Posts Tagged ‘Direitos Humanos’

Aniversário de Dom Hélder

segunda-feira, maio 4th, 2020

Hoje é aniversário de Dom Hélder Câmara, o Dom que a Arquidiocese de Olinda e Recife recebeu, no mês de abril de 1964. Era o momento inicial de uma longa jornada para os brasileiros, um período de obscurantismo que nos presenteado por alguns empresários, políticos, religiosos de todas as fés. Um tempo de destruição, como o que assistimos hoje, mas o Dom nos fez ver a esperança na escuridão que os ditadores e seus aliados nos impuseram e, parte do povo, que tirava vantagem da situação apoiava, como hoje. O tempo de Dom Hélder entre nós, foi o tempo em que se descobriu a Declaração de Universal dos Direitos Humanos, assinada pelo Brasil em 1948, mas que não foi repassada para os brasileiros. Foi necessário o tempo de provação para que entendêssemos o significado do direito à vida, à liberdade, à expressão, à moradia, à educação, à segurança, ao pensamento, às condições básicas da vida e muito mais, mas principalmente que nenhum desses direitos nos alcançam isoladamente. Tudo em comum. Os direitos humanos começaram a ser respeitados no Brasil quando os brasileiros assumiram que deviam lutar por eles, construí-los, mas com todos os povos. dlom Hélder nos apontou o caminho da solidariedade universal, além dos partidos, das nações, dos credos. E hoje é seu aniversário, e por isso vamos pensar em algumas de sua intuições e lições.   

1970, em viagem, Dom Hélder foi à Europa, aos EUA e Canadá para uma série de palestras. Fez percurso semelhante alguns anos depois. Em 1972 eu o vi em Vancouver.  lembro-me de uma conversa que tive com um amigo que me ensinou muitas coisas. O conheci padre Michel Jorissem, em Nova Descoberta, quando ele fazia parte de uma ação conjunta das arquidioceses de Olinda e Recife e Detroit, no qual alguns padres vieram para assumir algumas paróquias, um convênio que começara a ser tratado por Dom Carlos Coelho. Ao retornar ao EUA, Michel Jorissen laicizou-se. Encontrei-o uma vez, foi a última, em Nova York em 1975. Conversamos sobre dom Hélder e suas palestras. Em um dado momento ele disse algo mais ou menos assim: “ler Dom Hélder cansa, ele se repete muito”.  É  verdade, dom Hélder se repete muito, a miséria que ele queria superar não mudava, mas os seus discursos podem ser lidos hoje com sabor de novidade, só precisa atualizar alguns dados econômicos e sócio-populacionais. Infelizmente ainda não vencemos o egoísmo que provoca tanta dor no mundo.

Nos anos setenta, foi publicado um livro do Dom, Espiral da Violência, sucesso internacional de venda. Livro difícil de ser encontrado hoje. Uma preciosidade de cerca de sessenta páginas, que eu tinha e perdi.  Quem sabe a Editora Loyola um dia o republique..Naquele livro Dom Hélder ensina que há uma espiral que faz a violência crescer, espalhar-se por causa da sofreguidão pelo lucro, pelo acúmulo, e por negar a uma imensa parte da humanidade os bens que são gerados pelo trabalho de milhões que jamais têm acesso aos bens que produzem. Dom Hélder menciona uma expressão que  repete muitas vezes: a Bomba M, a mais explosiva das bombas, a Bomba da Miséria que se alastra e esmaga a muitos. Como os dados recentes colocam que a riqueza produzida hoje no mundo está sob controle de uma centena de famílias, é claro que as reflexões de Dom Hélder nos setenta podem ser aplicadas hoje.

