Em torno do aniversário de Olinda e Recife

março 12th, 2022

Em torno do aniversário de Olinda e Recife

Prof. Severino Vicente da Silva

Então é mais uma aniversário de duas cidades vizinhas, Olinda e Recife. Algumas pessoas dizem que são irmãs e outras falam da relação materno-filial. Ambas recebem uma iluminação especial do sol, uma concentração de luz que, segundo dizem, é a alegria dos fotógrafos. Que seja. Olinda, disse um poeta, é um lugar de desejo, nem mesmo lá se mora, lá, diz ele, é onde se vê. E o que se vê desde as colinas que formam a cidade primeira, é o Recife. Um olindense maldoso, daqueles que carregam o pesar de Olinda não ser mais a capital, dirá que se vê “o aterro”, as terras que foram criadas e tomadas do mar, dos mangues, do rio.

Essas duas cidades são possuídas por rios, sumidos ao longo do tempo em que os homens e mulheres criaram as cidades. Alguns rios sumiram e, vez por outra aparecem e, como outras cidades, ocupam as ruas que os sufocaram. Assim foi com o rio Bultrins, o rio Tapado, o rio Fragoso, o rio Doce, o rio Beberibe, que vem desde Camaragibe, como resultado do abraço dos rios Paca e Araçá. Todos eles quase reduzidos a canais, quase sempre infectados com os dejetos humanos. Esses em Olinda, mas destino semelhante sofreram o rio Tijipió, o rio do Brejo, o Passarinho, o rio Parnamirim, e o famoso Capibaribe, que quase ressurge ao abraçar-se com o Beberibe, antes de lançar-se ao Oceano Atlântico.

Como tudo que é vivo, essas cidades nasceram com sangue e no sangue. A Marim dos Caetés tem seu batismo na guerra com os indígenas que carregavam esse nome. os expulsaram, perseguindo por todo o litoral, e os sobreviventes foram para o “sertão”, buscar espaços de vida. Tomado o espaço, vieram os engenhos, levantados às margens dos rios que forneciam energia e recebiam os detritos. Olinda cresceu, chamava atenção por sua riqueza, concentrada no morro onde Duarte Coelho fez moradia, ergueu uma igreja dedicada ao Salvador do Mundo, hoje catedral do segundo bispado do Brasil, desde final do século XVII. Pouco antes, a riqueza olindense chamou atenção dos comerciantes das Sete Províncias, os chamados Países Baixos, em guerra com a Espanha, que então era possuidora das terras de Portugal. Os batavos, flamengos, neerlandeses, holandeses, como queiram chama-los, incendiaram a orgulhosa cidade, pois decidiram que o Recife, que servia como porto aos produtores de açúcar moradores de Olinda, oferecia melhores possibilidades para os projetos dos comerciantes da Companhia das Índias Ocidentais. Assim, a vila de pescadores começava a sua projeção para além dos arrecifes. Um herdeiro de engenhos e usinas, entusiasmado com a beleza que viu, um dia chegou a dizer que o mundo começa no Recife. Sendo verdade, Olinda foi o vestíbulo.

Muito antes do pintor pernambucano, um alemão resolveu fazer do Recife, especialmente da ilha que fica entre os braços do rio, uma cidade renascentista. Mas, uma semana anos não foi suficiente para que o nobre alemão realizasse o seu sonho, testemunhado pelas pinturas e livros que retrataram o mundo visto por eles. Naqueles anos, porém, o Recife engalanou-se, fez-se pontes para ligar as ilhas e festas, inclusive com bois voando; como também voaram as ordens religiosas que se mudaram para a cidade de “seu Maurício”. Só os de São Bento ficaram no morro que compraram, perto do Varadouro. Um bardo mineiro, séculos depois versejou que os artistas devem estar onde o povo está. Franciscanos e carmelitas sabiam disso.

Olinda viu-se despojada, inclusive os tijolos que antes sustentavam paredes de casas ricas, e muitos serviram para a construção do Recife, cidade com vocação mercantil, local de vivenda das muitas religiões praticadas com relativa liberdade, como sentiram os jesuítas que foram expulsos, e os franciscanos comensais do alemão lembrado como holandês, amigo dos judeus e contratado pelos líderes da Igreja Reformada da Holanda.

Entretanto, as ondas da política levaram o Brasil de volta para Portugal Restaurado e, os senhores de engenho fizeram a Guerra da Restauração não desejada, e retomaram para o domínio dos lusitanos. Olinda procurou de volta o esplendor, inclusive construindo um palácio para o governador, perto do Mosteiro de São Bento, que ampliara suas propriedades na então abandonada Olinda. Contudo o Recife seguiu o curso irreversível e, os novos governadores ampliam os espaços da cidade.

No início do terceiro século veio a inevitável separação, acompanhada com fuga de governadores, prisão de bispos, discursos inflamados de autonomia republicana, mas, enfim o Recife passou a ter pelourinho para espancar escravos, e, também, a sua Câmara do Senado.

