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Primeiros em corrupção a caminho de ser primeiro na reconstrução de si

domingo, julho 3rd, 2016

Inicia Julho, o mês de Santana e vem cheio de novidades e de esperança. De tanto verificar que houve muito roubo de verba pública sendo descoberto e gente de colarinho bem branco e moradores de coberturas sendo presos, começa a ter início nova fase de reflexão sobre o Brasil e o que fazer a partir de então. Claro que ficou evidenciado que, se já não somos os primeiros do mundo em futebol, o somos em ‘bola’, propina’, o ‘por fora’, etc. Mas, entre os países com os quais estamos emparelhados – os ditos emergentes, os que estão colocando o pescoço fora da linha d’água da miséria ou pobreza- somos os que estamos enfrentando com soberania e tranquilidade a descoberta e o estabelecimento de novos patamares na coisa pública. Hoje já não apenas um juiz no STF, como foi a odisseia de Joaquim Barbosa fustigado pelo lamentável Lewandowski, atual presidente do STF, colocado na linha da navalha sob a observação cada vez mais cuidadosa da sociedade; já não é a isolada ação do juiz Moro e as equipes do Ministério Público e Polícia Federal de uma Vara da Justiça do Paraná, mas seu exemplar comportamento já pode ser visto em setores do Rio de Janeiro, São Paulo e Pernambuco.

Jovens promotores, jovens juízes, jovens policiais – jovens em idade e jovens na prática de suas tarefas – estão a indicar que velhos hábitos podem e devem ser mudados. Esses setenta juízes que estão ‘perseguindo’ jornalistas no Paraná já receberam o primeiro travamento no STF, dado pela juíza Weber.

Com a prisão desses enriquecidos nas maracutaias ocorridas principalmente no governo do inventor da expressão, podem ser um bom início. Como também o foi a prisão de um senador, em exercício do mandato, que confundiu o público com o privado. Aquela primeira cúpula do PT que foi levada à prisão sob o grito de ‘guerreiro do povo brasileiro’ está cada vez mais lembrada como a de ‘traidores do povo brasileiro’. Talvez outros do mesmo time venham a ser condenados. Ao mesmo tempo devemos cuidar para suprimir privilégios que magistrados e políticos do passado, com mentalidade de casta, criando uma nobreza espúria e vergonhosa, mutilando a Constituição Cidadã, negociando – legislativo e judiciário – vantagens para si, afastando-se do comum dos cidadãos.

Estamos aprendendo a castigar os que nos castigam com seus crimes. Esse é um bom passo em direção de formarmos uma nação. Ainda não o somos, pois deixamos que cultivassem muitas divisões em nossa alma. Estamos superando feridas podres, apostemadas, expulsando do corpo social o que nos faz mal e permitiu e favoreceu o esmorecimento das instituições. Mas estamos avançando e vamos derrotar os que queriam dominar o nosso futuro.

Os rios que temos e os que desejamos

quinta-feira, janeiro 7th, 2016

O ano de 2016 tem começado como uma apresentação dos resultados obtidos após anos da prática de diminuir o valor das instituições e dos valores ligados à dignidade humana. Como sabemos comportamentos culturais tomam algum tempo para modificação. Mas, se essa atividade educacional de desconstrução vem aliada a propaganda massiva, pressão (bulling social) a partir de grupos e defesa inabalável dos dogmas, ganha-se algum tempo, abrevia-se o tempo de absorção dos novos valores que são ensinados, como a mendacidade, praticada pelos governantes e senhores que se pensam acima de qualquer instituição.

