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Brasília Teimosa e Normandia: Uma Ekédi e um padre os une

sexta-feira, julho 29th, 2016

No dia 26 de julho deste ano de 2016 ocorreram muitas mortes matadas, como se dizia em alguns lugares, ou homicídios, assassinatos, como se diz em outras. Duas chamaram a minha atenção, sendo que uma delas chamou a atenção do mundo todo e a imprensa de muitos países a noticiara; outra, foi, apenas, uma notícia local. Uma ocorrida no interior de uma igreja católica em cidade francesa, outra em bairro da cidade do Recife; uma foi a morte de um homem, outra a morte de uma mulher. Ambos eram septuagenários e ambos dedicados à religião.

Inesperadamente dois homens que não costumavam frequentar a igreja de Santo Estevão de Ruvray, (Sait-Etiene-du-Ruvray) na região a Normandia, entraram e fizeram reféns aos que ali estavam em oração. Uma das pessoas conseguiu fugir e chamar a polícia, mas os homens mataram o padre Jacques Hamel. Foi um crime que se quer político, que quer ser feito em nome de uma religião contra outra. Talvez seja.

Tanto os criminosos que cortaram a garganta do padre como alguns conhecidos meus e outros que não conheço não irão gostar do ‘talvez’ desta frase. Os assassinos têm certeza dos seus atos e querem que o medo aterrorize os amigos do padre Jacques Hamel, que os amigos de padre se escondam e abandonem suas certezas pois, isso será a a vitória do chamado estado islâmico, que se apegou à parte mais obscura do Islamismo e a que impor a todas as pessoas. Os sectários aceitam apenas a escolha que fizeram, são Narcisos. Entre os amigos do padre Jacques Hemel também há os que pensam sectariamente e desejam que em nome de suas crenças, a liberdade de sair a matar quem não pensa do se modo. Mas é sempre bom lembrar que os antepassados da fé do padre Jacques Hamel conseguiram sobreviver sendo mortos, como Estevão, o Santo que nomeia o templo onde ele foi assassinado. Somente alguns séculos após o assassinato o martírio de Estevão é que pensaram ser bons cristãos começaram a matar para expandir a sua fé. Cometem o mesmo erro dos assassinos do padre Jacques Hamel.

Menos famoso ficou o assassinato da Ekédi Maria José Quirino, assassinada em sua casa no Bairro de Brasília Teimosa. Não se sabe quem ou porque assassinou Maria José Quirino que, no seu terreiro, ajudava os que têm seus corpos usados pelos Encantados que visitam a terra. Essa a função da Ekédi, um trabalho de consolação e apoio. A palavra yorubá significa ‘mãe de todos. Sua morte pode ter sido por abuso sexual, uma vez que foi encontrada despida e esfaqueada em sua casa. Este foi o trigésimo assassinato de idoso em Pernambuco este ano. A fragilidade daqueles que, após uma vida de trabalho e doação parece ser o espaço encontrado para que covardes, em pleno vigor físico, exponham sua adesão à morte.
Maria José Quirino não estava no exercício de sua função sacerdotal quando foi morta por arma branca, como o padre Jacques Hamel. Entretanto, esses dois idosos sacerdotes, morreram como resultado da falência de nossas civilizações por não terem, ainda, assumido plenamente o respeito à vida, e muitos escondem o ódio no nome de alguma religião.

Que Santo Estevão, Proto-Mártir do cristianismo, acolha esses sacerdotes sacrificados pelo ódio à vida.

Semana de aniversários

sexta-feira, abril 22nd, 2016

Este site completa sete anos neste mês. Esta semana tem início o meu 67º ano de vida. Para celebrar as duas efemérides, coletei as minhas intervenções na comunidade do Facebook, um pouco para verificar se disse muitas bobagens e coisas sem conexão. tudo foi escrito ente o dia 15 e o dia 22 de abril.

