte da vida política, como comprova o comportamento de um deputado, crescido nas férteis áreas da corrupção da Ilha do Maranhão. Mas isso é outra história.

Revisão do ano 5

terça-feira, dezembro 29th, 2015

Revisão do ano 5 memória

Todos os esforços que os humanos fizemos desde que um grupo começou a ter alguma consciência do ocorria ao seu redor, ou mesmo antes dessa consciência, parece ter sido a busca da felicidade. E a felicidade de uma pessoa é, sempre, a felicidade da outra pessoa. Como cantava Nelson Ned, nos anos sessenta do século passado, em letra de Adelino Moreira: “Amor só se dar, se amor se ganha também; quem der sem ganhar, pensa que tem, mas não tem.” Ou seja o que homens e mulheres procuram é ser feliz na procura de poder dizer “eu quero seu bem”. Nas religiões, quando isso ocorre, costuma-se dizer que esta pessoa é um Mestre, um Yoga, um Buda, um Iluminado, um Santo. Os títulos são diferentes para cada grupo religioso. Houve até uma religião não religiosa que, teve Comandante, Grande Timoneiro, e outros assemelhados.

No de 2013, participei, como ouvinte, de um debate com dançarinos e outros artistas e cientistas, que tinha como tema, O Corpo. O que fazemos com o nosso corpo, como o usamos para nos aperfeiçoarmos, etc.. Após a exposição de um professor que usou o tempo da plateia para demonstrar que a religião, especialmente o cristianismo, é responsável pela infelicidade humana porque a Inquisição aniquilava o corpo e a repressão das Reformas Religiosas do século XVI reprimiam as pulsões de felicidade. Claro que o professor era leitor de Charles de Foucault, e este tem alguma (muita) razão no que diz, porém, o professor apresentou alguma dificuldade de apresentar a ideia de que os santos e similares colocam seus corpos, sua mentes para o serviço do que chamam de bem. Haveria Olimpíadas sem repressão ao corpo?

É, em parte, por esse discurso que jovens aceitam enrolar-se em bombas, tornam-se explosivos para fazerem vingar suas crenças. São treinados para essa ação que lhes garante a santidade, a aceitação e premiação, por seus atos, pela sua divindade. Mutatis mutantis, não é muito diferente dos jovens dos esquadrões antibombas ou dos recrutas enviados para o front das batalhas. Naquela sessão eu mencionei que monges budistas resolveram denunciar a exploração de seu país – o Vietnan – no ato supremo de, em praça pública, banhar-se de gasolina e atear fogo em seus corpos. Fiquei chocado ao término daquele encontro, quando me vi rodeado de bailarinos e professores de dança a me perguntarem que história era essa? De onde eu havia tirado tais fatos? Quais as minhas fontes? Era a demonstração do ensinamento de Ivan Lessa: a cada quinze anos, nos esquecemos o que ocorreu nos últimos quinze anos.

Tudo vem neste final de ano a respeito de dois homens santos pela aclamação dos que com eles conviveram, agora posto a caminho do reconhecimento de sua santidade de vida pela Instituição a que pertenceram, entregaram seus corpos e mentes, bem como futuros corpos e mentes que podiam existir sem a repressão de algumas punções. Realizaram o que se chama de sublimação. E o que sabem de Padre Cícero Romão Batista e de Dom Hélder Câmara, os jovens de hoje. Sobre Cícero, alguns sabem que o povo o chama de Padim Ciço, algumas vezes aparecido em programas especiais sobre o Nordeste, ou diminuído por intelectuais que querem reduzi-lo a ‘coronel’, sabemos pouco dele por que ele entregou sua vida no Sertão do Cariri e deu alguma continuidade ao trabalho de outro Santo, o Padre Ibiapina, a quem o povo chama de o Padre Mestre. E sobre Dom Hélder Câmara, raro são os jovens alunos meus que sabem seu nome e nem se perguntam o porquê de as pessoas o chamarem apenas de Dom. Foi o Dom que, ainda em 1965 recusava a participar de festividade em louvor ao golpe de 1964, mas isso nem mesmo os estudiosos de história da Igreja reconhecem, uma vez que dois brasilianistas definiram que a oposição à ditadura iniciada em 1968, talvez depois de ler o belo livro 1968, o Ano que não acabou.