Nas notícias que escutei ontem e hoje estão: uma ambulância do SAMU abandona um paciente na calçada de uma rua em uma cidade do Rio de Janeiro – em sua defesa ele disse que não havia vaga na Unidade de Pronto Socorro; enquanto o Rio de Janeiro sofre uma crise no sistema de saúde, o Ministério Público teve cortado o se acesso aos dados da Receita Estadual que mostram os grandes devedores do Estado (entre eles, o fabricante da cerveja Itaipava, a cerveja que o ex-presidente veio inaugurar em Igarassu). Ficamos sabendo que a lama de tóxicos, jogada no Rio Doce, por irresponsabilidade da mineradora e dos que governaram Minas Gerais com o seu apoio, está a destruir as praias do Espírito Santo e aproximando-se do Arquipélago de Abrolhos. Este ano vem com tantos rescaldos do que ocorreu em 2015 que ainda teremos a confirmação de muitas questões ainda pouco esclarecidas. Surpresa foi, sem dúvida, ouvir a presidente afirmar que o seu governo errou por não ter compreendido a profundidade da crise em 2014. Assim, temos a intuição que, em algum momento do futuro, irão dizer que foi uma surpresa para os atuais governantes do Brasil a situação do Rio São Francisco, transformado em grandes lagos antes mesmo de completar-se o processo de transposição do Rio da Integração Nacional.

Um rio que continuará a crescer é o do sangue produzido pelos afluentes da intolerância cultural de todos os matizes: político, religioso, linguístico. Esses afluentes são vários, ricos em igarapés e estão às duas margens, à direita e à esquerda. E, infelizmente, neles há muitos barcos com comandantes de pouca instrução e de instrução elevadíssima. Esses afluentes são alimentados com o ódio da ignorância e com o ódio do conhecimento organizado. E também com o soro da dissimulação e da indiferença. Tem sido assim ao longo da história e, ainda por algum tempo mais será assim.

Contudo, continuaremos a remar contra os ódios até que os rios voltem a correr como os quatro rios primordiais. Essa é a nossa tarefa.

Esquecimentos históricos, falha na educação histórica

domingo, dezembro 6th, 2015

Em entrevista ao canal Globo News, o ex-ministro Joaquim Barbosa afirmou que “O Brasil não se conhece. O brasileiro não sabe direito como a nação, como o estado brasileiro se formou”. Essa é uma observação bastante interessante, pois ela nos leva debater a razão dessa ignorância, uma vez que há um ministério dedicado a pensar, promover a educação formal, sendo o ensino da história pátria um dos objetivos do ensino fundamental e médio, estudos preparatórios para o exercício da cidadania, além de preparar os estudantes para os cursos universitários. Isso quer dizer que são muitos os anos que um brasileiro fica exposto, nas escola a informações sobre o Brasil, sua história, as pessoas e instituições que, em suas vidas, deram feição ao que é o Estado Brasileiro e os valores que formam a nação.

Claro que, um país com uma vastidão territorial que temos e uma população heterogênea na sua origem, e sendo ainda jovem, tem algumas dificuldades para formar, o que se chamava, algum tempo passado, de ‘caráter nacional’. Bem, embora isso tenha alguma verdade, ela pode ser aplicada a países como os Estados Unidos da América possuem uma população formada por imigrantes de todos os continentes e, por suposto, levaram suas tradições que, bem ou mal foram incorporadas ou justapostas. E hoje, os americanos sabem quem são, bem como seus amigos e inimigos sabem o que dizem sobre os americanos. Seu território é tão vasto quanto o do Brasil e é apenas 46 anos mais velho que o Brasil. A Argentina tem alguns anos a mais que o Brasil; o mesmo pode ser dito do Chile e, eles também são países formados por imigrantes. Mas eles parecem que sabem que são. Talvez devamos pensar um pouco no processo educacional, no processo de integração dos imigrantes, já integrados no cotidiano, mas ainda não participante das explicações que são dadas sobre o Brasil e sua formação.

