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Primeiros em corrupção a caminho de ser primeiro na reconstrução de si

domingo, julho 3rd, 2016

Inicia Julho, o mês de Santana e vem cheio de novidades e de esperança. De tanto verificar que houve muito roubo de verba pública sendo descoberto e gente de colarinho bem branco e moradores de coberturas sendo presos, começa a ter início nova fase de reflexão sobre o Brasil e o que fazer a partir de então. Claro que ficou evidenciado que, se já não somos os primeiros do mundo em futebol, o somos em ‘bola’, propina’, o ‘por fora’, etc. Mas, entre os países com os quais estamos emparelhados – os ditos emergentes, os que estão colocando o pescoço fora da linha d’água da miséria ou pobreza- somos os que estamos enfrentando com soberania e tranquilidade a descoberta e o estabelecimento de novos patamares na coisa pública. Hoje já não apenas um juiz no STF, como foi a odisseia de Joaquim Barbosa fustigado pelo lamentável Lewandowski, atual presidente do STF, colocado na linha da navalha sob a observação cada vez mais cuidadosa da sociedade; já não é a isolada ação do juiz Moro e as equipes do Ministério Público e Polícia Federal de uma Vara da Justiça do Paraná, mas seu exemplar comportamento já pode ser visto em setores do Rio de Janeiro, São Paulo e Pernambuco.

Jovens promotores, jovens juízes, jovens policiais – jovens em idade e jovens na prática de suas tarefas – estão a indicar que velhos hábitos podem e devem ser mudados. Esses setenta juízes que estão ‘perseguindo’ jornalistas no Paraná já receberam o primeiro travamento no STF, dado pela juíza Weber.

Com a prisão desses enriquecidos nas maracutaias ocorridas principalmente no governo do inventor da expressão, podem ser um bom início. Como também o foi a prisão de um senador, em exercício do mandato, que confundiu o público com o privado. Aquela primeira cúpula do PT que foi levada à prisão sob o grito de ‘guerreiro do povo brasileiro’ está cada vez mais lembrada como a de ‘traidores do povo brasileiro’. Talvez outros do mesmo time venham a ser condenados. Ao mesmo tempo devemos cuidar para suprimir privilégios que magistrados e políticos do passado, com mentalidade de casta, criando uma nobreza espúria e vergonhosa, mutilando a Constituição Cidadã, negociando – legislativo e judiciário – vantagens para si, afastando-se do comum dos cidadãos.

Estamos aprendendo a castigar os que nos castigam com seus crimes. Esse é um bom passo em direção de formarmos uma nação. Ainda não o somos, pois deixamos que cultivassem muitas divisões em nossa alma. Estamos superando feridas podres, apostemadas, expulsando do corpo social o que nos faz mal e permitiu e favoreceu o esmorecimento das instituições. Mas estamos avançando e vamos derrotar os que queriam dominar o nosso futuro.

Semana de aniversários

sexta-feira, abril 22nd, 2016

Este site completa sete anos neste mês. Esta semana tem início o meu 67º ano de vida. Para celebrar as duas efemérides, coletei as minhas intervenções na comunidade do Facebook, um pouco para verificar se disse muitas bobagens e coisas sem conexão. tudo foi escrito ente o dia 15 e o dia 22 de abril.

