Posts Tagged ‘Anás’

Mortes, vidas, História

segunda-feira, junho 6th, 2016

O que os olhos não veem o coração não sente, diz o saber comum, o que é comprovado diariamente no transporte coletivo lotado; e nas avenidas engarrafadas. Quem está no conforto não desvia seu olhar em direção do sofrer do outro, assim seu coração, sua mente não sente o impulso de tornar-se humano. O olhar provoca na gente vários sentimentos. Pode provocar o desejo sexual ao perceber o movimento do indivíduo do sexo oposto, fazendo as narinas arfarem provocadas pelo perfume atrativo; mas o olhar pode trazer a ternura que se ocupa do velho, da criança, e fortalece o humano.

Nesta manhã recebi várias mensagens que informavam a morte de pessoas. Algumas conheci pessoalmente; outras soube de sua existência por conta das ondas da vida que provoca cruzamentos estranhos, alguns dolorosos e todos com possibilidades de criação e, finalmente, outras foram pessoas de quem jamais soube, mas que pertenciam ao grupo de amizade e querência de algum amigo comum, mas que só a sua morte fez chegar a mim a sua vida. Pois bem, essas notícias vieram pelo facebook, um espaço onde as pessoas põem a cara e desnudam-se nessa praça pública virtual.

A notícia da morte de alguém vem sempre com um elogio, um comentário nem sempre elogioso. Embora diga-se que ‘todos os mortos são bons’ nem sempre os que comunicam a morte ressaltam os aspectos positivos do morto. Como diz outro dito popular ‘quem é ruim não morre’, para ressaltar a bondade do defunto ao tempo que deseja a morte de algum desafeto. Nessa praça podemos observar o caráter de quem escreve. Aliás, é essa uma das virtudes da escrita: expõe aquele que escreve. Pois bem, recebi a notícia da morte do ex-senador, ex-ministro (trabalho, educação), Coronel Jarbas Passarinho. Ele foi um dos que puseram a assinatura no Ato Institucional de número cinco e, mais ainda, motivou os demais ministros a assinar, com a famosa frase: danem-se os escrúpulos. As notícias de sua morte me chegaram, umas com o esquecimento sobre o AI5, coisa d Anistia Ampla Geral e Irrestrita, que foi acordada pelo general Figueiredo, e outras com bastante ódio, celebrando a sua chegada ao inferno.
Assim a gente vê como reagirm o ex-combatentes da ditadura (o primeiro caso) e quem nasceu durante a ditadura e só tomou conhecimento dela através de relatos orais ou escritos.

De qualquer modo Jarbas Passarinho eu o conheci quando lecionava no Colégio Radier, quando o ministro da Educação foi fazer uma palestra. Havia poucos anos desde a minha prisão/seequestro e vi-me diante de quem assinou aquela destruição da Constituição que já estava maculada. Vi o homem elegante e de bons tratos e, também vi o coronel que, quando jovem, em 1964, a pedido do Arcebispo de Belém do Pará, entrou na residência episcopal para prender o o jovem sacerdote Diomar Lopes, um dos pioneiros da introdução do pensamento de Theilhard de Chardin no Brasil, além de ter sido um dos assessores da CNBB na área teológica. Padre Diomar Lopes veio para o Recife onde lecionou no Instituto de Teologia do Recife e fez parte da equipe do Seminário Regional do Nordeste. Fui seu aluno e sou devoto de sua memória. Quanto àqueles que, por sua ideologia ou crença viveram de modo diferente do meu, o tempo dos homens, não a minha geração nem as que vieram em seguida, podem, isoladamente, definir o que há de perdurar na memória da Pátria nem como se dará essa lembrança. Anás, Caifás, Pilatos, Tiago, Pedro, João, César, Gregório, De Gaulle, Churchill, Stalin, Trotski, Roosevelt, Buda, Confúncio, Lao Tsé, Maomé, Mao tze tung, Ho Chin Min, Jesus, Lampião, Mussoline, Machado de Assis, Olavo Bilac e tantos outros estão na História e na memória de muitos, cada qual com o seu cada qual.

