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O País da Coconha

sábado, janeiro 16th, 2021

Quinze dias se passaram desde que o ano de 2021 teve início. Quando ocorreu o mágico momento em o ponteiro que marca os segundos, eram muitos os pensamentos positivos e as preces que pediam, aos muitos deuses e deusas, um ano melhor do que aquele que estava finando. 2020, ao finar-se deixava uma marca triste no número de finados, de pessoas que deixaram de ser, que passaram a ser lembranças, para os que lhes conheciam e, com eles, dividiram parte de seu tempo e, é quase certo, sonharam alguns sonhos, tendo alguns deles sido materializados. Mas, os mais otimistas entendiam que haveria muitas repetições das dores que a peste traz.

As alegrias, sabemos, são pequenas flores que aparecem nos jardins, em uma brava luta contra o que se convencionou chamar de erva daninha. Elas são sempre em número maior que as flores de nosso agrado. Aliás as flores que nos alegram quando olhamos nos  jardins, só o fazem porque nos dedicamos a elas. Muita gente é feliz sem saber, ou pensar, que o que lhes traz felicidade é resultado de seus esforços. Também os sofrimentos. Fala-se que o Conselheiro Acácio costumava dizer que “as consequência chegam depois”. Assim sendo, as dores de 2020 e dos anos que seguiremos, são resultantes da ação de cuidarmos das flores ou deixarmos crescer as ervas daninhas. O que dói é admitir que se existem esses sofrimentos, esses acontecimentos indesejáveis que nos molestam hoje, eles foram cultivados, foram desejados, de alguma forma, nos anos anteriores.

O ‘País da Coconha’ quem não o deseja? Os brasileiros, talvez mais que qualquer outro povo o deseja, até mesmo mais do que aqueles que o inventaram, o imaginaram. Pintores europeus mostraram esses sonhos, os representaram com lavradores deitados na relva, e em êxtase viam as galinhas já greladas vindo na direção de sua boca para satisfazer seu apetite. Os lavradores sonhavam isso, pois viam isso ser vivido pela nobreza que, não trabalhando na terra, recebiam os alimentos em suas mesas tendo, no máximo, de fazer o esforço de leva-los à boca para o supremo trabalho de mover as mandíbulas e, com a língua, empurrar o alimento para o estômago.

O que parece é que os vieram da Europa para formar o Brasil trouxeram em sua mente o País da Cocanha e uma certa Visão do Paraíso, julgaram ter encontrado o lugar da benção inicial, e pensaram e agiram como se na Cocanha tivessem chegado. Não, eles não eram nobres, os que vieram para o Brasil, era gente que se enobreceu na guerra de conquista do litoral africano e em algumas regiões da Ásia, então criaram para si o que julgavam ser o mito. Para tal passaram a explorar, sistematicamente, os habitantes da terra e, mandaram buscar, no outro lado do Atlântico, gente para substituir os nativos. Começara o processo de substituição de tecnologia para a produção e, desde então, isso é pago com o preço do atraso. Daí, quando não mais puderam ficar com Portugal lhes tomando parte do que lhes cabia, promoveram a ‘separação’ e desde então não se envergonham de dizer que estão “deitados eternamente em berço esplêndido, ao som do mar e à luz do céu profundo”.

Com mesma tranquilidade de sempre, seus descendentes continuam fazendo pouco caso das mortes dos que produzem a riqueza para que eles se empanturrem de comida e bebida. Daí o descaso com que tratam a pandemia Covid 19, colocando a economia acima da vida dos trabalhadores. Se fizeram isso com os nativos escravizados, com africanos escravizados, continuaram a fazer com os moradores arrendatários, e o fazem atualmente com os motoristas e cobradores de ônibus, com os frentistas, com os empregados e empregadas domésticas, com os entregadores de comida pronta, com os comerciários. Animados pelos novos godos, os comerciantes e industriais exigiram, continuam exigindo, que as atividades econômicas não parem, para que seus lucros não cessem. Talvez até estejam fazendo cálculos para saber qual o ganho da Previdência Social com a morte dos mais velhos. Só eles podem envelhecer, ainda que vilmente.

