Matuto e matutos

julho 2nd, 2021

MATUTO E MATUTOS

Severino Vicente da Silva

Nos anos finais do século passado frequentei algumas regiões do “interior” de Pernambuco, o Sertão, aquela parte geográfica do país mais distante do litoral, pude compreender certos mitos, verdades aparentes que me foram ensinadas nas salas de aulas e nas ruas, e que foram absorvidas, com algum preconceito, a respeito do Sertão e o seu modo de viver. Frequentando a região e conhecendo algumas franjas do viver das pessoas, aprendi coisas novas, de modo que o Sertão ficou sendo também a minha terra, fui me tornando sertanejo. Como cresci quase cheirando o mar, tudo que não era do litoral era-me estranho. Convidado para ir dividir com jovens sequiosos de saber o que havia aprendido ao longo de minha vida, nos bancos escolares e em outros lugares, a ida ao Sertão deu-me oportunidade de lenta e quase inconscientemente, compreender que havia aprendido pouco. O que não quer dizer que o Sertão sabe tudo, mas a experiência de ter vivido lá alguns finais de semana, foi valiosa para entender novos caminhos. Eu já estivera em outros lugares além das ruas do Recife, a cidade que me desafiou a viver do magistério. Cresci vendo enchentes do rio que desce desde o Agreste para criar uma ilha em cooperação com o Oceano Atlântico, e ainda outra com um rio matuto; cresci no Recife sentindo o vento solto de agosto, fazendo levantar as saias da moças nas esquinas dos prédios levantados à beira do rio, zombando das palafitas formadoras das favelas fluviais; acompanhei as chuvas que serrilham o barro dos morros ocupados corajosamente por uma gente que, como minha família, chegou da Mata; tudo isso era o meu mundo, e me fez.

E quando voei para longe, fui por cima, tão alto e tão rápido que pouco aprendi no trajeto, mas a surpresa da vida com objetos e pessoas tão distintas que lá encontrei encantou-me. Encantados não aprendem, embora o encantamento inicial pode vir a ser um dos caminhos do aprendizado. Viver com o encantador nos põe em contato com seus segredos e, podemos alcançar suas fragilidades.

Hoje observo que houve um tempo que eu não, queria ser matuto, desgostava-me que assim me vissem. Viver no Recife é aprender a não ser matuto. Matuto, diz o dicionário, “é aquele que demonstra timidez, retraimento, desconfiança”; do matuto também se diz que é “indivíduo que vive no campo e cuja personalidade revela rusticidade de espírito, falta de traquejo social; caipira, roceiro, jeca”[i].  Ser matuto é ser descriminado negativamente.

Engraçado é que houve um momento em que uma Junta de Matutos, afastou do governo Gervásio Pires Ferreira, revolucionário de 1817, escolhido na Convenção de Beberibe (1821) para governar Pernambuco, primeira região livre do domínio dos portugueses.[ii] Quem e o que eram esses “matutos”, será que a sua ação aprofundou, ou criou, esse sentimento nos recifenses?

Aqueles Matutos eram senhores de engenho, membros das tradicionais famílias Albuquerque e Cavalcanti, a quem se atribui os maiores feitos da história pernambucana. Após terem participado de conspirações e revoltas contra o poder colonial em 1801, e mesmo em 1817, eles foram seduzidos pelos projetos de José Bonifácio de Andrade e Silva, cuja carreira política se fez sob a proteção dos Bragança. Ao Regente uniram-se após o Sete de setembro de 1822, o regente de Dom João, aqui deixado para evitar que aventureiros se apossassem das terras conquistadas pelos lusitanos. Então, os Matutos, os donos de terra e escravos, abandonaram os ideais de Frei Miguelinho, padre João Ribeiro, Padre Tenório. Mais tarde derrotaram a Confederação do Equador, que levou Frei Caneca ao arcabuzamento anônimo, pois os recifenses, livres ou escravos a quem prometiam liberdade, recusaram colocar as cordas no pescoço do patriota recifense. Não quiseram ficar como os “Matutos”.  Mas não se manda se não se tem a quem mandar.

Por crescer no Recife, sendo matuto de Carpina, retirante para o litoral, aprendi a não gostar de matutos, tornei-me recifense. Os do Recife, sem saberem, refazem a historiografia silenciosamente, enquanto o historiador oficial conta a vitória dos Matutos e, procura entender porque sua história é tão rica, mas fica perdida na bagaceira.

