Pandemia, humanidade, Tomaz de Aquino

novembro 15th, 2020

Ainda não vencemos o pecado social, a fome que estrutura o nosso mundo, nossos relacionamentos. Ela é a principal distinção visível entre os humanos, mas ela não é a causa das diferenças, ela é a consequência mais visível. A maioria de nós, inclusive os que a sofrem de modo mais aguda, não percebe. Vivemos um desses momentos especiais da história, quando todos os grupos sociais são obrigados a enfrentar a fragilidade da vida, com a morte batendo à porta, na do vizinho que desconhecemos e na nossa. As epidemias sempre fazem com que as doenças deixem de ser algo privado, tornam a morte um assunto diário. Nos nosso dias há muitos meios de tergiversação e a morte raramente ocorre em casa. Em casa a vemos pelo frio das ondas concentradas em aparelhos de televisão. Em nossa época a morte que nos chega é aquela distante, as próximas atinge a poucos. A epidemia do Cólera, que atingiu o Nordeste do Brasil na segunda parte do século XIX, gerou grandes mortes e a ação do Padre Mestre Ibiapina criando as Casas de Caridade, amenizadora de muitas dores naquele momento, e na grande seca de 1877. Provocou o estabelecimento externo dos cemitérios, que nos sertões foram criados por missionários e devotos como o Antonio Conselheiro. Um ataque do Cólera em finais do século XX gerou, em Pernambuco, um banho de mar pelo então governador, para garantir que havia segurança na diversão. O que nos diz essa pandemia do Coronavirus 19, o que ela nos deixará, além da enorme mortandade, ainda nos é desconhecido. Talvez o entulho gerado por hospitais pressurosamente construídos e, rapidamente desmontados quando, aparentemente já não tenham utilidade. Estamos a viver uma epidemia, talvez com maior ciência, mas nosso comportamento não difere muito do comportamento dos não pobres dos século XVII. Talvez tenhamos algum Deccameron escrito em algum desses iates que serviram de refúgio para os herdeiros do comportamento de Carlos II, o rei alegre e moderno, que recriou sua cidade. Mas, nossas cidades e comportamentos serão recriados?

A pandemia tem sido uma oportunidade de expor as vísceras morais dos governantes do mundo. Os jornais apontam que os ditadores, enclausurados nos palácios que mandaram construir ou que a eles foram levados por votos, pouca preocupação tiveram com a população, e até mesmo negaram a existência da doença e suas consequência. Houve até quem pusesse a culpa dos problemas naqueles que morreram, que não souberam lutar e vencer.

Dizem que Nero tocava flauta enquanto a cidade ardia em chamas. Se esse comportamento houvesse ocorrido apenas no lado ocidental do planeta e da cultura, como alguns gostariam, haveria mais uma razão para promover o fim da Civilização Ocidental. Parece que é uma questão da demência dos seres humanos que se recusam aprender novas lições. Por isso nesse processo de mortandade, algumas fortunas pessoais cresceram e cresceu a acumulação. Santo Tomaz de Aquino lembrava que sempre que há algo sobrando para alguém é porque está faltando algo para outro. Alguém rouba, alguém está sendo roubado. Aliás, lê-se nos jornais do dia da eleição para vereadores, que mais de 10 mil candidatos estão recebendo auxílio emergencial para os que perderam empregos por conta da pandemia. Que mudanças advirão das ações desses futuros vereadores?

Nesta semana que passou, o presidente do Brasil reagiu negativamente à sugestão de desapropriar as terras florestais que sofreram os incêndios, ao grito de que “em nosso país a propriedade privada é sagrada”. Faz questão de esquecer que as terras queimadas são propriedade coletiva e, no fundo ele as quer privatizar, matando os animais, as árvores e destruindo os espaços das comunidades indígenas. O presidente nem percebe que a legislação brasileira já permite essa ação, nas terras usadas para o cultivo de drogas e que, neste país, a propriedade deve ter uma função social, seguindo a sabedoria de Tomaz de Aquino.

Hoje é dia de Santo Alberto Magno, professor de Tomaz de Aquino, Doutor da Igreja e Protetor da Ciência. Estudou Ciências Naturais em Pádua e, renunciou um episcopado para fazer o que mais gostava: lecionar.