Mas estamos no final da primeira quinzena do mês de janeiro, o mês daquela deusa que olha simultaneamente para o passado e para o futuro, que só percebemos quando presente. Enquanto ele não existe é apenas desejo.

Os habitantes de Coconha não formam uma nação, pois uma nação é formada por pessoas que se juntam para realizar o sonho comum e o fazem solidariamente, mesmo quando  não em igualdade total. Uma sociedade na qual apenas uma parte tem acesso aos bens criados por todos, uma sociedade que se comporta como Siris na Lata, uma sociedade que não admite o mínimo de solidariedade e reconhecimento do outro, jamais será uma nação: será sempre um grupo de exploradores que cultiva o egoísmo, que aceita negar a dor do outro. Coconha é uma sociedade de necrófilos, de genocidas. O Paraíso, mesmo para os exploradores é um inferno, como disse um cronista dos tempos em que Portugal explorava essa região do globo: o Brasil é o paraíso dos mulatos, o purgatório dos brancos e o inferno dos negros. Por isso temos Manaus. Vocês sabem, Manaus era uma nação indígena suprimida pelos sonhadores de Coconha.

Continuamos assim, neste início do século XXI. Vemos que os que estão no poder de Coconha carregam inveja dos mulatos; continuam a tornar um inferno a vida dos negros, mas jamais sentem-se no paraíso, que continua sendo uma Visão, como dizia aquele historiador respeitável. Mas é um paraíso que jamais será alcançado pois eles tudo farão para tornar a vida de todos um inferno, criando dificuldades as mais diversas, inclusive para o acesso à vacina. Mas isso não os fará felizes, seu líder continua desejando uma praia. Em outros países que também vivem da exploração de seus compatriotas, mas que se esforçam para ser uma nação, os líderes cuidam para que o seu cotidiano sofrido não seja definido como inferno. É que eles não sonham com Coconha.

Drama 18 – Hiroshima, Xingu e Casaldáliga

quinta-feira, agosto 6th, 2020

É madrugada do dia 6 de agosto, setenta e cinco anos depois da explosão de uma bomba sobre a cidade de Hiroshima, no Japão. Naquela manhã cerca de 80.000 pessoas morreram imediatamente após a passagem do Enola Gay. Três dias depois, o Bocks’Car lançou outra bomba sobre Nagasaki, e 40.000 pessoas tiveram o mesmo destino. Assim terminava a Guerra do Pacífico e tinha início a Era Atômica, uma era na qual todos os habitantes da terra podem ser evaporados instantaneamente, as civilizações destruídas, pois elas só existem se os homens existirem. Neste 6 de agosto, um vírus que parece ter chegado no Brasil no final do ano 2019, provocou a morte de 90.000 pessoas e, ao término do mês de agosto, possivelmente terá matado cerca de 120.000 brasileiros. Não foram mortas instantâneas, como as que ocorreram no final do Império Japonês, forçando o imperador admitir         que não era uma divindade. As divindades morrem quando expostas ao público, perdem suas forças quando deixam de ser mistério. Ao longo da jornada, os homens tiveram muitos deuses e ainda os têm, mas eles perdem com a racionalidade das bombas. As bombas são racionais, os deuses, seus crentes e os vírus não o são.