A revisão do ano é o uso da memória seletiva da história do Brasil, um memória contada pela dualidade de senhores das Casas Grandes, pois elas sempre souberam-se dividir para sempre estarem no poder, ora à esquerda, ora à direita, como se as contradições sociais fossem iguais ao poema de Cecília Meireles, Ou Isso ou Aquilo.
Nesta revisão quero lembrar, como minha avó e minha mãe diziam, camonianamente: Carecemos de estudar mais essas figuras, arrancá-las do subsolo da memória nacional.

Entre o Tibre e o Capibaribe – 2ª ediçao

quarta-feira, março 4th, 2015

Caros amigos,
Nesta semana a Editora Universitária da UFPE, juntamente com a Editora da Associação Reviva colocam à disposição a segunda edição do livro ENTRE O TIBRE E O CAPIBARIBE: OS LIMITES DO PROGRESSISMO CATÓLICO NA ARQUIDIOCESE DE OLINDA E RECIFE, que é um estudo sobre a Arquidiocese de Olinda e Recife a respeito do grau de adesão das ideias e práticas do chamado catolicismo progressistas e de suas impossibilidades. Esta segunda edição sofreu algumas modificações, com a introdução de pequenas novas informações, análises e dados.
O livro está sendo vendido a R$30.00 nas livrarias. Você pode adquirir seu exemplar na Editora Universitária ou em suas lojas, bem como solicitar através da Livraria Cultura. Se for o caso, pode entrar em contato no site da Editora Reviva – http://associacaoreviva.org.br/site/

Festival Canavial e Dom Hélder Câmara

sábado, novembro 15th, 2014

 

O Direito de Celebrar

 

Manhã do dia 15 de novembro 2014. Sem grande participação popular, a República do Brasil começou a 115 anos. Um grupo de soldados, bacharéis e jornalistas afastaram a monarquia e desejaram construir uma nova maneira de gerir os interesses públicos. Mas desde logo se observou que parte do povo brasileiro ficou assistindo como besta e, depois, continuou sendo bestializado. Trabalhador construtor de riquezas, homens e mulheres continuaram a viver seus afazeres, particulares e públicos, com as dificuldades de sempre. Desde ontem estou em Nazaré da Mata participando do 8° Festival Canavial, que teve seu início humilde nas Festas de Terreiros, realizadas no Ponto de Cultura Estrela de Ouro de Aliança, uma festa mensal que punha o desafio para alguns rapazes e moças do entorno da Chã de Camará: treinarem a produção de um evento. Era a recuperação de uma tradição: o povo fazer a sua própria festa, em um momento em que as administrações federais, estaduais e municipais teimavam em desconhecer as criações artísticas dos trabalhadores rurais e urbanos da República. Os organizadores da Festa de Terreiros entendiam que a arte, a educação artística, é um caminho para a cidadania. Coquistas, Repentistas, bailarinos de Cavalo Marinho, Cirandeiros, Maracatuzeiros, Forrozeiros, Guerreiros, Sanfoneiros, eram os convidados para cantar e dançar com os trabalhadores dos canaviais da Mata Norte de Pernambuco. Aqueles que foram bestializados apresentavam-se para que eles mesmos conhecem-se as belezas que construíram nos cem anos, que literato chamava de solidão, mas eram, simultaneamente de criação, afirmação de sua maneira de ver, entender e recriar o  mundo. Nesses oito anos, o Festival Canavial vem se ampliando e já ultrapassou os limites da Mata Norte, com presença nas litorâneas Olinda e Ipojuca, e na agrestina Limoeiro. Interessante é que onde chega o Festival Canavial não encontra espaço vazio, mas chega para alimentar o fogo da vida que pulsa naquelas cidades, uma vida periférica que acolhe o festival que auxilia a troca de experiências dos criadores da cultura brasileira com as suas especificidades locais.