Neste período de celebração de dois séculos da independência de Pernambuco, há que se lembrar que houve uma disputa interna na elite, sendo uma parte mais enamorada dos ideais republicanos e de autonomia em relação ao Rio de Janeiro e à Lisboa, e outra parte mais próxima do projeto dos Bragança, sob a liderança de José Bonifácio, apoiada nos setores mais conservadores e monárquicos, pois a monarquia lhes servia mais. Entre 1821 e 1825 houve muita troca de lugares na política, para finalmente os Matutos, senhores dos engenhos da Zona da Mata, continuarem a cavalgar a Província. O professor Marcus Carvalho nos lembra que se pode dizer

 com razoável segurança que 1824 não foi uma aventura republicana pura e simples, mas uma radicalização desesperada, o desdobramento trágico das tentativas de tomar o poder feitas pelas facções das elites que não queriam se aliar ao projeto centralista e autoritário vindo do Rio e que, por alguns meses, chegaram a preferir a manutenção do status de reino unido, desde que dentro do modelo federalista e constitucional adotado, por algum tempo, pelas cortes a partir de 1820.[iii]

Hoje sei que não devo colocar, juntar, no mesmo espaço social, os que formaram a Junta dos Matutos e os matutos que vieram a formar as residências que ocupam os morros da Macaxeira, Nova Descoberta, Vasco da Gama, Córrego do Euclides, Beberibe e os becos do Arruda. Afinal são Dois Séculos no qual assistimos os dois matutos: um que é Cavalcanti e sua parentela, o outro que é o cavalgado. Por outro lado, compreendo que são duzentos anos de reclamações dos cavalgadores em relação às esporas e freios que lhes são postos desde que, para garantir a limpeza de suas botas, aceitaram por medo de uma haiatização, o café sempre servido sem açúcar.


[i] https://www.google.com.br/search?q=matuto+significado&sxsrf=ALeKk02kQR31dIE56D4vCyn89MmqF9mJXw%3A1625139690208&source=hp&ei=6qndYOCwCtS85OUPw4KiwAo&iflsig=AINFCbYAAAAAYN23-poUJFBYITiB1RkOIcN-BbCJdZLu&oq=matuto&gs_lcp=Cgdnd3Mtd2l6EAEYATIFCAAQsQMyAggAMgIIADICCC4yAgguMggILhDHARCvATIICC4QxwEQrwEyAggAMgIIADICCC46BAgjECc6CAguELEDEIMBOgUILhCxA1CgR1i_S2C_dmgAcAB4AIABkwSIAdYMkgEJMi0xLjEuMC4ymAEAoAEBqgEHZ3dzLXdpeg&sclient=gws-wiz. Visto em 1º/07/21.

[ii] CARVALHO, Marcus J. M. de. Cavalcantis e cavalgados: a formação das alianças políticas em Pernambuco, 1817-1824. https://doi.org/10.1590/S0102-01881998000200014

[iii] CARVALHO, Marcus J. M. de. Cavalcantis e cavalgados: a formação das alianças políticas em Pernambuco, 1817-1824. https://doi.org/10.1590/S0102-01881998000200014

São João, do Carneirinho à decapitação

junho 24th, 2021

A festa dedicada a São João está passando. A tradição conta que os fogos e traques diversos são uma maneira de acordar o santo para que ele não perca a festa. Assim é que foram criados o Acorda Povo, para que todos cheguem a tempo para a festa, inclusive o santo que era atento aos “sinais do tempo” e anunciava que um tempo novo estava chegando, um tempo que ele não sabia como seria, pois que o futuro não é para os profetas dizerem, os profetas explicam os acontecimentos, notam quando um modelo já foi vencido pelo tempo e, a humanidade carece de viver novos tempos. Conta a tradição que, quando estava na prisão, ele procura saber, do profeta que anunciou, se agora começava o tempo que ele anunciava, se ainda deviam esperar outro. A resposta veio como um enigma, de acordo com os relatos de Mateus e Lucas (7:22-23): Ide e anunciai a João o que tendes visto e ouvido: os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e aos pobres anuncia-se o evangelho. 23 E bem-aventurado aquele que em mim se não escandalizar.