1. Desejo começar este novo dia agradecendo a todas as pessoas que dedicaram alguns momentos para abraçar-me e dizer o quanto podemos manter laços às distância; agradeço aos que me ajudaram a celebrar o tempo que já passou, o dia em que lembro minha entrada na vida e, também a continuar a viver na alegria e na esperança todos os dias que me restam (espero que sejam muitos) para viver e melhorar a vida. Obrigado a todos.
2. Todos nós estamos chocados com a fotografia do Brasil. Descobrimos a nós mesmos, ao verificar em cadeia nacional o verdadeiro resultado das eleições de outubro de 2014. Não sabíamos o que havia sido eleito, a maioria dos brasileiros que votou displicentemente pode verificar o conjunto da obra. Juízes e ré foram eleitos pelo mesmo povo. Nós devíamos é estar assustados não com esse ou aquele deputado (cada um deles representa uma parte dos eleitores/cidadãos), deveríamos é estar assustados com o nosso descuidado com o que é nosso. Fôssemos mais atentos, não entregaríamos o país a esse tipo de gente. Mas, a fotografia não mente. Veremos, nos próximos dias, o andar de distanciamento do PT em relação à dilma, seguindo o script lido por José Dirceu, alguns empresários ex-amigos e agora completamente desconhecidos. O PT chamará a militância que foi sonambolizada nas centenas de CC, para salvar o partido. dilma, que foi figurante, pode ser descartada. Vão tentar salvar o partido e o projeto de Lula. Pode ser que eu me engane, já me enganei com alguns seguidores dessa seita.
3. “Estou sendo golpista? Para alguns sim. Para quem sabe do meu caráter, não. Não tergiverso com minha honestidade e não vendo minha alma ao diabo na forma de pedidos, favores e dinheiro. Meu nariz está limpo porque jamais ajoelhei para lamber um traseiro ou solicitei um empenho. Quando, um dia, me perguntaram “O que você quer?”, disse sem tremer: “Nada!”” Roberto DaMatta.
4. Conversar com pessoas de mentalidade religiosa é difícil porque eles cegaram e mutilaram os ouvidos . Não estão abertos para além de seus dogmas. (…) Não pensei estar falando de dogmas, uma quase exigência dos grupos que encontraram a verdade e articularam em sentenças que servem de paradigmas para os crentes; referia-me a ‘mentalidade religiosa’ que alguns grupos assumiram na sua luta contra as demais mentalidades religiosas ou não. Certos grupos sociais elevaram os seus projetos sociais à condição de dogmas, verdades eternas e incontestáveis, e, nós sabemos, os projetos realizadas na sociedade podem ser conjunturais, adaptáveis e adaptados à circunstâncias. E com esse tipo de gente que está impossível conversar.
5. Como está ficando meio doido, lá vou eu: penso que esta aventura em Nova Iorque, a ser realizada pela presidente dilma, se propondo a dizer que está havendo um golpe (golpe no gerúndio é lasca!) no Brasil para, em seguida voltar ao Brasil e receber a presidência de volta das mãos do ‘golpista” , é uma encenação, um pedido de intervenção do Mercosul, igual àquele que ela e a moça da Argentina arquitetaram contra o Paraguai. Se for isso, mostra mais uma vez que a guerrilheira que queria implantar uma ditadura de esquerda para substituir uma ditadura de direita, continua sem saber fazer análise da conjuntura. E então fica no ridículo. e nós pagamos a conta da crise econômica, da crise ética, da crise moral além das viagens luxuosas, dignas dos ditadores mais loucos.
6. A maioria das pessoas esquece rápido, mas tem gente de memória, como o Senador Cristóvão Buarque, criador do Bolsa Escola, programa muito criticado pelo PT por ser assistencialista. Entretanto o recebimento da Bolsa Escola estava condicionado a presença das crianças na escola. FHC adotou o programa, com o mesmo nome em seu governo e quem o administrava era o Ministério da Educação. Quando o PT tomou posse do governo (pensou ter tomado posse do Brasil) esqueceu suas críticas , adotou o programa com o nome de Bolsa Família, retirando-o do ME, transferindo para A Assistência Social. Cristóvão que foi Ministro da Educação, foi demitido por telefone e desde então o Bolsa Família é um sucesso de votação, mas a educação não tem avançado, especialmente a educação básica e média. Hoje temos mais universidades, mas o nível médio não é tão alvissareiro.

7. Há sociólogos que nos ensinam estar, tudo ao redor, liquefazendo-se; os artefatos técnicos são rapidamente ultrapassados em sua utilidade e desenhos, cedem lugar aos novos. Não mudam, não cedem e parecem cada vez mais sólidos os líderes partidários, veementemente defendidos por jovens adoradores que caminham rapidamente para o passado dos seus líderes.

