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Rumos: de junho de 13 a fevereiro de 15

quarta-feira, fevereiro 4th, 2015

Em tempo não muito distante, líamos nos jornais, víamos nos noticiosos televisivos e, em alguns casos, víamos, nas ruas, multidões de jovens protestando contra os abusos na política e da polícia, abuso no aumento das passagens de ônibus, na luta contra o capitalismo, etc. As ruas das principais capitais do Sudeste foram tomadas manifestantes e, eram de tal forma, que seminários foram celebrados, debates realizados nos canais de formação e informação para entender o desejo mudancista de uma geração que, segundo profundos sociólogos, filósofos, historiadores, e políticos profissionais, anunciava um novo tempo na vida brasileira. Estaria acontecendo o despertar do gigante que saia de hibernação, sarando-se da grande quantidade de entorpecentes que lhe estavam sendo ministrado de maneiras diversas na sociedade. As massas, diziam, estavam tão azedas que até discutiam se queriam o circo da Copa do Mundo da FIFA. O medo acendeu-se e espalhou-se como incêndio no serrado do Planalto Central do Brasil. As janelas do palácio assistiam, apavoradas, uma juventude quase destruindo um dos palácios pensados pelo arquiteto que planejava cidades para que as autoridade ficassem fora do alcance da fúria popular.

Entretanto, passado alguns meses, a juventude do gigante que parecia sair de sua longa sesta, foi sonolenta às urnas e manteve no poder os responsáveis pela situação contra a qual protestavam. Mais ainda, se olharmos com atenção, não encontraremos nenhum desses ‘líderes’ de junho de 2013’ entre os candidatos a política. Talvez, nem mesmo os partidos conseguiram novas filiações para suas fileiras. Ali não havia motivação política, mas, quase somos tentados a dizer hoje, indignação de alguns bolsos – uns parcos de moeda para suprir suas necessidades e outros que se encheram por estar na rua e promover fogaréus em determinadas cidades. Agora também continuamos a ouvir o ronco do gigante enquanto assistimos o desenrolar dos crime contra a Petrobrás, que começaram a ser descobertos em um lavajato onde se lavava dinheiro além de carros.

Hoje ouvi dois sociólogos, um deles Álvaro Moisés, dizerem que o governo de dilma está sem rumo; em seguida, historiadora publica que o Data folha deste domingo diz que a aprovação ao governo dilma supera 70%.   Há três hipóteses: a) os sociólogos estão sem rumo ou bússola, b) o não tem sociólogos em seu quadro de pesquisadores, c) o povo está sem rumo.

Severino Vicente da Silva

Francisco de Assis e o edifício Caiçara

sexta-feira, outubro 4th, 2013

 

Começando o mês de outubro. Depois dos santos Cosme e Damião, médicos que foram feitos protetores das crianças, vem o mês de São Francisco de Assis, também muito popular: o primeiro burguês que decidiu reformar o mundo, primeiro repondo pedras, depois apontando para os corações humanos. Sua vida é uma parábola: parece nos dizer que animais selvagens – lobos, pássaros, peixes – estavam mais dispostos a escutá-lo que os homens. No século XIII o papa Inocêncio III fez o possível para não se encontrar com Francisco. Agora tem um Francisco na cadeira que Inocêncio III sentou. Colisão de nomes e trajetórias. Bem, este é um franciscano/jesuíta, com a mística dos dois. Neste quatro de outubro lembremos esses dois renovadores da Igreja e inovadores sociais.

As inovações sociais aparecem simbolizadas em algumas ações. No início do século XX a Praia de Boa Viagem, no Recife, começou a ser ocupada pela população que pode comprar terrenos na época que se descobriu como o banho de água salgada faz bem à saúde. As margens do Rio Capibaribe foram deixando de ser endereço supimpa e os pescadores foram sendo expulsos das praias do Pina e de Boa Viagem. Cada época e cada momento social cria suas referências e, o Edifício Caiçara tornou-se referência para os que ocuparam Boa Viagem na década de quarenta, bem como para aqueles que, não morando naquela praia, iam  banhar-se ali até os anos oitenta ou noventa. Mas como lembra um livro bíblico, um adolescente muito  famoso em sua época pouco será lembrado duas gerações mais tarde. Assim foi com o edifício Caiçara, com a Casa Navio e outros edifícios que marcaram a arquitetura do período e serviam de referência para banhistas de final de semana. A queda desses edifícios para atender o boom imobiliário para apartamentos de luxo segue o mesmo princípio que afastou os pescadores ao longo do século XX. A queda do Edifício Caiçara lembra que para ele e outros edifícios serem construídos muitas caiçaras fossem derrubadas. Poucos são os adolescentes que ficam na memória das gerações que lhe sucedem, esses poucos são referências mais importantes do que parada de ônibus. É assim que a “igrejinha” de Boa Viagem ainda se mantém. É uma referência mais profunda na história, não apenas na memória.