Este foi mais um ano em que a festa da fecundidade da terra não foi celebrada, especialmente no Nordeste do Brasil, onde a louvação a São João do Carneirinho (papai gostava dessa especialmente) coincide com a Festa do Milho, a sua colheita, acompanhada com muitas iguarias que eram feitas coletivamente nas famílias, um ritual que começava desde a manhã, desde a descasca do milho, sua limpeza, ralamento, preparo e cozinhamento de pamonhas e canjicas. Estavam envolvidas crianças, que tomavam para si as ‘bonecas de milhos’ e as colocavam em pequenas camas feitas com as palhas rejeitadas para as pamonhas. Enquanto isso o milho era raspado para depois ser lavado e dele tirar o leite necessário para a pamonha e a canjica. Enquanto preparavam o fogo, outros cuidavam de armar a fogueira que chamaria todos à noite, para conversas, compromissos, advinhas. Tudo em louvor da vida, em busca de saber sobre o amor e o futuro. A festa de São João é um louvor à criação e continuidade da vida. Mas, agora já são dois anos sem a festa, sem os folguedos, as brincadeiras. Neste tempo temos que encontrar outras maneiras de celebrar a vida, pois que se anuncia um novo tempo, um tempo, talvez, mais isolado, com menor vida comunitária. Parece que estamos sendo empurrados para viver em nossas cavernas com temor de alguns aspectos da natureza que nos são adversos. Foi assim antes da invenção do modo de fazer fogo. Com o fogo por ele criado, o homem venceu o medo, embora não o tenha destruído. O medo parece ser um motivador para a superação de etapas no movimento de humanização.

Vivemos, agora, muitos medos: medo de que não possamos deter os que pretendem esvaziar e destruir nosso esforço para viver democraticamente; medo de descobrir que nosso desejo de “tortura nunca mais” não foi o suficiente, nem em nosso país nem nos outros, de para impedir que os apologetas dessa prática hedionda da humanidade reaparecesse tão vigorosamente; medo de que a ciência que inventamos não tenha sido uma aliada mais decisiva nesse processo de humanização, pois que, por ser neutra, permite todos os tipos humanos dela se aproximarem, a seduzam e a utilizem para manter e fortalecer o medo para tomar os nossos destinos.

A mais longa epidemia vivida pela humanidade, expõe nossa fraqueza, nossa imprudência. Somos uma sociedade imprudente, pois demoramos a pôr fim à escravidão como maneira de produção econômica e a tornamos como forma de relacionamento social, daí a vitória dos torturadores entre nós. São João do Carneirinho, se tornou o São João pregador no deserto e anunciador de novo tempo, sofreu a tortura da prisão (um dos autoenganos de nossa sociedade é pensar que a tortura é só a física e que torturador é apenas aquele que está na sessão de pancadaria) e finalmente a decapitação. Mas nunca se deixou dominar pelo medo, embora a pergunta que mandou fazer nos mostra que por um instante temeu ter-se equivocado. Deve ter compreendido        que para superar o medo é necessário continuar a fazer com que  os cegos vejam, os coxos andem, os leprosos sejam purificados, os surdos ouçam, os mortos ressuscitem e aos pobres anuncie-se o evangelho.

 E bem-aventurado aquele que em mim se não escandalizar.

Desnaturalizar ou atacar? Um pequeno comentário

junho 13th, 2021

Severino Vicente da Silva[1]

Ao buscar textos a serem utilizados em suas aulas, o professor de história busca os historiadores para leitura e indicação aos futuros professores, buscando atualizá-los, no que pode, com as pesquisas em seu campo de magistério. Assim é encontrei, para serem utilizados nas próximas disciplinas que irei lecionar no curso de História da UFPE, encontrei a bela coleção organizada pelos historiadores pernambucanos Marcília Gama da Silva e Thiago Nunes, Pernambuco na Mira do Golpe, publicada pela Editora Fi, do Rio Grande do Sul, em 2021. Obra de fôlego, em três volumes com artigos importantes e necessários de serem lidos e estudados pelos que desejam esclarecer e conhecer, na medida do possível, os atos e as intenções daqueles que viveram e protagonizaram aqueles tempos difíceis, os tempos da ditadura militar, que tanto limitou Pernambuco nos mais diversos campos sociais, políticos, econômicos e culturais.