Bem, na próxima semana, poucos brasileiros sabem que o Brasil completará 200 anos de idade, como Estado, um estado livremente unido ao Estado de Portugal e Algarves. É o que se ensina nas aulas de história sem refletir o que é que essa situação significou como parte da formação do que somos hoje. Claro que, da mesma maneira que o significado do 15 de novembro de 1889, data da proclamação da República, passou despercebido na maioria das escolas e dos instrumentos e órgãos de formação social, o 16 de dezembro de 1815 também não receberá comentário algum, nem mesmo nas comunidades acadêmicas cuja função precípua é formar professores de história do Brasil. Nesse momento de nossa história em que a República Brasileira está sendo posta à prova, teria sido interessante um debate sobre o processo que levou ao estabelecimento da República, um movimento que envolveu setores da classe média (advogados, professores, jornalistas), fazendeiros de café e açúcar, além dos militares. Também creio, seria muito interessante perguntar publicamente o que significou a criação do Reino do Brasil, Unido aos Reinos de Portugal e Algarves. Ali já notamos que é foi uma empreitada casuística, um jeitinho português para facilitar a vida do Príncipe Regente Dom João que desejava ficar mais algum tempo na zona subtropical da América e evitar um confronto direto com a burguesia e a nobreza portuguesa que se sentia prejudicada com a ausência do seu rei em Lisboa. Mas esse episódio é tão pouco aproveitado para a reflexão sobre como chegamos a ser o que somos, que nem reconhecemos o esforço do príncipe regente que, continuava regente no que concerne a Portugal, mas passou a ser Rei do Brasil. Esse esforço de Dom João a nossa historiografia nega, pois sempre o consideramos Rei de Portugal e não do Brasil, de tal forma que ainda hoje agimos como súditos portugueses e ensinamos nossas crianças e futuros cidadãos dessa maneira. Sempre o chamamos de Dom João VI, o que ele é em Portugal, e não o reconhecemos como rei do Brasil. E nem consideramos que, no processo de independência, José Bonifácio de Andrade Silva, o Patriarca da Independência, ao escrever o Manifesto às Nações, lembrou que Portugal se recusava a respeitar os direitos do Reino do Brasil, um Estado reconhecido por toda a Europa, que aceitou a participação de Portugal no Congresso de Viena, pois Dom João estava na sede do seu reino, o Rio de Janeiro, onde também se encontrava Dona Maria I, rainha de Portugal, trono do qual ele era herdeiro e seu regente.

Se, em lugar de silenciar sobre esse acontecimento, nossa historiografia cuidasse de examinar mais detidamente esse fato, talvez nossa estima de nós mesmos aumentasse e, os cidadãos brasileiros entenderiam melhor os acontecimentos relacionados com a chamada Revolução Pernambucana de 1817, as disputas, ou ausência delas, para enviar representantes para a Assembleia Constituinte do Porto, as lutas para a formação das Juntas Governamentativas. No caso de Pernambuco estudaríamos com mais interesse a Junta de Goiana e a Convenção de Beberibe. Claro que tudo isso deixaria mais claro que não foi por falta de oportunidade que o Brasil manteve-se monárquico, escravocrático, acentuando a sua tendência à oligarquia, à manutenção de privilégios e regalias, enquanto decidia excluir grande parte da população da vida política. Evidente somos resultado desses e de outros “esquecimentos” enquanto se oferecem migalhas de reconhecimento àqueles que aceitam situações subalternas, desde que possam ter seus subalternos. E então temos uma sociedade na qual o escravo compra sua liberdade e, logo em seguida compra um escravo para si. Aliás este é outro “esquecimento” atual, para não milindrar as mais recentes oligarquias afirmativas.