Para sair dessa situação, Dom Hélder, mantinha a esperança de que os homens formassem uma grande família, que é o projeto de Deus. Devemos sempre lembrar que dom Hélder não é sociólogo ou economista, nem mesmo teólogo no sentido acadêmico do termo, é um teólogo, um profeta, no sentido de que ele  nos explica o projeto que Deus tem para os homens, e apresenta os motivos pelos quais ainda não conseguimos formar essa família que superaria, ou superará, os problemas causados pelo egoísmo que faz a concentração da riqueza, como a explica. Dom Hélder é um religioso e observa o mundo a partir de sua fé e esperança que o leva à prática da Caridade, não como a distribuição de  esmola, mas ações que aperfeiçoam a humanidade. O que faz a força da palavra de Dom Hélder é a sua fé e a sua esperança em Deus que se revela nas ações dos homens. É essa esperança que faz Dom Hélder imaginar as Minorias Abraâmicas, grupos que devem se formar nos mais diferentes espaços da terra, grupos formados por pessoas de vários grupos sociais, etnias, religiões, nações, etc. , grupos formados por homens e mulheres cultivadores da esperança e de um mundo novo. Esses pequenos núcleos fariam ações práticas – engenheiros e arquitetos pensariam novas maneiras de habitações, grupos empresariais forneceriam condições para a realizações desses projetos, os políticos (prefeitos, governadores, ministros etc.) criaram as condições necessárias e a sociedade – famílias, grupos, pessoas, igrejas, clubes – forneceriam o trabalho necessário, etc.. Essas minorias eu as vejo atuando hoje com diferentes nomes como Greenpeace, fundada em Vancouver, Canadá, 1971; Médicos Sem Fronteiras, criada em Paris, França, no ano de 1971, e tantas que nem sabem como e onde nasceram, qual o vento lhes soprou para que se organizassem. Foram fundadas por jovens apaixonados, jovens que encheram os estádios e ginásios para ouvir o Dom da Paz, o Peregrino da Esperança, a voz dos que não têm voz, e colocaram em prática e sonharam e fazem a construção de um mundo melhor. Nunca saberemos os resultados das viagens de Dom Hélder.

A comunidade mundial essa família, essas minorias abraâmicas, esses grupos que esperam contra toda a esperança, esses que acreditam que quanto mais escura a noite mais bela e brilhante é a madrugada, já existe, e é fortalecida por novos grupos que são criadas a cada dia. Parece que concorrem entre si, mas esses grupos estão criando um mundo novo. Essas comunidades estão à serviço dos mais pobres, e quem está a serviço dos pobres está a serviço de toda a humanidade. Podemos dizer em uma linguagem iluminista. Dom Hélder as imaginou como sinais da construção do Reino de Deus, pois, como ele ensinou, a eternidade começa aqui e agora.

Mas, assistimos esses grupos serem atacados pelas famílias que concentram a riqueza, por governos e políticos interessados apenas no poder e favorecer os que lhes financiam, são políticos e grupos pouco interessados, verdadeiramente interessados no bem comum, na grande família humana. Por estarmos governados por esses grupos concentradores da riqueza mundial, é que mais da metade da população mundial ainda não tem acesso a água limpa e potável, não tem acesso a saneamento básico, o que provoca doenças e pestes como a que experimentamos nesta segunda década do século XXI. Mas continuamos esperando contra toda esperança, pois as Minorias Abraâmicas, carregam pedras enquanto descansam, jamais deixam de esperar/fazer um mundo melhor, pois acreditam e vivem na crença de o mundo será melhor quando o menor acreditar no menor.

PS. São inúmeras as obras sobre Dom Hélder Câmara, entre elas Entre o Tibre e o Capibaribe, de munha autoria e publicado pela Editor Universitária da UFPE, já em 2ª edição.

Brasília Teimosa e Normandia: Uma Ekédi e um padre os une

sexta-feira, julho 29th, 2016

No dia 26 de julho deste ano de 2016 ocorreram muitas mortes matadas, como se dizia em alguns lugares, ou homicídios, assassinatos, como se diz em outras. Duas chamaram a minha atenção, sendo que uma delas chamou a atenção do mundo todo e a imprensa de muitos países a noticiara; outra, foi, apenas, uma notícia local. Uma ocorrida no interior de uma igreja católica em cidade francesa, outra em bairro da cidade do Recife; uma foi a morte de um homem, outra a morte de uma mulher. Ambos eram septuagenários e ambos dedicados à religião.

