A Respeito da Festa dos Reis Magos

janeiro 8th, 2022

A Respeito da Festa dos Reis Magos do Oriente

Severino Vicente da Silva

E passou o Dia de Reis, o dia dos Reis Magos que, dizem as tradições, saíram do Oriente seguindo uma estrela que os guiava na direção de uma cidade da Judeia, no tempo do Império Romano, o dominador do mundo então conhecido pelos soldados romanos. Entretanto não é do conhecimento de alguém as terras de onde vieram esses reis que sabiam ler as estrelas e desvendar seus significados. Pessoas da terra para onde se dirigiram e chegaram acreditavam que estava na hora de aparecer um rei que os livrariam da dominação do Império que, já há quase um século, os dominavam e oprimiam. Como é comum nas regiões que estão submetidas, essa submissão vem acompanhada com a cooperação de algumas lideranças locais, no caso, Herodes, o rei que manteve a coroa comprometendo-se a manter o povo distante das ideias de rebelião contra o poder da Águia Romana. Sequiosa de riquezas que chegam através de impostos, Roma havia determinado a realização de um censo, pois quer saber quantos são os pagadores, e determina que todos retornem aos locais de seus nascimentos. Essa a razão material do carpinteiro José ter saído de Nazaré, com sua esposa Maria, e tomado o destino de Belém, local de suas origens que, acredita-se estarem ligadas à Jessé, pai do Rei Davi, o qual, alguns séculos antes teria unificado tribos nômades para a formação de um reino. Assim, entendemos que os Reis Magos, conhecedores dos secretos desígnios que viram em uma estrela, estavam indo em busca de um rei que acabara de nascer. Herodes temia que esse rei anunciado viesse a tomar o seu lugar no esquema político que ele armara para si no mosaico político romano. Assim, atuou para saber onde ocorrera o nascimento do novo rei e, já pensava medidas para impedir o crescimento desse mau augúrio para si e sua descendência.

Os reis, vindo do Oriente, conhecedores dos segredos das estrelas, teriam sido avisados por mensageiros divinos que, após realizarem suas homenagens ao rei recém-nascido, tomassem rumassem por outro roteiro para os desconhecidos locais de onde vieram. Devem ter avisado aos pais da criança quais as intenções do rei Herodes e, provavelmente, os induziu ao exílio no Egito.

Herodes, deve tê-los chamados de inimigos. Mas não os perseguiu, preferiu mandar matar as crianças que tiveram nascimento em Belém, e para ter certeza que estava eliminando o seu possível contestador, mandou matar todos de até dois anos de idade. Infanticídio foi muito comum no passado, era uma maneira de eliminar futuros oponentes, castigar os atuais opositores, destruir o futuro de uma população. Herodes não podia matar os pais das crianças, pagadores de impostos, fornecedores de sua riqueza e da riqueza do Império, prejudicaria César. Melhor fazê-los sofrer com a dor da perda de seus filhos e, simultaneamente, diminuir o número de pobres.

 Em nossos dias, quando o Ministério da Saúde, a contragosto, admitiu a vacinação das crianças contra o vírus que está atingindo milhões de pessoas no mundo inteiro, quase lamentou que havia morrido apenas 300 crianças. Disse, o ministro, que era um número irrelevante e que estava havendo uma histeria. O presidente da República chegou a chamar de “tarados da vacina” os que propugnam pela aplicação do antígeno à crianças, com o objetivo de evitar que elas adoeçam e possam vir a óbito. Cada época tem seu Herodes. Paulo Setúbal chama atenção que os cachorros utilizados pelo Caçador de Esmeraldas, Fernão Dias Paes leme, e sua bandeira usavam para a perseguição de índios, eram alimentados com as crianças indígenas capturadas, com o objetivo de apurarem o faro. A tradição de desvalorização da vida, especialmente a das crianças pobres, é forte na história do Brasil, embora seja pouco conhecida. Afinal foram os herdeiros de Fernão Dias Paes Leme que fizeram, ainda fazem, a historiografia brasileira. Os que governaram, ainda governam o Brasil.