Outro esquecimento é que, centro e quarenta anos após a chegada de imigrantes alemães, italianos, poloneses, e outros, continuamos a dizer que o Brasil é formado do encontro de indígenas, africanos e portugueses. E, já tivemos dirigindo a república brasileira descendentes de Alemães, de Italianos; também tivemos ministros de ascendência japonesa e atualmente somos governados (?) por uma filha de um migrante húngaro.
Essas e outras reflexões semelhantes é que poderiam nos ajudar a compreender o processo de nossa formação. Enquanto nossa reflexão histórica ficar sendo direcionada pela diretoria que fundou o Instituto Histórico e Geográfico Brasil (Rio de Janeiro), ou pelo desejo de negar a história do Brasil e seus símbolos (parece haver um vertente que deseja trocar a bandeira que lembra nossa relação com Portugal por outra mais orientalizada), não iremos muito longe como nação. Vamos estudar nossa história a partir de nossas tradições, com respeito e não deboche, como querem aqueles que recusam, implícita ou explicitamente, nossa mestiçagem por orgulhos de partes que se opõem e abrem caminhos que aprofundam a crise de identidade, de nosso caráter nacional.

Importante, também, resgatar os esquecimento que são praticados para facilitar a permanência de privilégios que afrontam a ordem republicana, tais como foro privilegiados em tribunais e prisões.

Comemorando nossas origens

quarta-feira, outubro 14th, 2015

A cada ano, como se fora ordenado por misteriosas forças, algumas reportagens se repetem. É um processo educacional. Aprende-se bastante pela repetição, ensina-se dessa maneira. A repetição é mestra da manutenção da cultura ou, da sua mudança. O que se repete, e como é repetido, sempre fortalece algum ensinamento. As repetições criam laços novos que se tornam antigos e formam novas tradições.

Eu, menino, aprendi a amar algumas tradições, quase sempre associada a algumas pessoas. Uma tradição eu aprendi sem que me ensinassem diretamente, é a tradição de assimilar as mudanças. Sempre me abismei como os meus pais, e a maior parte da humanidade, foi capaz de manter-se em suas tradições enquanto as via sucumbir em funções de novas tecnologias que exigiam novos comportamentos para suas implementações, sem enlouquecer. Os valores que formaram seus caracteres na infância e juventude foram questionados ao longo do século que viveram. Mantiveram e praticaram a sua fé e seus valores enquanto tudo parecia se tornar mais volátil, mas líquido. E eles pareciam mais seguros, pois se mantiveram no que acreditavam enquanto assimilavam criticamente as novidades que surgiam. E nem todas as novidades perduram.

Menino, eu aprendi que um dos grandes feitos da nossa civilização ocorreu por conta de que um homem, seguindo os pensamentos e os estudos de outros homens, saiu da Europa e, por um erro de cálculo, descobriu um continente, não chegando ao antigo que buscava. Desse seu erro e descoberta, nasceram novos mundos, pois ocorreram encontros inesperados, confusões diversas, confusões de sentidos e sentimentos. Muitas mortes, novas vidas e surgimento de novas riquezas que se combinavam com novos conhecimentos dos espaços físicos, do mundo físico e também dos imaginários; as ciências criaram novos conhecimentos, as lentes ampliavam o pequeno e encurtavam as distâncias; algumas certezas eram postas em dúvidas e eram superadas enquanto outras certezas estavam sendo criadas, comprovadas. Religiões foram modificadas por conta das viagens de Colombo e de outros navegadores contemporâneos, e isso causava alegrias e tristezas, dores e sofrimentos, como todos os fatos da vida. Os partos são sempre doloridos, e essas dores são suportáveis para toda a natureza, como, em uma de suas cartas, disse o Apóstolo Paulo. E as dores do parto jamais impediram o surgimento de novas vidas. Após partos doloridos a natureza gera novos indivíduos, e novas vidas são ansiadas.

