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Dois Mestres Pernambucanos

domingo, fevereiro 16th, 2014

Estava a ler, em obra intitulada GESTOS E VOZES DE PERNAMBUCO, editado pela Universidade Federal de Pernambuco em 1970, obra do professor Luiz Delgado, no capítulo em que discute a participação de Pernambuco na Assembleia Constituinte de 1890, quando chegou ao meu conhecimento que havia neste dia, não acordara Doca Maurício, em sua casa, no Assentamento Margarida Maria, no município de Aliança.

Luiz Delgado foi professor e, também, diretor da Faculdade de Direito do Recife, pessoa que influenciou de muitas e diversas maneiras a sociedade pernambucana e brasileira. Devo tê-lo conhecido em algum momento da minha vida, pois em diversas ocasiões estive no prédio da Tribuna Religiosa, instituição que recebeu anos de sua dedicação de católico militante, homem de crença forte e humanidade desenvolvida e ainda carente de estudos, como vários outros intelectuais pernambucanos de sua geração. É necessário ter cuidado para que não nos percamos no imediato da vida.

Escrevo as palavras acima a respeito de um mestre que conheci em minhas pesquisas sobre a Igreja Católica em Pernambuco porque  a minha leitura foi interrompida com a notícia da morte de um mestre que conheci uma dezena  de anos passados. Mestre Doca Maurício será pouco lembrado para além do mundo que usufruiu de seus trabalhos e de sua arte. Dizia um filósofo que o nosso mundo é o mundo que nós conhecemos. E todos nós conhecemos pouco do mundo e, mesmo do nosso mundo, este que nos arrodeia, como diria Doca Maurício. Ele não escreveu nenhum livro e nada escrito, além de algumas assinaturas em declarações e recibos. Nasceu em um engenho, cresceu menino de engenho, viveu quase todas as experiências que a vida em uma fábrica de açúcar permite aos que constroem a Casa Grande, mas nela não entram. Cambiteiro, valeiro, ticuqueiro, carreiro, cortador de cana.

Os tempos industriais impuseram o dito momento de repouso, que foi um freio à ganância, esses que chamamos espaços de lazer, pois o trabalho que é realizado para além das necessidades vitais torna-se desagradável e destruidor da criatividade: perde a alegria de produzir quem não saboreia o seu produto. Em tempos mais antigos, quando a escala da produção era menor, havia mais temo para a recriação da realidade e a recreação era poética, ou seja, era uma ação de criar o desfrute e não apenas o desfrute, como é o lazer. E foi no tempo de lazer concedido pela Usina Aliança que Doca Maurício reinventou sua existência, tornando-se um artista produtor de sonhos e sons. Ainda menino, nos anos quarenta foi Dama no Cavalo Marinho, depois Galante. Aprendeu a “botar figura” e sentava no banco para entoar as Loas, as modas e canções que varavam as noites nos sítios ou em frente uma venda em uma rua no fim da cidade. Carregava na de cor, na memória e no coração, todas as conversas Mateus, Bastião e demais personagens desse teatro semiestruturado, pois que permite a participação dos que passam por ele.  E Doca Maurício cresceu ouvindo os sons produzidos pelos chocalhos dos caboclos, solitários em seu retorno à casa após as conquistas realizadas nos dias de carnaval. Eram os Tempos Heroicos da construção e reconstrução da idade dos caboclos da mata, dos Matutos da Zona da Mata. Não dos “Matutos” que chegaram a governar a Província e o Estado de Pernambuco, mas dos matutos de gestos acanhados, moradores de casas pau-a-pique, com piso de barro e mobília rara, mas que saiam de suas casas para mostrar, orgulhosos e altaneiros, a arte de suas mãos de artesões e a agilidade de seus pés, treinados no piso do molhado massapê. Doca Maurício era conhecedor do maracatu, do som de suas orquestras. Era também artista do som. Membro da orquestra do Maracatu Estrela de Ouro de Aliança, Doca Maurício tocava a poica, de onde saía o lamento de dor dos cortadores de cana, no movimento de sua mão, escorregando no interior do cilindro de bambu, de madeira aproveitada das barricas do bacalhau magro que sempre foi alimento dos pobres desde os tempos da colonização portuguesa, e, mais recentemente, de plástico. A esse instrumento, que substitui a buzina, dos momentos iniciais do Maracatu, os bacanas quando o veem, dizem cuíca. Doca Maurício jamais tocou cuíca: na Chã de Camará, em Condado, Nazaré da Mata, na Avenida Dantas Barreto, no Recife, na Praça Guadalajara, em Garanhuns, em Brasília, São Paulo, Salvador, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Teresina, Paris, na França, sempre tocou Poica.

A morte de Doca Maurício nos impede de cumprir dois compromissos: a gravação de uma entrevista para o Ponto de Memória do Ponto de Cultura Estrela de Ouro de Aliança, na qual ficaria registrado em palavras e imagens os feitos que sua memória guardava de sua vida; o segundo era um compromisso pessoal de ir até à sua casa para conversarmos e apanhar uma dúzia de avos de suas galinhas caipiras.

O corpo pequeno e roliço de Doca Maurício, musculoso e isento de gorduras, resultado de trabalho e seriedade, às vezes fazia-me pensar no instrumento com que ilustrava a caixa, o tambor e o mineiro. Não mais ouvirei a poica do Mestre  Doca Maurício, mas sempre ouvir um poica buzinando, serei testemunha da sua eternidade, com a mesma intensidade que as palavras escritas por Luiz Delgado sobre GESTOS E AS VOZES DE PERNAMBUCO. DOCA MAURÍCIO é desse ramo na nas matas dos sítios da Mata Norte.