1. Desejo começar este novo dia agradecendo a todas as pessoas que dedicaram alguns momentos para abraçar-me e dizer o quanto podemos manter laços às distância; agradeço aos que me ajudaram a celebrar o tempo que já passou, o dia em que lembro minha entrada na vida e, também a continuar a viver na alegria e na esperança todos os dias que me restam (espero que sejam muitos) para viver e melhorar a vida. Obrigado a todos.
2. Todos nós estamos chocados com a fotografia do Brasil. Descobrimos a nós mesmos, ao verificar em cadeia nacional o verdadeiro resultado das eleições de outubro de 2014. Não sabíamos o que havia sido eleito, a maioria dos brasileiros que votou displicentemente pode verificar o conjunto da obra. Juízes e ré foram eleitos pelo mesmo povo. Nós devíamos é estar assustados não com esse ou aquele deputado (cada um deles representa uma parte dos eleitores/cidadãos), deveríamos é estar assustados com o nosso descuidado com o que é nosso. Fôssemos mais atentos, não entregaríamos o país a esse tipo de gente. Mas, a fotografia não mente. Veremos, nos próximos dias, o andar de distanciamento do PT em relação à dilma, seguindo o script lido por José Dirceu, alguns empresários ex-amigos e agora completamente desconhecidos. O PT chamará a militância que foi sonambolizada nas centenas de CC, para salvar o partido. dilma, que foi figurante, pode ser descartada. Vão tentar salvar o partido e o projeto de Lula. Pode ser que eu me engane, já me enganei com alguns seguidores dessa seita.
3. “Estou sendo golpista? Para alguns sim. Para quem sabe do meu caráter, não. Não tergiverso com minha honestidade e não vendo minha alma ao diabo na forma de pedidos, favores e dinheiro. Meu nariz está limpo porque jamais ajoelhei para lamber um traseiro ou solicitei um empenho. Quando, um dia, me perguntaram “O que você quer?”, disse sem tremer: “Nada!”” Roberto DaMatta.
4. Conversar com pessoas de mentalidade religiosa é difícil porque eles cegaram e mutilaram os ouvidos . Não estão abertos para além de seus dogmas. (…) Não pensei estar falando de dogmas, uma quase exigência dos grupos que encontraram a verdade e articularam em sentenças que servem de paradigmas para os crentes; referia-me a ‘mentalidade religiosa’ que alguns grupos assumiram na sua luta contra as demais mentalidades religiosas ou não. Certos grupos sociais elevaram os seus projetos sociais à condição de dogmas, verdades eternas e incontestáveis, e, nós sabemos, os projetos realizadas na sociedade podem ser conjunturais, adaptáveis e adaptados à circunstâncias. E com esse tipo de gente que está impossível conversar.
5. Como está ficando meio doido, lá vou eu: penso que esta aventura em Nova Iorque, a ser realizada pela presidente dilma, se propondo a dizer que está havendo um golpe (golpe no gerúndio é lasca!) no Brasil para, em seguida voltar ao Brasil e receber a presidência de volta das mãos do ‘golpista” , é uma encenação, um pedido de intervenção do Mercosul, igual àquele que ela e a moça da Argentina arquitetaram contra o Paraguai. Se for isso, mostra mais uma vez que a guerrilheira que queria implantar uma ditadura de esquerda para substituir uma ditadura de direita, continua sem saber fazer análise da conjuntura. E então fica no ridículo. e nós pagamos a conta da crise econômica, da crise ética, da crise moral além das viagens luxuosas, dignas dos ditadores mais loucos.
6. A maioria das pessoas esquece rápido, mas tem gente de memória, como o Senador Cristóvão Buarque, criador do Bolsa Escola, programa muito criticado pelo PT por ser assistencialista. Entretanto o recebimento da Bolsa Escola estava condicionado a presença das crianças na escola. FHC adotou o programa, com o mesmo nome em seu governo e quem o administrava era o Ministério da Educação. Quando o PT tomou posse do governo (pensou ter tomado posse do Brasil) esqueceu suas críticas , adotou o programa com o nome de Bolsa Família, retirando-o do ME, transferindo para A Assistência Social. Cristóvão que foi Ministro da Educação, foi demitido por telefone e desde então o Bolsa Família é um sucesso de votação, mas a educação não tem avançado, especialmente a educação básica e média. Hoje temos mais universidades, mas o nível médio não é tão alvissareiro.

7. Há sociólogos que nos ensinam estar, tudo ao redor, liquefazendo-se; os artefatos técnicos são rapidamente ultrapassados em sua utilidade e desenhos, cedem lugar aos novos. Não mudam, não cedem e parecem cada vez mais sólidos os líderes partidários, veementemente defendidos por jovens adoradores que caminham rapidamente para o passado dos seus líderes.