Inesperadamente dois homens que não costumavam frequentar a igreja de Santo Estevão de Ruvray, (Sait-Etiene-du-Ruvray) na região a Normandia, entraram e fizeram reféns aos que ali estavam em oração. Uma das pessoas conseguiu fugir e chamar a polícia, mas os homens mataram o padre Jacques Hamel. Foi um crime que se quer político, que quer ser feito em nome de uma religião contra outra. Talvez seja.

Tanto os criminosos que cortaram a garganta do padre como alguns conhecidos meus e outros que não conheço não irão gostar do ‘talvez’ desta frase. Os assassinos têm certeza dos seus atos e querem que o medo aterrorize os amigos do padre Jacques Hamel, que os amigos de padre se escondam e abandonem suas certezas pois, isso será a a vitória do chamado estado islâmico, que se apegou à parte mais obscura do Islamismo e a que impor a todas as pessoas. Os sectários aceitam apenas a escolha que fizeram, são Narcisos. Entre os amigos do padre Jacques Hemel também há os que pensam sectariamente e desejam que em nome de suas crenças, a liberdade de sair a matar quem não pensa do se modo. Mas é sempre bom lembrar que os antepassados da fé do padre Jacques Hamel conseguiram sobreviver sendo mortos, como Estevão, o Santo que nomeia o templo onde ele foi assassinado. Somente alguns séculos após o assassinato o martírio de Estevão é que pensaram ser bons cristãos começaram a matar para expandir a sua fé. Cometem o mesmo erro dos assassinos do padre Jacques Hamel.

Menos famoso ficou o assassinato da Ekédi Maria José Quirino, assassinada em sua casa no Bairro de Brasília Teimosa. Não se sabe quem ou porque assassinou Maria José Quirino que, no seu terreiro, ajudava os que têm seus corpos usados pelos Encantados que visitam a terra. Essa a função da Ekédi, um trabalho de consolação e apoio. A palavra yorubá significa ‘mãe de todos. Sua morte pode ter sido por abuso sexual, uma vez que foi encontrada despida e esfaqueada em sua casa. Este foi o trigésimo assassinato de idoso em Pernambuco este ano. A fragilidade daqueles que, após uma vida de trabalho e doação parece ser o espaço encontrado para que covardes, em pleno vigor físico, exponham sua adesão à morte.
Maria José Quirino não estava no exercício de sua função sacerdotal quando foi morta por arma branca, como o padre Jacques Hamel. Entretanto, esses dois idosos sacerdotes, morreram como resultado da falência de nossas civilizações por não terem, ainda, assumido plenamente o respeito à vida, e muitos escondem o ódio no nome de alguma religião.

Que Santo Estevão, Proto-Mártir do cristianismo, acolha esses sacerdotes sacrificados pelo ódio à vida.

Março das águas e dos mosquitos

quarta-feira, março 2nd, 2016

Pois que começou março e, a cada ano esperam-se as chuvas que, diz a sabedoria de Tom Jobim, fecham o verão. Os que vivem no sertão olham o calendário em busca da chuva de São José que, caso cheguem, podem garantir 20 espigas em cada pé de milho, como reza famoso baião de Luiz Gonzaga.

O mês de março passou a ser conhecido como o mês das mulheres, porque a ONU estabeleceu, com justiça e justeza, a homenagem à mulheres operárias que foram sacrificadas no fogo de uma fábrica de tecidos no século XIX para que, as meninas de classe média aprendessem que as mulheres começaram a chegar ao mercado de trabalho na terceira década do século XX. Afinal, esse pessoal do sexo feminino que, morando na periferia e cuida das casas nos bairros mais ricos, serão que são parte do gênero, ou são apenas do sexo? São as contradições do mês de março.