No  começo dessa madrugada, um historiador lembra-me que em 1960, “pela primeira vez, em toda a história do Brasil, um candidato da oposição ganhou uma eleição para a chefia do executivo”, seu nome era Jânio Quadros, governou com minoria no Parlamento, pois quatro quintos dos parlamentares estavam ligados à eterna situação que governa o Brasil desde sua fundação: a defesa da propriedade da terra para si. Esses parlamentares ficaram bastante surpresos quando, por decreto, Jânio Quadros criou, em 14 de abril de 1961, o Parque do Xingu, a primeira demarcação de terras indígenas da história republicana. Foi uma mexida na tradicional política de controle de terras. Um dos grandes sucessos do carnaval de 1961 foi uma marchinha que dizia: “eu não quer colar, índio quer apito”, uma mostra de como a questão era de conhecimento geral.  Começava um novo tipo de barulho. Em agosto o presidente disse que não suportava as pressões de “forças ocultas” e renunciou. Então, quarenta anos depois, a floresta amazônica arde em chamas, o Pantanal arde em chamas, terras indígenas demarcadas são invadidas, motosserras são acionadas e o chefe do executivo nacional tenta passar uma lei que proíbe fornecer água potável, atendimento médico aos índios atingidos pelo vírus que tem matado mais pessoas que as bombas sobre o Japão. A racionalidade de Truman, que o levou à decisão de jogar à bomba sobre o Japão para pôr fim ao conflito, ainda que isso promovesse tantas mortes, é semelhante à decisão do presidente do Brasil a negar água e atendimento à saúde aos índios: é uma questão de gasto, uma questão econômica.

É essa racionalidade econômica que tem impedido a expansão do saneamento básico: fornecimento de água, recolhimento de lixo e esgoto, para todo o país, para toda a população. Nota-se que o vírus Corona 19 mata mais nos lugares onde não há a oferta e uso desses bens sociais, embora sejam as pessoas que moram nesses locais, os que trabalham e vivem pelo pão diário. Os que sempre estão governando fazem com que seja sempre baixo o pagamento do trabalhador. O mesmo arrocho salarial que vem sendo posto aos trabalhadores brasileiros desde sempre, vem se confirmando com a aprovação das atuais reformas econômicas e sociais, sempre em detrimento do trabalhador, pois a razão sempre aponta que o sucesso é o acúmulo de renda, é ser participante dos clubes dos 20, dos 15, dos 9, dos 5, dependendo do grupo que represente, em determinado momento, o interesse dos que sempre governam.

6 de agosto de 2020, o número de mortes pela Covid 19, no Brasil, ultrapassará 95.000.

Enquanto isso, está vivendo seus últimos dias o primeiro bispo da Prelazia do Alto Xingu, Dom Pedro Casaldáliga, morre de uma vida gasta na defesa dos mais pobres, dos brasileiros roubados de seus direitos básicos.

PS. Historiador Jorge Caldeira, História da Riqueza no Brasil; Haroldo Lobo é o autor da marchinha Índio quer apito.

Rio São Francisco: entre a Canastra e os canastrões

sábado, setembro 27th, 2014

Setembro descamba para o seu final mais uma vez. Começou com muita chuva aqui no litoral mas deixando permanecer a secura do sertão. Neste setembro, que em nosso hemisfério é o tempo da primavera, mas que parece ser de menor tamanho que as demais estações, pois aqui em Pernambuco o verão chega rápido, e os da terra costumam festejar sua aparição já no Sete de Setembro, talvez fazendo uma referência, ainda que inconsciente entre as aquarelas que a luz solar revela e a liberdade sempre desejada, pois ela é como o amor: sua conquista é diária.

Esse tempo de verão trouxe a notícia de que a principal nascente do Rio São Francisco está secando, está seca. Cansou de chorar as águas para formar o Rio da Integração Nacional, como aprendi na escola, só compreendendo muito mais tarde refletindo sobre o traçado de seu leito que corre “do sul para o Norte”, escondendo-se, vez por outra. Interessante que a fonte da “unidade nacional” esteja secando neste tempo. Em épocas anteriores, quando se rasgava o peito das aves para descobrir o futuro, os homens buscavam entender esses sinais e os relacionavam com o seu cotidiano. Poderíamos fazer o mesmo nos dias de hoje, cheio ‘de racionalidades objetivas’?