8. Pensadores que desejam impedir que sejam ouvidos os que pensam.

9. Comece a pensar na próxima eleição. Não vote em vereador que recebe apoio e apoia deputado e senador envolvido em corrupção, que esteja sob investigação. Agora é cuidar disso para ver se melhoramos isso que vimos hoje. Seria o mesmo se o resultado fosse outro. Um povo faminto e iletrado, sem educação e sem possibilidades de debates, que para recrear tem apenas as igrejas e os bares está fadado ao fracasso ou ao sucesso aparente.

O professor e sua janela virtual cheia de vazio

sábado, abril 9th, 2016

Da janela da casa uma pessoa pode ver a vida passar, lentamente como os passos de um velho que parece desejar alongar o momento do fim da caminhada; fugaz como o jovem motociclista, sempre atrasado para um encontro que em algum momento chegará ou como o sonolento passeio de ônibus do comerciário, pedreiro, estudante ou enfermeira, demorando em angustiantes paradas para receber mais alguns enquanto vomita outros. Tudo e todos se movem menos a janela e quem na janela está.

Vez por outra o olhar desvia-se para outras janelas, essas que são abertas para lugares inatingíveis, pois nem mesmo se sabe para onde se está olhando. A pequena tela do computador abre-se ao quase infinito, em uma estrada que leva a casas e caras conhecidas e estranhas. Estranha-se o que se vê e o que se lê. Algo chama atenção, um estranhamento maior. Estranha-se que um educador, professor de gerações de novos professores, coloque à disposição de olhares curiosos e sedentos que virão, notícias do tempo passado como se de hoje fosse. O que leva uma pessoa que se propõe a dar as últimas pinceladas na formação de jovens a falsificar o tempo?

Ao abrir minha janela deparei com o recado desse professor. Encontrei esse recado que me falava de percentuais, números representativos da querença a respeito de certa autoridade, números que demonstram uma adesão a essa pessoa e à sua obra. Mas, os números referem ao tempo que passou, foi um momento já vivido e superado. Não é o momento atual, mas ele não informa aos seus leitores que é de um tempo passado. E esse educador apaixonado, não consegue admitir como foi fugaz a ação que lhe provocou a paixão, recusa-se a aceitar a mudança. É notório o direito que cada um tem de se auto enganar. Algum psicólogo poderia auxiliar a entender essa negação da realidade como possibilidade de sobrevivência pessoal, esse distúrbio pode ser tratado pelo uso de medicamento ou análise. Mas, nos dois casos há que se ter aquiescência do possível deslocado e deslocador da realidade.

Um professor pode ser um catalisador de novas realidades descobertas para aquele que se entrega aos seus cuidados; pode ser indutor de uma caminhada em busca do saber, da sabedoria, da verdade. De certa maneira é assim que se pensa um professor. Mas a janela que vi hoje pela manhã, a janela que esse professor abriu para que eu e todos que passassem em sua avenida virtual pudéssemos aprender de seu saber, permitiu-me ver uma pessoa que está induzindo ao erro, ao erro ao qual ele se agarrou. Como professor ele sabe que a maioria das pessoas não buscam as razões de sua presença no mundo; como professor ele sabe que sua função social é auxiliar aqueles que o procuram a aproximar-se da verdade, e quando ele nega a informação correta ou induz à uma compreensão falsa da realidade, levando os que conversam com ele ao erro, ele comete um crime contra a humanidade.

Da minha janela fico angustiado ao ver, pela janela desse professor, o oco que ficou sua existência ao perceber que suas crenças careciam de realidade e, em lugar de enfrentar esse problema resolveu cultivar seu vazio oferecendo informações verdadeiras no passado, como sendo atuais. E faz isso conscientemente. Não informando que os dados apresentados referem ao passado, ele optou pela mentira como forma de vida e, ao ensinar essas mentiras, comete um crime contra a humanidade.