Todos Irmãos: esperança, cansaço e renovação

outubro 28th, 2020

Viver em paz é diferente de não fazer nada. Há quem diga que se deve treinar para viver o nada, perceber tudo sem envolver-se no que é visto e experimentado. Experimentar o nada. Eis algo difícil nos dias que vivo, desde o amanhecer até o momento que o cérebro não me permite observar. O cérebro observa-me, o tempo passa e ele, observando-me, refazendo as experiências enquanto durmo. No sono vêm as imagens descritas por Loyola Brandão em Não verás país. Não vejo mais o país. Vejo a impossibilidade de um país sendo criada, não na ficção que Loyola previu três décadas atrás. Não Verás País algum. Vivo a perda do país que imaginava estar criando com os meus contemporâneos, e temo entender que não verei o país que imaginava com alguns de meus contemporâneos.

Em momento tão perdido, que parece ser de descanso, para não perder a sensibilidade vem uma carta do Vaticano, assinada por Francisco a nos dizer que somos Todos irmãos. É sempre escandalosa essa afirmação de sermos todos irmãos. Nem todos percebem que mudanças essas três palavras carregam. Quase ninguém deseja que sejamos todos irmãos. Até mesmo alguns familiares.  Ser irmão no abstrato é aceitável, e a leitura do que o papa escreveu é animadora para muitos, até para os que não leram e, creio, não lerão, essa bela correspondência que foi endereçada aos cristãos, aos que carregam alguma fé e, mesmo aos que vivem sem carregar qualquer fé. Mas é aceitável essa ideia de quem somos todos irmãos.

Não há novidade neste discurso que, mutatis mutantis,  é dito em quase todos os púlpitos erguidos em cada esquina do mundo, dentro ou fora das igrejas e dos parlamentos. Somos todos irmãos, dirão os políticos, os pastores, os padres, os chefes e as chefes (será chefa?) de família, os líderes estudantis, os candidatos a vereadores e prefeitos ao lerem ou ouvirem essas palavras do papa.

Uma semana depois, quando se tornou público um documentário no qual o papa Francisco diz que se deve admitir a união civil de casais do mesmo sexo, logo já se percebeu que nem todos somos irmãos; que se corre o risco de um cisma no mundo católico, pois se diz que o papa é um herege, que o Espírito Santo enganou-se e a Igreja está sendo dirigida por um seguidor do demônio. E alguns cristãos, católicos ou não católicos, passam a agredir os católicos, querendo saber se vão seguir o papa e outras coisas semelhantes.

A ficção de Inácio Loyola Brandão usa um verso de outro poeta, Olavo Bilac. Criança, não verás país algum como esse. Referia-se, o poeta do civismo, ao Brasil que, no início do século XX, incitava as gerações jovens a amar com orgulho o país em que nascera. O país mudava de regime sem conversar com os que formavam a nação, mas os que dirigiam a mudança desejavam po amor de quem amava a monarquia e o amor dos que não a conheceram. O poeta estava otimista quanto ao futuro.  

A passagem do século XIX para o XX era de otimismo para os bem nascidos e, até para os que nasceram sem berço, pois a República parecia criar condições para todos; mas esse “todo” não envolvia a todos, perceberam, bem mais tarde, os mal nascidos e os bem nascidos. Estes, os que se apossaram das terras do país, continuaram a insuflar os que jamais teriam acesso à terra, a cultivarem o amor à nação. Queriam o amor mas não dariam a terra.

Ao longo do século, os que formavam a nação, mas não tinham terra, foram compreendendo que jamais veriam “país como esse”; o preço das passagens aéreas não permitiam ir conhecer outras terras. Era uma promessa que os bem nascidos faziam questão de cumprir: não permitir que outros países fossem conhecidos pelos que não possuíam terras. Não poderiam fazer comparação, poderiam amar o que viam ou o que se permitia que fosse visto.

