Posts Tagged ‘carnaval’

Alguns pensamentos sobre o carnaval

quarta-feira, fevereiro 16th, 2022

Alguns pensamentos livres sobre o carnaval

Severino Vicente da Silva

Parece não ser surpresa o quanto grande parte da população apresenta alguma frustração por não haver a permissão oficial para derramar-se no carnaval, festa que transpôs o Atlântico à época das reformas no cristianismo praticado na Europa. O que, à princípio seria um debate sobre os limites de algumas ações praticadas, permitidas e incentivadas pelo papado romano, à medida que eram explicitadas as reações os temas relacionados aos dogmas foram aparecendo e causaram mudanças nas maneiras de vivenciar a fé religiosa. Afinal, ainda que contrarie uma das teses apresentadas por Lutero em outubro de 1517, a fé sempre se apresenta em obras, sejam altruístas ou apenas para a satisfação de garantir a exposição da diferença. As reformas da religião marcaram a sociedade europeia pela afirmação das diferenças, e fortaleceram reis, estados, enquanto criavam novos modos de viver, e matavam outros.

Apesar do medo, a crer nas imagens deixadas por pintores flamengos, também havia muita diversão como pintou Bruegel, o velho, no período anterior às Guerras de Religião, período no qual homens e mulheres dedicavam-se à busca da salvação condenando o mundo. Embora os homens e mulheres do Medievo vivessem um “vale de Lágrimas”, um mundo de pestes, guerras e pecados, a vida parecia ser suportável amparada pela esperança do Paraíso. Com as Reformas, parece ter chegado uma religião que nega a possibilidade da esperança, pois tudo já está predestinado, inclusive a salvação. Entretanto, é necessário que se torne explícita a salvação já alcançada, não mais esperada; e a explicitação vem com uma maneira de viver abandonando os prazeres do mundo na certeza da alegria eterna. As brincadeiras deixam de ser importantes, os prazeres, os antigos e os descobertos recentemente em decorrência do comércio e das navegações, devem ser eliminados. Os Carnavais perdem para a Quaresma.

Mas o carnaval atravessa o Atlântico e descobre o paraíso, a Terra Sem Males. A visão da Reforma trazida pelos europeus, principalmente pelos jesuítas, foi ajustada pelos demais clérigos que serviam mais diretamente os moradores das vilas. Não se nega o pecado, mas abaixo do Equador, apenas os padres da Companhia o fazem com veemência, e depois, os pastores trazidos pelos holandeses, o percebem. Aqui parece se manter a compreensão católico-medieval, ainda que haja perseguição aos judeus e cristãos novos. Não há pecado, e, se os há, os atos de penitências e as procissões, momentos para a apresentação da inventividade de artistas locais, enriquecida com a lembrança das procissões anteriores às Teses de Lutero e as definições do Concílio de Trento. Às vezes elas são vistas como ridículas, como as que foram percebidas por Gregório de Matos. As teses luteranas e calvinistas tiveram que esperar o Regente Dom João e o Imperador Pedro II para terem presença e visibilidade social; quanto ao Concílio de Trento, só à véspera da República é que começa a ser implementado nas terras do Brasil, onde o carnaval fez morada.

As procissões e os entrudos sempre foram válvulas de escape em uma sociedade que a tudo reprimia em função dos interesses da Coroa, mas essa sociedade usou a criatividade na arte de burlar os interesses metropolitanos; foi apenas após o fim oficial da escravidão e, principalmente, a República que o carnaval tomou as ruas, lugar de expressão da liberdade. Na República oficial, os militares e advogados tomaram os palácios, mas o povo criou outra república nas ruas, nas principais capitais, e mesmo em algumas cidades de porte médio, fora do circuito do poder. Como o Hino da República, o carnaval diz: abre as asas sobre mim, ó Senhora Liberdade.  Assim, vive-se, nesses anos recentes, uma situação de lamento: mais um ano sem carnaval por causa da peste que tem o nome de Coronavirus19 e suas novas cepas. A saudade do carnaval, das ruas interditadas ao trânsito de automóveis, a permissão de embriagar-se publicamente, de sem pudor ou temor, criticar os grandes e pequenos poderosos, de mostrar o corpo e alma, poder ser visto nas redes sociais proporcionadas pela internet, uma vez que as redes tradicionais estão truncadas, mas são alimentadas pelos dispositivos mais modernos.

