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Carnaval: o cheiro do povo e o povo dos camarotes

quinta-feira, fevereiro 4th, 2016

O Carnaval que começaria no próximo sábado, conforme uma tradição, está ocorrendo a pleno vapor, de acordo com a nova tradição iniciada na segunda metade do século XX, quando nossa sociedade buscava encontrar uma maneira de escapar da repressão política imposta pelos civis e militares a partir de 1964. O protesto musical e o deboche dos costumes foi um dos caminhos encontrados para diluir o mecanismo repressivo. O golpe interrompeu a criação da alegria, amorteceu muitas utopias, milhares de desejos. O povo parecia ter desaparecido, mas nos subúrbios continuava a existir o processo de criação do povo, de manutenção de suas alegrias. Esse processo parece ter acontecido em todo o país. Apenas nas pequenas cidades e nos subúrbios das grandes, é que o carnaval, a alegria popular mantinha-se.

“Os anos setenta foram muito duros, para os pobres que empobreciam com a politica do arrocho salarial, e para a classe média, que ainda corria atrás do “corcel cor de mel”, mas foram também o início do processo de reconstrução da alegria. O ano de 1972 trouxe o filme de Cacá Diegues Para quando o carnaval chegar que parece ter tocado na letargia. Lembrança rápida nos chega a Banda de Ipanema em 1973, o Nóis sofre mais nós goza, em 1976, o Galo da Madrugada em 1977. Em Olinda, naquele 77 ocorreu a vitória de Germano Coelho e reinvenção do carnaval de rua de Olinda, experimentado ao longo do ano com o Forró Cheiro de povo. Voltava a irreverência no carnaval. Uma explosão de criatividade foi acionada e muitos blocos foram criados e tomaram as ruas das cidades, ofuscando os bailes de clubes e os corsos dos automóveis – palanques ambulantes de exibicionismos.

Mais uma vez o povo recriou a rua, como o fizera nos primeiros anos da República Velha, o que gerou a criação de instituições para ‘organizar’ o carnaval, orientar os desfiles dos blocos e escolas de samba. Processo semelhante ocorre nesses anos finais da ditadura, com a criação de uma política de incentivo ao turismo – o que é muito bom pois leva o brasileiro a conhecer o Brasil ao menos no período do mundo de ponta cabeça – mas que foi, aos poucos, domando a alegria livre em espetáculo para os visitantes ou, o que pior, para as elites locais, que passaram a transferir os camarotes dos clubes para as ruas, estreitando o espaço para o largos movimentos da alegria que, no carnaval é a vitória contra a mesmice da exploração diária. Novas formas de controle vieram. Cordões de isolamento, passarelas que pretendem tornar o povo observador, admirador da alegria e não o fruidor de sua espontaneidade. Agora é espetáculo o carnaval. O Galo da Madrugada agora sai às dez horas da manhã e, para ele ser o espetáculo para o mundo via televisão, as ruas são fechadas para os “blocos de sujo”; as agremiações que se formam sem pretensões outras que a celebração da amizade e o conforto de zombar do desconforto das roupas europeias em clima tropical. Pelo contrário, agora, até os maracatus de baque solto, criação e caboclos, gente de origem silvícola, de índios da terra, são obrigados a desfilarem como se fossem uma corte europeia do século XVIII.

E se o carnaval continua além da Quarta Feira de Cinzas e, parece-me para recuperar o tempo que perde nos três dias tradicionais em desfiles para agradar os poderosos que só gostam do povo abaixo dos seus camarotes. Eles, como aquele general presidente, preferem o cheiro dos cavalos, não gostam do cheiro do povo.