Com tempo a passar, Olinda, dizem, tornou-se um lugar “de ventos e conventos”. Mas teve um Seminário que alimentou ideias de Revolução e Liberdade, junto com padres que atuavam no Recife; depois passou a ter uma Escola de Leis. Mas o poder se esvai. Logo se mudaram o governo da Província, a sede do bispado e a Escola de Direito para o Recife. No início do quarto século as irmãs se completam: os ricos do Recife passam feriados natalinos na antiga capital, inclusive com estrada terrestre, com trens que fazem percurso pela Encruzilhada e Beberibe. O Banho de mar atrai a muitos que frequentam as praias do Carmo, Milagre, Farol.

As duas cidades festejam juntas o aniversário porque o Recife não sabe como começou, embora saiba seu lugar. Então, um recifense nascido na Paraíba, há muitos deste tipo pois o Recife sempre abraça quem o escolhe, definiu, após muitos estudos que concluíram por nenhuma data, que o 12 de março é a data de nascimento do Recife. Daí a festa de hoje, com missa celebrada pelo reitor do Seminário de Olinda, na Catedral de São Salvador do mundo, com presença do prefeito, ex-prefeita, muitos seminaristas, personalidades homenageadas, mas com pouca afluência da população. Afinal são poucas as famílias que moram no burgo fundado por Duarte Coelho que agora é, basicamente, apenas um ponto turístico, embora nas encostas do morro haja algumas moradias. Mas esta parte mais antiga, mais ‘histórica’ é cada vez menos povoada, e é para onde os governantes da cidade atraem os turistas.

Parece que naquilo que deveria ser a homilia, ouvi o reitor informar ao prefeito que serão celebradas missas em alemão. Dá a impressão de que há mais turistas alemães que católicos de fala portuguesa no Alto da Sé e frequentadores da Catedral. Mas isso é uma história que parece ter agradado ao prefeito, embora ele não saiba falar fluentemente o alemão.

Esse vazio populacional no local onde começou Olinda parece ocorrer também no Recife, aquela parte que os recifenses e turistas costumam chamar de Recife Antigo, onde se morava e eram realizados grandes comércios no tempo dos holandeses e, ainda recentemente, nos anos setenta do século passado. Mas o porto não foi modernizado a tempo, os armazéns foram perdendo suas funções, a precária chegada de marinheiros e a substituição dos estivadores por esteiras rolantes, também afastaram as prostitutas que tantas agonias traziam às esposas da classe média e de alguns ricaços que atravessavam as pontes após as 18 horas.

Como em Olinda, os prefeitos do Recife gastam parte do seu tempo e dos impostos em ‘revitalizar o Recife Antigo’ e, terminaram por matar o Recife criado ou sonhado pelo príncipe de Nassau, a ilha de Antônio Vaz ou Santo Antônio, mesmo a nova versão inaugurada nos anos quarenta e cinquenta dos novecentos. O que está a crescer são as regiões periféricas das duas cidades, seja nas construções mais populares e numerosas, os barracos nos morros, seja na ‘revitalização do rio Capibaribe, ou melhor, das suas margens, onde aparece um espigão a cada mês. Aos poucos voltou a ser interessante morar na margem do rio, embora há quem diga que já não serve para pesca, navegação. Como Olinda, o rio Capibaribe é “para os olhos”.

As pontes do Recife, como as suas praças estão lá. Os recifenses que moravam na Conde da Boa Vista foram para outros lugares, os colégios cederam seus espaços para centros de compra. Cada centro de compra é uma cidade, ou um pedaço da cidade que foi engolido. Os mascates do Recife vendem seus artigos em frente a lojas fechadas e os moradores dos sobrados não existem mais. Só os dos mocambos.

Olinda tem praias, mas não tem mais coqueiros. Uns foram derrubados pelo avanço do mar, outros pela exploração imobiliária que tomaram seus lugares, assim como os coqueiros havia desarrumado a vida dos cajueiros. Por suas praias estarem encolhidas entre o mar e concreto, são poucos os banhistas, a maior parte deles vindos da Olinda que, pode ter até um padre alemão, mas ele faz questão de falar e rezar em português. Sim, tem essa Olinda que começa pelas bandas do Guadalupe e depois de onde foram construídos os primeiros engenhos. Esse é outro aspecto que une as duas cidades, eles possuem uma parte que não é ‘histórica’, ou seja, não apresenta as casas dos senhores de engenho, pois esses, dizem os livros que eles escreveram, fizeram a história. Sim, assim com o verbo no passado.

 Mas se o presente é construído a partir do que foi passado, o passado só existe se o presente o desejar. Será que o presente de hoje deseja e quer manter vivo o passado ou quer apenas a sua preservação? Preservar algo que não faz parte da vida é simplesmente a exposição gratuita dos objetos. Talvez por isso, essas cidades tenham tantos problemas e dificuldades em manter seus sítios históricos, por negarem a historicidade vivida pelo povo que não fala alemão.