Antigamente o ano começava em março, como está definido nos horóscopos. Lá no hemisfério norte, é o tempo que começa a primavera e a fertilidade campeia, domina os campos após o tempo gélido do inverno, e as Festas de Maio lembravam que era tempo de namorar, noivar e até mesmo casar ou acasalar. Tempo de brincadeira, tempo da páscoa, após os sofrimentos do frio, a experiência da quase morte. Mas a segunda quinzena de março anuncia o tempo fértil, mesmo em terras abaixo da linha do Equador, onde o outono prepara o tempo da chuva. Mas nossa imaginação adequou muito bem os tempos geográficos aos tempos culturais criados acima do equador. Criamos um mundo quase falseado, nem percebemos que estamos nos trópicos. Os nossos ricos, esse um por cento da população, cuida de viajar, alguns dizem que vão estudar no hemisfério norte, que vão fazer cursos, imersão cultural, aprender outro idioma. E viajam muito porque, dizem, as viagens ilustram, e precisam viajar muito, para ver se aprendem algo mais que entrar e sair dos aviões. Antigamente faziam sessão de fotografias em suas casas para os amigos e, quando alguém perguntava: mas onde é isso? Quase sempre diziam que “tudo é tão bonito que a gente se confunde”. Hoje são os selfies ou fotos que não apresentam referências, algumas parecem retiradas de revistas especializadas. No mundo virtual tudo é quase real. Alguns viajarão sempre e pouco lerão do mundo visitado.

Pesquisa recente do Instituto Paulo Montenegro e Ação Educativo diz aponta que apenas 8% dos brasileiros estão plenamente alfabetizados e capazes de ler e interpretar um texto, analisar uma tabela e que 27% da população é analfabeta funcional, gente que não entende o que ouve nem o que ler, apenas segue o instinto para não ser extinta. Essa população, de vocabulário pequeno é que faz o sucesso de programas como os apresentados nos sábados e domingos à tarde nas televisões e na apresentação de partidos políticos nos programas ditos ‘gratuitos’. Apela-se para as cores e para os sentimentos de “paz e amor”, os discursos infantis e infantilisantes do ‘nós e eles’ e do ‘isso ou aquilo’. Pesquisa recente nos Estados Unidos mostra que essa é a razão dos sucesso do bilionário Donald Trump como possível candidato à eleição presidencial dos Estados Unidos. Discurso fácil, que alimenta a docilidade, a fera do nacionalismo, a aceitação do caminho mais fácil que não exige nem mesmo a leitura de um mapa, pois o mundo para esses não têm coordenadas nem abscissas. Tudo é plano e úmido, como as terras de esgoto a céu aberto, ou mesmo da felicidade de ruas calçadas ou asfaltadas que escondem a ausência da rede de esgoto, que nos chegam nas visitas de ratos, baratas, muriçocas e outros voadores que carregam de doenças aos eleitores incapazes de ler o mundo que os rodeia e, também de contar e escrever a história que vivem. São apenas 8% o que conseguem dominar essa tecnologia básica para viver com mais justeza os direitos. Os demais, por essa deficiência que foi construída social e culturalmente, continuarão a confundir direito com favor, mérito com favorecimento.

O mês de Março é sempre a possibilidade das chuvas de São José, cujo cajado floresce, como mandacaru que informa o fim da estiagem, como o movimento de meninas gaúchas que abandonam as bonecas e, comemoram a chegada da primavera/outono lutando pelo direito de tornar menores os shorts, cada mais shorts.

Setenta anos depois :Humanos, não deuses

domingo, agosto 9th, 2015

São sete décadas do momento em que o homem testou, efetivamente, o seu potencial de destruição. A brincadeira de ser como uma divindade grega que, de sua residência olímpica, observa os humanos a moverem-se, a angustiarem-se nos afazeres cotidianos para juntar pedaços de vida e ofertar a quem os domina. Sete décadas do acontecimento duplo, Hiroxima e Nagasaqui, o teste e sua confirmação de poder sobre a vida e talvez sua inutilidade.