Quantas crianças brasileiras morrem anualmente de fome, de inanição ou vítimas de enfermidades baratas facilmente curáveis. (…) Cada uma delas nasceu de uma mulher, foi amada, acariciada numa família, deu lugar a sonhos e planos, nos dias nas horas, nas semanas, nos meses, nos breves anos de sua vida parca. Seguindo a tradição, muita mãe chorou resignada, achando que melhor fora que Deus levasse a sua cria do que a deixar aqui nesse vale de lágrimas.”  Assim escreveu Darcy Ribeiro.

Em sublime momento da dança teatral do Cavalo Marinho, mantida pelo povo sobrevivente na Zona da Mata Norte de Pernambuco, ainda se canta a alegria dos Reis Magos que seguem a Estrela do Oriente. É como se estivessem pedindo aos Reis, Sábios do Oriente, que lhes mostre o caminho para que não sejam alcançados pelos soldados de Herodes. Mas eles, os soldados, rodeiam sempre, mandando nas terras que antes pertenciam aos índios. Vivem a contradição das heranças que os navios trouxeram: a morte e a esperança.

Sobre a independência (1)

janeiro 8th, 2022

“Aproveitando a crise napoleônica europeia, os mais claros e sabidos desses crioulos, orgulhosíssimos de não serem índios, decidem fazer a independência. Eram movidos tanto pelo amor à liberdade como pela curiosidade de experimentar novas formas de governo; mas, sobretudo, pelo desejo de acesso aos altos cargos da administração do Estado, de embaixadores, de generais, de magistrados, de financistas, de empreiteiros. Madri muda-se assim para a cidade do México, da Guatemala, de Lima, de Quito e La paz para continuar exercendo, dali, sua função civilizatória sobre a indiada que teimava a continuar índia, apesar da vil tristeza da vida que tinham como índios de uma civilização alheia.” Dary Ribeiro.

Alguns anos depois, Lisboa foi para o Rio de Janeiro.

Sem olhar para cima e para os lados

dezembro 30th, 2021

Sem olhar para cima nem para os lados

Severino Vicente da Silva

Somos tentados, sempre, a escrever algo no período final do ano, em sua última semana. Quase sempre vem a ideia muito comum de fazer uma retrospectiva, um olhar para o que foi feito. Os católicos diriam que é como um exame de consciência, daqueles que se faz, ou se fazia, minutos antes da confissão semanal. Outros faziam, ou fazem ainda, a cada noite, antes do agradecimento pelo dia e, então, adormecer. Mas os exames de consciência e os exercícios espirituais de Santo Inácio de Loyola, um pouco na direção do que fazia o Mestre Eckhart, uma reflexão pessoal na relação com a divindade na busca do aperfeiçoamento espiritual, não são muito populares atualmente. E este é sempre um caminho a ser vencido sozinho e, simultaneamente, com todos que estão a nosso lado, desde aquele com quem travo contato diário até aqueloutro que jamais vi e verei. Pensamentos como esses permeiam o universo humano nesses dias rituais da passagem de um tempo para outro, de um tempo já vivido, e aparentemente conhecido, para outro que começa a ser feito por desejos a serem tornados fatos e dados na vida nova que se promete.

Então vi um filme que está sendo bastante comentado, o Não Olhe para Cima. Segundo alguns amigos, é um filme que segue o comando hollywoodiano na direção de um Oscar, que talvez não virá; para outros apresenta a perplexidade do homem moderno em não perceber o que realmente anda fazendo enquanto se diverte sempre, seja na apresentação de um telejornal que deveria ser informativo, até ao exercício da presidência, um brinquedo que alguém recebe para encobrir as verdadeiras ações que comandam a bolha coletiva da humanidade, formada por uma imensidão de bolhas individuais que, em alguns momentos, tangenciam-se. Pretende ser um filme sobre dois pontos cruciais no momento que vivemos: o negacionismo, essa prática de negar o óbvio que pode impedir o divertimento, e o final da terra, e o Final do planeta.