Agora, uma pergunta desse mestiço pardo, nascido em Carpina, criado no Recife e habitante de Olinda: Quando será que que o reitor do Seminário de Nossa Senhora das Graças de Olinda nos informará quando teremos uma missa em nagô na Catedral?

Águas de Março, 2022

março 1st, 2022

Prof. Severino Vicente da Silva

Estão por chegar as águas de março, essas que põem fim ao verão. Sim, deve chover, diz a sabedoria dos que conhecem a natureza, até meados de março para que o verão não se transforme em longa estiagem, em seca, terra queimada, sem água, sem verde. Apenas o cinza da dor de não ter o que comer, pois a até a caça sumiu. O mês de março, que por muito tempo foi o início do ano, agora fica perdido como o fim do primeiro trimestre do ano, depois do carnaval, depois das primeiras chuvas, as que sempre nos lembram os limites da tecnologia diante das mudanças da natureza. Certo que a tecnologia mais moderna, essa nossa contemporânea, quase cumpriu o ordenamento de tudo conhecer e tudo dominar, mas, como o gato da fábula, escondido, usa o que não foi dito à ingênua lagartixa que até então se julgava sábia. O gato tem sempre algo a dizer, a fazer, a surpreender.

Lagartixas são capazes de subir as paredes, embora os azulejos limpos e encerados sejam armadilhas, pondo-as em situação vexatória se algum gato estiver por perto e pouco disposto a conversar. Mas se observarmos os gatos quando eles pegam uma lagartixa, barata ou rato, veremos bem que eles não caçam esses animais para sua alimentação, e sim para o seu divertimento. Gatos esses companheiros milenares dos homens, que alguns vezes foram alçados à condição de divindade e outras vezes em emissários das maldades, são a natureza deles adaptados à natureza dos homens, que os domesticaram, sem mesmo saberem porquê. Antigos egípcios perceberam que esses animais protegiam os grãos contra os indomesticáveis ratos; depois verificou-se que eles faziam companhia, em troca de alimento, e serviam para dar e receber carinhos. Amigos dos velhos, especialmente das velhas solitárias e abandonadas por todos os seus relacionamentos, foram vistos como mensageiros do mal, um mal que viria dessas mulheres, acusadas de trazerem sofrimentos, após terem sofrido tanto. Os gatos, mais recentemente, passaram a ser sinônimos de beleza, de delicadeza. A imaginação feminina, capturada pelos que se apossaram das descobertas freudianas para vender produtos de maneira imperceptível, via nesses moços bonitos, a promessa de carinho e dedicação que um gato promete. Mas os gatos jamais foram totalmente domesticados, sempre que podem saem da casa onde vivem, perambulam algum tempo pela vizinhança, e voltam rosnando baixinho, roçando carinhosamente as pernas, na quase certeza de que mãos descerão para os alçar ao colo e, com satisfação lhes alimentar. Logo as redes sociais estarão espalhando a notícia: ele voltou, o boêmio voltou novamente.

Uma vez estabelecidos, os gatos não gostam de que outros gatos ou animais se aproximem do espaço que foi conquistado. Gatos são capazes de lutar com cães e, se necessário para seus fins, podem atacar os humanos. Os humanos também fazem isso, despem os movimentos persuasivos e carinhosos pelo arreganho dos dentes e a exposição do corpo tenso, pronto para o ataque. Quando atacam, nem podemos nos lembrar como eram carinhosos seus movimentos. O ataque de um gato pode deixar feridas permanentes, especialmente porque não se esperava que um dia, esse animal tão fofinhos, viessem assemelhar-se a um dragão. Talvez se esperasse, mas nunca se tem noção do quando seria feito o ataque.

As Águas de Março foram, no Rio de Janeiro, surpreendidas pelas águas que sempre chegam em fevereiro, mas, como é de se esperar, os que dirigem aquele Estado, não apenas o deste momento, não consideram o que a ciência diz sobre o movimento dos rios voadores, nem sobre evitar que seres humanos construam suas residências em locais não adequados, pois a natureza não estabeleceu apenas uma forma de solo. Mas nega-se a ciência e, todos os anos, vemos que morrem muitas pessoas nesse enfrentamento com a natureza, como se ainda vivêssemos nos tempos iniciais da vida humana na terra. A realização de alguns seres humanos parece estar na promoção do sofrimento e da dor em outros seres humanos. Criam-se etiquetas de comportamento que permitem a tranquilidade dos gatos a brincar com as lagartixas, flexionando as mandíbulas de maneira a que o seu brinquedo dure um pouco mais. E a brincadeira segue, a cada ano. O Gato parece saber que a lagartixa, contra todas as evidências, ainda acredita que o gato vai permitir a continuidade de sua vida. Petrópolis, Angra dos Reis, Recife e outras cidades são mostra de como lagartixas tentam escapar do gato subindo azulejos.