Outubro está ao término, mas não as bobagens que fizeram enquanto ele dura. Outubro é um mês duro, de muitos dias. Nele, como em todos os meses nasceram muitas pessoas, algumas no início do mês, outras quase em seu término. No início do mês, dois aniversários, o de Francisco de Assis, no dia quatro, sempre me lembra um amigo que nem sei se ainda lembra de mim. Não importa sua lembrança, importa que eu não o esqueço. Todos os anos lhe envio festas no dia 4.  No dia 6 é o aniversário de uma de minhas filhas. Quando ela nasceu lembrei que ela me veio no mês da Revolução que prometia unir os operários e criar um mundo novo. Quando minha filha nasceu a Revolução já se dera por vencida, embora a esperança de que veríamos dias melhores permanecesse. A Esperança é um animal bravio, que se camufla perfeitamente com as folhas. A Esperança, como o bicho-folha, é muito antiga, vem acompanhando os homens desde que se entenderam como tal e, desde então, esperam o paraíso enquanto constroem e destroem a Esperança. Este inseto da alma que se esconde em cada uma das gerações humanas, confundindo-se com elas. Cada uma que morre traz a esperança de que outra virá.

O final de outubro, carregado de aniversários de esperanças perdidas, também carrega, para mim, lembranças de esperanças de vida que não se realizaram. Mas foram belas e vitoriosas como as revoluções em seus processos iniciais quando, a morte da antiga civilização ou antigos amores oferece combustível para o novo que constrói, então. Depois a Revolução cansa e morre, como amores de paixão.

Mas então, vem a Esperança, de novo, com novas caras a repetir que somos Tutti Fratelli.

Severino Vicente da Silva (Biu Vicente)   

12 de Outubro: um feriado de desafios

outubro 12th, 2020

O 12 de outubro é um feriado que pode ter muitas explicações e desentendimentos, pois nele confluem três tradições. Uma delas, a que parece mais simpática é que celebra a infância. Quando eu era infante aprendi e cantei canções que celebravam as “crianças do meu Brasil”, que lembravam ter jesus dito “vinde a mim as criancinhas”. Meus pais não tinham o hábito de nos dar presentes neste dia, como hoje eu faço, juntamente com meus filhos. Mas era um tempo que lembro com nostalgia e, claro não percebia o que chamamos hoje de Direitos da Infância e da adolescência. Embora eu saiba que o trabalho infantil afasta crianças da escola, impede que elas brinquem, em meados do século passado, entre nós brasileiros, o trabalho infantil era visto como meio educacional para o trabalho. Muito comum era a violência contra as crianças, também visto como atividade educativa, pois que se seguia, sem ter lido a Bíblia, a máxima de que o pai que ama não poupa o marmelo. Ainda hoje leio nas postagens do Facebook algumas lembranças, ao mesmo tempo em que se discute o papel da psicologia na formação das novas gerações: Apresentam-se cinturões, palmatórias, chinelos seguidos da pergunta: qual desses psicólogos lhe atendeu. Mas, um dos efeitos colaterais da luta contra a ditadura foi o estabelecimento, em nossa sociedade, do debate sobre os Direitos Universais da Pessoa Humana, logo seguido pelo debate sobre os direitos da criança, o que veio protege-la do violência familiar, do uso da trabalho infantil para a manutenção da família, etc. Vivemos hoje uma possibilidade de melhoria de alguns aspectos da vida humana se, verdadeiramente, cuidarmos das crianças. Mas aprendi, lendo os livros de história, ouvindo-a e refletindo sobre as ações humanas, que sempre quando precisamos de leis para nos dizer que devemos ser bons, é porque bons não somos. Ainda temos muitas crianças fora da escola, sem a possibilidade de aprender os códigos necessários para viver nesta sociedade com dignidade; ainda são muitas as crianças obrigadas a buscar o sustento para sua famílias, pois seus pais não conseguiram encontrar emprego que lhes garantisse a manutenção da família, ou foram desempregados, ficaram obsoletos para serem “úteis” à sociedade, e são tolerados. Vez por outra eliminados. Aliás, este ano, só no Rio de Janeiro, mais de 20 crianças foram baleadas este ano e 10 delas também o foram no Recife.  Mas o 12 de outubro é o dia da criança, vamos celebrá-las e protege-las.