Nesses últimos anos deu-se a querer cumprir promessas feitas no passado por quem não tinha grande noções sobre o que dizia, embora fosse pessoas interessada em buscar saber o que estava sendo pesquisado em seu tempo. Pedro II, que assistia as nações industrializadas rasgando a terra em busca de carvão, ouro e prata, que sabia dos projetos do Canal de Suez e do Panamá, em momento de poesia e perplexidade, sem perceber que para o acontecimento dos projetos é necessário mais que o discurso, informou seu sonho de transpor as águas do Rio São Francisco para dessedentar a população do sertão. Não sabia ele que os sertões sempre foram habitados e os que lá viviam conviviam com a seca em processo de transumância. A Lei da Terra, criada em meados do século XIX, começou a destruir a movimentação da população para as terras da margem do grande rio. A Lei que o povo chamava de “Lei da Cerca” gerou uma realidade que invadia São Cristóvão, no Rio de Janeiro. E a seca virou questão social.

Cem anos depois, governantes que se gabam de não estudarem, resolveram colocar em prática o sonho de Pedro II, um sonho que pretende (ou pretendia) garantir que água do São Francisco chegasse ao sertão mais distante, das margens. Muitos foram os que disseram da incúria de tal projeto, grandioso como as torres da Babilônia, torres construídas para evitar que as pessoas conversassem sobre o que lhe interessava de verdade, mas que discutissem apenas sobre: será que estou produzindo tijolos suficientes para construir a torre que o patesi e seus sacerdotes desejam?  Assim ocorreu em anos recentes, e nenhum dos auxiliares do patesi quis ouvir os clamores, de que outra poderia ser a solução, além desta que não modifica a Lei da Terra nem muda o jeito do povo viver sem respeitar as leis da natureza. Dizem as tradições que a Torre de Babel foi abandonada porque chegou um momento que seus construtores – engenheiros, líderes políticos, os trabalhadores produtores e carregadores de tijolos não mais se entendia. Quanto tempo durou entre a decisão de construir a Torre e o seu abandono porque aqueles que não entendiam o que faziam nem se entendiam entre si, não há resposta objetiva, mas a Torre foi abandonada em meio da construção, restando apenas pedaços do que ela seria. Enquanto tudo isso acontecia, engenheiros e sacerdotes continuavam seus estudos e pediam incentivos para a glória do patesi, que ouvi envaidecido declarações de amor de seus auxiliares, ansiosos para se manterem no serviço do seu patesi, evitando, para si, a fome que a seca produz.

Setembro descamba em outubro e, em sua primeira semana, há o dia dedicado ao Louvor de São Francisco, o que tece seu nome colado ao nome do rio que, de tão forte avançava léguas sobre o mar, como diz Américo Vespucci. Maltratado o Rio, o Atlântico está invadindo o seu território. Suas águas foram domadas pela indomável ânsia humana de tudo controlar e agora a Serra da Canastra informa que está faltando água para o Velho Chico.

O dia é quatro de outubro. Neste ano, no dia seguinte, engenheiros, sacerdotes, trabalhadores irão votar. Será que lembrarão da Serra Canastra? Será que os canastrões continuaram a receber loas de amor em troca da continuidade da distribuição de sopas de cebolas, como as do Egito e da Babilônia?

Biu Vicente

Posições e posturas

quinta-feira, janeiro 30th, 2014

Como gostamos de listas! Fazemos listas para tudo, desde as compras no mercado, às falhas que cometemos (essas são listas mais raras), passando pelas que nos falam dos amigos, amigas, amadas, e tantas categorias mais. E as fazemos, sempre que possível, colocando em primeiro plano aqueles episódios, pessoas, que nos são mais caras. Nas listas dos outros gostamos de estar entre os primeiros, como receber o primeiro pedaço de bolo em uma festa de aniversário. O segundo pedaço tem gosto de vice, e no Brasil temos um apego muito grande por estar entre os primeiros.

Neste dia 25 de janeiro de 2014, uma pequena modificação no método de julgamento das economias, colocou o Brasil, ao lado da Inglaterra, França e Rússia, na sexta posição entre as economias. Mas o sonho de superar a Inglaterra continua vivo, apesar de o Brasil estar situado no 56º lugar em capital humano, como foi dito em Davos no ano de 2013. No ano de 2012, em uma lista de 40 países, o Brasil aparecia na 39ª posição, vencendo a indonésia.

