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Álbuns de família e jornais da família

sexta-feira, outubro 9th, 2020

Ler os jornais diários é como folhear um álbum antigo de fotografias de família, observamos como o tempo tem passado e como não o percebemos. Claro que a fotografia de meu avô, parado, com seu terno branco e chapéu criando condições para que vejamos o quão grossas eram suas sobrancelhas, é antiga, tomada antes do meu nascimento, pois que ele já havia morrido quando nasci, entretanto ele está vivo e carrego comigo o seu nome e quase tenho o sobreolho tão espesso quanto o dele. E quando olho a foto de Vó Alexandrina, quase sinto o balançar da cadeira, no fim da tarde, na calçada de sua casa em Serraria. Eu era tão pequeno, tão menino, faz tanto tempo, mas ela está viva. Claro que faltam algumas pessoas neste álbum, pois que elas quiseram sair e suas imagens e lembranças se apagam lentamente. Exigem até um esforço para lembrá-las no tempo em que me aceitaram como parte de sua família. Assim, são os jornais. Procuramos neles o que podem nos dizer de nossa família social, mas vemos apenas sombras.

Ler os jornais, do dia ou dos anos imediatamente passados, nos impedem de lembrar algumas passeatas, algumas listas coloridas nos rostos, alguns sorrisos que anunciavam uma possibilidade de Brasil. Mas as cores desbotaram muito rapidamente. Mais vivas estão as imagens da passeata dos Cem Mil, ali, no Rio de Janeiro. Eram rostos sérios, carregavam o peso da morte de um estudante, e ela simbolizava a morte de uma etapa da vida política brasileira. Na foto, que foi capa de revista, não aparecem negros. “O ano que não acabou” ainda não percebera, ao menos os jornais, que o estudante assassinado não era branco. Ali, naquele ano morria os Anos Dourados, começavam os anos em o chumbo começou a ceifar a vida de jovens filhos de “gente de bem”. Lembro de um padre, vigário geral, escandalizado porque haviam prendido, talvez matado o filho de uma ilustre família católica mineira (Mota Machado?), gente de estirpe. Ainda não haviam percebido que em 1964 houvera uma luta pelos direitos civis nos Estados Unidos e, nos bailes se cantava “as viuvinhas do artista James Dean”. O Brasil via morrer uma juventude que, segundo os governantes, deveria estar nas academias militares e nos bailes de formatura, ainda não percebera mudanças na sociedade. A morte dos universitários provocou a indignação e começou o declínio do poder que tudo podia. Não por considerar os brasileiros, mas porque tinham que salvar esses jovens da morte e do comunismo, mesmo que tivessem que matar alguns. Também pensaram assim em relação aos indígenas, e construíram a Transamazônica, escavaram a Serra Pelada, destruíram a Carajá enquanto o poeta melancólico dizia que “Itabira era um retrato na parede”. 

Os jornais diários dizem isso, hoje: Jovens oficiais dos anos setenta, hoje  generais, vingam-se, chamando de heróis os que mataram os jovens da elite que apressavam o fim da ditadura. Eles voltaram com o apoio dos que não entenderam que a vida em  liberdade está sempre em risco. Na época em que os atuais generais eram capitães costumava-se repetir que ‘o preço da liberdade é a eterna vigilância’. Os que deviam vigiar, viajaram no que parecia o poder, finalmente. Os jornais de hoje mostram que a sociedade não foi vigilante. Entre solipsismos e relativismos, com as drogas, as novelas, os filmes, as graças, as viagens internacionais, o degustar as belezas turísticas do país sem olhar o povo que vivia por ali; tudo virou um culto do prazer individual, da riqueza para si, de uma divindade que só agrada.

 Os jornais de hoje mostram que os poderosos do dia cultivam o temor de forças externas ao mundo que querem construir. Agora retomam os discurso de que forças estão sempre a conspirar contra os ideais dos capitães que foram impedidos de serem torturadores, como Ustra. De certa forma eles têm razão, pois com as torturas perderam o apoio externo que recebiam. A ditadura que permitiu Ustra começou a desmoronar quando franceses começaram a envergonhar-se do que fizeram na Argélia e quando os norte-americanos sucumbiram no Vietnam e passaram a acossar os antigos aliados, exigindo que deveriam mudar. Não mudaram, mudaram-se, mas parece que retornaram com maior cinismo e prepotência, de novo com o apoio da ignorância externa e da ganância interna. Bem que podemos

Os jornais de hoje mostram que esse passado está vivo. Morto, parece estar o presente, com os zumbis afogados em filmes que cultuam a vitória do mal, pastores estupradores, pastoras assassinas, padres pedófilos, médicos doentes, espiritualistas acumuladores, juízes venais, tudo facilitando a ditadura disfarçada. Sim, aprenderam que o pão distribuído pode parecer justiça social enquanto se produz famintos. E, contudo e por isso, aprova-se o governo, como se aprovava o governo Medici.