Os rios que temos e os que desejamos

quinta-feira, janeiro 7th, 2016

O ano de 2016 tem começado como uma apresentação dos resultados obtidos após anos da prática de diminuir o valor das instituições e dos valores ligados à dignidade humana. Como sabemos comportamentos culturais tomam algum tempo para modificação. Mas, se essa atividade educacional de desconstrução vem aliada a propaganda massiva, pressão (bulling social) a partir de grupos e defesa inabalável dos dogmas, ganha-se algum tempo, abrevia-se o tempo de absorção dos novos valores que são ensinados, como a mendacidade, praticada pelos governantes e senhores que se pensam acima de qualquer instituição.

Nas notícias que escutei ontem e hoje estão: uma ambulância do SAMU abandona um paciente na calçada de uma rua em uma cidade do Rio de Janeiro – em sua defesa ele disse que não havia vaga na Unidade de Pronto Socorro; enquanto o Rio de Janeiro sofre uma crise no sistema de saúde, o Ministério Público teve cortado o se acesso aos dados da Receita Estadual que mostram os grandes devedores do Estado (entre eles, o fabricante da cerveja Itaipava, a cerveja que o ex-presidente veio inaugurar em Igarassu). Ficamos sabendo que a lama de tóxicos, jogada no Rio Doce, por irresponsabilidade da mineradora e dos que governaram Minas Gerais com o seu apoio, está a destruir as praias do Espírito Santo e aproximando-se do Arquipélago de Abrolhos. Este ano vem com tantos rescaldos do que ocorreu em 2015 que ainda teremos a confirmação de muitas questões ainda pouco esclarecidas. Surpresa foi, sem dúvida, ouvir a presidente afirmar que o seu governo errou por não ter compreendido a profundidade da crise em 2014. Assim, temos a intuição que, em algum momento do futuro, irão dizer que foi uma surpresa para os atuais governantes do Brasil a situação do Rio São Francisco, transformado em grandes lagos antes mesmo de completar-se o processo de transposição do Rio da Integração Nacional.

Um rio que continuará a crescer é o do sangue produzido pelos afluentes da intolerância cultural de todos os matizes: político, religioso, linguístico. Esses afluentes são vários, ricos em igarapés e estão às duas margens, à direita e à esquerda. E, infelizmente, neles há muitos barcos com comandantes de pouca instrução e de instrução elevadíssima. Esses afluentes são alimentados com o ódio da ignorância e com o ódio do conhecimento organizado. E também com o soro da dissimulação e da indiferença. Tem sido assim ao longo da história e, ainda por algum tempo mais será assim.

Contudo, continuaremos a remar contra os ódios até que os rios voltem a correr como os quatro rios primordiais. Essa é a nossa tarefa.

Comemorando nossas origens

quarta-feira, outubro 14th, 2015

A cada ano, como se fora ordenado por misteriosas forças, algumas reportagens se repetem. É um processo educacional. Aprende-se bastante pela repetição, ensina-se dessa maneira. A repetição é mestra da manutenção da cultura ou, da sua mudança. O que se repete, e como é repetido, sempre fortalece algum ensinamento. As repetições criam laços novos que se tornam antigos e formam novas tradições.

Eu, menino, aprendi a amar algumas tradições, quase sempre associada a algumas pessoas. Uma tradição eu aprendi sem que me ensinassem diretamente, é a tradição de assimilar as mudanças. Sempre me abismei como os meus pais, e a maior parte da humanidade, foi capaz de manter-se em suas tradições enquanto as via sucumbir em funções de novas tecnologias que exigiam novos comportamentos para suas implementações, sem enlouquecer. Os valores que formaram seus caracteres na infância e juventude foram questionados ao longo do século que viveram. Mantiveram e praticaram a sua fé e seus valores enquanto tudo parecia se tornar mais volátil, mas líquido. E eles pareciam mais seguros, pois se mantiveram no que acreditavam enquanto assimilavam criticamente as novidades que surgiam. E nem todas as novidades perduram.