Um dos aspectos não negligenciados pelos responsáveis na organização do filme, é a pretensão do Destino Manifesto dos USA; o enredo mostra que a manifestação deste destino se dá sempre através de guerras e da empáfia que acompanha, vem acompanhando, aquela nação desde que superou a fase de ser colônia da Inglaterra. O filme termina ao explicitar o fracasso dos USA em cumprir o seu destino de salvar a humanidade. Além de gritar Não Olhe para cima, os que pretendem salvar o mundo não conseguem olhar para os lados e, quando olham, só conseguem enxergar os inimigos de sempre: a China, a Rússia, o Japão…. Motivo de alegria quando se sabe que eles fracassaram em seu intento de salvar a terra. Mas os risos marotos, os comentários não ditos, parecem indicar que teria havido sabotagem no evento que destruiu as bases de lançamento dos foguetes salvadores, os foguetes daqueles povos que fazem parte do “resto da humanidade”, aqueles que não aceitam a imposição de que não foram destinados a essa tarefa sotereológica.

Pedagógico, o filme apresenta os que realmente comandam os povos e estados, esses investidores que não aceitam serem chamados de empresários, que se apresentam como pessoas altruístas e sempre prontas a sacrificar a vida dos outros para preservar o melhor da humanidade, eles mesmos. Eles sempre pensam em viagens a outros mundos, outras possíveis “terras” e povoá-las com as normas que foram criadas ao longo dos séculos, mas repaginadas em períodos mais recentes, os modernos. Nestes, os científicos, criaram novas explicações, aplicaram as matemáticas na organização de uma nova maneira de viver, atualizaram os comportamentos, explicaram o que foi realizado enquanto abriram caminhos novos para a humanidade. O filme, que trata das angústias de dois cientistas que descobriram a chegada do fim do planeta, os apresenta como essas crianças curiosas, mas incapazes de performarem decentemente em um programa matinal de televisão, e ninguém os leva a sério. Apresenta-se a comunidade científica como assessores, sem poderes, apenas levados a sério se confirmam a segurança tomada pelos políticos, financiados pelos empresários que se apresentam como filantropos.

O viés do central do filme parece ser o de querer chamar atenção ao fato de que a sociedade, infantilizada pelo consumo permanente da alegria feérica, não considera que o fim do planeta vem de cima. Então os diretores, parece, estão se dando por vencidos, pois poucos levaram a sério o que disseram e mostraram anteriormente no documentário Uma Verdade Inconveniente, aquele filme que incitava a olhar para os lados, e entender que o modo de vida assumido vorazmente pela sociedade de consumo estava pondo em risco a vida do planeta, portanto a vida dos humanos. Mas a sociedade, convidada a consumir-se consumindo, produzindo o lixo que intoxica as artérias do planeta, apenas achou o documentário interessante. Ao perceber o fracasso do seu apelo para que olhassem para os lados e ao redor, e verificassem o fim das florestas, a impermeabilização do solo, a intoxicação da terra que aumenta a produção de alimentos e o aumento da fome, alguns cientistas aceitam ser apresentados como bobos da corte, mas não conseguem duas coisas: arrancar o riso e convencer a audiência.

Então, é só esperar pelo fim na última ceia, sem a promessa da ressureição.

Recife, o amor

dezembro 21st, 2021

Recife, o amor.

Severino Vicente da Silva

O alagoano Pedro Ivo, na simplicidade poética que ainda o faz desconhecido das mais novas gerações, pôs, no verso, o imenso amor por uma cidade: “Amar mulheres, várias, amar cidades, só uma – o Recife.”

Amar é dar-se, simplesmente dar-se enquanto cuida para que nada falte a que tem nosso amor. Amar o Recife, conhecer seus espaços iniciais, as construções levantadas por outros amantes que a embelezaram, cuidar para que a beleza que foi construída com sofrimento, alegria, angústia, contentamento, mantenha-se. Amar o Recife, mais que passear por suas entranhas e artérias, é sentir como Aldemar Paiva, o pulsar do coração da cidade; dizia ele a cada manhã, ele alagoano gritando o amor, cada manhã dizendo, cantando Pernambuco você é meu. Amar o Recife, manter o coração da metrópole, fazê-lo forte, saudável, atraente, viver as seduções de suas ruas, lembrar as que roubaram espaços dos córregos, dos mangues e, depois foram tomadas pelas novas ou com novos nomes. Amar o Recife é acompanhar os caminhos crescidos paralelos ao rio, então formoso, caudaloso, Capibaribe. Amar o Recife é subir ao Morro da Conceição para visitar a Virgem, e descer do morro e visitar a Virgem do Carmo. Amar o Recife é viver desses amores por Maria.

