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Carnavais

segunda-feira, fevereiro 13th, 2012

O texto abaixo, com algumas modificações e adendos, foi escrito no limiar do carnaval de 2010. Minha esposa pediu a sua republicação. Assim o faço.

Estamos no inicio de fevereiro e nos aproximando do período de preparação para a maior festa popular, a festa que põe o mundo de cabeça para baixo, a festa que faz a gente viver os mais estranhos sonhos, os sonhos em que os homens e mulheres mais pobres saem para a rua com o orgulho de serem chefes de tribos, nações, príncipes, princesas. O Carnaval é a festa que os deixa imaginar e viver o mundo em que a gente se sente importante.

O Carnaval é uma criação de todos, dos pobres, principalmente, e dos ricos. O Carnaval é uma festa em que todos podem participar, porque ela acontece na rua e não precisa de muita coisa. Faz uns cento e cinqüenta anos que os bailes de carnaval aconteciam apenas nos clubes e os pobres que ali entravam era apenas para trabalhar. Mas aí, quando foi acabando a escravidão no Brasil, os homens e as mulheres livres, muitos deles ex-escravos, começaram a sair para brincar nas ruas como a imaginação permitia. Uma coisa que ajudou muito a invenção do Carnaval no Brasil foi o fato que as pessoas que tocavam nas bandas que acompanhavam as procissões eram pobres, antigos escravos ou filhos de escravos. Os músicos que tocavam acompanhando as procissões, também tocavam nas bandas militares e começaram a acompanhar as pessoas que formaram alguns blocos para sair nas ruas durante os dias de carnaval. E o interessante é que muitos dos primeiros blocos eram organizados de acordo com a profissão ou o ofício das pessoas. O Clube Vassourinhas, tanto no Recife quanto em Olinda era o clube das pessoas que varriam as ruas; havia o Clube dos Lenhadores, cujo nome indica a profissão, e assim muitos outros.

Havia desde algum tempo o desfile do Rei do Congo, patrocinado pela Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. Mas essa Irmandade, como muitas outras foram perdendo a relevância em uma sociedade em mutação, especialmente após a crise que levou os bispos de Olinda e do Maranhão à prisão. O avanço da organização social laica diminui sua dependência das instâncias religiosas para impor a ordem social. E então os desfiles dos Reis de Congo adaptaram-se aos novos tempos despedindo-se dos rituais que os ligava ao sagrado cristão-católico. Passaram a sair como diversão, agora no carnaval que supera o entrudo. Formam-se os primeiros Maracatus de Baque Virado, sendo uma cortina diáfana, segundo alguns, da sua nova razão religiosa, o Xangô que se organiza nas zonas periféricas do Recife.

Na Região da Mata Norte, começou o aparecimento de grupos de índios, como a Tribo Cahetés, ainda em 1907. Por esse período, muitos homens dos sítios, sujavam a cara com carvão saiam vestidos de com as roupas de suas mulheres e viravam Catirinas e saiam de Jereré e ficaram conhecidos como Cambindas, talvez porque bebiam cachaça e tiravam o gosto da branquinha com essa piaba que a gente compra seca nas feiras de nossas cidades. Outros se vestiam de índios e viravam caboclos e, com suas lanças, faziam medo a muita gente. Assim foi nascendo o nosso carnaval, o Maracatu de Baque Solto.

O nosso carnaval deve ser preparado pelos nossos prefeitos e secretários cuidando para que todas as nossas tradições sejam respeitadas, e também as mais novas, muitas que chegam só para ficar algumas horas. .

Balanço do Carnaval

quinta-feira, março 10th, 2011

 Terminou o carnaval deste ano de 2011 e vamos pensar um pouco no que fizemos. Se no passado mais distante o carnaval era uma brincadeira religiosa que louvava a vida, depois foi incorporada ao cristianismo como uma festa que antecede a Quaresma, desde final do século XX vem se tornando um dos mais importantes momentos da indústria do turismo, um espetáculo que apresenta a nossa cultura, a nossa criatividade ao mundo. A indústria do turismo cresce em nosso país, o que provoca um crescimento do turismo interno, nossa região está se tornando um lugar especial para os visitantes de outras partes do Brasil, e gente de muitas nações e países. Aqui eles encontram uma festa para seus olhos e ritmos para seus corpos e almas dançarem.