Mas se ganhamos da Indonésia que apresentou um montante de capital humano menor que o nosso, perdemos para a mesma Indonésia no número de novos milionários previstos para o ao de 2014. O país asiático terá um crescimento de milionários em 26% enquanto o Brasil apenas crescerá esse número em 8,6%, pois só teremos mais 17 mil novos milionários neste ano, os quais serão somados aos 194 mil brasileiros milionários. E o PIB brasileiro não chega a 3%. Assim é concentrada a renda e, cresce a ignorância que favorece os que fazem a política que concentra renda e distribui  bolsas para o consumo.

Neste ano, 2014, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) apresentou o Brasil na 58ª Posição em uma relação de 145 países que realizaram os exames. Essa avaliação combina com o 8º lugar que o Brasil alcançou no índice de analfabetos, pois temos 13 milhões de pessoas acima de 15 anos que não sabem ler e escrever.

A Finlândia caiu cedeu o primeiro lugar no ranking da educação para os países asiáticos e, imediatamente a ministra Krista Kiuru, alertou sobre a “alarmante deterioração dos resultados” e afirmou que os dados “demonstram uma desvalorização da escola por seus alunos e pela sociedade”. As chaves para o êxito do país europeu em edições anteriores do Pisa se apoiam em três estruturas: a família, a escola e os recursos socioculturais. Os professores têm papel crucial.

Essas considerações foram feitas pela Ministra da Educação da Finlândia que considerou um desastre ter saído da primeira para a décima segunda colocação. Ainda estamos esperando que os efeitos do vinho português, do tabaco cubano percam seus efeitos para que possamos ouvir o que tem a presidente do Brasil a dizer sobre a situação da educação no Brasil, sobre o tratamento dado aos professores. Também estamos ansiosos por saber o que a presidente vai dizer sobre a ameaça que atualmente está pairando sobre os investimentos em educação, pois a área de planejamento do seu governo está pensando em cortar despesas para equilibrar as contas do país, e uma das áreas visadas, segundo notícias nos jornais deste dia 29 de janeiro, é a educação que, segundo alguns técnicos, recebeu privilégios nos últimos anos. Mas o silêncio sobre esses números que retratam a situação educacional brasileira só perde para o silêncio a respeito dos desmandos nas prisões maranhenses.

Oxalá os governantes brasileiros estivessem tão estimulados em promover a educação no Brasil quanto estão motivados em financiar portos em Cuba, perder refinarias para a Bolívia, comer bacalhau português!

Balanço de 2013

segunda-feira, dezembro 30th, 2013

Na noite de 29 de dezembro tive a oportunidade de ver e ouvir duas palestras interessantes. Uma foi lida pela atual presidente do Brasil, uma peça escrita para nos informar que o ano de 2013 foi bom para os brasileiros, pois o governo diminuiu os impostos e, todos os brasileiros ficaram mais ricos apesar da crise mundial e de alguns de alguns empresários que, segundo a presidente, conspiram contra o Brasil. Talvez para não cometer injustiças, ela preferiu não nos informar quem são esses empresários e, dessa maneira, todos ficaram sob suspeição. Mas penso que, se um ou uma presidente vai para a televisão dizer uma coisa dessa, ele, ou ela, deveria ser mais claro para que o povo soubesse quem são essas figuras. Como ela não disse quem são esses empresários, prefiro achar que a presidente está a imaginar coisas e, com o poder de sedução que o poder empresta a que está sentado na cadeira principal e com a caneta na mão, está querendo que parte da população acredite na sua imaginação. Seu antecessor usava este expediente e obteve muito sucesso.