Neste ano, mais que no ano passado, ocorrerão bailes de carnavais em recintos fechados, em clubes dos que puderam acumular riquezas, como ocorria no final do século XIX, antes que o povo inventasse os desfiles de blocos, de clubes, escolas de samba, tomando as ruas para si. Este fenômeno levou as autoridades constituídas a tomarem medidas para controlar a folia dos menos ricos e dos pobres.

No século XVII a repressão, ou Reforma dos costumes, foi realizada tanto pelas autoridades religiosas quanto pelas autoridades civis, como demonstram os estudiosos do período. Foi essa associação que permitiu a vitória da Quaresma sobre o Carnaval, e também favoreceu a aceitação da ética do trabalho nas regiões reformadas, bem como o a vitória do indivíduo sobre os interesses sociais.

Neste início do século XXI, o Estado, que se fortaleceu ao longo de três séculos, enquanto defendia os interesses individuais e conseguia manter a coesão social dizendo ter em vista o interesse coletivo, tem encontrado dificuldade de fazer cumprir normas que defendam a sociedade da Covid19, exatamente porque alguns de seus membros, em nome dos interesses individuais, recusam, tanto a vacinação necessária para vencer o vírus como as normas de distanciamento social que antecede e acompanha o processo de superação a pandemia. É para acomodar interesses tão diversos e contrários que, simultaneamente proíbe o carnaval de rua, permite que alguns grupos possam carnavalizar em espaços restritos e de acesso apenas aos endinheirados. A Quaresma é para os pobres que, encontrarão um meio de burla, como historicamente tem feito.

A saudade do carnaval, a busca do prazer na dança da vida parece ser maior que o medo da Dança da Morte, um dos temas da pintura europeia a caminho dos novos tempos urbanos, quando as aldeias se encontram com mais facilidades e os europeus cruzam de novo o Atlântico em busca do passado.

Histórias das e nas escolas que o povo cria.

terça-feira, fevereiro 16th, 2016

Todos nós temos nossas predileções e, se algumas delas nos afastam de algumas pessoas, haverá outras que nos aproximem dessas mesmas pessoas. Não podemos excluir de nossas relações apenas por pensarem um pouco diferente de nós, algumas pessoas, pois, é possível que elas tenham mais coisas em comuns conosco do que imaginamos ou percebamos na superfície. É por darmos atenção às epidermes que cultivamos sentimentos racistas, excluímos socialmente, politicamente, religiosamente pessoas de nosso entorno social. Ênfase em demasia em algum aspecto entre muitos que a realidade e as pessoas possuem, escurece nossa visão, impede que a luz nos penetre e, sem percebermos, nos separamos do mundo, criando uma ficção que nos agrada, nos satisfaz por possibilitar exaltar a nossa capacidade de nos ver. Confundimos o mundo conosco, nos fazemos deuses e nos amamos, ou julgamos termos encontrado o amor, ao confundir a nossa sombra conosco. É a idolatria, o culto ao vazio de sentido e damos sentido ao vazio. É a nossa desgraça.

Sempre que me perguntam sobre o Maracatu de Baque Solto, ou sobre os desfiles que clubes, troças, blocos, maracatus, afoxés que as pessoas realizam durante o carnaval, eu digo que vejo a História do Brasil, do meu povo, de suas/minhas experiências que são colocadas nas ruas, nos lembrando de nosso passado de sofrimento, mas posto ali na glória das artes, quase apontando o que poderia ou poderá ser. Afinal, aprendi com Carlos Mesters que o Paraíso, nosso mito da Criação, pode ser uma saudade ou uma esperança. Meu amigo Paulo Cavalcante, carioca mundializado após três viagens aos NOrdeste, logo após os primeiros desfiles das Escolas de Samba do Rio de Janeiro, profetizou que a transmissão que a Rede Globo de Televisão estava a fazer do desfile, era um desrespeito à cultura popular e a história do Brasil. Como é belo o instante em que o historiador rompe e expõe a manipulação, abre caminho para a superação do momento, escapando do processo de alienação espetacular que a sociedade de consumo impõe. O desfile das Escolas de Samba, dos Maracatus dos Baques Virado ou Solto e todas as demais manifestações populares que ocorrem no Reinado de Momo, são aulas, são reflexões de nossas vidas, das contradições que nos fazem ser o que somos. A cada carnaval somos chamados a ver como se reconta a nossa história e somos convidados, como Paulinho da Viola, a ver as coisas que estão no mundo e não apenas no que dizem as academias oficiais compostas por quem quase sempre vê o povo tão distante, e cria essas distâncias, que já não se reconhece nele. Nem o povo se vê nelas.