E no outro lado da terra, antes que o inverno se fosse de vez, mais uma invasão, mais uma resposta a uma provocação, mais mortes programadas enquanto os gatos decidem quantos vão morrer, onde vão viver até morrer. Não é de hoje que é assim, nem este é o único lugar do planeta onde se faz “jogos de guerra”, jogos que ocorrem na África, no Oriente Médio e em outros espaços habitados por gente não civilizada, de acordo com os padrões que os civilizados da eurásia definiram. Os gatos sempre definem a vida das lagartixas, elas não têm garras. Os gatos da política contratam seus cães de guerra.

Mas cães, como se sabe, também foram domesticados.  

Alguns pensamentos sobre o carnaval

fevereiro 16th, 2022

Alguns pensamentos livres sobre o carnaval

Severino Vicente da Silva

Parece não ser surpresa o quanto grande parte da população apresenta alguma frustração por não haver a permissão oficial para derramar-se no carnaval, festa que transpôs o Atlântico à época das reformas no cristianismo praticado na Europa. O que, à princípio seria um debate sobre os limites de algumas ações praticadas, permitidas e incentivadas pelo papado romano, à medida que eram explicitadas as reações os temas relacionados aos dogmas foram aparecendo e causaram mudanças nas maneiras de vivenciar a fé religiosa. Afinal, ainda que contrarie uma das teses apresentadas por Lutero em outubro de 1517, a fé sempre se apresenta em obras, sejam altruístas ou apenas para a satisfação de garantir a exposição da diferença. As reformas da religião marcaram a sociedade europeia pela afirmação das diferenças, e fortaleceram reis, estados, enquanto criavam novos modos de viver, e matavam outros.

Apesar do medo, a crer nas imagens deixadas por pintores flamengos, também havia muita diversão como pintou Bruegel, o velho, no período anterior às Guerras de Religião, período no qual homens e mulheres dedicavam-se à busca da salvação condenando o mundo. Embora os homens e mulheres do Medievo vivessem um “vale de Lágrimas”, um mundo de pestes, guerras e pecados, a vida parecia ser suportável amparada pela esperança do Paraíso. Com as Reformas, parece ter chegado uma religião que nega a possibilidade da esperança, pois tudo já está predestinado, inclusive a salvação. Entretanto, é necessário que se torne explícita a salvação já alcançada, não mais esperada; e a explicitação vem com uma maneira de viver abandonando os prazeres do mundo na certeza da alegria eterna. As brincadeiras deixam de ser importantes, os prazeres, os antigos e os descobertos recentemente em decorrência do comércio e das navegações, devem ser eliminados. Os Carnavais perdem para a Quaresma.

Mas o carnaval atravessa o Atlântico e descobre o paraíso, a Terra Sem Males. A visão da Reforma trazida pelos europeus, principalmente pelos jesuítas, foi ajustada pelos demais clérigos que serviam mais diretamente os moradores das vilas. Não se nega o pecado, mas abaixo do Equador, apenas os padres da Companhia o fazem com veemência, e depois, os pastores trazidos pelos holandeses, o percebem. Aqui parece se manter a compreensão católico-medieval, ainda que haja perseguição aos judeus e cristãos novos. Não há pecado, e, se os há, os atos de penitências e as procissões, momentos para a apresentação da inventividade de artistas locais, enriquecida com a lembrança das procissões anteriores às Teses de Lutero e as definições do Concílio de Trento. Às vezes elas são vistas como ridículas, como as que foram percebidas por Gregório de Matos. As teses luteranas e calvinistas tiveram que esperar o Regente Dom João e o Imperador Pedro II para terem presença e visibilidade social; quanto ao Concílio de Trento, só à véspera da República é que começa a ser implementado nas terras do Brasil, onde o carnaval fez morada.

As procissões e os entrudos sempre foram válvulas de escape em uma sociedade que a tudo reprimia em função dos interesses da Coroa, mas essa sociedade usou a criatividade na arte de burlar os interesses metropolitanos; foi apenas após o fim oficial da escravidão e, principalmente, a República que o carnaval tomou as ruas, lugar de expressão da liberdade. Na República oficial, os militares e advogados tomaram os palácios, mas o povo criou outra república nas ruas, nas principais capitais, e mesmo em algumas cidades de porte médio, fora do circuito do poder. Como o Hino da República, o carnaval diz: abre as asas sobre mim, ó Senhora Liberdade.  Assim, vive-se, nesses anos recentes, uma situação de lamento: mais um ano sem carnaval por causa da peste que tem o nome de Coronavirus19 e suas novas cepas. A saudade do carnaval, das ruas interditadas ao trânsito de automóveis, a permissão de embriagar-se publicamente, de sem pudor ou temor, criticar os grandes e pequenos poderosos, de mostrar o corpo e alma, poder ser visto nas redes sociais proporcionadas pela internet, uma vez que as redes tradicionais estão truncadas, mas são alimentadas pelos dispositivos mais modernos.