Em nossos dias, a cada ano vem uma pergunta em alguma reportagem feita por gente muito sabida: há o que comemorar no dia 12 de outubro, o dia da chegada de Colombo nas terras que receberam o nome do gerente dos Médicis, a América? A pergunta é feita para que se responda com um não, pois o que se pretende é a negação daquilo que tem sido criado pelos homens e pelas mulheres nessas terras, pois se pretende a negação da sociedade que nós, os homens e mulheres criamos e continuamos a criar, com todas as dores e com todas as incertezas que as certezas nos levam a criar. Muitos dos que negam a grandeza do que fizemos nos últimos cinco séculos porque dores foram causadas, são os mesmos que louvam as revoluções – francesa, russa, chinesa – sem mencionar as dores que elas causaram. E não mencionam a Revolução Americana.
Colombo e Américo Vespucci são homens do seu tempo e de suas certezas; Cortez e Malinche, Diogo Caramuru e Catarina/Moema, Jerônimo de Albuquerque e Catarina do Espírito Santo, Alcotirene, Gangazumba, são homens e mulheres de seu tempo, e seu tempo é parte de nossa história, negá-los é retirar de nossa sociedade, de nossa cultura os marcos de nossa fundação. É nos negarmos. A repetição dessa pergunta: será que valeu a pena?, introduz e mantém a nossa negação, quer nos impedir de sermos o que somos, quer negar nossa história, que nos negar.

Parodiando o Poeta, quando a alma não se apequena, a vida vale a pena.

Estudo da História e as manifestações populares

segunda-feira, abril 13th, 2015

Estamos na época de grandes mobilizações. Há uma disputa para demonstrar poder ou descontentamento com o poder. Para muitos é como se fosse a primeira vez, ou a segunda, quiçá a terceira, situação em que a população se manifesta. Esses acreditam que tais manifestações são sinais de que “o gigante despertou” ou de que “a direita conservadora” está a aproveitar-se dessa situação para voltar à cena política. Tudo isso é provável, mas essas manifestações não são o início da participação das multidões na história brasileira.
Fenômeno muito interessante, que tenho acompanhado nos espaços da sociedade virtual que frequento, é a quantidade de intervenções indicando ou mandando as pessoas estudarem história por estarem elas manifestando a sua opinião. Um dos motivos desse chamamento ao estudo da história é o fato de muitos, uma expressiva minoria, estarem a clamar por um retorno dos militares ao poder. Esse chamamento ao estudo dá a impressão de que quem estuda história não adere ditaduras, o que é falso, se olharmos os currículos dos apoiadores das ditaduras ao longo da história. Muitos são os ditadores, autocratas e caudillhos que estudaram história. Saber história não é antídoto às plutocracias, aos regimes autoritários. No Brasil os ditadores sempre contaram com o apoio de estudiosos da história nacional. A questão parece ser outra, talvez não seja simplesmente estudar história, mas o que estudar e como estudar.

Por conta desse convite/ordem para estudar história, em algumas aulas fiz um pequeno exercício de memória e conhecimento básico da história pátria em algumas turmas que leciono. Perguntei sobre o que ocorreu no Brasil acontecimentos em um certo 7 de abril; perguntei sobre Felipe dos Santos; perguntei sobre a Noite das Garrafadas; perguntei sobre Manuel Faustino dos Santos e João de Deus; perguntei sobre Cipriano Barata; perguntei sobre Marcílio Dias. O retorno foi igual a zero. Claro que, os estudiosos de história logo dirão que essas são perguntas focadas em indivíduos e que a história é mais que a atuação de indivíduos, o que é uma objeção correta, mas é certo também que os processos ocorrem com a atuação de indivíduos e as multidões reúnem dezenas, centenas ou milhares de indivíduos.