8. Pensadores que desejam impedir que sejam ouvidos os que pensam.

9. Comece a pensar na próxima eleição. Não vote em vereador que recebe apoio e apoia deputado e senador envolvido em corrupção, que esteja sob investigação. Agora é cuidar disso para ver se melhoramos isso que vimos hoje. Seria o mesmo se o resultado fosse outro. Um povo faminto e iletrado, sem educação e sem possibilidades de debates, que para recrear tem apenas as igrejas e os bares está fadado ao fracasso ou ao sucesso aparente.

Março das águas e dos mosquitos

quarta-feira, março 2nd, 2016

Pois que começou março e, a cada ano esperam-se as chuvas que, diz a sabedoria de Tom Jobim, fecham o verão. Os que vivem no sertão olham o calendário em busca da chuva de São José que, caso cheguem, podem garantir 20 espigas em cada pé de milho, como reza famoso baião de Luiz Gonzaga.

O mês de março passou a ser conhecido como o mês das mulheres, porque a ONU estabeleceu, com justiça e justeza, a homenagem à mulheres operárias que foram sacrificadas no fogo de uma fábrica de tecidos no século XIX para que, as meninas de classe média aprendessem que as mulheres começaram a chegar ao mercado de trabalho na terceira década do século XX. Afinal, esse pessoal do sexo feminino que, morando na periferia e cuida das casas nos bairros mais ricos, serão que são parte do gênero, ou são apenas do sexo? São as contradições do mês de março.

Antigamente o ano começava em março, como está definido nos horóscopos. Lá no hemisfério norte, é o tempo que começa a primavera e a fertilidade campeia, domina os campos após o tempo gélido do inverno, e as Festas de Maio lembravam que era tempo de namorar, noivar e até mesmo casar ou acasalar. Tempo de brincadeira, tempo da páscoa, após os sofrimentos do frio, a experiência da quase morte. Mas a segunda quinzena de março anuncia o tempo fértil, mesmo em terras abaixo da linha do Equador, onde o outono prepara o tempo da chuva. Mas nossa imaginação adequou muito bem os tempos geográficos aos tempos culturais criados acima do equador. Criamos um mundo quase falseado, nem percebemos que estamos nos trópicos. Os nossos ricos, esse um por cento da população, cuida de viajar, alguns dizem que vão estudar no hemisfério norte, que vão fazer cursos, imersão cultural, aprender outro idioma. E viajam muito porque, dizem, as viagens ilustram, e precisam viajar muito, para ver se aprendem algo mais que entrar e sair dos aviões. Antigamente faziam sessão de fotografias em suas casas para os amigos e, quando alguém perguntava: mas onde é isso? Quase sempre diziam que “tudo é tão bonito que a gente se confunde”. Hoje são os selfies ou fotos que não apresentam referências, algumas parecem retiradas de revistas especializadas. No mundo virtual tudo é quase real. Alguns viajarão sempre e pouco lerão do mundo visitado.

Pesquisa recente do Instituto Paulo Montenegro e Ação Educativo diz aponta que apenas 8% dos brasileiros estão plenamente alfabetizados e capazes de ler e interpretar um texto, analisar uma tabela e que 27% da população é analfabeta funcional, gente que não entende o que ouve nem o que ler, apenas segue o instinto para não ser extinta. Essa população, de vocabulário pequeno é que faz o sucesso de programas como os apresentados nos sábados e domingos à tarde nas televisões e na apresentação de partidos políticos nos programas ditos ‘gratuitos’. Apela-se para as cores e para os sentimentos de “paz e amor”, os discursos infantis e infantilisantes do ‘nós e eles’ e do ‘isso ou aquilo’. Pesquisa recente nos Estados Unidos mostra que essa é a razão dos sucesso do bilionário Donald Trump como possível candidato à eleição presidencial dos Estados Unidos. Discurso fácil, que alimenta a docilidade, a fera do nacionalismo, a aceitação do caminho mais fácil que não exige nem mesmo a leitura de um mapa, pois o mundo para esses não têm coordenadas nem abscissas. Tudo é plano e úmido, como as terras de esgoto a céu aberto, ou mesmo da felicidade de ruas calçadas ou asfaltadas que escondem a ausência da rede de esgoto, que nos chegam nas visitas de ratos, baratas, muriçocas e outros voadores que carregam de doenças aos eleitores incapazes de ler o mundo que os rodeia e, também de contar e escrever a história que vivem. São apenas 8% o que conseguem dominar essa tecnologia básica para viver com mais justeza os direitos. Os demais, por essa deficiência que foi construída social e culturalmente, continuarão a confundir direito com favor, mérito com favorecimento.