O primeiro volume dessa bela coletânea, é dedicado à Educação, Arte-cultura e Religião. Neste volume encontrei o artigo Amigo ou inimigo: Dom Hélder Pessoa Câmara e os primeiros anos da ditadura militar (1964-1966) escrito pelo historiador Márcio André Martins de Moraes. Chamou-me atenção o título e o objetivo que levou o historiador a escrevê-lo, e que está explicitado já na primeira frase: “No decorrer deste capítulo, dedicaremos nossos esforços a desnaturalizar uma visão de que Dom Hélder Câmara sempre esteve na oposição do regime ditatorial no Brasil, 1964 a 1985.” [490]

Achei interessante que o historiador não pretende compreender a atuação do arcebispo nos primeiros momentos de seu ministério na diocese que lhe foi confiada, mas, parece, já tem um objetivo claro antes de iniciar sua pesquisa e quer prová-la, e para isso vai aos documentos. Não procura os documentos para perguntar o que eles dizem, mas procura aqueles que dizem o que deseja. Creio haver aí um desentendimento metodológico, uma vez que devem ser perguntas a orientar o trabalho do historiador que é, de certa forma, um investigador. Claro que há hipóteses que devem orientar a busca dos documentos e a sua leitura, mas o investigador não prejulga as fontes e o objeto de suas pesquisas, parece-me.

Mas de onde é que vem essa informação de que se naturalizou a ideia de que “Dom Hélder Câmara sempre esteve na oposição do regime ditatorial no Brasil”, uma vez que não se apresenta ao leitor nenhum documento que dê cabimento a tal afirmação? Contra que demônios está lutando o nosso historiador? Será que o nosso historiador esqueceu de ler artigo publicado por José Comblin, no livro Dom Hélder Pastor e Profeta, publicado em 1983, pela Editora Paulinas, por Maria Bernarda Potrick? Eu o cito em minha obra Entre o Tibre e o Capibaribe: os limites do progressismo católico na Arquidiocese de Olinda e Recife, publicado em co-edição da Editora Universitária-UFPE e Reviva, no ano de 2006 e segunda edição em 2014. Naquele artigo, o padre e sociólogo José Comblin, após dizer que Dom Hélder Câmara foi uma dos primeiros que tomaram posição aberta para denunciar os abusos e a falsidade interna do sistema, diz que após ter estimulado uma política de colaboração com o regime, o arcebispo teve que modificar as mentalidades do episcopado e da Igreja, para adaptá-los a uma política de confronto e separação. Não há naturalização da postura “amiga” de Dom Hélder em relação ao seu comportamento nos dois primeiros anos à frente da Arquidiocese. Ao contrário, há uma visão crítica e sem preconceitos.

Como bem notou o autor do referido artigo, a separação clara ocorreu no desentendimento de Dom Hélder com o general Muricy, relatado muito bem por Kenneth Serbin, no seu Diálogos nas sombras. Lá está dito, também, que a amizade entre os dois era antiga, tendo Dom Hélder oficiado o casamento do general, mas essa amizade pessoal, antiga e nunca negada pelo arcebispo, não o impediu de agir conforme eram as exigências de sua consciência como bispo e como ser humano comprometido com a verdade. Por outro lado, sempre é bom lembrar que Dom Hélder não participou daquele Diálogo nas Sombras, uma conversa entre membros da hierarquia católica e alguns generais, como o Muricy, que estavam na reserva. O general Muricy estava em busca de resolver a tensão que entre o regime e a Igreja, especialmente aquele grupo mais aguerrido, cuja referência era Dom Hélder Câmara.

Em suma, este pequeno artigo tem o interesse de esclarecer que, embora em conversas de barbearia há quem julgue que Dom Hélder sempre foi contra o sistema, no campo historiográfico já existem obras com visão crítica, mas sem prejulgamentos, sobre o comportamento do arcebispo de Olinda e Recife nos tempos difíceis da ditadura militar.

SILVA, Marcília Gama da Silva; SOARES, Thiago Nunes. (organizadores).

Pernambuco na Mira do Golpe. Volume 1. Porto Alegre, RS: Editora Fi, 2021.

POTRICK, Maria Bernarda. Dom Hélder Pastor e Profeta. São Paulo: Edições Paulinas, 1983.

SERBIN, Kenneth. Diálogos na sombra: bispos e militares, tortura e justiça social na ditadura militar. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.      