Outra tradição refere-se à tradição cristã católica de nossa sociedade. Um acontecimento, ainda no período português de nossa história, um grupo de pescadores no Rio Paraíba, em Guaratinguetá, pescou, em duas etapas, o corpo de uma imagem e, em torno dela cresceu uma devoção popular em suas casas. Posteriormente a devoção foi encampada pelas autoridades eclesiásticas, com a construção de uma igreja, estabelecimento de paróquia e, crescente adesão das populações próximas à devoção à santinha que foi sendo enegrecida pelo contínuo usa das velas junto à lama fluvial que a envolvia. Milagres se contavam, e muitos os negros escravizados foram recebedores da atenção da Nossa Senhora, negra em uma colônia de brancos escravizadores. No século XX, o Cardeal Leme solicitou que o papa Pio XI proclamasse a Aparecida como padroeira do Brasil. Durante anos, essa festa católica foi dia santificado, mas deixou de ser feriado religioso. Em 1980 que o ditador presidente João Batista de Figueiredo decretou a data como feriado nacional. A Constituição de 1988 manteve o feriado nacional. Nossa Senhora da Conceição Aparecida do Brasil tem um visitado santuário por milhões de peregrinos: em 2018 contou-se mais de 15 milhões. O crescimento do número de cristãos não católicos tem provocado reações contra a devoção à Aparecida, com manifestações de intolerância, especialmente por religiosos de novas igrejas que têm surgido e crescido desde o final do século passado. A existência do vírus Covid 19, neste ano de 2020, parece ter diminuído as explosões dessa intolerância, ou elas não receberam a ressonância jornalística dos anos anteriores.   

A terceira tradição do dia 12 de outubro é a chegada do italiano, a serviço dos reis espanhóis, Cristóvão Colombo no continente americano, o Novo Mundo, como se dizia então. O Paraíso, na descrição do próprio Colombo, diante da exuberância da natureza e da inocência dos seus habitantes. Na minha infância fui ensinado que Colombo descobrira a América. Essa verdade que aprendi sem discutir, pois a ouvi de professores e via como os livros falavam desse genovês que morreu pobre, em um convento, após abrir caminhos para que a recém nascida Espanha viesse a tornar-se a grande potência do século XVI e parte do século XVII. Cresci, li outros livros, como os escrito por Bartolomé de Las Casas, um dos primeiros espanhóis que vieram estabelecer-se na isla de Hispaniola. Ao ver como o paraíso tornava-se inferno por ordem de Colombo e seus seguidores, e também de seus inimigos, Bartolomeu se fez padre de verdade e passou a defender os nativos, descrevendo o que via. Em 1992, aprendi que no México já não se falava de ‘descobrimento da América”, mas de Invasão. Mas nem todos aprendemos nem tomamos novas atitudes a partir desse conhecimento. A releitura de documentos, com novos paradigmas, deu-nos uma nova visão da ação de Colombo, do que se seguiu  desde então. Muitos já lemos As Veias Abertas da América Latina, mas há muito que se compreender as ocorrências desses cinco séculos. Neste ano de 2020, após o assassinato público de um cidadão negro, nos Estados Unidos, a revolta contra o racismo sistemático alcançou, também Cristóvão Colombo que teve algumas das estátuas erguidas em sua homenagem derrubadas, posteriormente recolhidas. De certa forma, descobre-se que o genovês que provou a esfericidade da terra foi, também, patrono do racismo, da imposição de um modo europeu de ser no Novo Mundo.

Este ano de 2020 nos põe em uma encruzilhada e, em um encontro de caminhos sempre há que se tomar decisão sobre que caminho seguir. Neste caso, o 12 de outubro nos põe a debater sobre as crianças, que dizemos ser o futuro, mas precisamos entender o que o futuro delas nós é que criamos; o 12 de outubro nos põe a debater sobre a liberdade religiosa e a apropriação das devoções populares pelos sistemas religiosos estabelecidos, quase sempre em detrimento dos populares; o 12 de outubro nos põe diante da decisão de continuar a construir o Paraíso, ou destruí-lo, como fizeram Colombo, Cortez, Pizarro, Bufallo Bill, David Cockett, Tomé de Souza, Mem de Sá e assemelhados.