Menino, eu aprendi que um dos grandes feitos da nossa civilização ocorreu por conta de que um homem, seguindo os pensamentos e os estudos de outros homens, saiu da Europa e, por um erro de cálculo, descobriu um continente, não chegando ao antigo que buscava. Desse seu erro e descoberta, nasceram novos mundos, pois ocorreram encontros inesperados, confusões diversas, confusões de sentidos e sentimentos. Muitas mortes, novas vidas e surgimento de novas riquezas que se combinavam com novos conhecimentos dos espaços físicos, do mundo físico e também dos imaginários; as ciências criaram novos conhecimentos, as lentes ampliavam o pequeno e encurtavam as distâncias; algumas certezas eram postas em dúvidas e eram superadas enquanto outras certezas estavam sendo criadas, comprovadas. Religiões foram modificadas por conta das viagens de Colombo e de outros navegadores contemporâneos, e isso causava alegrias e tristezas, dores e sofrimentos, como todos os fatos da vida. Os partos são sempre doloridos, e essas dores são suportáveis para toda a natureza, como, em uma de suas cartas, disse o Apóstolo Paulo. E as dores do parto jamais impediram o surgimento de novas vidas. Após partos doloridos a natureza gera novos indivíduos, e novas vidas são ansiadas.

Em nossos dias, a cada ano vem uma pergunta em alguma reportagem feita por gente muito sabida: há o que comemorar no dia 12 de outubro, o dia da chegada de Colombo nas terras que receberam o nome do gerente dos Médicis, a América? A pergunta é feita para que se responda com um não, pois o que se pretende é a negação daquilo que tem sido criado pelos homens e pelas mulheres nessas terras, pois se pretende a negação da sociedade que nós, os homens e mulheres criamos e continuamos a criar, com todas as dores e com todas as incertezas que as certezas nos levam a criar. Muitos dos que negam a grandeza do que fizemos nos últimos cinco séculos porque dores foram causadas, são os mesmos que louvam as revoluções – francesa, russa, chinesa – sem mencionar as dores que elas causaram. E não mencionam a Revolução Americana.
Colombo e Américo Vespucci são homens do seu tempo e de suas certezas; Cortez e Malinche, Diogo Caramuru e Catarina/Moema, Jerônimo de Albuquerque e Catarina do Espírito Santo, Alcotirene, Gangazumba, são homens e mulheres de seu tempo, e seu tempo é parte de nossa história, negá-los é retirar de nossa sociedade, de nossa cultura os marcos de nossa fundação. É nos negarmos. A repetição dessa pergunta: será que valeu a pena?, introduz e mantém a nossa negação, quer nos impedir de sermos o que somos, quer negar nossa história, que nos negar.

Parodiando o Poeta, quando a alma não se apequena, a vida vale a pena.

Jimmy Carter é o “cara”, não aquele outro

domingo, agosto 23rd, 2015

Jimmy Carter é o ‘cara’

Ao deixar a Presidência dos Estados Unidos, ele foi ser cidadão. Um cidadão melhor do que ele foi presidente

Pobre juiz Sérgio Moro. Basta ele adentrar algum evento público e um inevitável “Ouviram do Ipiranga às margens plácidas…” brota de algum canto, rapidamente encorpado pela maioria mais desinibida dos presentes. Nada que o magistrado possa fazer senão aguardar resignado o final da cantoria.

Graças aos 17 meses de descida aos porões da alma humana da Operação Lava-Jato, Moro sabe melhor do que ninguém o quanto a raça dos bípedes é gelatinosa. Ele sabe sobretudo que não é de clamor por um salvador de pátria que o Brasil precisa. Até porque o posto não existe. Ou quando parece existir é porque o índice nacional de cidadania já baixou do volume morto. Nas poucas vezes em que fala em público, Moro procura sinalizar que a solução deve ser procurada na sociedade como um todo.