Neste ano, mais que no ano passado, ocorrerão bailes de carnavais em recintos fechados, em clubes dos que puderam acumular riquezas, como ocorria no final do século XIX, antes que o povo inventasse os desfiles de blocos, de clubes, escolas de samba, tomando as ruas para si. Este fenômeno levou as autoridades constituídas a tomarem medidas para controlar a folia dos menos ricos e dos pobres.

No século XVII a repressão, ou Reforma dos costumes, foi realizada tanto pelas autoridades religiosas quanto pelas autoridades civis, como demonstram os estudiosos do período. Foi essa associação que permitiu a vitória da Quaresma sobre o Carnaval, e também favoreceu a aceitação da ética do trabalho nas regiões reformadas, bem como o a vitória do indivíduo sobre os interesses sociais.

Neste início do século XXI, o Estado, que se fortaleceu ao longo de três séculos, enquanto defendia os interesses individuais e conseguia manter a coesão social dizendo ter em vista o interesse coletivo, tem encontrado dificuldade de fazer cumprir normas que defendam a sociedade da Covid19, exatamente porque alguns de seus membros, em nome dos interesses individuais, recusam, tanto a vacinação necessária para vencer o vírus como as normas de distanciamento social que antecede e acompanha o processo de superação a pandemia. É para acomodar interesses tão diversos e contrários que, simultaneamente proíbe o carnaval de rua, permite que alguns grupos possam carnavalizar em espaços restritos e de acesso apenas aos endinheirados. A Quaresma é para os pobres que, encontrarão um meio de burla, como historicamente tem feito.

A saudade do carnaval, a busca do prazer na dança da vida parece ser maior que o medo da Dança da Morte, um dos temas da pintura europeia a caminho dos novos tempos urbanos, quando as aldeias se encontram com mais facilidades e os europeus cruzam de novo o Atlântico em busca do passado.

Dominar, destruir, Amar

fevereiro 6th, 2022

Dominar, destruir, amar

Severino Vicente da Silva

Diariamente chegam notícias sobre o comportamento dos homens em relação à natureza e aos seus semelhantes. Então, procuro os versículos 25 a 28 do primeiro capítulo do livro do Gênesis, lá encontro o criador, muito otimista, criando o homem e, após orientá-lo a crescer e multiplicar; indica que deve dominar a terra, as plantas, as aves, os peixes. Muitas vezes ouvi Dom Hélder dizer que aqui havia a decisão otimista do criador que convida a criatura para ser cocriador, assim como a dar uma continuidade, uma sequência, aos atos da criação. Mas os vestígios, as notícias, indicam que, ao longo do processo vivido desde então, não demorou muito para que ocorresse a confusão entre o verbo dominar e o verbo destruir. 

Sem entrar nas questões conceituais e etimológicas, leio no capítulo 1 do livro do gênesis na Bíblia, edição da Ave Maria, a expressão “dominai a terra”. Se olho a Bíblia de Jerusalém, as palavras e o sentido delas mantém a ideia de domínio. Quando olho e escuto o noticiário, o de agora e das épocas anteriores, chego a compreender que a criatura confundiu o verbo dominar com o verbo destruir. A criatura veio a se tornar um vetor do processo de entropia, de destruição, processo que pode ser mais sentido, mais percebido nos últimos trezentos anos. Embora possamos encontrar aspectos positivos nas ações que produzem destruição.

O processo de organização dos homens em sociedade tem sempre um componente de domínio sobre os outros seres que, com ele, formam a natureza; inclusive, graças ao seu corpo e o conjunto de habilidades que o seu cérebro permite ampliar, podemos comprovar que o conjunto humano tem aperfeiçoado o seu modo de viver, cumprindo as ordenações de usar a natureza (plantas, terra, animais terrestres, pássaros, peixes). Tem feito, também algumas bobagens, como matar seu semelhante e impor violentamente a sua presença e dominação. Aos poucos, dominar foi sendo entendido por destruir. No livro do Gênesis não está escrito que o criador o mandou dominar outro homem, mas ao virarmos a página do livro, já encontraremos o homem, matando outro homem. Não, Caim não tentou dominar Abel, seu irmão; logo decidiu mata-lo, destruir a vida, romper a continuidade da vida. Quando o homem domina a natureza, inventando a agricultura, não a está destruindo, mas aperfeiçoando-a, exercendo a função de cocriador. Entretanto, quando aproxima-se de maneira a não considerar as expectativas da natureza em manter-se viva para continuar a oferecer condições para a sobrevivência do homem, quando a criatura aniquila as florestas, muda o curso dos rios apenas buscando a satisfação de seu interesse, desconsiderando que há outras vidas envolvidas com a sua ação, vidas que sofrem e não são agentes das transformações, o homem escraviza a natureza, entra no caminho da destruição da natureza, torna-se assassino, inclusive de sua espécie. Quando isso acontece, a parte da natureza que é ofendida pela ação do homo sapiens reage, e o faz de forma tão sutil que, mesmo os mais atentos representantes da espécie Sapiens não percebem. E, não poucas vezes, chamam de eventos naturais aquilo que é fruto de sua ação.