O ano que não acabou, só acaba se houver mudanças de objetivos, para além dos limites aos quis nos acostumamos usufruir envolvidos em questiúnculas que não permitem atentar aos perigos a que estamos levando a sociedade a natureza. Famílias que não se cuidam, desaparecem porque permitiram seus membros desaparecessem. Uma família deixa de existir quando coloca-se o interesse de um membro acima daqueles valores que construíram e mantiveram a família unida. Cada geração toma a decisão de continuar ou não a família, a tradição forjada pelos antepassados. É evidente que nem todos os valores vividos pelos antigos merecem ser cultivados e, talvez, na escolha dos valores, os que levariam o desaparecimento familiar devem ser abandonados. Esses devem ser chamados de desvalores. Em nossa sociedade são muitos os desvalores a serem esquecidos: o racismo e seus corolários: a mentira, a falsidade, a inescrupulosidade, entre outros. Mas essas são as cores mais vivas do jornais do dia, essas têm sido as notícias mais comuns em nossos dias. Nossa sociedade está murchando e as cores que alegravam a face de uma geração desbotou, foi esquecida ou vendida e tornada sem esperança.  

O poeta nos ensinou que Raimundo, para o mundo era só uma rima. Agora devemos entender que mourão embora pareça, nunca rimou com solução. Exceto para prender a boiada e matar os bois.

O dente de leite de meu neto e os dentes das ditaduras

segunda-feira, março 31st, 2014

 

Meu neto expõe sorriso sem um dente de leite que lhe caiu. Está a se aproximar do que costumava ser a “idade da razão”. Dizia-se que, aos sete anos esse menino já podia entender o que ocorria ao seu redor e estava em processo de empoderamento dos valores sociais, como se diz nos dias atuais.  Isso significava que “esse menino” já sabia o que fazia, e podia até ficar cuidando dos irmãos menores. Mas, como cresce enormemente os saberes coletivos necessários para a sobrevivência, os indivíduos sabem cada vez menos desse total e, apesar de os sete anos de idade continuar sendo visto como o início da idade da razão e, espera-se que a criança já saiba ler e escrever, mas podemos observar que estamos a criar leis que tornam “esse menino” irresponsável sobre seus atos, especialmente aqueles que ferem e matam.  Para alguns casos, a idade da razão nunca chega, apesar da queda dos dentes de leite e o crescimento das presas do animal caçador.

Bem, tive um dos meus dentes extraídos após um acidente que envolveu uma pedra servida no feijão. Embora não fosse esse ocaso, os dentes caem com a idade ganha, esse processo faz parte das perdas que acompanham a conquista do tempo que nos conquista à medida que o vivemos. Em sociedades que já não existem, lá nas regiões mais frias, quando os mais velhos perdiam os dentes e quando já não podiam mastigar as peles dos animais para amaciá-las, eles se retiravam para morrer. Eram vistos como incapazes de continuar a auxiliar o grupo a viver e, podiam causar problemas à sociedade. Como desde cedo eles eram educados vendo desaparecerem alguns velhos, e ouvindo a explicação desse comportamento ao longo de suas vidas, quando chegava a sua vez, eles seguiam normalmente a razão da sociedade, razão que aprenderam ao longo do tempo usando seus dentes.

Cavalos são analisados pela qualidade de seus dentes, assim eram, também, avaliados os que prisioneiros levados aos mercados para serem vendidos como  escravos. As sociedades dos tempos modernos criaram meios para proteger-se contra o envelhecimento, claramente expostos no sorriso que deixa à mostra os dentes ou a sua ausência. Uma nação moderna previne a queda dos dentes, pela higiene bucal, pela educação alimentar, etc. Mesmo sem os dentes naturais, com os dentes artificiais, os mais velhos podem continuar a contribuir na sobrevivência do seu grupo social, da sua sociedade se, além dos dentes, mantidos ou repostos pela tecnologia, mantém também seus cérebros funcionando e os pondo ao serviço do meio onde vivem. Quando isso acontece é um ganho para todos.

Disse ao meu neto que a perda dos dentes mostra que estamos envelhecendo, ele e eu; ele por aproximar-se da Idade da Razão e eu por aproximar-me à idade na qual, além dos dentes, também podemos perder a o uso da razão.

