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O Cardeal, o Cristo e o Exú no Carnaval

terça-feira, abril 26th, 2022

O Cardeal, o Cristo, e o Exú no Carnaval

Prof. Severino Vicente da Silva

Era Carnaval, esse mundo da alegria quase revolução, quando o mundo fica quase de “ponta cabeça”, todo invertido. Ninguém leva sério o rei de plantão, e a chave da cidade fica confiada ao Rei Momo, quase sempre gordo, sempre sorridente, com a pureza de um semiembriagado. Antigamente não tinha Rainha do Carnaval, agora inventaram essa, uma pequena satisfação à família. Antes era Pomba Gira, mulher sedutora, de riso enigmático, promessa de paraíso em três dias. Eram muitas e todas perdidas na multidão, prontas para serem achadas. Cantava-se “durante os três dias não sou de ninguém, até quarta-feira, meu bem”. Mas arrumaram uma rainha que ninguém leva a sério, nem o rei. Nos dias de hoje o carnaval é oficial, no sentido de que, se não precisa mais a licença da Igreja, tem a licença do prefeito, aquele que entrega a chave e vai se divertir, mas antes ele já havia definido os locais liberados para a liberdade que o carnaval promete. Melhor, os locais onde os cidadãos podem ser foliões, ficar doidos de alegria. Sim, tem ruas marcadas para isso. Mas o carnaval se faz a partir da alma do folião que nem se importa do que dizem dele; o folião é um ator de si mesmo e, dança, canta, grita, para si mesmo. Ele é sua plateia, é uma alegria para si. E também para quem não é folião, para quem não quer ser folião, para quem só quer ver folião, para quem deseja ser folião, mas fica pensando no que o vizinho vai dizer. Como é cidadão, o prefeito organizou um jeito de separar os foliões dos que gostariam de ser foliões. E então mandou construir passarelas e bancos para aqueles assistirem o carnaval, separados dos que são foliões. Nas bancadas fez-se outra divisão, criaram-se camarotes, mais isolados, de forma que ninguém saiba as folias que acontecem naquele espaço separado para os separados. Uma alegria para quem não se alegram no carnaval das ruas. “Não fiz, mas vejo”.

Faz alguns anos, quando os católicos do Rio de Janeiro estavam sob a responsabilidade do Cardeal Arcebispo Eugênio Sales, ocorreu memorável acontecimento, quase “esquecido pelas novas gerações” e, também pelas menos novas. Imaginem que um “carnavalesco”, que é uma categoria diferente de folião, pois o carnavalesco diz como alguns foliões devem ficar loucos, na alegria contida de 90 minutos. Uma loucura concentrada, organizada, um espetáculo para que a turma das bancadas possa divertir-se. Pois bem esse carnavalesco, Joãozinho Trinta, que já inovara pondo os seios das mulheres à mostra na passarela, resolveu levar O Cristo Redentor para a passarela. O carro dessa alegoria estaria acompanhado de mendigos. A liberdade do carnaval pretendia fazer uma crítica, uma denúncia da maneira como a cidade estava tratando parte de sua população. Afinal, houve um tempo, quando havia o Estado da Guanabara, falava-se, à voz de surdina e em alguns jornais, que estaria em curso uma política para que a cidade ficasse livre dos mendigos. Esse costume vem da Europa do século XVI, quando se ensaiava a ideia de “o trabalho dignifica o homem”. Pois bem, nos anos 1962-1963, o Estado da Guanabara radicalizou e apareceram muitos corpos de mendigos boiando no rio Mundau. Era a ‘operação mata mendigos”.[1] Foi um escândalo, mas o Cardeal Arcebispo da época, se disse alguma coisa, foi na surdina. Consta que os moradores de Copacabana aprovaram a política do governador Carlos Lacerda. o qual foi um dos líderes civis do golpe de 1964.

Em 1989, quando o Brasil ainda começava a sacudir as dores da ditadura iniciada 1964, é que ocorreu a cena do Cristo e os Mendigos da Escola de Samba Beija-flor de Nilópolis. O cardeal arcebispo usou todo o seu prestígio para evitar que viesse a ocorrer o desfile do Cristo Redentor em uma escola de samba. Muitos editoriais foram escritos e, possivelmente, muitas conversas de pé de ouvido com os novos paladinos da democracia e defensores do Cristo, esquecendo que ele foi criticado por andar em má companhia antes de ser preso e ser morto entre dois ladrões. Mas o cristo saiu no desfile coberto por lona de plástico preto, com uma grande faixa dizendo bem forte: “mesmo proibido, rogai por nós, cercado de mendigos por todos os lados. Agarrado com os poderes, bem semelhantes aos que mataram nos rios e nos quartéis, o cardeal arcebispo perdeu seu rebanho, pois não abriu caminho para os que denunciavam as injustiças, naquele carnaval.