Álbuns de família e jornais da família

outubro 9th, 2020

Ler os jornais diários é como folhear um álbum antigo de fotografias de família, observamos como o tempo tem passado e como não o percebemos. Claro que a fotografia de meu avô, parado, com seu terno branco e chapéu criando condições para que vejamos o quão grossas eram suas sobrancelhas, é antiga, tomada antes do meu nascimento, pois que ele já havia morrido quando nasci, entretanto ele está vivo e carrego comigo o seu nome e quase tenho o sobreolho tão espesso quanto o dele. E quando olho a foto de Vó Alexandrina, quase sinto o balançar da cadeira, no fim da tarde, na calçada de sua casa em Serraria. Eu era tão pequeno, tão menino, faz tanto tempo, mas ela está viva. Claro que faltam algumas pessoas neste álbum, pois que elas quiseram sair e suas imagens e lembranças se apagam lentamente. Exigem até um esforço para lembrá-las no tempo em que me aceitaram como parte de sua família. Assim, são os jornais. Procuramos neles o que podem nos dizer de nossa família social, mas vemos apenas sombras.

Ler os jornais, do dia ou dos anos imediatamente passados, nos impedem de lembrar algumas passeatas, algumas listas coloridas nos rostos, alguns sorrisos que anunciavam uma possibilidade de Brasil. Mas as cores desbotaram muito rapidamente. Mais vivas estão as imagens da passeata dos Cem Mil, ali, no Rio de Janeiro. Eram rostos sérios, carregavam o peso da morte de um estudante, e ela simbolizava a morte de uma etapa da vida política brasileira. Na foto, que foi capa de revista, não aparecem negros. “O ano que não acabou” ainda não percebera, ao menos os jornais, que o estudante assassinado não era branco. Ali, naquele ano morria os Anos Dourados, começavam os anos em o chumbo começou a ceifar a vida de jovens filhos de “gente de bem”. Lembro de um padre, vigário geral, escandalizado porque haviam prendido, talvez matado o filho de uma ilustre família católica mineira (Mota Machado?), gente de estirpe. Ainda não haviam percebido que em 1964 houvera uma luta pelos direitos civis nos Estados Unidos e, nos bailes se cantava “as viuvinhas do artista James Dean”. O Brasil via morrer uma juventude que, segundo os governantes, deveria estar nas academias militares e nos bailes de formatura, ainda não percebera mudanças na sociedade. A morte dos universitários provocou a indignação e começou o declínio do poder que tudo podia. Não por considerar os brasileiros, mas porque tinham que salvar esses jovens da morte e do comunismo, mesmo que tivessem que matar alguns. Também pensaram assim em relação aos indígenas, e construíram a Transamazônica, escavaram a Serra Pelada, destruíram a Carajá enquanto o poeta melancólico dizia que “Itabira era um retrato na parede”. 

Os jornais diários dizem isso, hoje: Jovens oficiais dos anos setenta, hoje  generais, vingam-se, chamando de heróis os que mataram os jovens da elite que apressavam o fim da ditadura. Eles voltaram com o apoio dos que não entenderam que a vida em  liberdade está sempre em risco. Na época em que os atuais generais eram capitães costumava-se repetir que ‘o preço da liberdade é a eterna vigilância’. Os que deviam vigiar, viajaram no que parecia o poder, finalmente. Os jornais de hoje mostram que a sociedade não foi vigilante. Entre solipsismos e relativismos, com as drogas, as novelas, os filmes, as graças, as viagens internacionais, o degustar as belezas turísticas do país sem olhar o povo que vivia por ali; tudo virou um culto do prazer individual, da riqueza para si, de uma divindade que só agrada.

 Os jornais de hoje mostram que os poderosos do dia cultivam o temor de forças externas ao mundo que querem construir. Agora retomam os discurso de que forças estão sempre a conspirar contra os ideais dos capitães que foram impedidos de serem torturadores, como Ustra. De certa forma eles têm razão, pois com as torturas perderam o apoio externo que recebiam. A ditadura que permitiu Ustra começou a desmoronar quando franceses começaram a envergonhar-se do que fizeram na Argélia e quando os norte-americanos sucumbiram no Vietnam e passaram a acossar os antigos aliados, exigindo que deveriam mudar. Não mudaram, mudaram-se, mas parece que retornaram com maior cinismo e prepotência, de novo com o apoio da ignorância externa e da ganância interna. Bem que podemos

Os jornais de hoje mostram que esse passado está vivo. Morto, parece estar o presente, com os zumbis afogados em filmes que cultuam a vitória do mal, pastores estupradores, pastoras assassinas, padres pedófilos, médicos doentes, espiritualistas acumuladores, juízes venais, tudo facilitando a ditadura disfarçada. Sim, aprenderam que o pão distribuído pode parecer justiça social enquanto se produz famintos. E, contudo e por isso, aprova-se o governo, como se aprovava o governo Medici.