Após milhões mortos em campos de batalhas, nas cidades bombardeadas, nos campos de concentração de gente juntada para experiências e finalizações, a brincadeira de endeusar-se, de fazer-se deus continuou. O que ocorreu no arquipélago japonês não foi o final da guerra, mas uma nova etapa da autodivinização do homem, mais uma etapa na superação dos escrúpulos. O que antes era prerrogativa dos que se diziam, e foi reconhecido, como filhos de alguma divindade, o poder de terminar a vida de outrem, agora e cada vez tornar-se-á mais comum. Comum no sentido de que qualquer um passa a ter o direito de vida e de morte.

No intuito de estancar essa correnteza, alguns anos depois, foi proclamada a Declaração Universal dos Direitos dos Homens. Busca-se, naquela declaração, evitar que os estados, seus gestores, ajam voluntariosamente e destruam o conjunto dos seres humanos. A Organização das Nações Unidas, apesar de nascerem com o germe da separação, da discriminação, compreenderam estar-se em novo momento da humanidade e se tornava necessário impor limites ao que parece ilimitado. Se na tradição judaica foram necessários 10 mandamentos, a ONU consagrou três dezenas. A explosão das bombas aliadas em Hiroxima e Nagasaqui e a declaração Universal dos Direitos Humanos são dois momentos de um só drama, de uma tragédia: como ser criatura e criador simultaneamente? Como dar-se a liberdade de matar, destruir e, ao mesmo tempo, ser guardião da vida? Como preservar a vida e cultivar o bem quando, sem cerimônia se aceita a banalização do mal?

Aprendizes na arte de usar os instrumentos que criou, e sabendo do perigo que é disseminação do conhecimento que leva à destruição da vida, cuida-se de evitar seu uso, mas não de evitar a morte controlada. Como nos tempos de outras civilizações, os Estados e seus controladores, continuam a decidir como deve ocorrer o curso da vida. Aos comuns são permitidas brincadeiras de pequenos poderes.

Quase sempre colocamos a nós mesmos no Olimpo, cuidamos de assistir ao passar dos tempos e observar as mudanças conjunturais, uma vez que mudanças estruturais pouquíssimas gerações tiveram esta oportunidade e pagaram com muito sangue tal privilégio. Mas fazemos a crônica dos acontecimentos e, cultivamos a ideia de nossa divinização. E parece ser este nossa situação, a situação dos Hércules e semelhantes: não mais seres humanos e jamais, como eles, seremos deuses.

A Lei do Cão ou a demência da 15.516

segunda-feira, junho 1st, 2015

Será um caso de esquizofrenia, demência ou falta de vergonha e mancômetro. Faz menos de uma semana que o governador do Estado transplantou parte de seu governo para o Engenho Cumbe, no município de Nazaré da Mata. Foi ali, com seu secretário de cultura para entregar um título que, os que se julgam donos do saber, dizem reconhecer que finalmente reconheciam o Maracatu debaque Solto e a dança/teatro Cavalo Marinho, passavam a ser Patrimônio da Cultura Imaterial de Pernambuco. Esses brinquedos, essas artes foram criadas pelos homens cortadores de cana, esses que cortam a cana para os engenhos fornecerem essa matéria prima para as usinas da região.

Pois bem, dez dias depois que o governador do Estado fez uma discurseira sobre a importância das tradições populares na formação do ethos pernambucano; dez dias após o secretário de Cultura pronunciar palavras de respeito ao que os artistas populares , quer dizer: não ricos, criam e que é dever do Estado proteger essas manifestações do gênio pernambucano; uma dezena de dias após a presidente da Empetur bradar em alto e bom som que é função do Estado estimular tais manifestações culturais, o Sr. Governador do Estado sanciona uma lei, proposta por um deputado analfabeto funcional no quesito cultura pernambucana, que proíbe crianças até 14 anos de participarem de espetáculos públicos. Com esse parágrafo da lei, os ilustres deputados decretaram o fim das Tribos de Índios e das Tribos de Caboclinhos. Nem Herodes Antipas faria melhor com a cultura. Com isso também mataram as iniciativas de reviver o Pastoril, normalmente dançado e cantado por meninas nessa faixa etária. E então a Assembleia Legislativa de Pernambuco deu demonstração de sua ignorância sobre o que ocorre no criativo mundo cultural pernambucano. Ou então estão jogando contra o Estado.