A questão é que a história é feita do lixo deixado pelas gerações e, em nossa sociedade o lixo escrito é muito importante, além do lixo monumental significativo para o conjunto social, não apenas para um grupo. Escreve-se muito sobre os monumentos de pedra e cal, assegurando-lhes, assim, a sua permanência na época dos novos adolescentes. Talvez seja essa a razão de monumentos referentes a grupos menos importantes econômica e financeiramente sejam mais facilmente descartáveis. Acontece que os documentos escritos, ou escritos que discutem os documentos carecem de leitores e, as mais recentes tabelas do IBGE mostram que o número de analfabetos no Brasil voltou a crescer, embora a propaganda dos programas de alfabetização tenha aumentado.

O adolescente (na Idade Média essa categoria não existia) Francisco da cidade Assis não tem sido esquecido pelos adolescentes das gerações que lhe sucederam. Reconstruir, manter inovando, inovar mantendo, rompendo e fortalecendo, afirmar valores positivos e ter a coragem de dizer não ao que prejudica ao conjunto da humanidade, essas são as causas da permanência de Francisco e Ignácio.

 

o dilema dos médicos, a gosto

terça-feira, agosto 6th, 2013

Começamos Agosto. Temperatura desce um pouco e sentimos o inverno mais durante a noite e o início da manhã. Ao ,longo do dia os quase vinte e sete graus nos lembram que vivemos próximo ao Equador. As chuvas começam a escassear no litoral e ameaçam ainda a não aparecerem nos sertões. Açudes que fornecem água para muitas cidades estão chegando ao ponto crítico e carecemos de chuvas e carecemos de médicos. O governo do meu país resolve fazer mais programa para atender a necessidade das populações mais distantes que ainda não possuem médicos. Propõe trazer médicos de países outros, já que os brasileiros que escolheram a medicina como profissão, não estão interessados em viver em lugares distantes.

 

Nos tempos em que fui professor do Ensino Médio, o que mais inquietava os jovens era escolher uma profissão que lhe desse riqueza, lhe garantisse boa ou ótima condição de vida material. Medicina sempre foi uma carreira que aparecia no topo da lista das boas profissões, essas que garantem o conforto material. Essa discussão e esse viés sempre foram estimulados. Os jovens escolhem o futuro pelo dinheiro que podem conquistar. Enquanto isso, os administradores cuidavam de criar estruturas básicas para o futuro, mas não lidavam de criar estradas, hospitais, escolas. Municípios foram sendo criados em regiões mais distantes das capitais, pois a populações deslocavam-se – foram estimuladas a deslocarem-se – ampliado as fronteiras sociais. Esses novos municípios nem sempre tinham a produção de riqueza necessária para sua existência e tudo dependia do prefeito e de suas relações políticas. Aliás, até parece que essa era uma condição básica para a criação dos municípios. Primeiro ergamos algumas casas, uma ruas e depois veremos como financiar a construção de escolas, hospitais, bibliotecas. Escolas sempre pareceu mais fácil fazer, e professores sempre os há em abundância e, como às vezes faltaram, alguns advogados aposentados tornaram-se professores de língua portuguesa, história, geografia; um farmacêutico, recentemente formado, parfente ou amigo do prefeito, passava como professor de ciências. Se alguém ficava doente, o prefeito fazia o imenso sacrifício de coloca-lo no carro e leva-lo até à cidade vizinha. Bem, na nova cidade havia um simulacro de posto de saúde, onde uma sobrinha-médica do prefeito aparecia uma vez por semana para atender a população. Assim o cargo de  médico nos município depende da vontade do prefeito e, por essa razão não há uma carreira médica, sendo essa uma das razões pelas quais os médicos não desejam ir trabalhar nos municípios distantes das capitais. A insegurança no trabalha está assegurada. Até pouco tempo também era assim nas escolas. Na verdade, após as eleições, os professores são realocados nas escolas de acordo com a sua filiação partidária e sua atuação no processo eleitoral.    Assim foram sendo criadas as condições básicas de atendimento às necessidades de educação e saúde da população.

