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Sobre gafanhotos e o preço do apreço

segunda-feira, março 29th, 2021

E então finda o mês de março com as suas chuvas e ruas alagadas em algumas cidades. Mas a natureza chamou pouco a atenção de quem está enclausurado em sua residência pela necessidade de colaborar com a contenção da expansão do vírus que tem mostrado os limites da cooperação humana. Cooperar não parece ser um verbo instintivo para os homens que, por sua natureza não agem como as formigas que, sem a capacidade volitiva, agem de conforme com a sua natureza. Andam em bandos e parecem cooperar na ação de satisfazer a pulsão de comer, os gafanhotos não indicam que quando não estão a comer estariam a pensar.

 Parece que apenas descansam as asas para se movimentarem até a próxima refeição. Na luta contra o Covid19, alguns dos homens e mulheres parecem mais com os gafanhotos que com as formigas. Estas destroem um pé de laranja, uma roseira ou outro vegetal, mas levam os retalhos para seus lugares onde são produzidos os nutrientes necessários para a reprodução e expansão do formigueiro, o gafanhoto é parte da cadeia alimentar enquanto controla o crescimento das plantas e é importante para a transformação do vegetal em tecido animal, sendo alimento preferido dos sapos e aves. Mas em sua fase de crescimento eles carecem de muito alimento e, como cada gafanhoto-fêmea é capaz de por 100 ovos por vez, tem-se a possibilidade de formação de uma nuvem. A dificuldade que a modernidade tem em controlar o aparecimento das nuvens, é que o simples lançamento de pesticida levará à morte os predadores naturais desses animais. Gafanhotos estão sempre prontos para pular em busca de alimentos. Seriado famoso na década de setenta do século passado, mostrava que o aprendiz sedento de conhecimento era chamado por seu mestre de Gafanhoto. Nesta pandemia, como em outras situações, alguns jovens gafanhotos agem de modo diverso de seus mestres, duvidam do que dizem os cientistas e vão em busca de alimentos para os corpos irrequietos pelo crescimento e conhecimento. Às vezes essa busca pode acarretar prejuízos individuais, mas, problemas sociais estão carreando na direção de uma catástrofe muito maior do que a simples transgressão a uma norma ditada pela autoridade pode causar de imediato.

 Dados coletados mostram um decréscimo de nascimentos no ano de 2021, no Brasil, e, simultaneamente vem crescendo o número de jovens acometidos pelo covid19, muitos indo a óbitos. Não é informado ainda o quantitativo, mas as notícias não são animadoras. O que isso pode acarretar ao nosso futuro, mas sabemos que a morte dos mais velhos faz crescer o vácuo entre as gerações, afetando a transmissão de conhecimentos e afetos. A morte dos mais jovens, acrescido ao menor número de nascimento, o que acarretará. O longo período sem aulas para as crianças, em que afetará a sua socialização e sociabilidade, e os estudiosos da educação já informam que teremos uma geração afetada negativamente por não ter sido alfabetizada a tempo. Esses dados podiam não ter muita importâncias nas pestes anteriores ao século XVII, mas podem ser um marco civilizatório muito sério para a nação que não está sabendo coordenar seu povo em uma época em que o conhecimento das letras é fundamental para estabelecer relações, não apenas para a convivência com outros humanos, mas com as inteligências virtuais que já nos cercam e nos servem diariamente.

E as chuvas de março não foram suficientes para que nossos gafanhotos, interessados no consumo das bebidas, dos salgadinhos e dos risos fáceis. Faz tempo que não constroem casas neste país, apenas pombais para soneca.as casa e apartamentos não estão sendo construídos para socialização familiar. O mês de março nos ensinou que ocorreu um fracasso humano pois que quando se pensa moradia pergunta-se pelo preço. Não há espaço para o apreço. O mês de março foi de triste constatação da falta de apreço à vida. E é outono.