O mês de Março é sempre a possibilidade das chuvas de São José, cujo cajado floresce, como mandacaru que informa o fim da estiagem, como o movimento de meninas gaúchas que abandonam as bonecas e, comemoram a chegada da primavera/outono lutando pelo direito de tornar menores os shorts, cada mais shorts.

desejam determinar o futuro

sexta-feira, setembro 18th, 2015

Estamos em situação difícil, pois não sabemos o futuro. Quando levantamos um debate sobre a situação política nacional e a possibilidade de aplicar o remédio do impedimento previsto na Constituição, logo alguns levantam o brado de “golpe!” e outros perguntam: mas colocar quem no lugar? Essas duas questões ficam mais estranhas quando elas saem da boca de professores de História, Sociologia ou Ciência Política. Esses profissionais, alguns já beirando a aposentadoria, deveriam ter aprendido que nenhuma geração sabia do futuro, nenhuma delas teve a certeza do que viria depois de seus atos. A história se faz no passar do tempo e dos homens. E os homens não controlam a história.

Foi no século XIX que se tentou encontrar as “leis da história” e, da mesma maneira que, os físicos e químicos em seus laboratórios passaram a recriar as condições quase naturais para suas experiências com elementos, controlando esse ambiente com observações permanentes e constantes. Alguns iluminados julgaram que poderiam determinar como e para onde vai a história. Seus seguidores assumiram a arrogância de dizer que é possível controlar o futuro, fazê-lo segundo seus desejos. Assim passaram a descartar os acasos, a surpresa biológica da morte inesperada e, especialmente, os humores das pessoas e multidões. Por isso é que questões como as mencionadas são postas com ‘naturalidade’.

Antigamente, quando os homens tinham menos controle sobre os eventos naturais, costumava-se dizer que “o futuro a Deus pertence”, e, como no século XIX um filósofo anunciou a morte de Deus, o futuro passou a ser responsabilidade dos homens. Podemos, então, pensa-se, planejar tudo e, com esse planejamento, temos a impressão que controlamos o futuro. Até esquecem que os planos podem ser abandonados até por quem os concebe e, também, podem ser recusados por aqueles que irão – ou iriam ´sofrer seus efeitos.
A história, desde a Antiguidade mais antiga até os nossos dias, tem mostrado que não é bem assim. Mesmo em nosso curto espaço de vida, de algumas décadas apenas, já presenciamos muitos planejamentos sociais fracassarem. E fracassam por não considerarem que as relações humanas possuem um grau de imprevisibilidade muito grande, quase incontrolável. Eu assisti Tancredo Neves planejar ser operado após a receber a faixa presidencial; assisti o “senhor da Bahia” planejar que seu filho seria presidente da República do Brasil; assisti o fracasso do projeto dos militares para o Brasil e perderem parte do amor que o povo lhes tinha; assisti o fracasso de Collor de Mello; assisti esses e outros planejamentos que foram frustrados pela imprevisibilidade biológica e social. Não há certeza para o futuro, exceto de que ele nasce do presente.

Os que estão no poder hoje, podem até tentar controlar o passado, fazer apagar certos acontecimentos (destroem-se monumentos, queimam-se livros, faz-se censuras, recontam-se fatos), mas até nisso tem havido fracassos. Quanto ao futuro, ele será sempre o resultado das escolhas dos atuais viventes, mas não apenas de uma pessoa ou grupo.