 

Neste mês de agosto, vejo que começamos assistindo que alguns médicos que se inscreveram no programa “curativo bandaid” do governo federal para atender municípios sem médicos, não escolheram municípios que não têm médicos. Agora é apelar para médicos estrangeiros. Caso eles aceitem ir trabalhar em locais sem hospitais e a rede hospitalar resumida a rede de farmácia, ficará provados que m,édicos formados nas nossas escolas de medicina não possuem o sentimento altruísta que se espera dos médicos. Nas escolas de medicina pouco se debate sobre ética profissional. Ficará provado, também, que foi bem sucedida a educação ofertada no Ensino Médio, pois a profissão foi escolhida (e está sendo praticada) visando apenas o benefício da acumulação de riqueza individual. Mas também aprendemos que o Estado brasileiro não sai das capitais e se estabeleceu, continua estabelecendo, serviços precários, alimentando a necessidade de continuar agindo para manter a necessidade e não superá-la. Assim, vai sendo mantido o estado em que médicos são escolhidos para serem prefeitos, deputados e ministros da fazenda. Como prefeitos e legisladores não criam condições para que médicos se interessem em ir trabalhar em seus municípios.

 

O programa atualmente proposto pelo governo federal bem que poderia exigir que os municípios que recebam médicos por esse projeto estabeleça, a carreira médica e esvaziem o poder que os atuais prefeitos detém sobre os médicos em seus município. 

Recife: chuvas, rios, gente e ocupação irresponsável

sábado, junho 15th, 2013

Passados quinze dias de junho deste ano de 2013  notamos que as muitas águas desejadas caem, em muitos lugares, de maneira indesejada. Sabemos que as chuvas são comuns nesta época do ano em nossa região, mas sempre nos surpreendemos quando elas chegam, não por elas, mas porque elas escancaram a maneira irresponsável de como ocupamos o espaço físico. Nas décadas de setenta a noventa do século passado, as chuvas deixaram à mostra que a permissão que os governos populistas deram para a ocupação incontrolada dos morros do Recife levou à morte de muitos. Aquela permissão foi tacitamente dada, para sanar a questão dos mucambos que foram construídos pelos mais pobres nos mangues dos rios Beberibe e Capibaribe enquanto a “cidade” estabelecia-se nos espaços mais firmes. Quando os mucambos já haviam aterrados os mangues, então eles se tornaram desnecessários e seus habitantes foram postos a correr em direção aos morros, onde certas famílias amealharam fortunas cobrando foros, enquanto a administração municipal não chegava para cobrar o imposto territorial. Aquela era a época ainda marcada peço jeito português de fazer cidades nas desembocaduras fluviais. Vez por outra as águas pluviais causavam problemas, mas este eram sentido pelos mais pobres que ainda estavam estabelecidos nas “regiões ribeirinhas”, como dizia famoso alcaide dos anos sessenta do passado século. Foi então percebido ser necessário domar o rio que teimava em retomar os espaços perdidos. Por decisão do ditador de plantão, após uma grande cheia na década de setenta, o rio foi domado e os habitantes ribeirinhos foram tangidos para terras de antigos engenhos, com seus proprietários devidamente indenizados. Cresceu o Recife para o sudoeste e Paulista, cidade ao norte do Recife recebeu incentivo para crescer, o mesmo ocorrendo a Camaragibe, este com mais sorte recolheu uma pequena elite de professores universitários no platô balneário, antes conhecido apenas por alguns e espaço para treinamento militar. Domado o rio suas antigas margens voltam a ser habitadas, agora por torres habitacionais, agora seguindo modelo estabelecido na nova metrópole dos novos tempos pós-industrial: imensas torres, cada vez mais altas como novas Babel. As ruas desaparecem gradativamente cedendo espaços para imensos corredores de ônibus e pedestres que, em dias de chuva coincidentes com marés altas, assiste e sofre o retorno do rio contido e dos afluentes que foram mortos e devidamente tapados. Agora lembro que, ao final do antigo Rio Bultrins, hoje Canal do Bultrins, há um edifício nomeado Rio Tapado. Tapados ao longo dos anos, esses riachos periódicos já nem mais estão na memória dos habitantes das cidades de Olinda e Recife. A nova civilização precisa de cada vez mais espaço para os automóveis passarem e serem vistos, pois em nossas cidades, mais que meio de transporte eles são bens ostentatórios, quase expressão de nobreza ou divindade. Mas as chuvas chegam e surpreende os novos aristocratas e fazem parar as modernas carruagens e, da mesma maneira que as águas invadem os antigos leitos dos riachos, os jornais impressos e os noticiosos dos rádios e televisões são inundados com reclamações sobre a impropriedade ou incúria dos administradores do espaço público. A chuva represada e misturada com esgotos que molha e enlameia os pés dos que saem dos ônibus também suja os modernos símbolos de poder e faz parar avenidas criadas para atender os que vivem nos pombais modernos. Nas chuvas deste ano não ocorreu mortes nos morros. A morte registrada ocorreu em uma avenida causada por um fio elétrico em rua que tornara a rio.