O ano que não acabou, só acaba se houver mudanças de objetivos, para além dos limites aos quis nos acostumamos usufruir envolvidos em questiúnculas que não permitem atentar aos perigos a que estamos levando a sociedade a natureza. Famílias que não se cuidam, desaparecem porque permitiram seus membros desaparecessem. Uma família deixa de existir quando coloca-se o interesse de um membro acima daqueles valores que construíram e mantiveram a família unida. Cada geração toma a decisão de continuar ou não a família, a tradição forjada pelos antepassados. É evidente que nem todos os valores vividos pelos antigos merecem ser cultivados e, talvez, na escolha dos valores, os que levariam o desaparecimento familiar devem ser abandonados. Esses devem ser chamados de desvalores. Em nossa sociedade são muitos os desvalores a serem esquecidos: o racismo e seus corolários: a mentira, a falsidade, a inescrupulosidade, entre outros. Mas essas são as cores mais vivas do jornais do dia, essas têm sido as notícias mais comuns em nossos dias. Nossa sociedade está murchando e as cores que alegravam a face de uma geração desbotou, foi esquecida ou vendida e tornada sem esperança.  

O poeta nos ensinou que Raimundo, para o mundo era só uma rima. Agora devemos entender que mourão embora pareça, nunca rimou com solução. Exceto para prender a boiada e matar os bois.

Drama 20 – A Educação e Democracia impossibilitadas

setembro 29th, 2020

Drama 20 – A Educação e Democracia impossibilitadas

Neste domingo, próximo às 22 horas, em um telefonema, recebo a cobrança sobre o abandono do blog, quase um mês sem um texto novo. Digo que as novas atividades como professor me obrigam a estudar novas técnicas, preparar aulas e acompanhar o estudo de quatro dezenas de estudantes de diversas áreas: História, Geografia, Serviço Social, Filosofia, Farmácia, Medicina, que querem aprofundar conhecimento na história das religiões e igrejas no Nordeste. Em outras oportunidades já recebi alunos de outros cursos, mas não em tão grande número. Creio, e espero, que todos os professores estejam tendo esta experiência e dela aproveitando e deixando-se aproveitar pelos questionamentos que chegam de estudantes de outras ciências.

Esta experiência me põe a repensar sobre o tempo, o meu tempo. Tempo de leitura redobrada para atender a demanda desses jovens que desejam conhecer melhor o povo para quem e com quem vão trabalhar. Toma tempo, produz cansaço, traz alegria e réstias de esperança. A pandemia forçou essas aulas à distância, provocou a fuga do cotidiano, abriu a perspectiva de ver além do estabelecido na Matriz Curricular, ou Grade Curricular, na qual está presa a formação do estudante. Este semestre tornou possível olhar para além do que estava estabelecido, ou se estabelece pelas influências que alunos mais antigos exercem sobre os novos no momento da escolha da disciplina eletiva. O estudante, neste semestre especial viu-se mais livre para escolher, sem a sofrer influência de experiências de outras gerações, às vezes negativa, sobre as disciplinas ou sobre os professores. Livre para matricular-se, para ficar até o término do semestre, ou abandonar as aulas, caso elas não estejam contribuindo para a sua formação. Esta foi uma consequência da Covid 19, que, a mim, parece positiva, embora me force a trabalhar mais.