Analfabetos funcionais nesse quesito, além do governador que assinou sem ler, parece, a baboseira que recebeu o nome de Lei 15,516, proibindo espetáculos públicos após as 22 horas, exceto aqueles que o governo estadual financia é toda a Assembleia e, de lambuja carregou o Conselho Estadual de Cultura que, presume-se, deva ter sido convocada para dar a sua opinião sobre o que lhe compete, pois para isso recebe jetons vitalícios. Como o governo estadual não financia sambadas, o governador proibiu as sam

Será um caso de esquizofrenia, demência ou falta de vergonha e mancômetro. Faz menos de uma semana que o governador do Estado transplantou parte de seu governo para o Engenho Cumbe, no município de Nazaré da Mata. Foi ali, com seu secretário de cultura para entregar um título que, os que se julgam donos do saber, dizem reconhecer que finalmente reconheciam o Maracatu debaque Solto e a dança/teatro Cavalo Marinho, passavam a ser Patrimônio da Cultura Imaterial de Pernambuco. Esses brinquedos, essas artes foram criadas pelos homens cortadores de cana, esses que cortam a cana para os engenhos fornecerem essa matéria prima para as usinas da região.

Pois bem, dez dias depois que o governador do Estado fez uma discurseira sobre a importância das tradições populares na formação do ethos pernambucano; dez dias após o secretário de Cultura pronunciar palavras de respeito ao que os artistas populares , quer dizer: não ricos, criam e que é dever do Estado proteger essas manifestações do gênio pernambucano; uma dezena de dias após a presidente da Empetur bradar em alto e bom som que é função do Estado estimular tais manifestações culturais, o Sr. Governador do Estado sanciona uma lei, proposta por um deputado analfabeto funcional no quesito cultura pernambucana, que proíbe crianças até 14 anos de participarem de espetáculos públicos. Com esse parágrafo da lei, os ilustres deputados decretaram o fim das Tribos de Índios e das Tribos de Caboclinhos. Nem Herodes Antipas faria melhor com a cultura. Com isso também mataram as iniciativas de reviver o Pastoril, normalmente dançado e cantado por meninas nessa faixa etária. E então a Assembleia Legislativa de Pernambuco deu demonstração de sua ignorância sobre o que ocorre no criativo mundo cultural pernambucano. Ou então estão jogando contra o Estado.

Analfabetos funcionais nesse quesito, além do governador que assinou sem ler, parece, a baboseira que recebeu o nome de Lei 15,516, proibindo espetáculos públicos após as 22 horas, exceto aqueles que o governo estadual financia é toda a Assembleia e, de lambuja carregou o Conselho Estadual de Cultura que, presume-se, deva ter sido convocada para dar a sua opinião sobre o que lhe compete, pois para isso recebe jetons vitalícios. Como o governo estadual não financia sambadas, o governador proibiu as sambadas, momentos de agregação, socialização e preparação sistemática para o grande desfile que encanta os turistas mas, que, parece, incomoda a quem expeliu esse projeto lei e a quem aceitou a desonra de assinar.