Eram meados dos anos cinquenta quando o recifense Mário Melo disse que o Recife que ele estava vendo crescer já não era mais o seu Recife. O Recife crescia, mas caminhava para deixar de ser a terceira cidade do Brasil; o Recife crescia, na mesma época Gilberto Freyre dizia, como um sapo a querer ser boi.

Bonita, a cidade atraia os pobres matutos, assustando os ‘capitalistas’ e os matutos ricos, senhores de antigos engenhos, que ocuparam antiga rua dos Coqueiros, rebatizada com a nobreza do conde que fizera do Recife quase uma Paris, com suas praças protegidas por cercas de ferro.

Foi nesse Recife que nasceram Mário Melo (1894-1959) e Gilberto Freyre (1900-1987). O jornalista/historiador, bem como o sociólogo/escritor cresceram no mesmo Recife de Ulisses Pernambucano (1892-1943) que não chegou a conhecer o Recife que se fazia desconhecido daquele que, organizando o carnaval de rua feito pelo povo, domou o ímpeto do brinquedo que nascia dos anseios libertários; não mais o sentimento dos antepassados dos senhores de engenho que, ao longo do século XIX abandonaram Olinda, mas uma outra liberdade que ocupava as ruas frevendo nas estreitas ruas do Bairro de São José. Nos anos cinquenta, pouco antes de Nelson Ferreira nos lembrar que Mário Melo “partiu para a eternidade”, o Recife acatava e ‘acomodava’ os matutos pobres nos morros da Zona Norte, próximos da Virgem da Conceição, onde já haviam se instalado alguns tangidos pela renovação do Porto do Recife, pela Campanha contra o Mocambo. Aliás, os mocambos foram defendidos por Gilberto Freyre contra a ação profilática e ‘embelezadora’ de Agamenon Magalhães, sertanejo de nascimento (1897) mas recifense na amorosa morte (1952). Nos mocambos, o Dr. Ulisses Pernambucano encontrou uma manifestação do sagrado que era confundida com doenças mentais ou com superstições próprias de um povo que precisava ser educado, civilizado, controlado, no pensamento do sertanejo e, se não possível fosse, que fosse colocado para além do ‘Brejo dos Macacos’. O Pernambucano Ulisses sai em defesa dessa cultura com os limites culturais de seu tempo. Enquanto isso Gilberto Freyre queria perceber uma sociedade democrática, nascida de uma escravidão ‘menos violenta’ que a praticada em outras partes do continente. Quem não apanha palmada não sabe a dor da palmatória.

Mário Melo buscava construir uma história com os heróis das “revoluções irredentas”, as revoluções ocorridas no Recife: a dos mascates, dos padres e de alguns senhores de engenho e gente. No Recife, Gilberto Freyre fazia a história da família patriarcal e Ulisses Pernambucano descobria a necessidade de atenuar a ação da polícia sobre os trabalhadores que ainda eram tratados como “escravos de ganho”, e lutavam bravamente para criar e fortalecer laços de famílias, a celular e a extensa. E lá estava Maria Júlia do nascimento, nascida no Recife de 1877 e que morreu no Recife de 1962, era Dona Santa, rainha do Maracatu Elefante, que tendo sobrevivido ao poder persecutório da ditadura varguista, personificada por Agamenon Magalhães, que chamou Recife de cidade cruel, por jamais ter-lhe dado uma vitória eleitoral, talvez em cumprimento ao tratamento que ele e sua polícia dedicara aos recifenses pobres, nascidos na beira dos mangues, alimentando-se dos caranguejos e sempre a serviço para os trabalhos mais duros para o bem estar da cidade. Quem notou e anotou este Recife foi Josué de Castro, recifense nascido em 1908, e morto em Paris, em 1973, exilado da cidade e do país que tanto amou. Deve ter morrido com saudade da capital da saudade. Mas antes, e por amar o Recife, tornou-se o estudioso da fome que as varandas das casas grandes dos engenhos e dos palacetes construídos nas ruas e avenidas com nomes da nobreza do século XIX não conseguiam ver ou compreender.