Claro que o carnaval é um festival que aliena, assim como algumas (às vezes quase todas) aulas de história, filosofia, psicologia ou sociologia em nossas universidades e nos encontros que elas e seus professores realizam para conversar sobre o povo. E então se louvam por seus conhecimentos insossos, sem sabor. Saber sem sabor não é sabedoria.

Carnaval – Alargamento do mundo –

domingo, fevereiro 7th, 2016

Interessante como nos colocamos como centro da vida. Não que o sejamos, mas devemos fazer parte desse núcleo que parece decidir tudo. A maior parte dos nossos amigos, assim como nós mesmos, são o centro do mundo que vivemos, ou do mundo que nos cabe viver e decidir, ao lado e dentro de outros mundos e outras decisões. Deve nos parecer claro que não afetamos o mundo tão fortemente como desejaríamos e julgamos. Nosso espaço de influência é bem pouco, pequeno e, quase sempre, nos vemos impotentes aos acontecimentos.

Antigamente, uma vez por ano a comunidade se reunia e celebrava o carnaval. Extrapolava-se em todas as direções. Os que dirigiam a grande sociedade escondiam-se em máscaras para dar-se o desfrute de pequenas emoções e sentirem-se vivos, para além de tomar decisões sobre guerras, quem fica vivo ou quem fica morto. Foram famosos os bailes renascentistas e todos os demais para onde afluíam os poderosos a tentar relaxar das suas “responsabilidades”. Eles também viviam e, ainda hoje, vivem em seu mundo à parte, separados dos demais mundos que sua vida afeta. Faziam seu carnaval nas salas de seus castelos, em espaços preparados para tal. Louvavam, também, a vida. Enquanto isso, fora dos muros, outros mundos faziam seus carnavais, cada um segundo as suas possibilidades e as possibilidades de suas castas.

Os tempos da indústria permitiram a um maior número de pessoas criarem seu próprio carnaval, antigamente previsto pelas religiões. A indústria precisa vender para viver e, o prazer de sentir poderoso pode ser vendido a preços variados, dependendo do poder de compra de cada um. A rua é o caminho de todos cotidianamente, mas dentro de regras, limitadas pelas calçadas, velocidades, atividades de produção e comércio. Entre nós, há muitos que não usam as ruas durante o ano para as atividades comuns da sociedade. Seus mundos geográficos são diminutos, sua vizinhança é pequena, seus contatos são repetitivos. Não podem andar muito, não pode ver muitas coisas, exceto pela caixinha mágica colocada em local central da casa.

O Carnaval é um momento especial para experimentar novas sensações e sair de casa, da sua rua, do seu bairro e, por algumas horas sentir-se senhor de espaços que dominam e determinam o comportamento. Por isso esse rapaz que observa o mundo pela janela do ônibus, juntamente com seus amigos, estão ansiosos para saber se ainda estão em Olinda ou no Recife. Descem do coletivo, que veio barulhento e alegre, e não sabem em que direção devem ir para encontrar o Galo da Madrugada. E já são onze horas. E seguem uma multidão em direção de algum ponto e encontram outros que parecem estar voltando. Finalmente vêm o Galo sobre a ponte e apressam o passo para que ele não lhes fuja. E vão pelo centro da avenida, hoje sem carro, com policiais que garantem que os automóveis não irão lhe perturbar. A polícia hoje não lhe afronta e eles seguem dominando o mundo, o seu mundo alargado nesse dia específico, este sábado em que fará parte do “maior clube de máscaras do mundo”. Sim, agora ele faz parte do grupo que decide e sorrir embriagado, ainda não do álcool que carrega em suas mãos, mas do orgulho de estar em um outro mundo, com todas as gentes seguindo os seus passos.
‘De chapéu de sol aberto pelas ruas, eu vou
A multidão me acompanha, eu vou
Eu vou e venho de onde eu não sei
Só sei que trago alegria prá dar e vender
…….”