Vendo-se tocados por doenças que, embora não saibam, são resultantes de sua ação, os homens as explicam como sendo ações vingativas da divindade, ou das divindades. E foi assim por alguns milênios, quando as doenças eram vistas como castigo divino, e os homens julgavam que com oferendas, sacrifícios e orações, poderiam vencer o resultado de seus pecados. Foi apenas nos últimos quinhentos anos que os homens começaram a perceber, por exemplo, que as pestes podem ser combatidas e ter seus efeitos diminuídos com o distanciamento social. Depois, a partir do século XVIII, a ciência entrou em campo com ideias de higiene e vacinas. Mas, sempre existiram, como ainda existem hoje, os que se agarram a tradições de que tudo depende da vontade dos deuses ou de Deus. O conhecimento humano científico aponta caminhos que dependem do esforço humano para reduzir os males criados pela confusão entre domínio e destruição da natureza, mas alguns pretendem que o conhecimento religioso, político de tempos imemoráveis sejam mantidos, tirando a responsabilidade dos humanos por seus atos, acusando a natureza dos crimes por eles cometidos, e entregando às divindades a tarefa de promover a cura.

Se a voz de comando, dada no livro do Gênesis, foi aceita e expandida pelos filhos naturais e espirituais de Abraão, esses pouco cuidaram de entender que, aceitando que Jesus seja Filho de Deus, ou segundo alguns, seu profeta, pouca importância se dado ao comando de “amai-vos uns aos outros como eu vos amei”, escrito no Evangelho segundo João, 15:12.

Temos assistido o crescimento do ódio nesses últimos três mil anos, às vezes em nome do amor à terra em que nasceu, à família, ao bairro, à cidade, ao rei, ao reino. Em nosso país, parece que até criaram uma repartição com o nome de ‘gabinete do ódio’, cuja função é atilar as diferenças, não para louvar a diversidade da criação, mas exatamente o contrário, eliminar a diferença, de modo que só haja um movimento, um pensamento, um grupo. Não um grupo dominante, mas um grupo existente, pois se pretende a eliminação física do diferente. Isso tem sido tentado sempre, mas, no século XX isso foi tentado de modo científico, quer dizer: pensado e executado dentro de um sistema racional em busca do objetivo.

Hoje Dom Hélder completaria 113 anos, ele morreu com a esperança de que não houvesse fome a partir do ano 2000, cultivava a ideia de que as Minorias Abraâmicas contagiassem a todos, que o amor tomasse conta da vida política, que a política fosse a ação amorosa na busca do bem estar de todos, e que isso será possível à medida que os homens conversarem com as pedrinhas, as abelhas, as flores, as matas e os animais. Assim também desejava Francisco de Assis, que começou a mudar as relações humanas, não com missões de conversão dos incréus, mas no serviço dos pobres de sua cidade, vivendo com eles, sem temor, pois o amor não teme. Tem a paciência histórica e o otimismo do Criador.

Bicentenário da desconfiança

janeiro 14th, 2022

Bicentenário da desconfiança

Severino Vicente da Silva

O ano do bicentenário da independência do Brasil parece que vai passar despercebido da maioria dos brasileiros, sejam os que fazem seus trajetos até os postos de trabalho em ônibus lotados, sejam os que dirigem seus automóveis provocando imensos engarrafamentos nas avenidas largas, construídas para seus prazeres e gaudio das montadoras (aqui chamadas de fábricas), ou mesmo para os políticos que voam sobre o território em voos pagos pelos contribuintes. As eleições que ocorrerão no mês de outubro, um mês após o aniversário do Estado, chamam mais atenção, especialmente dos meios de comunicações que fazem de tudo para animar o eleitor, que é também o cansado contribuinte e o desconfiado cidadão.

Tendo sido tocado pelos europeus no início do tempo que a historiografia brasileira tradicional chama de Moderno, a Terra Sem Males, vem sendo agravada desde então pelos mais diversos males. O primeiro deles foi o esforço para dizer que haviam, em abril de 1500, descoberto uma terra que sabiam de sua existência já a algum tempo, a primeira mentira. Depois vieram outras, como dizer que os povos que aqui moravam “não tinham lei, não tinham fé, nem tinham rei”, negando as formas de organizações familiares e sociais, as crenças em suas divindades e a autoridade dos que mantinham a vida social das diversas nações. Foram os primeiros negacionismos. Em diversos momentos, na luta pelo domínio da terra, os europeus viram-se obrigados a fazer acordos com os habitantes primevos, mas logo depois os renegavam, como aconteceu no que a historiografia chama de Guerra dos Bárbaros, traindo Junduí e seu povo. Aliás, não sem razão há, no Nordeste, uma baia apelidada de Traição, mas poderia ser uma baia qualquer na orla do litoral paulista ou fluminense, conforme se sabe da guerra contra os Tamoios, que ainda hoje se diz que foi para expulsar os franceses que já não mais estavam na região. E o que dizer de Ganga Zumba, que assinou tratado e, abandonando Palmares, foi morar em Cucau, em Serinhaém, e via suas terras sendo atacadas com a desculpa de que estaria escondendo escravos fugidos. A história da ocupação europeia veio sendo esculpida com bastante mentiras e simulações.