A Lei do Cão ou a demência da 15.516

segunda-feira, junho 1st, 2015

Será um caso de esquizofrenia, demência ou falta de vergonha e mancômetro. Faz menos de uma semana que o governador do Estado transplantou parte de seu governo para o Engenho Cumbe, no município de Nazaré da Mata. Foi ali, com seu secretário de cultura para entregar um título que, os que se julgam donos do saber, dizem reconhecer que finalmente reconheciam o Maracatu debaque Solto e a dança/teatro Cavalo Marinho, passavam a ser Patrimônio da Cultura Imaterial de Pernambuco. Esses brinquedos, essas artes foram criadas pelos homens cortadores de cana, esses que cortam a cana para os engenhos fornecerem essa matéria prima para as usinas da região.

Pois bem, dez dias depois que o governador do Estado fez uma discurseira sobre a importância das tradições populares na formação do ethos pernambucano; dez dias após o secretário de Cultura pronunciar palavras de respeito ao que os artistas populares , quer dizer: não ricos, criam e que é dever do Estado proteger essas manifestações do gênio pernambucano; uma dezena de dias após a presidente da Empetur bradar em alto e bom som que é função do Estado estimular tais manifestações culturais, o Sr. Governador do Estado sanciona uma lei, proposta por um deputado analfabeto funcional no quesito cultura pernambucana, que proíbe crianças até 14 anos de participarem de espetáculos públicos. Com esse parágrafo da lei, os ilustres deputados decretaram o fim das Tribos de Índios e das Tribos de Caboclinhos. Nem Herodes Antipas faria melhor com a cultura. Com isso também mataram as iniciativas de reviver o Pastoril, normalmente dançado e cantado por meninas nessa faixa etária. E então a Assembleia Legislativa de Pernambuco deu demonstração de sua ignorância sobre o que ocorre no criativo mundo cultural pernambucano. Ou então estão jogando contra o Estado.

Analfabetos funcionais nesse quesito, além do governador que assinou sem ler, parece, a baboseira que recebeu o nome de Lei 15,516, proibindo espetáculos públicos após as 22 horas, exceto aqueles que o governo estadual financia é toda a Assembleia e, de lambuja carregou o Conselho Estadual de Cultura que, presume-se, deva ter sido convocada para dar a sua opinião sobre o que lhe compete, pois para isso recebe jetons vitalícios. Como o governo estadual não financia sambadas, o governador proibiu as sam

Será um caso de esquizofrenia, demência ou falta de vergonha e mancômetro. Faz menos de uma semana que o governador do Estado transplantou parte de seu governo para o Engenho Cumbe, no município de Nazaré da Mata. Foi ali, com seu secretário de cultura para entregar um título que, os que se julgam donos do saber, dizem reconhecer que finalmente reconheciam o Maracatu debaque Solto e a dança/teatro Cavalo Marinho, passavam a ser Patrimônio da Cultura Imaterial de Pernambuco. Esses brinquedos, essas artes foram criadas pelos homens cortadores de cana, esses que cortam a cana para os engenhos fornecerem essa matéria prima para as usinas da região.

Pois bem, dez dias depois que o governador do Estado fez uma discurseira sobre a importância das tradições populares na formação do ethos pernambucano; dez dias após o secretário de Cultura pronunciar palavras de respeito ao que os artistas populares , quer dizer: não ricos, criam e que é dever do Estado proteger essas manifestações do gênio pernambucano; uma dezena de dias após a presidente da Empetur bradar em alto e bom som que é função do Estado estimular tais manifestações culturais, o Sr. Governador do Estado sanciona uma lei, proposta por um deputado analfabeto funcional no quesito cultura pernambucana, que proíbe crianças até 14 anos de participarem de espetáculos públicos. Com esse parágrafo da lei, os ilustres deputados decretaram o fim das Tribos de Índios e das Tribos de Caboclinhos. Nem Herodes Antipas faria melhor com a cultura. Com isso também mataram as iniciativas de reviver o Pastoril, normalmente dançado e cantado por meninas nessa faixa etária. E então a Assembleia Legislativa de Pernambuco deu demonstração de sua ignorância sobre o que ocorre no criativo mundo cultural pernambucano. Ou então estão jogando contra o Estado.