A outra palestra foi uma conversa dos jornalistas do Manhattan Conection com Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente do Brasil. O “presidente improvável” manteve a postura de estadista com visão global, mais de professor de sociologia que de político que participou ativamente do processo de superação da ditadura civil-militar e que, como ministro da Fazenda criou o plano de estabilização da economia brasileira e, como presidente estimulou a modernização do país, assegurando a continuação do fortalecimento da democracia no Brasil. Além da análise do mundo, a conversa também chegou a querer levar Fernando Henrique a demonizar Luiz Inácio da Silva, atualmente acusado em livro, de ter sido alcaguete e informante do delegado Romeu Tuma. Fernando Henrique Cardoso afirmou que conheceu Lula em sua casa de operário e disse que não duvida da sinceridade da adesão de Lula aos ideais então defendidos pelos dois; disse não ter motivos para acreditar na acusação. Apenas lamentou que, agora, Lula esteja deslumbrado pelo poder e a riqueza que o cerca.

Essas  duas palestras parecem indicar dois países possíveis: um que evita a verdade e outro que procura construir com veracidade, sem temor e sem demonização. Desejo que o Brasil encontre o que melhor pode ser para si, não pense com o estômago, mas que cultive valores essenciais para a convivência e crescimento cultural, entendendo a cultura como o conjunto de valores e bens, materiais e não materiais, que fazem a personalidade de um povo.

Neste final de ano desejo que os que lerem essas linhas tenham realizado as conquistas que planejaram para 2013. Mas desejo que não sofram por não terem conseguido alcançar a completude de todos os projetos, pois somos o que somos, finitos mas com a esperança de alcançar o impossível, torna-lo possível.

Admirável mundo novo sem mestiços: o novo Brasil

sexta-feira, setembro 28th, 2012

 

O que fazer para ser notado pela presidente e pela sociedade, parece ser a preocupação do ministro para assuntos estratégicos pois,ele não conseguiu ser recebido para uma conversa com a chefe ao longo de mais de um ano de mandato. Tinha ele que encontrar uma estratégia para ser notado e, tendo a quase certeza de que, da mesma maneira que não foi notado, julgou que ninguém notaria a manipulação de dados estatísticos, especialmente se a manipulação fosse realizada de modo a agradar outros ministérios, tomemos como exemplo o ministério para a igualdade racial. Assim, estrategicamente agiu, tomando dados do Instituto Brasileiro de Estatística, combinando-os de maneira a exaltar o crescimento da “nova classe média”, essa que compra tudo que se põe no mercado.

Nosso, até então desconhecido ministro, tomou dados sobre a classe média e disse ela é formada da seguinte maneira: 53% é negra e 47 % é branca. Tenho escutado isso como notícia a quase uma semana. Não quero discutir como o IBGE chegou a científica conclusão de que aqueles que ganham a partir de( aproximadamente) R$ 295.00 é classe média e aquele que tem vencimentos a partir de (aproximadamente)  R$1200.00 é classe alta, gente rica. Afinal a ciência não se deixa influenciar por orientações políticas e não tenho competência para ir além dessa constatação nesse assunto.  Mas chama atenção o fato de que não mestiços na classe média. Sim, o Brasil deixou de ser um país onde ocorreu a maior mestiçagem e era lembrado como exemplo de construção, sim, ainda em construção, de um povo que reúne todos os povos. O ministro da estratégia, ancorado nos estudos científicos do novo IBGE,  disse que não há índios na nova classe média; não há cafuzos, não mamelucos, não mulatos, não morenos, não há pardos: só brancos e negros. Então, só podemos inferir que, se eles existem, esses brasileiros resultados da miscigenação dos muitos grupos étnicos que vieram para esta terra nos últimos cinco séculos, se eles existem estão ou na indigência total ou no seleto grupo dos multimilionários. Talvez haja uma estratégia nesse estudo que está difundido nos rádios, nas emissoras de televisão, nos jornais.  Ou o ministro de assuntos estratégicos está falando de falando de um outro Brasil, não neste Brasil que eu conheço, que eu vivo, um Brasil de minha ascendência indígena, africana e portuguesa.

Alguém, algum sociólogo, algum antropólogo, alguém desse mundo de pessoas de vasta cultura corra para explicar-me qual o sentido dessa estratégica nova classe média, esse admirável mundo novo! Um mundo sem espaço para mestiços. Não sei se é o admirável mundo novo da nova classe média criada pelo novo ibge ou se o o admirável mundo novo da mediocridade.