SILVA, Severino Vicente da Entre o Tibre e o Capibaribe: os limites do progressismo católico na Arquidiocese de Olinda e Recife.  Recife: Editora Universitária UFPE: Edições REVIVA, 2014.


[1] Professor Associado na Universidade Federal de Pernambuco, Departamento de História. Doutor em História do Brasil pela Universidade Federal de Pernambuco. Sócio da Comissão de Estudos de História da Igreja na América Latina – CEHILA; Membro do Instituto Histórico de Olinda – IHO. ORCID 000000189111409.

Por que a surpresa?

junho 10th, 2021

Há sempre que parecer surpresa, ou temos que parecer surpresos ao ler nos jornais que, em uma pesquisa realizada nos Estados Unidos da América, descobriram que os americanos mais ricos, aqueles que estão entre os cinco mais ricos do mundo, estão entre os que menos pagam impostos naquele país. Essa surpresa, trazida pela pesquisa, adveio do recente debate sobre a taxação das grandes fortunas, debate que vem sendo evitado para que, o mau humor dos homens ricos, não afetem as finanças do país. A querela do imposto sobre as grandes fortunas foi levantada naquele país pelo atual presidente, mas ela vem ocorrendo na Europa já há algum tempo. Soubemos que, ao aumentar o imposto sobre os mais ricos, a França assistiu alguns de seus cidadãos, artistas que dizem ser mais sensíveis aos dramas humanos, migrarem seu endereço fiscal para a Rússia, onde tais fortunas estão protegidas, e eles possam guardar a fortuna que não poderão gastar em duas ou três gerações.

São os mais ricos os que mais usufruem dos benefícios gerados pela sociedade; os trabalhadores que contam os centavos no final de cada mês, buscando fazer que o seu salário coincida com os gastos necessários para a sua sobrevivência, não são beneficiados pela proteção policial, pelos avanços da medicina e da tecnologia; quando seus filhos se perdem não recebem a assistência que os filhos dos ricos recebem com o aparato de bombeiros, salva-vidas, helicópteros para os trazerem de volta para casa com segurança após alguma traquinagem elegante, como subir o Himalaia; os pobres, mas não apenas eles, pois os de classe média que se julgam ricos também, passam a vida vendo como os ricos gastam suas férias em praias paradisíacas. Os mais pobres não podem pagar advogados e técnicos de classe média que os orientem para encontrar falhas do sistema tributário, falhas que são postas quase de propósito, no intuito de enganar a Estado. Os ricos sabem dessas leis, pois eles é que financiam as campanhas de futuros legisladores, os fazedores de leis “falhadas”. O Estado é o seu Estado; relutantemente eles permitem que algumas das conquistas da humanidade estejam ao alcance de todos, ou de um número maior do que seus conhecidos. Afinal, se esses benefícios estiveram ao alcance de todos, qual a vantagem de ser rico? Ser rico é ter riqueza que já não se pode contar, e isso só é possível com a construção da pobreza, da miséria. Não são as fortunas que são construídas, é a pobreza e a miséria que são cultivadas, diligentemente, para que apenas alguns possam ter acesso aos bens que o trabalho de todos produziu. E para isso que alguns constroem exércitos, recrutando os famintos, em troca de migalhas, para que defendam aquilo que deixou de ser da comunidade, e agora pertence a bem poucos. Durante séculos os monarcas tornaram-se protetores de si mesmos ao convencerem os demais que os protegia dos que punham em risco o poder. As narrativas nos mostram como alguns amantes do poder convenceram outros amantes do poder, mas com menor sucesso e, juntos, impuseram o medo aos demais; ao mesmo tempo oferecem a possibilidade de um pedaço de poder aos que se dispuserem a defender a causa do monarca. E esse estratagema tem dado certo, e vem passando de geração em geração.

E nos surpreendemos, ainda, de que os ricos roubem a sociedade.

Mas sabemos bem que as pandemias são oportunidades para fazer crescer as fortunas e os infortúnios. Lá eles fazem pesquisas julgando que a ética protestante vença o espírito do capitalismo; aqui fazem-se CPI, para que os famosos do momento mostrem as suas habilidades de dissimulação e submissão ao que lhe oferece a riqueza ou a sensação de ser diferente, mais afortunado, dos demais.  