Por coincidência, o ex-presidente dos Estados Unidos Jimmy Carter reapareceu no noticiário esta semana para servir de colírio cívico aos desesperançados com a remela política em Brasília. O anúncio que Carter tinha para fazer não era alvissareiro — aos 90 anos de idade, ele está com tumores no cérebro e “a vida nas mãos de Deus”. Ainda assim, foi um bálsamo ouvir o relato cândido e sem firulas de um dos líderes mundiais menos midiáticos e mais coerentes dos tempos modernos.

Carter tinha tudo para dar errado em Washington, e deu. Primeiro ocupante da Casa Branca vindo de um estado sulista (seu avô serviu no Exército Confederado), era de família profundamente batista e fora plantador de amendoim na Geórgia até entrar para a política.

Tinha jeito de caipira, sotaque imperdoável e introduziu um estilo de governança que a elite de Washington pensou ser passageiro: ele dispensava a saudação “Hail to the Chief”, tradicional em cerimônias públicas, vendeu o iate presidencial, carregava a própria bagagem de mão, cortou o uso de carros oficiais para o primeiro escalão do governo.

Não desencadeou nenhuma guerra, não bombardeou civis em país algum, não violentou a Constituição, devolveu ao Canadá o seu Canal e embicou a política externa dos Estados Unidos para uma América Latina mais democrática. Também o histórico acordo de paz entre um país árabe (Egito) e Israel, válido até hoje, levou a assinatura de Carter.

Nada disso teve relevância para o eleitor que o enxotou de volta para o Sul e lhe negou a reeleição em 1980. Foi a fracassada tentativa de resgatar 52 reféns americanos espetaculosamente aprisionados no Irã por quase 444 dias que jamais lhe foi perdoada.

Um presidente incapaz de impedir a humilhação dos Estados Unidos em praça pública não merece assento na Casa Branca. Em seu último discurso à nação, Carter despediu-se com as seguintes palavras: “Entrego as responsabilidades oficiais que assumi neste cargo e reassumo o único título da nossa democracia que tem valor maior do que o de presidente — o título de cidadão”.

Uma das singularidades de Carter é dizer o que pensa e fazer o que diz. Assim, ao invés de curar a nostalgia do poder num campo de golfe, ele foi ser cidadão. Um cidadão melhor do que ele foi presidente.

Durante a campanha para a Casa Branca, ele pronunciara sem qualquer constrangimento um dos discursos mais ridicularizados nos salões da capital. Prometera promover “um governo tão bom e honesto, decente, compassivo, competente e caloroso quanto o povo americano”. Desprovido do cinismo prevalente em sobreviventes na política, Carter acreditava serem essas qualidades também esperadas de um governo.

Como presidente, falhou. Como cidadão, está feliz e bombando. Único homem público americano a receber (e merecer) o Nobel da Paz após deixar o poder, ele ganha seu sustento não com palestras, mas como autor prolifico — já publicou 21 livros, nenhum dos quais é irrelevante.

Habitat for Humanity, o programa mundial de construção de habitações populares ao qual é vinculado, ocupa um naco substantivo do seu tempo até hoje, junto com o monitoramento de eleições em países de democracia vulnerável.

Carter não hesita em jogar o peso de sua voz para condenar violações de direitos e fazer denúncias. Sabe que uma das obrigações primeiras do cidadão é ser persistente nas cobranças.

Com o passar dos anos, veteranos que sentiam urticária à simples lembrança do seu nome já conseguem reconhecer nele alguns dos atributos mais citados — respeito, coerência, integridade pessoal, credibilidade.

De todo modo, não custa guardar na memória a advertência feita por George Orwell no ensaio sobre Gandhi de que “santos devem ser sempre julgados culpados até prova em contrário”. O juiz Moro talvez concorde.

Dorrit Harazim é jornalista

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/opiniao/jimmy-carter-o-cara-17272199#ixzz3jeVgK9UG
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