Essa lei, esse ataque esquizofrênico dos ‘senhores da cultura’ é ainda mais maléfica, se é que isso é possível. Ela proíbe que se venda livros, que se venda obras de cerâmica, de pintura, do artesanato, se o artista principal não for o autor da obra. Mas é em momentos como esses que o povo pode vender o que ele faz. O que ele faz não se vende nos shopigns frequentados pelos deputados. É nessas horas, nesses eventos populares que o artista popular tem seu mercado. Essa lei 15.516 é a lei da destruição da cultura pernambucana, é a Lei do Cão. Penso que Antônio Conselheiro assim a chamaria, como chamou aos impostos injustos que a recente República cobrava do povo pobre.
Rejeição total ao energúmeno que pariu tal lei; Rejeição total a essa Lei do Cão. Que todos os repentistas, que todos os Mestres de Maracatu improvisem contra essa barbarie, essa estupidez; que todos os Mestres de Cavalo chamem o governador, esse cabra de Empata Festa; que todos os Mestres de Capoeira vituperem contra essa insanidade; que os Mestres de Caboclinhos neguem a Jurema e o Mel a esses nossos destruidores.

QUE OS ANTROPÓLOGOS, HISTORIADORES, SOCIÓLOGOS, PROFESSORES DE DANÇA, DE POESIA, DE TEATRO, DE LITERATURA, PROFESSORES DE TODAS AS CIÊNCIAS, SAIAM DO CONFORTO DE SUAS UNIVERSIDADES, AUMENTEM SUAS VIAGENS DE ESTUDO PARA AS NOSSAS REGIÕES, SAIAM DE SEU CONFORTO E OCUPEM A NOSSA CULTURA, NÃO COMO OBJETO DE ESTUDO, MAS COMO SINAL DE NOSSA VIDA.

Severino Vicente da Silva Biu Vicente

Festival Canavial e Dom Hélder Câmara

sábado, novembro 15th, 2014

 

O Direito de Celebrar

 

Manhã do dia 15 de novembro 2014. Sem grande participação popular, a República do Brasil começou a 115 anos. Um grupo de soldados, bacharéis e jornalistas afastaram a monarquia e desejaram construir uma nova maneira de gerir os interesses públicos. Mas desde logo se observou que parte do povo brasileiro ficou assistindo como besta e, depois, continuou sendo bestializado. Trabalhador construtor de riquezas, homens e mulheres continuaram a viver seus afazeres, particulares e públicos, com as dificuldades de sempre. Desde ontem estou em Nazaré da Mata participando do 8° Festival Canavial, que teve seu início humilde nas Festas de Terreiros, realizadas no Ponto de Cultura Estrela de Ouro de Aliança, uma festa mensal que punha o desafio para alguns rapazes e moças do entorno da Chã de Camará: treinarem a produção de um evento. Era a recuperação de uma tradição: o povo fazer a sua própria festa, em um momento em que as administrações federais, estaduais e municipais teimavam em desconhecer as criações artísticas dos trabalhadores rurais e urbanos da República. Os organizadores da Festa de Terreiros entendiam que a arte, a educação artística, é um caminho para a cidadania. Coquistas, Repentistas, bailarinos de Cavalo Marinho, Cirandeiros, Maracatuzeiros, Forrozeiros, Guerreiros, Sanfoneiros, eram os convidados para cantar e dançar com os trabalhadores dos canaviais da Mata Norte de Pernambuco. Aqueles que foram bestializados apresentavam-se para que eles mesmos conhecem-se as belezas que construíram nos cem anos, que literato chamava de solidão, mas eram, simultaneamente de criação, afirmação de sua maneira de ver, entender e recriar o  mundo. Nesses oito anos, o Festival Canavial vem se ampliando e já ultrapassou os limites da Mata Norte, com presença nas litorâneas Olinda e Ipojuca, e na agrestina Limoeiro. Interessante é que onde chega o Festival Canavial não encontra espaço vazio, mas chega para alimentar o fogo da vida que pulsa naquelas cidades, uma vida periférica que acolhe o festival que auxilia a troca de experiências dos criadores da cultura brasileira com as suas especificidades locais.