É certo que o Conde da Boa Vista amou o Recife e quis o seu bem; não duvido do carinho de Mário Melo pelo Recife, suas histórias heroicas e seus carnavais, defendendo o frevo, o maracatu, e até mesmo o índio que Gilberto Freyre tem dificuldade de enxergar; Ulisses Pernambucano é outro amante da cidade e cuidador de seu povo, dos xangozeiros e catimbozeiros; Ulisses Pernambucano, sim, poderia dizer que o Recife seria uma “cidade ingrata”, mas não o disse e por ela morreu perseguido pelo interventor, que não amava a cidade, mas gostava da ordem e da lei, sempre a seu favor; o amor de Ulisses Pernambucano foi uma das garantias para Dona Santa e os maracatus.

Quando hoje olho e experimento os atuais ares do Recife, vejo o decair do gosto que os prefeitos, desde a segunda parte dos anos sessenta do século passado, têm para com a cidade. Quando caiu a Matriz do Corpo Santo, ergueu-se o “Recife Antigo”, mas quanto derrubaram a Igreja do Bom Jesus do Martírio, com o aval de Gilberto Freyre, apenas o vazio foi colocado em seu lugar e, parte do povo que ali morava e sua cultura perdeu-se, perdeu-se bem mais que os cultos afro-originários perseguidos na década anterior. Os que saíram dos seus engenhos de ‘fogo morto’ com a chegada das usinas, abandonaram o Recife, para onde se dirigem, agora, só em tempo de Carnaval, acompanhando um Galo que matou o carnaval que Mário Melo defendeu.

Ah! Recife, minha ilha de água doce, como está ficando amargo te ver hoje.

Anúncio de Natal não é anúncio natalino

dezembro 6th, 2021

Anúncio do Natal não é anúncio natalino

Severino Vicente da Silva

 A jornada de dezembro é sempre uma oportunidade que se tem para que demonstre o esvaziamento das festas singulares do mês, que, para muitos é carregado de tristeza por que lhes falta alguma pessoa amiga na Ceia de Natal. Historiadores céticos, nos lembram que junto com o Papai Noel vem sempre acompanhado por um monstro, Krampus, encarregado de cuidar das crianças pouco educadas e não bondosas. Assim, é o medo, e não o desejo de fazer o bem ou ser bom, o profundo motor do natal, sendo o Papai Noel apenas o obnubilador, o que esconde o mal, a tristeza e o medo.

Sabemos que esse mito do Papai Noel não faz parte do Natal festa que é bem mais remota que a existência do São Nicolau, bispo cristão católico que tinha preocupação com as crianças. Quando Francisco de Assis fez o seu primeiro presépio, ele o fez para adultos, uma vez que, em seu tempo, esses conceitos de criança, de tempo infantil, não existiam. Criança eram os soldados de frente em uma batalha aqueles que seriam os primeiros a morrer no “campo de honra”, como descrevem aqueles que, à distância” decidem os que vão morrer. Infância é outro termo que não existia, como aplicamos hoje, à época de Francisco. Tais conceitos são próprios dos tempos modernos, quando as condições alimentares melhoraram e a morte visitava menos as famílias, permitindo a sobrevivência maior dos filhos. É a partir do século XIV, do Renascimento que as crianças e a infância começam a ser consideradas. Ainda na Primeira Revolução Industrial é grande o número de crianças postas a trabalhar mais que dez horas por dia, não lhe permitindo ter a infância, como a vemos nos dias de hoje. Aliás, nas periferias de nossas cidades, essa sociedade que está sempre em processo de atualização e a realizando de de maneira desastrada, ainda temos desastrada, ainda temos milhares de crianças sem infância. Em verdade infância quer dizer “sem fala, sem fonte”. Então, o bispo Nicolau estava muito preocupado com as crianças que estavam sendo carregadas por Krampus, que as levava para o trabalho nas minas de carvão, nas fábricas de tecido, etc. Melhor não, caro historiador progressista e cético, não destruir tão facilmente as ações do bispo da cidade turca de Mira.

O Papai Noel como o conhecemos em seu traje vermelho e branco, é resultado de um poema sobre a visita de São Nicolau e um cartum com a figura posto por um cartunista, em 1823. No final daquele século veio também a popularização da Árvore de Natal, uma tradição religiosa pré-cristã, que foi ressignificada pelo trabalho missionário de São Bonifácio, ainda no século VIII. Essas tradições, aceitas pelos cristãos – católicos, protestantes e ortodoxos, foram assimiladas à sociedade industrial de consumo.