Como justificativa para a continuidade da pobreza, há quem cite “pobres sempre os tereis”, frase dita melancolicamente pelo Filho do Homem. Essa frase, parece-me, é um lamento (Mc. 14:6ss). Ele entendeu que o desejo de ajuntar coisas é mais cultivado, pelos homens e mulheres, do que o desejo de ajudar pessoas. Entendo ser um lamento porque, em outro momento, eis que o Ele disse a um jovem rico que procurava ser justo e digno: Vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres. A narrativa diz que o jovem rico ficou triste pois tinha muitos bens. (MT. 19:16-22) O jovem entendeu que ele deveria ser pobre, ser livre dos muitos bens que tinha. Como deixar a razão de seu viver, como deixar de ter seguidores prontos a cuidar de suas botas? Essa história que é narrada por Mateus, vem depois da narração que Mateus, antigo cobrador de impostos, faz para dizer que Jesus pagava imposto o imposto devido (Mt. 17:23-26). O imposto é o que se recolhe de indivíduos para garantir que todos tenham os bens produzidos por todos.

O imposto deveria ser para que o lamento “pobres sempre tereis” possa ser superado, mas os ricos, os que se apoderam de tudo, também ficam com o imposto que não pagam e roubam o imposto dos que pagam.

E ainda nos surpreendemos que os ricos roubem da sociedade.

Severino (Biu) Vicente da Silva

Corpo de Cristo, corpo do Brasil

junho 3rd, 2021

Severino Vicente da Silva

Quem escuta, quem escreve, sabe o quanto as palavras sofrem ao serem ditas, escritas. Presume-se que elas sejam entendidas, que, ao serem ditas e escritas, elas reflitam o que aprendemos que elas dizem. Mas, as palavras, cada uma delas não significam apenas uma coisa, um sentimento, um sentido. Além disso, cada um que as ouve pode escolher um sentido. As palavras podem ser ditas para aproximar e, ao serem ouvidas, terminam por separar. Tão difícil a coincidência entre o emissor e o ouvinte. Sempre há um mistério nesse espaço de tempo entre os lábios e as orelhas. As palavras ditas carregam o momento de sua emissão, além da tensão das pregas vocais e movimentos labiais, tensão que sofre a alma do emissor e a situação da orelha. Toda palavra dita sai em determinado momento emocional e, pode ser a resposta a outro momento; pode ser ação ou reação. As palavras, ditas ou escritas não são puras, são intencionais e toda intenção existe em momentos de incerteza. Todos os momentos são de incerteza. Ainda que dele já haja expectativa, melhor entender que cada momento está cercado por expectativas. E mesmo quando escritas, cabe lembrar que antes de materializar-se em desenhos, as palavras foram pensadas, repensadas, escolhidas, talvez  com o objeto de aparecerem puras, apenas com uma intenção e objetivo, e dessa forma, serem entendidas por aquele que as lerá e as pesará, buscando entender qual, ou quais, a razão de elas terem tomado tal forma. As palavras, cada uma delas é um universo de rotas. E qual é o tamanho do universo?

Cristãos, mais especificamente os católicos, celebram hoje a festa do Corpo de Cristo, uma festa celebrada, segundo a tradição, desde o século IV, uma festa em torno de duas palavras: corpo de Cristo. Tais palavras querem resumir “este é o meu corpo”, e o corpo da humanidade é de sofrimento, de fome, de doenças, de carências, resultado de uma concentração de riquezas; as riquezas produzidas de maneira que tornam os corpos doentes, frágeis, pois estão famintos e quase despojados de esperança que se possa melhorar a situação desses corpos, enquanto outros corpos usam as palavras, o saber e o trabalho em seu benefício. Esta é uma festa difícil, pois implica em entender as palavras Este é o Meu corpo. Interessante que lá, naquele livro sagrado para os que nele acreditam, não está escrito: este é meu espírito. Talvez porque o espírito só é possível alcançar através do corpo. Ah, essas palavras e seus sentido. Qual deles escolher?

Por isso é que surpreende, na véspera da festa do Corpo de Cristo (talvez ele não tenha se apercebido disso) o presidente da República, após um ano e meio de não se perturbar pelo sofrimento causado pelas mortes de quase meio milhão de brasileiros nesta pandemia; após desdenhar das vacinas como uma possibilidade de atenuar o sofrimento causado pela doença que afeta o mundo todo; após rir dos que morrem sufocados por falta de oxigênio, venha dizer que “sentimos muito a morte de cada brasileiro”. Essas palavras estão vazias do espírito da verdade, pois elas não combinam com as outras palavras e expressões ditas pelo presidente. As palavras ditas na noite do dia 02 de junho são vazias de espírito, pois jamais deram atenção à vida corpórea dos brasileiros, portanto de seu espírito.