Nessa semana de avaliação do movimento ocorrido em 31 de março e primeiro de abril de 1964, entre os depoimentos que li, uma professora do Departamento de História da Universidade Federal de Pernambuco diz que “ os atores políticos que serviram à ditadura desapareceram de cena porque não tem como participar da construção da democracia. Foram impostores de um tempo sombrio, de medo e violência” [1]; outro depoimento, de José Sarney, que foi um auxiliar do regime militar desde os primeiros dias e o presidente involuntário do Brasil no processo de transição iniciado por Tancredo Neves diz que “A transição democrática brasileira se deve ao meu temperamento, também, esse jeito nordestino de dialogar. Cometi um erro ao voltar à política quando encerrei meu mandato presidencial. De novo, deveria ter ido para casa, mas daí veio o Collor, com todos aqueles problemas, e me chamaram de volta, isso, antes do impeachment. Saí então senador pelo Amapá, porque o PMDB não me deu legenda no Maranhão. Mas, enfim, olhando para esse meu retorno, vejo-o com arrependimento. Já havia encerrado a missão maior, que foi a transição democrática. E é só o que o País deve a este presidente improvisado, que assumiu para ser deposto.”[2]

Como se vê, a perda dos dentes atualmente não é visível e nem sempre ela é acompanhada com a sabedoria que ouso dos dentes daria.

Neste semana e neste mês que serão preenchidas com debates sobre o que ocorreu nos últimos cinquenta anos, devemos uma homenagem, não tanto aos que desejaram apenas vencer a ditadura ocorrida entre 1964 e 1985, mas, principalmente, a todos que lutaram pelo retorno e construção da  democracia. Aos Anônimos da história, aos que não podem e nem querem receber remuneração pela sua participação na reconstrução permanente da democracia, nossa homenagem.



[1] Diário de Pernambuco, em caderno especial sobre AS MARCAS DO GOLPE. 31 de março de 14.

[2] Estado de São Paulo, 28 de março de 14.

o medo do retorno de março de 1964

domingo, março 9th, 2014

O mês de março deste ano de 2014 inicia com o sentimento do passado, um sentimento que leva alguns a imaginar que será reeditado o movimento de 1964. Esse sentimento tem sido alimentado por setores favoráveis e por setores contrários ao ocorrido naquele primeiro de abril que coroou as conspirações dos vencedores e dos perdedores de então. Embora o Brasil tenha dificuldade de aprender com os seus erros, assim como muitas outras nações, não há espaço para a reedição daqueles atos que levaram à ditadura que se solidificou em dezembro de 1968, um ano que para muitos ainda não terminou. Embora não seja prudente ficar anunciando o que vai acontecer ou que não vai acontecer, não vejo caminho para a reedição do passado, mas posso perceber que um discurso sobre essa reedição seja alimentado por um discurso que leva os mais inocentes que eu a acreditarem nesse retorno do passado: é que ele tem medo e alimentam esse medo, o medo de alguns que hoje estão no poder, vivem alimentando este medo para que possam ali manter-se. Em 1964 os golpistas usaram o medo do comunismo como grande mote, hoje parece que se está a cultivar o medo do anticomunismo. Os debates que estão sendo e serão levados a efeito, especialmente por historiadores, poderão estar marcados com esse tipo de medo, com os cientistas do passado desentendo o presente, mais informados por adesões ideológicas que por visitas aos arquivos. E digo isso sem negar que existam grupos de saudosistas inconformados com a sociedade criada a despeito de suas ações e vontades individuais. É certo que apesar de  o general Newton Cruz ter sido derrotado sempre existirão os que como ele entendem que a sociedade seria melhor com o Congresso Nacional fechado, mas esses grupos não têm possibilidade de enfrentar uma sociedade que, bem ou mal, está aprendendo a viver com a liberdade. Mas em nossa sociedade ainda há grupos que sonham com a possibilidade de terem a ditadura de proletários a definir e impor o que é o melhor para o ingênuo povo que precisa de babá e não de líderes. Devemos nos esforçar para evitar que as nossas reflexões históricas não se transformem em discursos histéricos por não serem mais históricos, ao tomarem por base discursos eleitorais e não realidades objetivas. Historiadores devem ser mais comprometidos com a busca da verdade histórica, embora como cidadãos tenham suas escolhas partidárias, mas se não souberem separar essas instâncias poderão tornar-se historiadores oficiais e, então perderão sua credibilidade histórica em troca da aceitação fácil nos espaços da conjuntura atual.

A pedagogia do medo não deve fazer presença em nossas comunicações nem em nossas salas de aulas.