Carnaval e educação

quarta-feira, março 5th, 2014

É impressionante o que eu vi, ao tempo que ouvi, durante três dias de carnaval em uma cidade litorânea da Paraíba. Foram dias e noites de um só ritmo, uma única e medíocre batida, a suingueira. A palavra sugere balanço e ele pode ser visto nas ancas de rapazes e moças, sendo que os rapazes conseguiam ser mais flexíveis que as moças. Elas paravam para observar como dois rapazes se completavam – côncavo e convexo, e então treinavam entre si. Muito criativo.   E depois vinha outro “trio elétrico” e, com ele a mesma batida, rapazes semelhantes, e moças bonitas. Muito bonitas as moças. As do lugar bem que eram tabajaras com seus longos cabelos negros, ajambadas na cor de pele macia ao olhar. Rapazes oxigenados na ânsia de chamar atenção: “somos dinamarqueses”, “suecos”. Os corpos desnutridos diziam que não. É interessante a quantidade de homens negros com a calvície encomendada ao barbeiro. A cada dois dias uma navalhada.  A impressão é que deixam, a mim, é a necessidade de esconderem o que a natureza lhes pôs acima do cucoruto, o cabelo pixaim que os colocam distante do ideal branco europeu. Como dói essa ausência de identidade!

A batida suingueira repetida ficou de tal modo em minha mente eu sonhei com as aulas de Educação Artística. Sei que esses rapazes, em algum momento foram alunos das escolas públicas e, com certeza tiveram aulas dessa disciplina que lhes devia educar a sensibilidade para as artes, proporcionando-lhes a oportunidade de ler sobre teatro (já não digo fazer pois nossas escolas não possuem espaço para esta atividade), ver pinturas, esculturas, ler poesias, ler romances, ouvir músicas de diversos estilos e épocas, etc.. Mas provavelmente nada disso ocorreu como bem demonstra o apego a essa batida única e medíocre que toma conta dos espaços nos cérebros e corpos dessa geração. Os professores foram ensinados que não devem ensinar,  apenas estimular o que as crianças e jovens que lhes são entregues já fazem e sabem. Assim é que nas festas populares os prefeitos, em grande número, para garantir esses votos possíveis, financiam bandas ridículas e medíocres e distribuem camisas para o sexo protegido. É isso que lhe dá a impressão de serem progressistas. Mas auxiliam a cristalizar um passado que permitia apenas uma conduta, a da aceitação daquilo que cai da mesa do seu senhor. O mais triste é o silêncio medroso que permite o crescimento do poder do barulho como música ou arte.

Leio que não houve morte em Olinda, PE,  durante o carnaval. Isto é bom.

Brasil nascendo com o carnaval

sábado, fevereiro 2nd, 2013

 

Fevereiro é marcado pelo carnaval. Pouco menor que os demais, é mês esperado com ansiedade por conta da permanente luta pela afirmação da liberdade de ganhar espaços sobre a sisuda do trabalho, característica do mundo criado pela sociedade europeia em sua afirmação sobre as  demais possibilidades de civilização.  As instituições religiosas e a dinâmica imposta pela necessidade da acumulação da riqueza obrigaram gerações a esquecerem das brincadeiras espalhadas durante o ano. As sisudas roupas negras dos quackers, dos puritanos e jesuítas tocaram até mesmo o marrom franciscano que recebeu a preocupação capuchinha pelo pecado. A sonoridade alegre de Palestrina foi sendo substituída pela alegria fugidia do barroco. Novas tecnologias trouxeram facilidades à vida diária e a morte foi ficando distante. Passamos ter mais tempo para produzir riquezas e, se conseguimos chegar à velhice poderíamos tudo isso degustar. Assim fizemos algumas mudanças em nossas vidas, nossas ruas ficaram mais amplas para os donos automóveis e para os ônibus lotados de trabalhadores que se multiplicaram, graças ao avanço da ciência que auxiliou a aumentar a produção de alimentos e inventar meios e vacinas com o objetivo de tanger a morte. Ganha-se tempo. Economiza-se  força muscular, anda-se menos, palácios tornaram-se casas, cortiços foram transferidos para favelas, os hospitais com seus batalhões de médicos, enfermeiras e psicólogos nos orientam a como nos manter vivos. Nas escolas, agora em maior número e diversificadas segundo a classe social, nos oferecem os instrumentos que nos ajudam a atravessar as ruas e entender um pouco do que acontece ao nosso redor. Mas ficou a nostalgia do carnaval.