Ao lado desta alegre surpresa que me força rejuvenescer, tenho acompanhado o crescente desastre brasileiro. A pandemia, mais que criar problemas, tornou explícito o descompromisso dos que governaram o país desde o fim da ditadura, o descompromisso real com a democracia e com o povo brasileiro. Talvez, sem o tom arrastado de Getúlio Vargas, continuaram dizendo “trabalhadores do Brasil…”, enquanto evitaram modificar as estruturas que fazem um país rico com um povo pobre, condenado a subalimentar-se, enquanto assistiu, nestas quatro décadas crescer o número de milionários e o de favelas. Para mostrar que houve mudança, os intelectuais desses governos passaram a dizer que as favelas eram comunidades (penso no desgosto dos sociólogos clássicos) ou assentamento urbano de condições precárias. E os muros das casas e edifícios cresciam enquanto o desalento do povo fazia o mesmo. Continuamos a ouvir Dom Hélder lembrar que enquanto uns, a maioria, não conseguem dormir porque estão com fome, outros, a minoria, não dormem com medo dos que estão com fome. Por isso cresceu o número de empresas de segurança, de carros particulares, sendo que alguns são blindados. Em algumas cidades, esses que enriqueceram sem permitir que houvesse um acesso para além dos iogurtes, frangos e pizzas para dos trabalhadores empregados, deslocam-se apenas em helicópteros e aviões. Não os comerciais. A Pandemia mostrou que escolas construídas no tempo de Getúlio Vargas ofereciam mais espaços para os estudantes desenvolverem suas múltiplas potencialidades. Não tenho dados além do que meus olhos registraram nas cidades que, por razões de minha profissão fui levado a conhecer, mas creio ter sido um grande erro construir-se escolas sem bibliotecas, área para a prática de esportes e artes, mantendo uma educação baseado na escrita das palavras que estão postas nos livros didáticos. A mesma pressa que fez a Ditadura Civil-Militar incentivar a criação de faculdades no interior dos Estados, assistimos na criação de universidades inauguradas em prédios de escolas de nível médio, ou em salas de centros de compra, enquanto se arrumava verba para a construção de espaços que acomodassem a nova unidade de ensino superior. As duas iniciativas trouxeram benefícios, quem há de negar?, mas ambas escancaram a falta de planejamento para a criação de um sério sistema de ensino capaz de gerar e educação e as habilidades necessárias no século XXI. Apesar de pedagogos chamarem atenção de que uma boa sala de aula deveria ser formada por no máximo trinta alunos, os secretários de educação dos Estados e municípios, continuaram com salas de 60 alunos. O mesmo ocorre no ensino superior. E tudo justificável por conta da Grande Evasão, que existe, entre outros fatores, pelo desconforto das salas lotadas – algumas vezes sem cadeiras para os alunos sentarem-se – e da impossibilidade de um professor acompanhar tantos alunos simultaneamente. Economizaram na construção das salas, na não construção de bibliotecas, áreas para a prática de esportes e artes, economizaram no número de professores. Agora, como fazer para retornar as aulas cumprindo as exigências do distanciamento necessário? Para onde irão os alunos que não podem mais ficar na mesma sala simultaneamente? Como dividir os espaços para novas turmas? Serão construídas novas salas? E serão contratados novos professores, serão compradas novas carteiras? Todas essas perguntas nos mostram que, apesar de muito falarem em educação de qualidade, pouco se construiu de democracia, na sociedade e nas escolas. Um pedagogo escreveu um livro com sugestivo tema: quanto mais se falou de democracia na escola menos ela foi democrática, quanto menos se falou em democracia, mais ela foi democrática.

Nesse mesmo período ampliaram os plenários dos parlamentos municipais, estaduais e federal. E também ampliaram os espaços para que os juízes possam trabalhar com dignidade, gastaram-se fortunas em prédios e na manutenção dos privilegiados, acusados por Getúlio Vargas, em sua Carta Testamento, de devorarem as forças do país. E fizeram isso enquanto colocam em jaulas os criminosos mais pobres, e continuam a manter a divisão das prisões para quem tem diploma universitário e para os que não conseguem chegar lá. Há uma relação entre isso e o descaso com a educação. Quando algum poderoso que não tem diploma tem que ir à cadeia, logo se busca uma solução, e proíbem que lhe ponham algemas. E mudam as leis para que jamais sejam condenados.

Mataram a democracia,  não enquanto engordavam o pato, mas enquanto se engordavam do trabalho dos patos. Ainda estamos em 1954. No ano seguinte nasceu Bolsonaro. Já ia me esquecendo que ele continua o trabalho dos antecessores, com sotaque arcaico e mais perigoso.