Vivemos uma época em que todos estão conectados, todos influenciam e são influenciados. O mundo se tornou uma aldeia na qual, pela televisão e pela internet, há a possibilidade de uma pessoa que, morando em qualquer de nossas cidades, converse com uma pessoa que mora na Europa, na América do Norte, na Ásia, África ou Oceania. Essa é uma das maneiras que nós temos de receber influência e de influenciar.  Nosso carnaval faz parte desse processo que chamamos de globalização. Essa é uma das razões que um pedaço do nosso carnaval se parece com o carnaval do Rio de Janeiro, São Paulo e Bahia. Somos influenciados pelos interesses econômicos das empresas que querem lucrar com nossa alegria. Mas isso nós também fazemos, pois o carnaval é um bom negócio para os nossos vizinhos que montam barracas para vender comidas e bebidas para os que estão se divertindo. Os blocos que existem em nossas cidades são antigos, alguns têm cinqüenta anos e, nos primórdios o frevo e a marcha corrida marcavam o compasso dos foliões. Os tempos mudaram e as influências externas levaram a adoção de novos instrumentos e ritmos conhecidos como “música baiana”. Letras de fácil assimilação acompanhados por movimentos simples são facilmente aprendidos pelos seguidores. O crescimento desses blocos foi de tal monta que muitos julgavam estar próximo o fim do frevo e outras expressões da cultura local. Qual a o que?  Estamos a participar do início de um momento de refluxo, e assistimos um renovado interesse pelos Blocos Líricos, o crescimento das bandas e, por conta da defesa do patrimônio histórico, os ditos “trios” estão sendo substituídos por orquestras, como assisti nas ruas de Goiana. A preocupação dos maestros em formar novos músicos como escuto em Goiana, Condado, Nazaré da Mata, Aliança, Recife, Olinda e outras cidades, é uma demonstração da vitalidade da cultura local que atrai a cada ano mais turistas para o carnaval pernambucano.

Além de lugar de lazer, o Carnaval da Zona da Mata Norte tem se tornado uma fonte de estudos históricos, antropológicos, etno-musicólogos e outros ramos da ciência para teses que são defendidas na França, Escócia, Áustria, Inglaterra, Estados Unidos da América do Norte. Além, evidentemente, de estudos produzidos nas universidades da região, pois a cada dia aumenta o interesse nosso por nós mesmos, apesar de termos departamentos em nossas universidades que teimam em serem Pontos de Cultura Européia, fortalecendo mentalidades do século XIX.

Neste mundo globalizado é impossível – não é desejável – o isolamento, por essa razão é vital estimular a troca de experiências humanas pelo viés cultural para que ele não ocorra apenas dirigido e orientado pelo interesse econômico. Uma síntese da adaptação e manutenção das tradições é o Maracatu de Baque Solto e as Tribos de Caboclinhos da Zona da Mata Norte de Pernambuco, que vem selecionando e utilizando o que a Indústria da Comunicação que lhes impor. Maior dificuldade ele tem em enfrentar com sucesso a Comissão Organizadora do Carnaval do Recife, que impõe critérios de julgamento, de exclusão, a cada ano com novas exigências para o desfile e o recebimento de prêmios e verbas. E virão dizer que fizeram reunião com os líderes dos caboclos, mas se esquecerão de lembrar que esses criadores e criadoras da cultura estão emergindo dos estratos subalternos em que foram postos por senhores de terras e homens. A cultura brasileira está sendo formada pelos que foram excluídos no passado e, com alguma dissimulação, podem ser excluídos pelos herdeiros da opressão passada. Mas vamos ganhando essa parada porque os turistas e estudiosos que atravessam o Atlântico, se distanciam do Pólo Norte ou saem de suas cidades brasileiras para brincar nas ruas de Olinda, Recife, Nazaré da Mata, Goiana, Carpina, Timbaúba, Aliança, Vitória de Santo Antão querem mesmo é curtir aquilo que nós fazemos e criamos.

Severino Vicente da Silva

EVOÉ! EVOÉ! O Carnaval de Pernambuco é tradição, graças ao Frevo e ao Maracatu

quarta-feira, março 2nd, 2011

Com a chegada dos carnavais na terra do “Melhor Carnaval do Mundo” vem sempre a questão de como devem ser tratados os artistas, uma vez que sem eles não existem carnavais, festas, procissões, enterros e muitas outras atividades. O crescimento da idéia de que o carnaval é, cada vez mais, um grande espetáculo, tem dado oportunidade a que novos ganhos econômicos sejam auferidos por artistas que antes tinham que financiar, eles próprios ou seus vizinhos, todas as suas apresentações, desde a feitura das fantasias até transportes para os locais de suas apresentações. Claro que no começo dos carnavais tudo era realizado de forma amadorística, contudo os tempos mudaram e as exigências cr5esceram, exigindo que os artistas, desde os que usam as fantasias mais simples, passassem a serem exigidos nos desenhos, formas de apresentação, etc.. É grande a preocupação para que no atendimento dessas novas exigências não se perca a originalidade das brincadeiras e das criatividades primevas. E temos que ter cuidado especial com o Estado – quero dizer as instâncias de poder – federal, estadual e municipal – que vem se tornando o principal financiador dos festejos momescos, para que não façam exigências descaracterizadoras das expressões culturais do povo. Notamos algumas mudanças que estão aproximando maracatus, caboclinhos e troças dos desfiles cariocas. Atenção a isso, devemos parar com isso, as comissões julgadoras devem cuidar de julgar a partir do seu lugar – Pernambuco – e não do lugar do comprador.