A morte é um evento biológico, não uma condenação; Para o humano é a consciência da vida, também não é uma condenação pelos atos cometidos.

De Sarney e Anás

terça-feira, janeiro 14th, 2014

De Sarney a Anás

 

A agonia dos Direitos Humanos continua no Maranhão dominado pelo clã de José Ribamar Sarney desde a sexta década do século XX (1967). O apoio que ele dedicou ao movimento de militares e civis valeu-lhe muito poder baseado na esperança que o jovem líder maranhense eleva-se o seu estado a melhores patamares de qualidade de vida. A longa vida política de José Sarney mostra a sua competência em manter-se sempre ao lado dos que se tornam vencedores na trama conjuntural da história mantendo a estrutura básica. O talentoso político que apontava os erros históricos que levaram o Maranhão a ficar atrasado no tempo, e teve a seu serviço a imaginação criadora de Glauber Rocha, é parte das forças estruturantes do poder, hoje ele é o patriarca herdeiro de todos os seus antecessores. Tendo sobrevivido à substituição dos militares, de quem foi canino auxiliar, ao tempo que protegia poetas e conseguia sinecura para literatos, Sarney tem mantido o controle de parte do poder nesses tempos democráticos, especialmente os anos que estão tutelados por antigos sindicalistas e guerrilheiros derrotados pelos militares a quem serviu. Assim, nas prisões do Maranhão tem sido cultivado o costume bárbaro dos tempos do “corta cabeças” das guerras florianistas, do exército que derrotou o Arraial de Canudos e de grupos criminosos nos morros das antigas favelas, hoje denominadas Assentamentos populacionais sub-humanos.

Assim começamos o ano, mas não apenas assim, com visitas protocolares e silenciosas do ministro da Justiça ao Maranhão. Estamos a ser revigorados com o batismo católico concedido a pessoa nascida em família que não está casada no ritual da Igreja Católica Romana. O talento do Papa Francisco em realizar o cristianismo surpreende a todos. A Capela Sistina tornou-se mais católica. Sabemos que em paróquias comuns, o vigário local com a paciência evangélica vem, no silêncio mariano, praticando esse gesto. O sentido pastoral do bispo de Roma absolve os párocos e absorve a prática. Louvado por isso foi imediatamente criticado por ter lamentado que seres humanos sejam descartados como lixo, combatendo a prática do aborto. A busca da moral fácil e relativista não percebe, não deseja perceber que não se pode defender a vida pela metade: se se condena o assassinato de adultos não há como absolver o assassinato de seres humanos ainda mais indefesos. A coerência de Francisco termina por desnudar o relativismo que seduz a todos.

Nos tempos da Ditadura Civil Militar vivenciada pelo Brasil na segunda metade do século XX, parte dos católicos manteve-se unidos na defesa dos Direitos da Pessoa Humana, dos Direitos Humanos, animados pelo Sermão da Montanha e pela declaração da ONU; ardor evangélico e continuidade na construção iluminista. Esses foram “sinais de contradição”. Continuam sendo por não cederem à tentação da fácil vida palaciana, essa que confunde respeito à dignidade com esmola dada ou recebida. A sociedade brasileira foi beneficiada pelas atitudes corajosas dos católicos, desde os mais simples aos mais titulados nas academias. Não há o que agradecer, mas a honestidade dos propósitos exige a coerência com os princípios. Daí que as atitudes de Francisco, tão católico quanto iluminista, assustam progressistas seguidores Anás.

Anás foi o sacerdote mais influente no universo judaico sob a tutela do Império Romano. Durante décadas seus filhos e genros mantiveram fariseus e saduceus satisfeitos. Anás morreu de velhice. Dizem ter sido um dos homens mais feliz de seu tempo. Para salvar a nação ele possibilitou a criação do cristianismo.

14/01/2013