Drama 18 – Boa Morte e Pandemia

agosto 15th, 2020

Católicos, desde alguns séculos celebram a Ascenção de Maria, mãe de Jesus, a Nossa Senhora de inúmeros títulos, dependendo do devoto. Essa festa quase diz que Maria não morreu, mas isso lhe tiraria a humanidade. Assim. Em uma tradição brasileira, ligada ao povo negro que foi trazido da África, essa é a festa da Dormição de Nossa Senhora, conforme a tradição da Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte, em Cachoeira, BA. Neste dia, nesse momento, de grave pandemia que mata cerca de mil brasileiros por dia, mas que também leva à morte milhares de pessoas em quase todos os países do mundo, precisa-se de uma fé que acompanhe “na hora morte” e que essas pessoas tenham uma boa morte. Mas, quem de nós sabe o que é uma boa morte?

Talvez a boa morte seja decorrente de  se ter vivido bem a vida, esse percurso entre o nascimento e a morte, disse um poeta. Mas há os que entendem, como as mulheres que vivem o culto de Nossa Senhor da Boa Morte, que a morte não é o fim da vida. Que não se confunda o pequeno intervalo  que nos foi dado a conhecer, com sendo a vida. Nós, no tempo em que conhecemos pais, avós, irmãos, filhos, primos sobrinhos, vizinhos de rua, colegas de sala de aula, banqueiros ávidos por lucros, políticos angustiados pelo medo de perder o poder, sacerdotes das muitas religiões que duvidam de seus deuses enquanto pregam suas palavras, somos apenas um pequeno fulgor da Vida, que é eterna, tanto para o materialista quanto para o espiritualista.

Desde o século XVI que vem crescendo o tempo entre o nascimento e a morte. Os bens culturais ampliaram a longevidade dos indivíduos, o que tem feito aumentar o número de habitantes que vivem simultaneamente no planeta terra. Até parece que ela não suporta mais tanta gente. Entretanto isso é uma ilusão, como a que assistíamos no filmes americanos que contavam a conquista do Oeste; em alguns deles ouvíamos diálogos que carregavam uma frase mais ou menos assim: “Este território é pequeno demais para nós dois”. Assim, ingleses, suecos, dinamarquês, franceses e outros, mataram as tribos indígenas de lá, como os portugueses mataram as tribos de cá e os espanhóis as de acolá. Esse mesmo discurso ocorreu entre chineses e japoneses; japoneses e coreanos; Hunos, e godos, visigodos, ostrogodos, francos, com os romanos ou que já estivesse ocupando aquelas terras. Nem se pensava em boa morte, ou melhor, a boa morte era a do guerreiro que morria matando. Houve um tempo que era arriscar o bom morrer com o sangue dos outros, como a épica cena protagonizada por Peter O’tolle, em Lawrence da Arábia. Mas, tanta morte deve levado aos que mal viviam, bem que poderiam ter uma boa morte. Sim, a morte aparece para todos, mas as famílias mais pobres é que parece serem mais visitadas pela Noiva de Todos, especialmente com os sucessos das pesquisas, das ciências, da medicina, da higiene. Mas nem todos têm acesso a esses bens tão necessários à vida. E os mortos continuam a ser mais numerosos entre os pobres que, por seu turno, são os mais numerosos habitantes do planeta, dominado por aqueles que, quando morrem os pobres, apenas dizem: é a vida. Mas estes guardam dinheiro para ser gasto evitando a morte nos hospitais, pendurados em máquinas que respiram por eles.  

A Nossa Senhora da Boa Morte é, também aquela que ajuda no Bom Parte, Patrocina os Despachos e aparece como Auxiliadora e companheira dos Aflitos, daqueles que estão em Desterro, que está sempre a oferece um Perpétuo Socorro, nos momentos que as Dores atordoam . A Nossa Senhora da Boa Morte está a acompanhar, os que desejam a sua companhia, ao longo da vida.

15 de agosto, dia de Nossa Senhora da Boa Morte, dia da Assunção de Nossa Senhora, dia da ordenação do padre Hélder Câmara, que teve uma Boa Morte, parte de sua boa vida dedicada aos aflitos carentes filhos da Mãe  de misericórdia.