Viver o destino ou criar a História

segunda-feira, maio 20th, 2013

 

Maio, mês das noivas, dizia-se antigamente; mês das mulheres, diz-se mais frequentemente nos dias de hoje, tem passado celeremente e com muita águas realizando o período chuvoso da região Nordeste do Brasil. Espera-se que chova neste período do ano. Talvez por conta da estiagem longa, ou seca, que acomete-nos nos últimos três anos, nossas cidades, seus governantes especialmente, foram surpreendidos pela quantidade de água. Até os meteorologistas foram surpreendidos e fizeram a previsão após a ocorrência das águas. Podemos considerar como normal, pois este é o comportamento do boom torcedor e cronista de futebol: sempre acerta-se o placar após o término do jogo. As águas de maio provocaram um feriado extemporâneo na Região Metropolitana do Recife, que quase assumiu, por real, a metáfora de ser a Veneza Brasileira.

As chuvas pararam o Recife mas mão conseguiram parar o esforço que é feito para diminuir a força da sociedade que, nascida da prática da escravidão, tem criado um ambiente de convivência pacífica das diversas etnias que a formam. Claro que os limites históricos têm conduzido as mudanças de maneira demasiado lenta. Precisamos apressar a integração de todos os grupos, o mais plenamente possível, na vida e nos benefícios e na produção desses benefícios. Mas isso não pode ser feito negando a história que nós fizemos, que nossos antepassados fizeram, com os limites que eles criaram para si. Mas isso é história e não se pode negar. Ocorreu o 13 de maio de 1888, a libertação dos entraves culturais, sociais, econômicos não foi completa, mas não cabe negar o que já foi feito. O mundo futuro pode ser de convivência, de tolerância ou intolerância, dependerá de nossa capacidade de conviver com o nosso passado. Se não aceitarmos os limites dos tempos que nossos antepassados viveram, iremos viver no passado, não construiremos um futuro novo. A tragédia é a impossibilidade de viver um destino diferente daquele definido pelos deuses, a grandeza humana é a superação do destino, é a construção da história.

Tenho sonhado bastante com meus pais. Eles morreram mas continuam a me acompanhar. Mês das mães, este maio foi o primeiro sem a presença física de minha mãe. Também fiquei ausente de irmãos e irmãs. A morte dos pais, parece, tornam mais claro que as relações entre irmãos pode ser muito superficial, como a maior parte das relações. Os pais é que nos aproximam, nos fazem ficar juntos, ir para almoços de família e trocar impressões sobre nossas ocupações  cotidianas. A saída material de nossos pais expõem as nossas solidões, levantam ou tornam visíveis os muros que separavam e separam irmãos e irmãs. Kalil Gibran dizia que os filhos são flechas lançadas pelos arcos que são os pais, explicando que os pais não devem pretender ficar no controle da vida dos filhos mas alegrar-se por eles estarem fora de seu controle a partir do momento que o arqueiro solta a flecha. Ora. Cada filho é um flecha que é solta em momentos diferentes e cada um deles que segue trajetória própria que necessariamente os torna distante. Apenas o esforço social e pessoal é que pode fazer manter a lembrança da origem primeira, do arco que as projetou no espaço, no tempo, na sociedade. Em tempo menos líquido, os tempos das sociedades rurais, de poucas estradas e poucos transportes, foi mais possível manter a lembrança que os dias de hoje que para ficarmos distantes basta um clic no tablado do computador. Então fechamos  a possibilidade de comunicação. Embora as rotas possíveis de encontros sejam bem mais numerosas atualmente, elas são tantas que justificam as impossibilidades dos encontros. As relações familiares tornam-se mais restritas e as famílias encontram-se, quando desejam em grandes festas que reúnem os primos desconhecidos, como ocorre nos funerais dos nossos pais.

