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Sem olhar para cima e para os lados

quinta-feira, dezembro 30th, 2021

Sem olhar para cima nem para os lados

Severino Vicente da Silva

Somos tentados, sempre, a escrever algo no período final do ano, em sua última semana. Quase sempre vem a ideia muito comum de fazer uma retrospectiva, um olhar para o que foi feito. Os católicos diriam que é como um exame de consciência, daqueles que se faz, ou se fazia, minutos antes da confissão semanal. Outros faziam, ou fazem ainda, a cada noite, antes do agradecimento pelo dia e, então, adormecer. Mas os exames de consciência e os exercícios espirituais de Santo Inácio de Loyola, um pouco na direção do que fazia o Mestre Eckhart, uma reflexão pessoal na relação com a divindade na busca do aperfeiçoamento espiritual, não são muito populares atualmente. E este é sempre um caminho a ser vencido sozinho e, simultaneamente, com todos que estão a nosso lado, desde aquele com quem travo contato diário até aqueloutro que jamais vi e verei. Pensamentos como esses permeiam o universo humano nesses dias rituais da passagem de um tempo para outro, de um tempo já vivido, e aparentemente conhecido, para outro que começa a ser feito por desejos a serem tornados fatos e dados na vida nova que se promete.

Então vi um filme que está sendo bastante comentado, o Não Olhe para Cima. Segundo alguns amigos, é um filme que segue o comando hollywoodiano na direção de um Oscar, que talvez não virá; para outros apresenta a perplexidade do homem moderno em não perceber o que realmente anda fazendo enquanto se diverte sempre, seja na apresentação de um telejornal que deveria ser informativo, até ao exercício da presidência, um brinquedo que alguém recebe para encobrir as verdadeiras ações que comandam a bolha coletiva da humanidade, formada por uma imensidão de bolhas individuais que, em alguns momentos, tangenciam-se. Pretende ser um filme sobre dois pontos cruciais no momento que vivemos: o negacionismo, essa prática de negar o óbvio que pode impedir o divertimento, e o final da terra, e o Final do planeta.

Um dos aspectos não negligenciados pelos responsáveis na organização do filme, é a pretensão do Destino Manifesto dos USA; o enredo mostra que a manifestação deste destino se dá sempre através de guerras e da empáfia que acompanha, vem acompanhando, aquela nação desde que superou a fase de ser colônia da Inglaterra. O filme termina ao explicitar o fracasso dos USA em cumprir o seu destino de salvar a humanidade. Além de gritar Não Olhe para cima, os que pretendem salvar o mundo não conseguem olhar para os lados e, quando olham, só conseguem enxergar os inimigos de sempre: a China, a Rússia, o Japão…. Motivo de alegria quando se sabe que eles fracassaram em seu intento de salvar a terra. Mas os risos marotos, os comentários não ditos, parecem indicar que teria havido sabotagem no evento que destruiu as bases de lançamento dos foguetes salvadores, os foguetes daqueles povos que fazem parte do “resto da humanidade”, aqueles que não aceitam a imposição de que não foram destinados a essa tarefa sotereológica.

Pedagógico, o filme apresenta os que realmente comandam os povos e estados, esses investidores que não aceitam serem chamados de empresários, que se apresentam como pessoas altruístas e sempre prontas a sacrificar a vida dos outros para preservar o melhor da humanidade, eles mesmos. Eles sempre pensam em viagens a outros mundos, outras possíveis “terras” e povoá-las com as normas que foram criadas ao longo dos séculos, mas repaginadas em períodos mais recentes, os modernos. Nestes, os científicos, criaram novas explicações, aplicaram as matemáticas na organização de uma nova maneira de viver, atualizaram os comportamentos, explicaram o que foi realizado enquanto abriram caminhos novos para a humanidade. O filme, que trata das angústias de dois cientistas que descobriram a chegada do fim do planeta, os apresenta como essas crianças curiosas, mas incapazes de performarem decentemente em um programa matinal de televisão, e ninguém os leva a sério. Apresenta-se a comunidade científica como assessores, sem poderes, apenas levados a sério se confirmam a segurança tomada pelos políticos, financiados pelos empresários que se apresentam como filantropos.

O viés do central do filme parece ser o de querer chamar atenção ao fato de que a sociedade, infantilizada pelo consumo permanente da alegria feérica, não considera que o fim do planeta vem de cima. Então os diretores, parece, estão se dando por vencidos, pois poucos levaram a sério o que disseram e mostraram anteriormente no documentário Uma Verdade Inconveniente, aquele filme que incitava a olhar para os lados, e entender que o modo de vida assumido vorazmente pela sociedade de consumo estava pondo em risco a vida do planeta, portanto a vida dos humanos. Mas a sociedade, convidada a consumir-se consumindo, produzindo o lixo que intoxica as artérias do planeta, apenas achou o documentário interessante. Ao perceber o fracasso do seu apelo para que olhassem para os lados e ao redor, e verificassem o fim das florestas, a impermeabilização do solo, a intoxicação da terra que aumenta a produção de alimentos e o aumento da fome, alguns cientistas aceitam ser apresentados como bobos da corte, mas não conseguem duas coisas: arrancar o riso e convencer a audiência.

Então, é só esperar pelo fim na última ceia, sem a promessa da ressureição.