Em muitas ocasiões temos chamado atenção ao péssimo pagamento aos grupos de criação local. A cada ano grande soma de dinheiro carnavalesco sai do Estado em contas bancárias de artistas convidados, – e eles devem continuar sendo convidados, desde que agreguem valor cultural aos nossos festejos, garantindo a identidade local. Nos alegra saber que os maracatus de Baque Solto já começam a ser mais valorizados, por prefeituras, como já está acontecendo em Nazaré da Mata, a Terra dos Maracatus – investindo somas que chegaram a R$7.000.00 reais, além do transporte e local para de repouso, para esses guerreiros culturais. É lamentável que outras ainda estejam pagando duzentos ou trezentos reais aos seus artistas, como é o caso de Tracunhaém e Ferreiros, este último que parece querer matar à míngua o único maracatu ali existente.

O carnaval é uma festa e, como todas as festas é um momento excepcional para a atividade econômica, gerando renda e criando oportunidades para os artesões venderem seus produtos, o comércio local ser estimulado. E devemos estar atentos para que boa parte dessa riqueza fique na região. Pagar bem aos Maracatus, Orquestras de frevos e sociedade musicais que transmitem conhecimentos e formam novos músicos, atuando ao longo do ano é um caminho para uma boa administração e ganhos de resultados sociais cada vez melhores. E quanto mais atrações locais de boa qualidade tivermos, mais elas trarão turistas para aregião; esses grupos serão contratados para tocar e se apresentar em outras cidades e trarão dividendos que serão aplicados nas cidades de sua origem.

Feliz Carnaval para tos, e corram para ver e se emocionar com grande 13º Encontro de Maracatus de Nazaré da Mata na Segunda Feira Gorda, dia 7 de fevereiro. Evoé.

Vigilantes do peso no carnaval

sábado, fevereiro 5th, 2011

Tivemos algumas horas de apagão, ou ‘um longo período de interrupção de fornecimento de energia elétrica’, conforme definição do ministro das minas e energias, confirmando que uma tradição que vem se firmando na atuação daqueles que tomam assento naquele ministério. Não faz muito tempo que a atual presidente, quando era chefe da casa civil do governo anterior, negava que houvesse havido no país um apagão. A sua mudança para uma cadeira mais importante demonstra que um grande percentual dos brasileiros acreditou que havia sido uma alucinação coletiva aquilo que costumava chamar de blackout.

Isso é tão engraçado como escutar do governador de Pernambuco a pérola de achar que o Rei Momo não pode ser mais gordo, pois devemos ensinar as pessoas a serem saudáveis. (os magros tuberculosos devem ser muito saudáveis) E o mais interessante é que também assim pensa o prefeito do Recife. O Rei Momo no carnaval em Pernambuco será magro, como magra têm sido a participação e a paga aos artistas locais. Gordura mesmo só para os pagamentos aos artistas que são convidados para o carnaval em Pernambuco. Sim, pois graças a essa invenção de carnaval multicultural (adjetivos, adjetivos, adjetivos…) os artistas locais vivem reclamando do pouco que se lhe pagam e só depois do carnaval e, se formos acreditar no que dizem, creio que devemos, esse pagamento vem sempre com atraso. Ora, fosse o governador e prefeito dotado do sentimento do povo saberia que o Rei Momo é gordo e deve ser gordo porque o povo sempre teve mesa magra.  

No carnaval, o governador e o prefeito deveriam saber, uma das principais figuras é o Rei Momo, um gordo sempre contente, risonho, com um copo de bebida em uma mão e um pedaço de carne na outra. O carnaval é um feriado em que a graça é ser diferente do que se é no resto do ano, é um período em que o mundo fica de cabeça para baixo, ou seja, muito diferente, tão diferente que ninguém se preocupa em trabalhar, mas apenas em se divertir(www.biuvicente.com/historiaecanavial). Claro que o governador trabalha, bem como o prefeito também o faz, como se comprova pela limpeza das ruas do Recife e pela felicidade que o povo reflete nas filas dos hospitais, no aprendizado das crianças, no entusiasmo dos professores e no imenso percentual de popularidade e votos espelhados na última eleição. Mas, os secretários de cultura desses executivos públicos deveriam lembrar que existem aspectos simbólicos nas vidas das pessoas e das sociedades. Cultura não é apenas um meio para se ganhar emprego e dinheiro. Não, não é uma boa idéia levar para o carnaval os bons conceitos emitidos pelos nutricionistas.

Considerando que a maioria dos foliões fica feliz com pouco, os que podem comer muito nos camarotes oficiais, deviam ao menos deixar o povo se divertir e não definir  esse tipo de coisa, querer definir se o povo deve gostar de um Rei Gordo ou não. No passado já fizeram isso enfiando uma corte no Maracatu de Baque Solto (mas isso foi no tempo dos fascistas do Estado Novo, vão me dizer). Creio que os dos camarotes podem até continuar pagando para que dancemos sambas, boleros, valsas, merengues e, quem quiser que vá quebrar o pescoço olhando para os palcos onde os artistas cantam e rebolam, mas deixem o Rei Momo em paz, deixem as pessoas terem o seu Rei, gordo, de olhos pretos, cabelos morenos, pele escura e riso debochado, enquanto dançam o frevo de rua, como no tempo em que derrubaram os conselheiros e delegados do passado.

Essa é boa: uma reunião dos vigilantes do peso para escolher o rei momo dos momos que querem governar o carnaval.