Neste mês de maio, meu filho Isaac Severino, saído do arco formado por mim e Manuela completou um ano. As flechas que lancei com Tereza,- – Ângelo, Valéria e Tâmisa alegraram-se e trouxeram suas flechas. Também vieram duas flechas do arco João e Maria – Jorge Cláudio e Lia. Outras pessoas vieram e fizeram chover risos no espaço que sempre tem festa. Os arcos sempre estão presentes.

as ruas e as contradições da construção histórica do povo.

sexta-feira, janeiro 25th, 2013

Uma cidade se conta nas ruas que são abertas por ações humanas. São conhecidas, algumas vezes por seus habitantes mais antigos, como ocorre comm o Córrego do Joaquim, ali em Nova Descoberta; outras vezes por um consenso de que este ou aquela pessoa contribuiu para a existência e vida da cidade, como observa na Avenida Conde da Boa Vista, mais conhecida pelo nobiliárquico que por seu nome da batismo, de Francisco do Rego Barros. Serviu ele à monarquia? Sim, mas serviu ao povo do Recife. Agora que acabou a monarquia há que se tirar esse pedaço da história? O Recife não possuir uma explícita  Avenida Getúlio Vargas não lhe diminui o sentido republicano de sua história, escondida nas ruas Pedro Ivo e Nunes Machado, quase becos desconhecidos. Mas essa é a vida da cidade, das ruas que carregam a história que se acumula no viver cotidiano. Sim, apesar da memória selecionar alguns aspectos, as poeiras dos acontecimentos e das ações continuam guardadas para novas insurgências.  Mudanças de nomes por interesses políticos imediatos é próprio de políticos que julgam terem chegado ao término dos acontecimentos, fazem o juízo final e definem quem deve desaparecer para que a novidade se firme por insegurança legislativa.  Isso aconteceu na Revolução da Rússia com os soviéticos que trocaram os nomes imperiais da cidades russas para lhe por nomes dos revolucionários de 1917. No final do século XX a derrocada do “socialismo real” trouxe de volta os nomes saídos das placas mas permanecidos no âmago do povo. Manipulação da história na construção de novas histórias.

O Recife republicano, gerado no Recife monárquico, terminou por aparecer sem apagar a história dos mascates, dos senhores de engenho e usineiros. Ele está em redor do prédio da SUDENE. Podemos nos perguntar porque assim ocorreu, procurar entender, mas não é de bom alvitre manipular dessa maneira os espaços de sociabilidade do povo.

É notório a todos que nomes dados a logradouros , pontes, praças, ruas, avenidas possuem em seu âmago o interesse de ensinar a história, desenhar. Assim é em todo o  mundo. Mas cuidemos de pavimentar espaços com pedras que nos ensinem caminhos únicos. Para evitar manipulações mais apressadas, definiu-se que não se ponha nome de ruas homenageando os vivos, os poderosos do momento. É que a tendência do servilismo termina se tornando um vício político, como entendeu o ditador Médici, no governo de quem teve início essa proibição, estendida também a prédios oficiais. Dizem que isso não se aplica no Maranhão.  Devemos ter esse cuidado em preservar nossa história. Há uma norma que deve se evitar fazer apagamentos de nomes de ruas. Caso a edilidade queira homenagear alguém que foi importante na construção cívica do lugar, crie-se um novo logradouro, um nova praça. Os mais versados em música produzida no tempo da ditadura, lembra do chiste de Caetano Veloso lembrar que a Avenida Chile terminava na Liberdade. Isso no tempo de Pinochet. Pinochet se foi, a liberdade ficou, E também a Avenida Chile.

Guardemos nossa história, compreendendo-a, conhecendo-a em suas contradições. Não a apaguemos em sua beleza paa impor a “pureza” de nosso pensamento volúvel.