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O dente de leite de meu neto e os dentes das ditaduras

segunda-feira, março 31st, 2014

 

Meu neto expõe sorriso sem um dente de leite que lhe caiu. Está a se aproximar do que costumava ser a “idade da razão”. Dizia-se que, aos sete anos esse menino já podia entender o que ocorria ao seu redor e estava em processo de empoderamento dos valores sociais, como se diz nos dias atuais.  Isso significava que “esse menino” já sabia o que fazia, e podia até ficar cuidando dos irmãos menores. Mas, como cresce enormemente os saberes coletivos necessários para a sobrevivência, os indivíduos sabem cada vez menos desse total e, apesar de os sete anos de idade continuar sendo visto como o início da idade da razão e, espera-se que a criança já saiba ler e escrever, mas podemos observar que estamos a criar leis que tornam “esse menino” irresponsável sobre seus atos, especialmente aqueles que ferem e matam.  Para alguns casos, a idade da razão nunca chega, apesar da queda dos dentes de leite e o crescimento das presas do animal caçador.

Bem, tive um dos meus dentes extraídos após um acidente que envolveu uma pedra servida no feijão. Embora não fosse esse ocaso, os dentes caem com a idade ganha, esse processo faz parte das perdas que acompanham a conquista do tempo que nos conquista à medida que o vivemos. Em sociedades que já não existem, lá nas regiões mais frias, quando os mais velhos perdiam os dentes e quando já não podiam mastigar as peles dos animais para amaciá-las, eles se retiravam para morrer. Eram vistos como incapazes de continuar a auxiliar o grupo a viver e, podiam causar problemas à sociedade. Como desde cedo eles eram educados vendo desaparecerem alguns velhos, e ouvindo a explicação desse comportamento ao longo de suas vidas, quando chegava a sua vez, eles seguiam normalmente a razão da sociedade, razão que aprenderam ao longo do tempo usando seus dentes.

Cavalos são analisados pela qualidade de seus dentes, assim eram, também, avaliados os que prisioneiros levados aos mercados para serem vendidos como  escravos. As sociedades dos tempos modernos criaram meios para proteger-se contra o envelhecimento, claramente expostos no sorriso que deixa à mostra os dentes ou a sua ausência. Uma nação moderna previne a queda dos dentes, pela higiene bucal, pela educação alimentar, etc. Mesmo sem os dentes naturais, com os dentes artificiais, os mais velhos podem continuar a contribuir na sobrevivência do seu grupo social, da sua sociedade se, além dos dentes, mantidos ou repostos pela tecnologia, mantém também seus cérebros funcionando e os pondo ao serviço do meio onde vivem. Quando isso acontece é um ganho para todos.

Disse ao meu neto que a perda dos dentes mostra que estamos envelhecendo, ele e eu; ele por aproximar-se da Idade da Razão e eu por aproximar-me à idade na qual, além dos dentes, também podemos perder a o uso da razão.

Nessa semana de avaliação do movimento ocorrido em 31 de março e primeiro de abril de 1964, entre os depoimentos que li, uma professora do Departamento de História da Universidade Federal de Pernambuco diz que “ os atores políticos que serviram à ditadura desapareceram de cena porque não tem como participar da construção da democracia. Foram impostores de um tempo sombrio, de medo e violência” [1]; outro depoimento, de José Sarney, que foi um auxiliar do regime militar desde os primeiros dias e o presidente involuntário do Brasil no processo de transição iniciado por Tancredo Neves diz que “A transição democrática brasileira se deve ao meu temperamento, também, esse jeito nordestino de dialogar. Cometi um erro ao voltar à política quando encerrei meu mandato presidencial. De novo, deveria ter ido para casa, mas daí veio o Collor, com todos aqueles problemas, e me chamaram de volta, isso, antes do impeachment. Saí então senador pelo Amapá, porque o PMDB não me deu legenda no Maranhão. Mas, enfim, olhando para esse meu retorno, vejo-o com arrependimento. Já havia encerrado a missão maior, que foi a transição democrática. E é só o que o País deve a este presidente improvisado, que assumiu para ser deposto.”[2]

Como se vê, a perda dos dentes atualmente não é visível e nem sempre ela é acompanhada com a sabedoria que ouso dos dentes daria.

Neste semana e neste mês que serão preenchidas com debates sobre o que ocorreu nos últimos cinquenta anos, devemos uma homenagem, não tanto aos que desejaram apenas vencer a ditadura ocorrida entre 1964 e 1985, mas, principalmente, a todos que lutaram pelo retorno e construção da  democracia. Aos Anônimos da história, aos que não podem e nem querem receber remuneração pela sua participação na reconstrução permanente da democracia, nossa homenagem.



[1] Diário de Pernambuco, em caderno especial sobre AS MARCAS DO GOLPE. 31 de março de 14.

[2] Estado de São Paulo, 28 de março de 14.