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Francisco de Assis, o Maracujá e Catulo da Paixão Cearense

segunda-feira, outubro 4th, 2021

Severino Vicente da Silva

Quando começava a minha adolescência ouvi e gostei da visão poética de Catulo da Paixão Cearense e, além do Luar do Sertão, lembro de uma menina moça se curvando em agradecimento após as últimas palavras de A Flor do Maracujá. Mais tarde ouvi e gostei de muitas outras, musicadas, pois que vivia ele no tempo das serestas, outro tipo de romântico, outra sociedade, na qual os jovens ainda podiam ter acesso relativamente fácil à natureza. Hoje estamos em cidades que, em determinados espaços, até o firmamento não alcança os olhos, sente-se que ele existe na pele tocada pelo sol ou nas chuvas que podem desabar, de repente, procurando antigos riachos e regatos, aplastados ou limitados entre blocos de cimentos. A natureza que nos criou e nos mantém vivos, como indivíduos e como espécie, nos tem sido proibida por nós mesmos. Quase não mais se pisa na lama, exceto nas periferias urbanas, pois que os jardins parecem terem sido exilados, proibidos, até mesmo nas casas em que há espaço para tal. Somos uma sociedade impermeabilizadora. Houve até um tempo no qual, simulando plantas, plásticos eram mais desejados do que aquelas perfumadas naturalmente. Creio que ainda há por aí esse tipo de floricultura, e são bastante procuradas pelos que não desejam desperdiçar seu tempo observando a crescimento da planta, a formação da flor.

Mas ontem, véspera do dia dedicado a São Francisco de Assis, jovem da burguesia nascente, que renunciou as vantagens da vida material ofertada pelo seu pai e, seguindo o modelo religioso da época foi viver com os mais pobres, a eles se dedicando. Tiraram-me parte do horizonte. A prefeitura da cidade está a vender, aos comerciantes de painéis propagandísticos, os espaços que alegram nossos olhos. Na rodovia aproveitando o espaço entre as pistas asfálticas, um morador começou a criar um jardim, chamou atenção de um artista que ocupou o espaço com esculturas, embelezando o caminho de quem vai ao trabalho. Então, vem o poder que devia auxiliar o embelezamento do caminho percorrido pelos que seguem para os locais de produção de riqueza, trata de colocar placas que inviabilizam a beleza da cidade. Vende o o espaço, polui o roteiro de nossa visão. Em breve, em lugar do espaço que descansa a vista, terei que olhar o que me desejam vender. Gente de alma feia não cansa de enfeiar a vida.  

Mas, o jovem Francisco da cidade de Assis, quis ficar sem casa a continuar com a triste e feia alma de seu pai, desnudou-se dele. Quanto aos demais, sôfregos por riqueza apenas olharam em silêncio, e um deles, talvez com muito esforço, mandou que alguém cobrisse o corpo do jovem. Francisco ocupou uma igreja abandonada, pelo bispo que lhe mandara o manto e pelos pastoreados do bispo, e a restaura com outros jovens seduzidos pelo seu entusiasmo. Neste caminho descobre pessoas abandonadas pelo sistema que se extinguia, e que não se adequavam ao novo modelo social, passa viver de esmola no início de um sistema econômico que veio a ensinar que “o trabalho dignifica o homem”, doutrina que se tornou dogma, e dominou o homem, posto a trabalhar todos os dias da semana, que veio a podar os momentos de festas, das celebrações das colheitas, do vinho, do trigo, desses momentos em que todos dançam juntos, em roda por poderem saborear o fruto de seu trabalho.

No novo sistema que se forjava não há espaço para alegria, para a recriação, apenas para a diversão, a dispersão dos sentidos. O trabalho perde o seu sentido, os seus sentidos. Parece ter sido isso que quis dizer o jovem Francisco ao cometer a loucura de entregar para a população os tecidos que seu pai vendia, tecidos coloridos, tingidos pelo sangue dos que antes eram agricultores e agora eram os proto operários, então chamados de jornaleiros, aprendizes. A loucura de Francisco fascina ainda os jovens do século XXI que têm a possibilidade de serem a eles apresentados. A loucura de Francisco ameaça os pais que não conheceram Francisco, como o bispo de Assis e o papa Inocêncio III não souberam ler o sinal que lhes havia sido dado. Não é fácil ser seguidor de Francisco, viver como e com os pássaros, viver com e como os peixes, viver como o sol e a lua, sentir-se irmão da vida, ser a vida. A vida não pensa no dia seguinte, os felizes não pensam no dia seguinte, pois o dia seguinte não existe. Quando o dia seguinte começa a surgir e a ser vivido, é que o espírito de Francisco de Assis, que é o espírito de Jesus de Nazaré foi perdido.

Francisco de Assis, também é conhecido como Francisco das Chagas, pois sua identificação com Jesus Crucificado era bem mais profunda que a Flor do Maracajá, que recebeu e guardou o sangue do Crucificado. Francisco de Assis viveu o maracujá. O maracujá tem um pouco de travo em seu sabor, mas quem o ingere sente-se acalmar os anseios do corpo, as ansiedades momentâneas. A calma que Francisco Assis vivia, pois sorvera ardorosamente o Maracujá, confundia-se com aquele que tudo deu de si, restando apenas a casca quando lhe tiram toda a polpa.

Quisera ter a poesia de Catulo da Paixão cearense para cantar a paixão do maracajá, a flor é a externalização da beleza da entrega do maracujá.