Mas voltando às perguntas e às respostas obtidas em salas de aulas de um curso superior de história, o que quer dizer que todos os perguntados fizeram o Ensino Básico, cursaram o Ensino Médio, foram aprovados no vestibular e, portando espera-se que saibam um pouco da história da pátria pois este é o objetivo dos ensinos Básico e Médio.
1. O de abril era comemorado como o momento da independência, pois, em 1831, sob pressão de manifestação popular, o primeiro imperador do Brasil descobriu-se sem condições de continuar no poder e renunciou em favor de seu filho menor de 10 anos;
2. Felipe dos Santos organizou manifestação contra os abusos portugueses personificados no Conde de Assumar, em Minas gerais, 1720, sendo morto por esquartejamento;
3. A Noite das Garrafadas foi um levante popular no Rio de Janeiro contra a imposição de um gabinete formado por portugueses para governar o Brasil;
4. Manuel Faustino (18 anos de idade) e João de Deus foram enforcados e esquartejados, sem direito à sepultura, em Salvador pelo crime de organizarem a Primeira Revolta Social do Brasil, a conhecida Revolta dos Alfaiates;
5. Cipriano Barata, estudante que, na Bahia participou dos preparativos da Revolta dos Alfaiates, expulso para Pernambuco, participou da Revolução de 1817;
6. Marcílio Dias, jovem marinheiro negro que participou da Guerra da Tríplice Aliança e defendeu, com bravura heroica, o vaso em que servia, de tal sorte que é considerado um dos heróis brasileiros.

Creio que poderia continuar a fazer perguntas sobre os que, com seu sangue e destemor, criaram a pátria brasileira, e possivelmente o índice de acertos seria basicamente o mesmo. E esse índice mostra que as pessoas não estudaram a a história do Brasil, não sabem que homens jovens construíram o país que vivemos. E por não saberem disso, não perceberam, ou o ensino não os auxiliou a perceber que, por trás de cada nome que citei houve um movimento com ampla participação do povo. E não sabem porque os professores continuam a ensinar que Dom Pedro I simplesmente abdicou, (aliás, durante alguns anos, em algumas cidades do Brasil a independência era comemorada no dia 7 de abril, quando deixamos de ser governados por um português); não mostram a importância da participação do povo no processo e não participaram das decisões que se seguiram ao processo. Isso é fazer o jogo dos poderosos. Não adianta mandar estudar história, se quem manda não percebe que a participação popular sempre existiu na nossa história, apenas continuamos sem lhes dar a importância que merecem. E mais recentemente, ao invés de estudarmos esses movimentos, vamos esquartejando essa história, aprofundando o estudo das partes sem termos ciência de que essas partes – mulheres, índios, negros, mestiços: mamelucos, morenos, curibocas, mulatos, cafusos, etc. – formam o todo. As manifestações populares continuaram a ocorrer ao longo do século XX, como foi estudado por José Murilo de Andrade. Mas além dele, quando se estuda a participação popular tem sido para enaltecer este ou aquele partido como condutor do povo, tratando-o sempre como ingênuo e carente de um ‘pai’ que tudo lhe provêm, inclusive a sua consciência, que parece dever ser a consciência que lhes dá esse ou aquele partido ou agrupamento politico, seja da esquerda ou da direita.

Ocorreram greves operárias no Nordeste no início do século XX, mas elas não entram na análise dos que definem a ‘história’ do Brasil, por delas somos ignorantes; a primeira greve contra o regime autoritário que terminou em 1985 continua sendo ensinada que ocorreu em São Bernardo dos Campos, ‘esquecendo’ que, meses antes dela já haviam ocorrido greves de motoristas, professores e canavieiros, em Pernambuco. Mas estudando certa história, ninguém saberá que o povo manifestou-se antes da criação de certa agremiação. O esquecimento da história! A lembrança dos historiadores e dos doutrinadores.

É uma questão de estudar história, mas ….