Olinda, Aliança e Ipojuca

segunda-feira, outubro 10th, 2011

O final de semana teceu caminhos diversos para mim, com surpresas dentro da programação que havia realizado. Programamos nossas ações para que nada nos surpreenda, mas, por ser da sua dinâmica, a vida nos surpreende sempre. Na manhã do sábado um encontro anual que vem ocorrendo a seis anos: o aniversário de Pedro, filho de Fabiano e Alba. Além dos olhares e expressões de cobrança (“já faz um ano que nos vimos!!!”, “puxa, a gente só se encontra anualmente!!!”, “ainda bem que Pedro existe e nos faz essa alegria”) é sempre um conjunto de exclamações, uma alegria pelo reencontro, esse continuar de uma conversa que, embora interrompida, nunca termina e sempre é regada a sorrisos. Coisa linda essa amizade! Fabiano me traz notícias das escavações que estão sendo realizadas para a concretização da “transposição do rio São Francisco” na Paraíba, Cajazeiras, mais especificamente. Arqueólogo, Conta-me que recentemente encontrou o que foi local de uma aldeia, moradia de nosso passado. Em se fazer túneis para fazer passar as águas cada vez menos caudalosas do Rio da Integração Nacional, nota-se que não nos conhecemos, que nosso passado está soterrado e, nessa pressa de irrigar sertões e contas bancárias, pode-se constatar que haverá perdas de nossas memórias, submersas nas águas deslocadas.

No seu silencioso trabalho de arqueologia e história, Fabiano, como muitos outros, dedicam-se a desenterrar nossas entranhas enquanto outros se aprofundam em viajar por cidades distantes, brincando de serem chefes de estado com assento na ONU, enquanto promovem a humilhação da nação pedindo para ser recebidos por presidentes de federações esportivas (mas sendo ouvidos por secretários) e se comprometendo a não respeitar as leis do Brasil e, dessa maneira garantir as contas bancárias da FIFA.

O sábado teceu continuidades no Ponto de Cultura e Leitura Estrela de Ouro de Aliança. Os espaços da Biblioteca tomados por crianças e pré-adolescentes. Enquanto conversam sobre o Estatuto da Criança, os adolescentes usam papel, cola e tinta, e transformam as lembranças da infância em objetos como jarros, microfones, barcos, chapéus. Visitam os momentos de alegria e angústia já vividos. Refletem. Entretanto converso com Anderson e dessa conversa nasceu um texto que publiquei no www.biuvicente.com/pontodeleitura no qual Anderson conta sua primeira viagem para o Recife, quando visitou a Bienal Internacional do Livro. Lidiane, Maurício e Andréa se apoderaram de minha câmera fotográfica e registraram o que acontecia no Ponto de Leitura.

O domingo me pôs na estrada e quase atravessei Pernambuco, pois, saindo de Goiana, às oito horas da manhã já estava no Convento de Santo Antonio de Ipojuca. Se hoje o município onde deságua o Rio Ipojuca chama atenção por ser onde atualmente ocorrem os maiores investimentos por conta do complexo portuário industrial de Suape, nos anos de dominação do Império Português tornou-se um importante centro de produção de açúcar de cana. Franciscanos estabeleceram convento em 1606 a pedidos dos senhores de engenho da região. Anos depois ali chegou uma imagem do crucificado, em tamanho real, mas com características próprias. Ficou conhecido como o Santo Cristo de Ipojuca. A tradição reza muitas maravilhas, e desde aquele espaço religioso passou a ser um ponto de romaria e peregrinação dos fiéis. Na guerra do açúcar, também conhecida como Invasões Holandesas, os batavos se apropriaram da região. Estudos menos laudatórios aos flamengos apontam a crueldade com que trataram os moradores da região. Os frades retiraram-se para Alagoa Grande e deram início ao que hoje é Marechal Deodoro, Alagoas. o convento foi feito alojamento militar e local de guarda das montarias. E alguns frades presos e expulsos da colônia portuguesas. Atualmente, em Ipojuca, assistimos a população crescer espremida entre o canavial e as colinas, em um processo de urbanização descontrolada, com o Estado chegando atrasado, talvez propositadamente, não para consertar, mas para garantir que os mais pobres continuem sendo tratados semelhantemente aos cavalos trazidos naquela primeira invasão holandesa. Mas tive a alegria de encontrar Frei José Milton (ganhei o romance “Saburpa, o doce amargo da saudade” e a incumbência de escrever um comentário neste espaço) e Frei Manuel; também ganhei uma andança pela cidade, ciceroneado por Irmão Roberto, a qual foi posteriormente completada com uma tarde de conversa na Biblioteca do Convento. À noite fui à Camela, distrito de Ipojuca, participar da celebração eucarística com a comunidade católica.

Estive em Ipojuca, naquele mesmo convento, quando ainda tinha quatro ou cinco anos de idade. Ainda morávamos na beira do Rio Capibaribe, em Apuá. Minha memória acusava algo dessa viagem, mas temia ser uma dessas lembranças que a gente cria para tornar a vida mais interessante. Contudo minha mãe confirmou essa viagem que foi feita no caminhão de Pedro Mandú, o mesmo que fez a nossa mudança definitiva para o Recife. Agora é tempo de retornar a Olinda e a essas trivialidades que fazem o cotidiano maravilhoso da vida.
Biu Vicente