Nesta manhã que celebramos o advento da República, vejo como o rio da cultura popular vem se alastrando no exercício da cidadania. Nossa República tem sido bastante acossada por hábitos oligárquicos de mandonismo, que nos fizeram viver vários momentos de governos ditatoriais. O mais recente findou em 1985 e, desde então vivemos o mais longo período de vida democrática em nossa sociedade. Alvísseras e gritos de alegrias por esse período que desejamos uma maior duração. E, é necessário que compreendamos como ele foi construído, esse período tem longa gestação, que é a gestação de nossa cidadania, a criação e conquistas de nossos direitos. Ninguém pode arvorar-se a dizer que ‘fiz isso e fiz aquilo’, ‘eu dei tais e tais direitos’. Os que assim agem denunciam o seu ranço de dominador, escravizador de homens e mulheres. O que temos hoje em nossa República tem sido resultado do trabalhos, dos sofrimentos, do anseios, das esperanças dos bestializados que, vez por outra encontra alguém a simbolizar essa luta. Zumbi dos Palmares, oculto dos brasileiros durante três séculos, hoje simboliza as lutas e as conquistas que fazem de nós um povo livre e que luta contra os diferentes tipos de amebas políticos que os rondam. Ontem, recebi uma notícia que tem relação enorme com o que estou vivendo aqui neste 8º Festival Canavial. Amigos me informaram que, parece, Dom Hélder Câmara foi definido em lei como Patrono dos Direitos Humanos no Brasil. Rapidamente a memória levou-me para o já longínquo ano de 1967, quando escutei Dom Hèlder conversar sobre Mahatama Gandhi e Martin Luther King. Vivíamos sob o duro tacão da ditadura imposta por civis e militares ao povo brasileiro. Era a ditadura que eu conheci, Dom Hélder falava de outras que ele conhecera, especialmente a que terminara em 1945. Foi durante aquela ditadura comandada por Getúlio Vargas que ele começou a experimentar a transição da tentação totalitária para a vida democrática. Creio que a sua experiência com os jovens da Ação Católica deu-lhe a compreensão dos limites que eram impostos ao povo brasileiro, com o intuito de mantê-lo sempre bestializado. Como bispo auxiliar do Rio de Janeiro iniciou o processo de garantia do direito à moradia decente para os favelados. Foi o Drama da Habitação Popular que o apaixonou e que deu início ao ódio que lhe dedicaram os exploradores e fabricantes de marionetes. Dalí para sonhar com a ações encaminhadoras da cidadania foi um passo acertado. Vieram a SUDENE  e a SUDAN, depois desencaminhadas de seus objetivos iniciais para garantir o prazer do lucro aos que sempre lucraram com a bestialização do povo. Assisti Dom Hélder iniciar a Pressão Moral Libertadora, uma rota de não violência para fortalecer os que agiam para superar a destruição do homem. “Nordeste, o Homem proibido” foi, salvo engano, o primeiro documento a afrontar os ditadores  ao clamar contra a destruição dos homens e mulheres pela exploração desenfreada que não  lhes permitia iniciar a jornada para estabelecer no Brasil o que foi definido na Declaração Universal dos Direitos Humanos, pela ONU em 1948. Foi a defesa dos Direitos Humanos que tanto incomodou coronéis, generais, de farda indústria ou terras. O Estabelecimento da primeira Comissão de Justiça e Paz, na Arquidiocese de Olinda e Recife é um marco na história do Brasil, na história da superação da bestialização a que vem sendo submetida parte da sociedade brasileira.

Entendo o Festival Canavial, como muitos outros semelhantes a ele que são organizados neste país, afora e adentro, neste início do século XXI, como o início do alcance da liberdade de criar a arte e de poder expressá-la para si e para os seus. Todos esses festivais que nos expressam, que expõem a nossa cultura são resultados da luta pelos Direitos Humanos.

Nesta manhã republicana, nesta semana da celebramos a necessidade de assumirmos que somos negros, índios, mestiços, caboclos, evangélicos, católicos, brancos, xangozeiros, candomblecistas, macumbeiros, catimbozeiros, matutos, caipiras, e tantas outras identidades que nos faz belos brasileiros, belos seres humanos.

 

Severino Vicente da Silva – Biu Vicente