Ao término do século XIX, no Brasil de cristianização católica superficial e modernização rala, o carnaval parece ter servido de caminho para que as camadas com menor acesso aos bens da modernidade ganhassem as ruas e reinventassem o Brasil, forçando que os participantes dos bailes que ocorriam em recinto fechados olhassem pela janela e observasse que os recentemente liberados do trabalho escravo, junto com os que, embora livres do trabalho forçado, não tinham permissão para inventar – em uma sociedade escravocrata não pode haver liberdade de nenhum tipo, ocorrem variações do mesmo – criaram um novo modo de divertir-se e , tomando as ruas, reinventaram o carnaval. Não como o de Veneza ou Amsterdan, Nova Orleans ou Quito. Foi sendo criado algo original, o carnaval brasileiro nascendo com o Brasil livre.    Nas cidade onde havia maior concentração de gente pobre tri-centenária (mestiços) e gente pobre de duas ou uma geração na terra (gente liberada pela Lei do Ventre Livre e pela Lei João Alfredo), lugares como Rio de Janeiro, Recife, Salvador, São Luiz e outras metrópoles do período imperial, foram palco dessa criação. Inicialmente ocupando apenas os três dias permitidos pela seriedade do Concílio de Trento, foram, ao longo do século XX, ocupando outros tempos, abrindo novas veredas para as múltiplas possibilidade ofertadas pela nossa tradição. Hoje o carnaval compete e supera muitas indústrias criadas pela modernidade. O carnaval moderno é uma indústria produtora de riqueza argentária a partir da riqueza gozosa desse povo brasileiro sintetizador das dores e alegrias do parto da modernidade.

Viva o carnaval e sua luta contra a seriedade dos reformadores dos costumes que, agora são levados a debater e conviver com os costumes que foram criados  nessa luta. O carnaval não pode ser visto como um índice de felicidade, mas pode ser entendido como uma vitória no embate com o mundo magro da seriedade e sisudez dos pastores, padres, gerentes de fábricas, cabos de usinas, etc..  Assim nos fazemos e fazemos o Brasil.

Um pouco da família mais ampla

terça-feira, fevereiro 21st, 2012

Em Pitimbu, praia do litoral sul da Paraíba, neste domingo de carnaval, comemoro 89 anos de vida de minha mãe e dela eu escuto histórias que a sua memória mãe guarda. Uma delas lembra que não fiquei muito tempo na amamentação, apenas três meses, e, depois disso recusei beber leite o que a obrigou a fazer-me comer papa ou mingau, como se alimenta a gansos, colocando pedaços ou quantidades de alimentos boca adentro e garganta abaixo. Assim sobrevivi, cresci forte. Sou um pouco disso tudo. Em seguida sua memória a leva a conversar sobre seu pai, meu avô Severino Cota. A lembrança é sobre a sua vida amorosa, algumas mulheres que meu avô tentava esconder da família, mas que elas terminavam por aparecer. Parece que sua infância e adolescência estavam permeadas dessas experiências. Outras lembranças são em torno de prédios, especialmente os templos católicos. Ela olha a Igreja do Senhor do Bonfim e a compara com a igreja de Angústia, um engenho onde ela costumava ir com a mãe e irmãs para rezar, assistir missas, rezar o Mês de Maio. As construções de cada época trazem a característica, a marca identitária do tempo criada pelos homens e mulheres. Além do mais, naqueles tempos da juventude de minha mãe, os principais prédios eram, efetivamente, os prédios religiosos católicos e com a marca típica da Reforma ou do Neo-clássico. Nos dias atuais são os templos da Assembléia de Deus que estão a marcar a paisagem da nova religiosidade cristã na Mata Norte. O catolicismo não é missionário, acomodou-se às normas da neo-cristandade.

À noite, na praça frontal à igreja, ocorreu uma dança da Aruenda. Pela rua marginal à praça alguns blocos passaram, com caminhões sonoros que fazem a marca das aglomerações de divertimento, mais conhecidos como “trio elétrico”. Quando aconteceu o desfile da Aruenda, por volta das dez da noite, os carros dos turistas e dos moradores recusavam a ceder passagem para um bloco que vai à rua apenas com percussão e o som das vozes dos desfilantes. Ninguém sabe mais o que é Aruenda, uma tradição que desapareceu (?) ou transmutou em novos folguedos, como os blocos, os maracatus. Assim disse Rogério, o professor que está revivendo a Aruenda de Pitimbu, silenciada a mais de trinta anos. Ao fim da noite tive uma conversa bastante produtiva que, sei bem, renderá algumas folhas de papel. Voltarei a conversar com esse professor da Rede de Ensino Estadual de Pernambuco, na cidade de Goiana.

O Mais comum nesse carnaval é baixo nível das melodias, das poesias que são cantadas nas ruas, gritadas a partir dos “trios”. Quanto mais alto o som mais entramos no subsolo dos desejos ocultados. Mas o carnaval é para isso, para viver com intensidade a padre baixa do corpo.
Viva Momo