Este ano, como no ano passado não houve carnaval, esse comum que dá início ao Calendário Lunar, o calendário religioso. Esta semana, contudo, ocorreu o carnaval, totalmente fora de época, na semana seguinte aos festejos de Páscoa, quando os seguidores de Cristo lembram a sua morte e celebram a sua ressurreição. Algumas autoridades religiosas reclamaram, tentaram evitar tal celebração. Não conseguiram e, trinta e três anos depois do Cristo Proibido no carnaval, a escola de Samba Grande Rio, levou Exu para a avenida. Exu é Orixá das religiões originadas na África, que foi atravessado com os escravizados, é o orixá da comunicação, aquele que abre as possibilidades, que aponta os caminhos a serem escolhidos. Os mendigos mortos e encontrados boiando na Guanabara dos anos sessenta, quase todos tinham a pele preta, como preta é a pele de Exu. Não houve debate sobre o passeio de Exu na passarela do samba. Ainda hoje não se sabe como estava representado o Cristo escondido na lona de plástico, que era preta. Nunca saberemos como os carnavalescos imaginaram o Redentor dos Mendigos. Será que tinha a cor do Benedito? Seria o Exu? O cardeal que proibiu sem saber, morreu sem saber. E Marcelo Alencar também não sabe. É não se sabe como era o Cristo.


[1]https://www.researchgate.net/profile/Mariana-Dias-Antonio/publication/334605471_A_Operacao_mata-mendigos_e_o_jornal_Ultima_Hora_Rio_de_Janeiro_1961-1969/links/5d35a1d3a6fdcc370a54d4f2/A-Operacao-mata-mendigos-e-o-jornal-Ultima-Hora-Rio-de-Janeiro-1961-1969.pdf

Frei Henrique Soares, de Cabrália ao Corcovado

quinta-feira, abril 7th, 2022

FREI HENRIQUE SOARES, DE CABRÁLIA AO CORCOVADO

Prof. Severino Vicente da Silva.

Dedicado ao Padre Tiago Torlby

E então ficamos surpreendidos por acontecimento aparentemente comum, no Brasil, desde que Frei Henrique Soares, em rápida passagem nessas terras, então, recentemente descobertas, celebrou a missa na Páscoa do ano 1500, na presença do representante do rei de Portugal. Ali estava exposta a aliança que se formara desde a vitória de Afonso Henriques sobre as pretensões dos outros iberos. Tão antiga quanto a Sé de Braga, é essa união entre a Coroa e a Mitra. Essa união tem sido mantida através dos séculos lusitanos e, por extensão aos brasileiros que, neste ano deveriam estar celebrando a separação política de Portugal. Mas, tendo ocorrido a separação dos reinos de Brasil e Portugal, não existiu a separação do Trono e a Mitra. Coroado por um bispo, no espaço de uma igreja, o novel imperador manteve o Padroado e, dessa forma o seu poder sobre o bispo que abençoava e punha a coroa em sua cabeça. Como Pedro Álvares Cabral, o imperador participou da missa e do Te Deum. Nada disso impediu que fosse expulso do trono, pelos súditos, em Sete de Abril de 1831. A historiografia serviçal iniciada pelo Visconde de Porto Seguro nos fez aprender e decorar a expressão “abdicação em favor de seu filho”.

Outro Te Deum e outra missa foi assistida pelo adolescente que passa a ser o segundo imperador do Brasil em 1840. Assim começava o Segundo Império, de Pedro Álvares a Pedro de Alcântara Orleans e Bragança. E seguiu até o golpe que inaugurou a República e com ela, a separação da Estado com a Mitra. Entretanto, logo foram entabuladas conversações entre a República, representada por Rui Barbosa que traduzira um livro adverso à Igreja, e Dom Macedo Costa, bispo que amargara a prisão por ordem do Imperador. Ambos entendiam que a República não poderia dispensar os serviços da Igreja, doutrina que embasou a construção de uma neo-cristandade que buscou a cristalização nos anos de 1930. Escolhendo um evento para marcar esta nova cristandade, podemos tomar o 12 de outubro de 1931, quando foi inaugurado o Cristo Redentor, no morro do Corcovado, com a presença do Ditador Getúlio Vargas ao lado do Cardeal Sebastião Leme. Não houve o Te Deum naquele dia, mas se manteve a tradição que atravessou o Atlântico, os séculos e os regimes: a cooperação do Estado e a Igreja para manter a união estabelecida nos acordos de 1822.