Mesmo no período imediato da independência, sabemos da armação que os irmãos Andrada (José Bonifácio, Francisco Martin e Antônio Carlos) contra o governador Gervásio Pires Ferreira, de Pernambuco, enviando alguns provocadores para insuflar o “povo”. Mas essa história envolve gente da terra e, talvez por isso, o nome de Gervásio Pires, comerciante, esteja esquecido enquanto senhores de engenho são lembrados e louvados.

Uma pesquisa um pouco mais profunda, acompanhada com uma análise menos varandística, mostrará outras simulações, outras investidas contra a confiança dos mais pobres na formação do Brasil, como as cartas falsas em campanhas políticas, documentos fraudulentos que justificaram golpes e ditaduras, manchetes de jornais informando sobre “armas e exércitos de comunistas”, documentos feitos por encomenda para acusar presidentes, e, mais recentemente, a ideia de que tomar vacinas levará a transformação em jacaré ou tornará o vacinado em aidético. Nos anos setenta do século passado, tentaram convencer a sociedade de que Dom Hélder andava com armas escondidas na batina. Sempre há alguns muitos que acreditam e, depois, envergonhados quando descobrem que foram enganados, calam-se para esconder o ridículo em que se meteram e o mal que fizeram “sem intenção”.

Olhando essa história, penso que fomos criados, como Nação e como Estado, sob a liderança de mentirosos. Interessante que, na análise feita por Alain Peyrefait, politico e intelectual conservador francês, sobre a formação do mundo moderno, está a defesa de que este mundo só ocorre por conta da confiança. Ele se refere à confiança necessária nas transações econômicas, financeiras que possibilitaram a criação da sociedade europeia moderna. Efetivamente ele não se refere ao comportamento dos europeus com os povos asiáticos, africanos, indígenas e australianos. A confiança foi sempre cultivada entre os europeus em suas transações financeiras, ressalvando o comportamento dos piratas, dos bucaneiros e corsários a serviço de algum rei em detrimento dos interesses dos demais.

Essas ideias começaram a fluir após ter lido que o Banco Internacional do Desenvolvimento – BID dizer que a confiança pode ser um pilar fundamental para o desenvolvimento das nações. Em seu estudo o BID aponta que apenas 4,69% dos brasileiros confiam, mantem a confiança em seus companheiros de sociedade. Dito de outra forma, 95,31% dos brasileiros vivem não acreditando em seus vizinhos, seus professores, seus médicos, seus comerciantes, seus chefes, seus representantes políticos, seus líderes sindicais, seus colegas de trabalho, nos governadores e seus secretários, nos ministros do presidente nem no homem que escolheram para presidir, gerenciar o Brasil. Sendo verdadeira a conclusão do BID, o aniversário de 200 anos do Estado brasileiro não terá sabor de festa.

Mas haverá festa. Festejar-se-á com falsa alegria e com falso orgulho, mas será apenas por amor-próprio. Assim como se festeja o fim das senzalas enquanto se criam favelas; assim como há o esforço de lembrar Frei Caneca, mas sem aprofundar a análise do que e quem o levou ao cadafalso; assim como se louvam os senhores de engenho que ‘livraram’ Pernambuco dos holandeses e se esquece que, logo em seguida, vieram a destruição do Palmares, a traição aos Bárbaros; mas agora se louva os holandeses enquanto os sobreviventes indígenas são mortos como ‘bichos’ e se nega o valor de suas lutas na defesa de suas terras, as lutas do passado e as lutas atuais. Os brasileiros não confiam na história que dizem ser sua, pois eles não são informados de como foram explorados no passado, mas sabem disso, pois essa história está no coletivo, inconsciente. Não podendo ser dita, aparece nessa descrença, nessa falta de confiança, pois como acreditar que faz parte de um Estado que o rejeita; que cria leis que o impede de ter acesso a escola que conte a sua história; que o impede receber benefícios sociais mínimos enquanto juízes e outros recebem prebendas crescentes; como acreditar que faz parte de um país com tantos bilionários enquanto morre de fome?

O Brasil parece sem futuro porque as suas elites (econômica, financeira, intelectual, religiosa, política) prefere manter o conceito de que a sociedade brasileira se resume a 1/3 de sua população. E o povo sabe que esse 1/3 não merece confiança.