Nesta manhã que celebramos o advento da República, vejo como o rio da cultura popular vem se alastrando no exercício da cidadania. Nossa República tem sido bastante acossada por hábitos oligárquicos de mandonismo, que nos fizeram viver vários momentos de governos ditatoriais. O mais recente findou em 1985 e, desde então vivemos o mais longo período de vida democrática em nossa sociedade. Alvísseras e gritos de alegrias por esse período que desejamos uma maior duração. E, é necessário que compreendamos como ele foi construído, esse período tem longa gestação, que é a gestação de nossa cidadania, a criação e conquistas de nossos direitos. Ninguém pode arvorar-se a dizer que ‘fiz isso e fiz aquilo’, ‘eu dei tais e tais direitos’. Os que assim agem denunciam o seu ranço de dominador, escravizador de homens e mulheres. O que temos hoje em nossa República tem sido resultado do trabalhos, dos sofrimentos, do anseios, das esperanças dos bestializados que, vez por outra encontra alguém a simbolizar essa luta. Zumbi dos Palmares, oculto dos brasileiros durante três séculos, hoje simboliza as lutas e as conquistas que fazem de nós um povo livre e que luta contra os diferentes tipos de amebas políticos que os rondam. Ontem, recebi uma notícia que tem relação enorme com o que estou vivendo aqui neste 8º Festival Canavial. Amigos me informaram que, parece, Dom Hélder Câmara foi definido em lei como Patrono dos Direitos Humanos no Brasil. Rapidamente a memória levou-me para o já longínquo ano de 1967, quando escutei Dom Hèlder conversar sobre Mahatama Gandhi e Martin Luther King. Vivíamos sob o duro tacão da ditadura imposta por civis e militares ao povo brasileiro. Era a ditadura que eu conheci, Dom Hélder falava de outras que ele conhecera, especialmente a que terminara em 1945. Foi durante aquela ditadura comandada por Getúlio Vargas que ele começou a experimentar a transição da tentação totalitária para a vida democrática. Creio que a sua experiência com os jovens da Ação Católica deu-lhe a compreensão dos limites que eram impostos ao povo brasileiro, com o intuito de mantê-lo sempre bestializado. Como bispo auxiliar do Rio de Janeiro iniciou o processo de garantia do direito à moradia decente para os favelados. Foi o Drama da Habitação Popular que o apaixonou e que deu início ao ódio que lhe dedicaram os exploradores e fabricantes de marionetes. Dalí para sonhar com a ações encaminhadoras da cidadania foi um passo acertado. Vieram a SUDENE  e a SUDAN, depois desencaminhadas de seus objetivos iniciais para garantir o prazer do lucro aos que sempre lucraram com a bestialização do povo. Assisti Dom Hélder iniciar a Pressão Moral Libertadora, uma rota de não violência para fortalecer os que agiam para superar a destruição do homem. “Nordeste, o Homem proibido” foi, salvo engano, o primeiro documento a afrontar os ditadores  ao clamar contra a destruição dos homens e mulheres pela exploração desenfreada que não  lhes permitia iniciar a jornada para estabelecer no Brasil o que foi definido na Declaração Universal dos Direitos Humanos, pela ONU em 1948. Foi a defesa dos Direitos Humanos que tanto incomodou coronéis, generais, de farda indústria ou terras. O Estabelecimento da primeira Comissão de Justiça e Paz, na Arquidiocese de Olinda e Recife é um marco na história do Brasil, na história da superação da bestialização a que vem sendo submetida parte da sociedade brasileira.

Entendo o Festival Canavial, como muitos outros semelhantes a ele que são organizados neste país, afora e adentro, neste início do século XXI, como o início do alcance da liberdade de criar a arte e de poder expressá-la para si e para os seus. Todos esses festivais que nos expressam, que expõem a nossa cultura são resultados da luta pelos Direitos Humanos.

Nesta manhã republicana, nesta semana da celebramos a necessidade de assumirmos que somos negros, índios, mestiços, caboclos, evangélicos, católicos, brancos, xangozeiros, candomblecistas, macumbeiros, catimbozeiros, matutos, caipiras, e tantas outras identidades que nos faz belos brasileiros, belos seres humanos.

 

Severino Vicente da Silva – Biu Vicente