Analfabetos funcionais nesse quesito, além do governador que assinou sem ler, parece, a baboseira que recebeu o nome de Lei 15,516, proibindo espetáculos públicos após as 22 horas, exceto aqueles que o governo estadual financia é toda a Assembleia e, de lambuja carregou o Conselho Estadual de Cultura que, presume-se, deva ter sido convocada para dar a sua opinião sobre o que lhe compete, pois para isso recebe jetons vitalícios. Como o governo estadual não financia sambadas, o governador proibiu as sambadas, momentos de agregação, socialização e preparação sistemática para o grande desfile que encanta os turistas mas, que, parece, incomoda a quem expeliu esse projeto lei e a quem aceitou a desonra de assinar.

Essa lei, esse ataque esquizofrênico dos ‘senhores da cultura’ é ainda mais maléfica, se é que isso é possível. Ela proíbe que se venda livros, que se venda obras de cerâmica, de pintura, do artesanato, se o artista principal não for o autor da obra. Mas é em momentos como esses que o povo pode vender o que ele faz. O que ele faz não se vende nos shopigns frequentados pelos deputados. É nessas horas, nesses eventos populares que o artista popular tem seu mercado. Essa lei 15.516 é a lei da destruição da cultura pernambucana, é a Lei do Cão. Penso que Antônio Conselheiro assim a chamaria, como chamou aos impostos injustos que a recente República cobrava do povo pobre.
Rejeição total ao energúmeno que pariu tal lei; Rejeição total a essa Lei do Cão. Que todos os repentistas, que todos os Mestres de Maracatu improvisem contra essa barbarie, essa estupidez; que todos os Mestres de Cavalo chamem o governador, esse cabra de Empata Festa; que todos os Mestres de Capoeira vituperem contra essa insanidade; que os Mestres de Caboclinhos neguem a Jurema e o Mel a esses nossos destruidores.

QUE OS ANTROPÓLOGOS, HISTORIADORES, SOCIÓLOGOS, PROFESSORES DE DANÇA, DE POESIA, DE TEATRO, DE LITERATURA, PROFESSORES DE TODAS AS CIÊNCIAS, SAIAM DO CONFORTO DE SUAS UNIVERSIDADES, AUMENTEM SUAS VIAGENS DE ESTUDO PARA AS NOSSAS REGIÕES, SAIAM DE SEU CONFORTO E OCUPEM A NOSSA CULTURA, NÃO COMO OBJETO DE ESTUDO, MAS COMO SINAL DE NOSSA VIDA.

Severino Vicente da Silva Biu Vicente

Estudo da História e as manifestações populares

segunda-feira, abril 13th, 2015

Estamos na época de grandes mobilizações. Há uma disputa para demonstrar poder ou descontentamento com o poder. Para muitos é como se fosse a primeira vez, ou a segunda, quiçá a terceira, situação em que a população se manifesta. Esses acreditam que tais manifestações são sinais de que “o gigante despertou” ou de que “a direita conservadora” está a aproveitar-se dessa situação para voltar à cena política. Tudo isso é provável, mas essas manifestações não são o início da participação das multidões na história brasileira.
Fenômeno muito interessante, que tenho acompanhado nos espaços da sociedade virtual que frequento, é a quantidade de intervenções indicando ou mandando as pessoas estudarem história por estarem elas manifestando a sua opinião. Um dos motivos desse chamamento ao estudo da história é o fato de muitos, uma expressiva minoria, estarem a clamar por um retorno dos militares ao poder. Esse chamamento ao estudo dá a impressão de que quem estuda história não adere ditaduras, o que é falso, se olharmos os currículos dos apoiadores das ditaduras ao longo da história. Muitos são os ditadores, autocratas e caudillhos que estudaram história. Saber história não é antídoto às plutocracias, aos regimes autoritários. No Brasil os ditadores sempre contaram com o apoio de estudiosos da história nacional. A questão parece ser outra, talvez não seja simplesmente estudar história, mas o que estudar e como estudar.

Por conta desse convite/ordem para estudar história, em algumas aulas fiz um pequeno exercício de memória e conhecimento básico da história pátria em algumas turmas que leciono. Perguntei sobre o que ocorreu no Brasil acontecimentos em um certo 7 de abril; perguntei sobre Felipe dos Santos; perguntei sobre a Noite das Garrafadas; perguntei sobre Manuel Faustino dos Santos e João de Deus; perguntei sobre Cipriano Barata; perguntei sobre Marcílio Dias. O retorno foi igual a zero. Claro que, os estudiosos de história logo dirão que essas são perguntas focadas em indivíduos e que a história é mais que a atuação de indivíduos, o que é uma objeção correta, mas é certo também que os processos ocorrem com a atuação de indivíduos e as multidões reúnem dezenas, centenas ou milhares de indivíduos.