Em boa parte do século XX, os cardeais e os bispos julgaram que poderiam manter a aliança com o Estado, silenciando sobre os excessos das ditaduras, e os pequenos espaços temporais de liberdades democráticas; e poucos se deram conta que o povo brasileiro estava mudando, como o mundo, pois a sociedade viu-se obrigada a considerar a chegada da parte invisível do povo, um povo mais preto, mais mulato, mais pardo, mais indígena, explicitando outras crenças, outras formas de falar de Deus, outros deuses. Era um Povo Novo, como ensinava Darcy Ribeiro; um Povo Novo traz consigo problemas diferentes e novos, e este Povo Novo chega desejando outras soluções que não fosse a submissão aos tradicionais Donos do Poder, no linguajar de Raimundo Faoro.

Os novos problemas e possíveis soluções são percebidos apenas por uma minoria, mas essa percepção racha a sociedade, como ocorreu na tentativa de evitar a emergência do novo, em 1964, e que estabeleceu uma nova ditadura até 1985. E entre as muitas ações realizadas e vistas no período, assistimos a corrida de líderes religiosos das múltiplas religiões para alcançar o prêmio de ser protagonista da novíssima cristandade. E foi grande a concorrência entre algumas lideranças das ditas igrejas cristãs. Apenas uma minoria dos religiosos não mais queria a apoiar-se ou sentar-se na cadeira ao lado da do “ditador de plantão”, como bem definiu Carlos Imperial. Os ditadores gostam dos obedientes, deixam que levem algumas vantagens, desde que colaborem efetivamente a manter a unidade do Estado. Os mais cooperativos receberam maiores prebendas, mais espaço nas ondas de rádio, de televisão, ampliando os púlpitos e arrecadação de dízimo. Afinal o crescimento populacional também ampliou o número dos “sempre os tereis”, esses que precisam da constante caridade para que o mundo não se renove.  

No mundo plural, a novíssima cristandade não se faz apenas com uma igreja ou religião. A pluralidade religiosa exige múltiplos acordos, aqueles que primeiro se aproximam do Trono e colaboram com maior eficácia com o poder, são melhor aquinhoados com os nacos de poder que sobram. Os que continuaram a sentir-se imprescindíveis ao poderoso do momento, ficaram esperando serem chamados para agir. Depois perceberam que estavam fora do jogo por “serem mornos”. A série apresentada na NETFLIX, com o título SINTONIA, mostra a vida de três jovens no mundo da droga violência e religião, os evangélicos estão presenes mas não há menção ao catolicismo. Embora a série apresente jovens paulistas, pode ser que tenha ocorrido caso semelhante no Rio de Janeiro. A Igreja Católica perdeu espaços peela aderência de uma prática bem sucedida no passado, uma adesão ao mundo que não quer mudar. Pode ser que os cardeais recentes pensassem que poderiam imitar Dom Leme. Na ‘Revolução de 1930’, o presidente Washington Luiz recusava entregar o governo e ameaçava matar-se, então os generais mandaram chamar o cardeal Leme que conversou com o presidente, e este aceitou a saída honrosa do exílio. Esse movimento resultou na inauguração do Cristo Redentor do Corcovado, um sonho da princesa Isabel.

Parece que o atual cardeal não percebeu que os tempo mudaram e o Estado tem mais escolhas para fazer alianças com aqueles que desejem. O militares de pijamas que governam o país atualmente jamais perdoaram as ações de Bispos como Dom Hipólito, Dom Valdyr Calheiros, Dom Arns, Dom Hélder Câmara, Dom Pedro Casaldaglia, Dom José Maria Pires, e outros que se direcionaram ao novo, ao novo tempo, ao Povo Novo que desejava e deseja uma nova sociedade na qual não sejam tratados como lixo. Por não perdoarem essa novo mudo de ser Igreja, os apijamados deixaram, de maneira geral, os cristãos católicos fora dos acordos para manter as antigas e carcomidas estruturas que mantém a maior parte do povo escravizado pela impossibilidade de atender suas necessidades básicas e procuram reanimação nos templos que vendem ‘os céus’ enquanto lhe tomam as terras. Talvez tenha sido a solidão vivida no palácio de São Joaquim, longe do poder e distane do povo, que levou o cardeal Dom Orani Tempesta a celebrar uma missa – Te Deum seria um exagero maior – para o atual presidente, família, agregados e ministros, aos pés do Cristo Redentor do Corcovado, na esperança de ser redimido pelo ‘ditador’, ou melhor, pelo plantonista servidor da elite herdeira dos escravocratas. Talvez Frei Henrique de Soares seja desses personagens permanentes da história do Brasil.