República, João Cândido e Consciência Negra

domingo, novembro 23rd, 2014

Mês de novembro quase ao seu final e as datas nos trazem lembranças de acontecimentos diversos. Alguns, melhor dizendo, todos históricos,, uns mais famosos outros menos falados e alguns históricos completamente esquecidos. Mas o esquecimento de um fato é uma maneira de  explicar a história. Sempre serão lembradas, por aqueles viram, no calor do acontecimento ou na crônica dos vídeos, os momentos que se seguiram ao assassinato de John Kennedy ocorrido em 1962, no dia 22 de novembro. Comoveu o mundo o assassinato do presidente de uma república ocorrido à frente de todos. A palavra VERGONHA estampada durante horas nos vídeos dos televisores norteamericanos são inimagináveis nestes dias de hoje, quando se produzem decapitação ritual e pública e não h´pa repúdio nem ninguém, nem um cana de televisão gastará seu tempo expondo a palavra vergonha. Perda de tempo e de dinheiro.

A 11 de novembro de 1918 ocorreu o fim da Primeira Guerra Mundial e iniciava-se a trajetória para as guerras seguintes que levaram à breca os impérios que os europeus criaram no século XIX. Foram muitos os jovens mortos naquele conflito, e alguns morreram julgando que aquela seria a última guerra. E foi, para eles. A vontade de vingança dos líderes vitoriosos, que se negaram a ouvir as vozes acalmadoras de Bento XV ou mesmo de W. Wilson, criou ou regou as bases da política dos fascistas de todos os matizes e construiu o roteiro da guerra iniciada em 1939 e jamais terminada, embora fosse esfriada com a queda do muro que vergonhosamente, os fascistas levantaram em território berlinense. Tudo é novembro, anúncio de inverno ou de verão, dependendo do hemisfério em que se encontra.

Neste final de semana deparei-me, em aula, verificando o quanto novembro  tem significado na história da sociedade brasileira, e o quanto este novembro nos mostra a manipulação da história, dos fatos. A releitura da história é sempre uma tentativa de escrevê-la ao modo de quem a interpreta.  Foi no mês de novembro que, bem ou  mal foi proclamada a República brasileira, com a participação de poucos, com o alheamento de muitos. Entretanto a história não é construída em um só dia, mas a cada dia. Se o povo assistiu bestificado o desfile militar de 1889, se ele foi bestializado em grande parte desse período de nossa história, não como negar que nós soubemos, estamos sabendo criar os  caminhos para aumentar a nossa participação na construção da nação. Assim, fiquei surpreso quando percebi que meus alunos não se aperceberam que não houve debates nem aulas, em seus colégios, sobre a importância e o significado da República. Também eles, meus alunos que são, simultaneamente, professores de diversas redes municipais, pouco sabiam do dia 19 de novembro, dedicado á bandeira nacional. Nenhum deles sabia quem era Olavo Bilac. Um lembrou que ele havia sido poeta. E porque não houve debate sobre a República Brasileira nas escolas que formam os futuros cidadãos da República Brasileira? É que, desde o final de outubro que o debate gira em torno do Dia da Consciência Negra. Esse dia estabelecido pela República para que os cidadãos repensem seu comportamento de maneira a tornarem-se cada vez mais republicanos, suplantou a ideia da República do Brasil. E o debate dessa consciência negra termina sendo mais voltada para a imagem criada de Zumbi dos Palmares e das religiões afroriginárias que da participação dos homens e mulheres na construção da República. Louva-se, merecidamente a Zumbi mas olvida-se, criminosamente a João Cândido, ele é um dos que resistiram e não admitiu ser bestializado, exigiu um tratamento republicano, com uma revolta contra os abusos de oficiais sobre os marinhos e, a 22 de novembro de 1910, foi aclamado como líder de todos os marinheiros. O silêncio da Consciência Negra sobre esse acontecimento, sobre este brasileiro construtor da República, concentrando no resgate de raízes africanas, danças e orixás, é um apoio ao silêncio que a historiografia conservadora. Sem o adubo a história as raízes perdem vigor e são dominadas por pragas devoradoras de homens e suas histórias.

Celebrar a Consciência afastando-se da história, negando-a, querendo fazê-la ao seu gosto, é um caminho perigoso que leva aos misticismos.

Viva João Cândido, líder do povo brasileiro republicano que tem consciência de sua humanidade.