O Lixão são lugares que recebem as sobras do consumo, lixo que vem das casas e dos restaurantes, como o de Pinheiros, no Maranhão. João Paulo Guimarães estava ali fotografando, que é o seu trabalho quando observou uma criança que, junto com sua mãe, buscava o que comer, estava retirando do lixo uma árvore de natal, feita de plástico, e dizer: vou levar para casa, porque eu nunca tive uma árvore de natal, ela está torcida, mas a gente conserta. A cena comoveu o profissional que passou a ajudar Gabriel, a criança que passou a ser um ser humano, mais que uma matéria para algum jornal. João Paulo foi tomado pelo espírito de São Nicolau em pleno espaço criado pela sociedade do desperdício, o que parece ser o saco de maldade Krampus, mas é o resultado de ações de adultos que confundem o bispo Nicolau com a figura gorda, de falso riso com as cores de refrigerante.

A árvore de natal, feita de plástico, encontrada por Gabriel trouxe, em seu riso, todas as tradições de fertilidade que marcam a permanente busca da humanidade que ainda não conseguiu vencer Krampus, esse ser egoísta que não gosta da felicidade do outro, mas que se alimenta da produção de miséria. Mas o sorriso que brotou dos lábios e do peito de Gabriel, parece realizar o sonho Francisco, na sua pretensão de mostrar aos adultos que Jesus foi uma criança, que as crianças devem ser cuidadas e não mortas, como denuncia o relato das ações de Herodes, o Grande, o Krampus daquele momento.

Crianças precisam de serem reconhecidos infância, não devem ser tratadas como força de trabalho, nem devem ser treinadas para serem consumistas. Não encantou Gabriel os plásticos que foram brinquedos dos ricos e da classe média que julga sê-lo, encantou o menino que ajudava sua mãe em busca de o que vender para comprar comida, foi a Árvore, o símbolo da vida; a árvore que lhe fez sorrir e que derreteu o coração de João Paulo Guimarães, que, parece estar vivendo e, como o riso de Gabriel, um Novo Tempo, o tempo do Natal.     

Uma ajuda a um historiador que deseja “desnaturalizar” uma visão sobre Dom Hélder

novembro 27th, 2021

Em junho deste ano escrevi um texto a respeito de artigo publicado em livro organizado pela professara Marcília Gama e por Thiago Nunes, no qual o autor dizia: “no decorrer deste capítulo, dedicaremos nossos esforços desnaturalizar uma visão de que Dom Hélder Câmara sempre esteve na oposição do regime ditatorial no Brasil, 1964 a 1985”. Para ler o que disse, à época, demonstrando a falácia do historiador, envio para o link  http://www.biuvicente.com/blog/?p=3300

Pois bem, volto ao tema para citar Chico Assis, militante do PCB, relatando a sua experiência e a de seus companheiros. publicado por Pedro Eurico em seu interessantíssimo O DOM QUE VIVE EM NÓS, publicado esta semana pela CEPE. Transcrevo: Mesmo nesse período de militância havia uma vinculação, e dom Hélder funcionava sempre como aquele que na hora do aperreio sempre a gente podia contar – era o porto seguro -, e por mais que existissem os preconceitos ideológicos tudo mundo reconhecia nele um cara de coragem. Desde o início, né?! Desde o Rio de Janeiro o cara já veio com uma história. Essa coisa de preconceito ideológico inda mais porque no início da vida ele tinha sido integralista (risos), aí havia toda uma resistência. [118]

A pressa de escrever, olhando apenas documentos, e utilizando apenas o óculos social que lhe foi dado por algum interesse, faz surgir Torquemada em cada linha. Dom Hélder foi bastante perseguido em sua vida, os que com ele convivemos sabemos o quanto sofreu e como foi capaz de viver o processo histórico. Aliás, Pedro Eurico publica a entrevista que tirou o Dom do silêncio, entrevista que concedeu a Divane Carvalho Fraticelli, o nosso historiador, quando a ler, entenderá que ele precisa ser mais cuidadoso nas suas conclusões.