Na Festa do Corpo de Cristo, havemos que pensar nos corpos dos que morreram dessa doença que o homem da morte não quis enfrentar; devemos pensar nos corpos dos que assistiram a morte de seus queridos, nas dores, nas lágrimas derramadas e, com o espírito renovado, saberemos que, como disse o inspirador da festa: venceremos a morte e os seus seguidores.

Quantas índias há na Índia? Quantos brasil no Brasil? Quantos mortos entre os mortos

maio 29th, 2021

Quantas índias há na Índia? Quantos brasis no Brasil? Quantos mortos entre os Mortos?

Severino Vicente da Silva

O milênio que foi tão esperado como a possibilidade de completar a felicidade, a grande Era de Aquarius, mostra-se mais como o tempo das confusões. Todos parecem confundidos e as crenças religiosas, as mais diversas, invertem os sinais. Houve um tempo, no começo das revoluções, aquelas primeiras no século XVI, que levou as religiões a serem vividas no silêncio das casas enquanto a ciência ganhava as ruas, com publicidade alegria temerosa. Sim, pois certas tendências religiosas uniam-se ao espírito científico para transformar os processos religiosos contra as “bruxas” e outros dissidentes, em alvo de ações jurídicas e sanitárias. Algumas decisões e políticas sanitaristas uniam-se a conceitos religiosos tradicionais que puseram muitos nas franjas da sociedade de então. Os cintos de castidade, tão propalados em sua existência medieval, foram bastante comuns no tempo científico para evitar que rapazes ficassem tuberculosos pela prática do onanismo, condenado em textos sagrados, ou as relações homossexuais, também vistas como doenças até recentemente.

Conceitos religiosos atuaram sempre entre os cientistas. Religiosidades praticadas por gente que se diz científica, se dizem milenares, escudadas em protocolos que remontam ao tempo de Ramsés II. Isso continua sendo experimentado em reuniões de gente “científica” que reclama daqueles que rezam a Salve Rainha ou entregam oferendas aos Orixás. São muitas as comunidades que se formam e se fortalecem neste milênio em torno de ideias não científicas, ideias são divulgadas pelos meios técnicos e científicos presentes em residências que as podem pagar. Aliás, este novo milênio é o milênio em que ficam cada vez mais separados os que podem pagar e os que nada podem possuir. O fosso que separa os pobres dos ricos está cada vez mais largo e profundo, profundidade que cresce com o tamanho dos muros que deixam claro quem é quem, e é quem tem. O que seria o milênio da fraternidade tem parecido mais com o milênio da separação. “Pobres sempre os tereis”, frase atribuída ao inspirador do cristianismo parece ser cada vez mais verdadeira, pois que as ciências, a economia é uma delas, vive a aprofundar reflexões e práticas que justificam e aprofundam o fosso e erguem os muros. Como ouvi, em uma reunião no Conselho Estadual de Cultura de Pernambuco, o meu colega, amigo de sonhos, Yves Morpeuax, “além dos muros físicos, há os invisíveis, e esses são os que mais separam, pois o fazem na mente.”

Quando estivermos, ou não estivermos, assando milhos nas milenares, cada vez em menor número,  fogueiras de juninas ou de São João, no Brasil já teremos ultrapassado o meio milhão – 500.000 – mortos pela Covid19, e muitas dessas mortes foram resultantes da rejeição à ciência médica em nome da ciência econômica; outras, ou as mesmas, resultantes da pregação religiosa daqueles que “controlam a vontade de Deus”, nos templos e nas emissoras de rádio e televisão; a maioria desses atingidos mortalmente pela atual peste, eram pobres. E os pobres são a maioria entre os mortos por serem a maioria entre os vivos. E não apenas no Brasil; mas em todos os países, como nos confirmam as notícias originadas da Índia, elas nos dizem que o Rio Ganges tem recebido muitos corpos daqueles que não podem comprar lenha para cumprir o ritual religioso. E, note-se, a Índia é produtora de princípio ativo para as vacinas. Quantas Índias há na Índia?