Mas voltando às perguntas e às respostas obtidas em salas de aulas de um curso superior de história, o que quer dizer que todos os perguntados fizeram o Ensino Básico, cursaram o Ensino Médio, foram aprovados no vestibular e, portando espera-se que saibam um pouco da história da pátria pois este é o objetivo dos ensinos Básico e Médio.
1. O de abril era comemorado como o momento da independência, pois, em 1831, sob pressão de manifestação popular, o primeiro imperador do Brasil descobriu-se sem condições de continuar no poder e renunciou em favor de seu filho menor de 10 anos;
2. Felipe dos Santos organizou manifestação contra os abusos portugueses personificados no Conde de Assumar, em Minas gerais, 1720, sendo morto por esquartejamento;
3. A Noite das Garrafadas foi um levante popular no Rio de Janeiro contra a imposição de um gabinete formado por portugueses para governar o Brasil;
4. Manuel Faustino (18 anos de idade) e João de Deus foram enforcados e esquartejados, sem direito à sepultura, em Salvador pelo crime de organizarem a Primeira Revolta Social do Brasil, a conhecida Revolta dos Alfaiates;
5. Cipriano Barata, estudante que, na Bahia participou dos preparativos da Revolta dos Alfaiates, expulso para Pernambuco, participou da Revolução de 1817;
6. Marcílio Dias, jovem marinheiro negro que participou da Guerra da Tríplice Aliança e defendeu, com bravura heroica, o vaso em que servia, de tal sorte que é considerado um dos heróis brasileiros.

Creio que poderia continuar a fazer perguntas sobre os que, com seu sangue e destemor, criaram a pátria brasileira, e possivelmente o índice de acertos seria basicamente o mesmo. E esse índice mostra que as pessoas não estudaram a a história do Brasil, não sabem que homens jovens construíram o país que vivemos. E por não saberem disso, não perceberam, ou o ensino não os auxiliou a perceber que, por trás de cada nome que citei houve um movimento com ampla participação do povo. E não sabem porque os professores continuam a ensinar que Dom Pedro I simplesmente abdicou, (aliás, durante alguns anos, em algumas cidades do Brasil a independência era comemorada no dia 7 de abril, quando deixamos de ser governados por um português); não mostram a importância da participação do povo no processo e não participaram das decisões que se seguiram ao processo. Isso é fazer o jogo dos poderosos. Não adianta mandar estudar história, se quem manda não percebe que a participação popular sempre existiu na nossa história, apenas continuamos sem lhes dar a importância que merecem. E mais recentemente, ao invés de estudarmos esses movimentos, vamos esquartejando essa história, aprofundando o estudo das partes sem termos ciência de que essas partes – mulheres, índios, negros, mestiços: mamelucos, morenos, curibocas, mulatos, cafusos, etc. – formam o todo. As manifestações populares continuaram a ocorrer ao longo do século XX, como foi estudado por José Murilo de Andrade. Mas além dele, quando se estuda a participação popular tem sido para enaltecer este ou aquele partido como condutor do povo, tratando-o sempre como ingênuo e carente de um ‘pai’ que tudo lhe provêm, inclusive a sua consciência, que parece dever ser a consciência que lhes dá esse ou aquele partido ou agrupamento politico, seja da esquerda ou da direita.

Ocorreram greves operárias no Nordeste no início do século XX, mas elas não entram na análise dos que definem a ‘história’ do Brasil, por delas somos ignorantes; a primeira greve contra o regime autoritário que terminou em 1985 continua sendo ensinada que ocorreu em São Bernardo dos Campos, ‘esquecendo’ que, meses antes dela já haviam ocorrido greves de motoristas, professores e canavieiros, em Pernambuco. Mas estudando certa história, ninguém saberá que o povo manifestou-se antes da criação de certa agremiação. O esquecimento da história! A lembrança dos historiadores e dos doutrinadores.

É uma questão de estudar história, mas ….