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Pires, Maria Idalina Cruz. A Guerra dos Bárbaros: resistência e conflitos no Nordeste colonial

A sociedade de Confiança

Ensaio Sobre a Origem e Natureza do Desenvolvimento

Alain Peyrefitte

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A Respeito da Festa dos Reis Magos

janeiro 8th, 2022

A Respeito da Festa dos Reis Magos do Oriente

Severino Vicente da Silva

E passou o Dia de Reis, o dia dos Reis Magos que, dizem as tradições, saíram do Oriente seguindo uma estrela que os guiava na direção de uma cidade da Judeia, no tempo do Império Romano, o dominador do mundo então conhecido pelos soldados romanos. Entretanto não é do conhecimento de alguém as terras de onde vieram esses reis que sabiam ler as estrelas e desvendar seus significados. Pessoas da terra para onde se dirigiram e chegaram acreditavam que estava na hora de aparecer um rei que os livrariam da dominação do Império que, já há quase um século, os dominavam e oprimiam. Como é comum nas regiões que estão submetidas, essa submissão vem acompanhada com a cooperação de algumas lideranças locais, no caso, Herodes, o rei que manteve a coroa comprometendo-se a manter o povo distante das ideias de rebelião contra o poder da Águia Romana. Sequiosa de riquezas que chegam através de impostos, Roma havia determinado a realização de um censo, pois quer saber quantos são os pagadores, e determina que todos retornem aos locais de seus nascimentos. Essa a razão material do carpinteiro José ter saído de Nazaré, com sua esposa Maria, e tomado o destino de Belém, local de suas origens que, acredita-se estarem ligadas à Jessé, pai do Rei Davi, o qual, alguns séculos antes teria unificado tribos nômades para a formação de um reino. Assim, entendemos que os Reis Magos, conhecedores dos secretos desígnios que viram em uma estrela, estavam indo em busca de um rei que acabara de nascer. Herodes temia que esse rei anunciado viesse a tomar o seu lugar no esquema político que ele armara para si no mosaico político romano. Assim, atuou para saber onde ocorrera o nascimento do novo rei e, já pensava medidas para impedir o crescimento desse mau augúrio para si e sua descendência.

Os reis, vindo do Oriente, conhecedores dos segredos das estrelas, teriam sido avisados por mensageiros divinos que, após realizarem suas homenagens ao rei recém-nascido, tomassem rumassem por outro roteiro para os desconhecidos locais de onde vieram. Devem ter avisado aos pais da criança quais as intenções do rei Herodes e, provavelmente, os induziu ao exílio no Egito.

Herodes, deve tê-los chamados de inimigos. Mas não os perseguiu, preferiu mandar matar as crianças que tiveram nascimento em Belém, e para ter certeza que estava eliminando o seu possível contestador, mandou matar todos de até dois anos de idade. Infanticídio foi muito comum no passado, era uma maneira de eliminar futuros oponentes, castigar os atuais opositores, destruir o futuro de uma população. Herodes não podia matar os pais das crianças, pagadores de impostos, fornecedores de sua riqueza e da riqueza do Império, prejudicaria César. Melhor fazê-los sofrer com a dor da perda de seus filhos e, simultaneamente, diminuir o número de pobres.

 Em nossos dias, quando o Ministério da Saúde, a contragosto, admitiu a vacinação das crianças contra o vírus que está atingindo milhões de pessoas no mundo inteiro, quase lamentou que havia morrido apenas 300 crianças. Disse, o ministro, que era um número irrelevante e que estava havendo uma histeria. O presidente da República chegou a chamar de “tarados da vacina” os que propugnam pela aplicação do antígeno à crianças, com o objetivo de evitar que elas adoeçam e possam vir a óbito. Cada época tem seu Herodes. Paulo Setúbal chama atenção que os cachorros utilizados pelo Caçador de Esmeraldas, Fernão Dias Paes leme, e sua bandeira usavam para a perseguição de índios, eram alimentados com as crianças indígenas capturadas, com o objetivo de apurarem o faro. A tradição de desvalorização da vida, especialmente a das crianças pobres, é forte na história do Brasil, embora seja pouco conhecida. Afinal foram os herdeiros de Fernão Dias Paes Leme que fizeram, ainda fazem, a historiografia brasileira. Os que governaram, ainda governam o Brasil.

Quantas crianças brasileiras morrem anualmente de fome, de inanição ou vítimas de enfermidades baratas facilmente curáveis. (…) Cada uma delas nasceu de uma mulher, foi amada, acariciada numa família, deu lugar a sonhos e planos, nos dias nas horas, nas semanas, nos meses, nos breves anos de sua vida parca. Seguindo a tradição, muita mãe chorou resignada, achando que melhor fora que Deus levasse a sua cria do que a deixar aqui nesse vale de lágrimas.”  Assim escreveu Darcy Ribeiro.

Em sublime momento da dança teatral do Cavalo Marinho, mantida pelo povo sobrevivente na Zona da Mata Norte de Pernambuco, ainda se canta a alegria dos Reis Magos que seguem a Estrela do Oriente. É como se estivessem pedindo aos Reis, Sábios do Oriente, que lhes mostre o caminho para que não sejam alcançados pelos soldados de Herodes. Mas eles, os soldados, rodeiam sempre, mandando nas terras que antes pertenciam aos índios. Vivem a contradição das heranças que os navios trouxeram: a morte e a esperança.