Arquivos

Atos terroristas e nossas escolhas

As manhãs chegam como todos os dias. Não precisam de adjetivos e, o poeta de várias faces nos diz que os adjetivos são inúteis, as coisas são o que são. E, parece, às vezes, as pessoas, o mundo no qual estamos. Atentados terroristas, movimentos feitos para causar terror, aumentar o medo à enésima potência, estão a cada dia ao longo da história, ou das histórias. Fenômenos atmosféricos também aterrorizam: enchem de temor as chuvas que não param; os ventos acima dos sessenta quilômetros horários; os trovões que acompanham de muito perto os raios, e os tufões, e os furacões; tudo atemoriza, pois destroem as certezas e nos põem diante do término desta nossa precária e amada existência. Mas o terror maior vem do confronto com o outro que faz lembrar a mim de mim. Vive-se no terror de pegar uma condução, pois poderá ocorrer um assalto, um tiro. Corre-se o risco de morrer quando se vai ao trabalho ou quando dele se retorna. Ficamos à disposição da maldade do outro e, a impotência pode fazer nascer em nós o desejo da morte do outro, assim como ele desejou a nossa, como ele nos colocou diante da morte, da nossa morte. Um terror. E apenas supomos que em nome de alguma causa ou de alguém.

Gostamos de pensar que estamos sempre no caminho correto. Esse pensamento pode nos fazer odiar alguns atos de terror, silenciarmos sobre outros, acariciar alguns. Depende de nossa formação social e cultural; do lugar de nosso nascimento, do deus que nos ensinaram a acreditar juntamente com o idioma que aprendemos enquanto iniciávamos nossa trajetória bípede, ou das crenças que adotamos como boas ao longo de nossa pequena existência. Nos surpreendemos que alguns de nossos vizinhos parecem sorrir em momentos que vivemos alguma dor por conta de algum atentado politico/civilizacional. Como é possível que eles não estejam a sofrer essa dor que sofremos, ficamos imaginando e, na quadra escura do cérebro que não permito acesso a ninguém (lugar que poucas vezes visitamos), desejamos a mesma dor para eles. Vez em quando também eles devem ter essa mesma sensação e desejo.

Após as guerras do século XIX, quando as nações pareciam ter se acalmado com a paz que os cemitérios carregam, os Anarquistas ocuparam as manchetes dos jornais com atos de terror até à eclosão da Guerra de 14. Após a paz concluída em 1946, os nacionalismos africanos e asiáticos abrem, com terror o caminho para suas autonomias políticas e redesenham os mapas tão geometricamente montados na passagem dos séculos XIX e XX. Os humanos estão sempre a descobrir que outros caminhos são possíveis e outras realidades podem ser construídas. A tensão parece ser parte vital da vida, e sua explosão nos atinge de muitas maneiras e, em nossa defesa, reagimos da forma que nos permita viver. Reagimos fisicamente quando a bomba, o assalto é bem próximo do nosso local; reagimos ideologicamente quando o assalto é sobre o nosso modo de viver, a nossa civilização, ou daquela que desejamos viver. Às vezes medo exposto, às vezes alegria contida; às vezes tristeza quase infinita às vezes alegria similar. Cada ato terrorista nos confronta com nossos sonhos, com nossos desejos.

Sim, somos todos seletivos. Negar isso pode nos tranquilizar, mas não nos torna, nem nos tornará, seres universais, ainda que usemos palavras escolhidas para nos esconder de nossa humanidade atual.

Fazendo a história na hora e no lugar certos

Tem me acompanhado uma questão ao logo do tempo: a tentativa constante de expulsar alguns da história e, isso é tão corriqueiro, é tão comum, que nem nos damos conta. Carlos Drumond de Andrade escreveu famoso poema a respeito de uma pedra que apareceu em seu caminho e, ele cuida de, não tanto colocar a pedra como um acidente ou incidente, coisa de somenos importância em sua vida, mas dá-lhe um protagonismo especial, de maneira que sua vida muda após o encontro daquela ou com aquela pedra. Acontecimento singular, mas que transcendeu o momento do inesperado encontro. Não mais ele, a pedra é que indica o caminho, que impõe o diálogo com o mundo. Pois, o que intriga a mim é o esforço que alguns fazem para, não retirar a pedra inesperadamente encontrada, mas retirar da trajetória histórica de algumas pessoas, alguns protagonistas que fazem parte da história, que fizeram a história, que sem a sua presença a vida teria sido encaminhada de modo e por caminhos diferentes. Contudo, nega-se esse protagonismo, procura-se evitar que ele apareça, como se ele jamais houvesse existido. Afasta-se como se um entulho fosse. Faz o outro de entrulho histórico.

Há expressões que são usadas para isso. E, de tão usadas nem percebemos que as usamos para afastar certos acontecimentos, algum protagonista inexplicável na lógica que engendramos para a narrativa que usamos com o objetivo de ressaltar o que nos parece tão verdadeiro. Esse inexplicável, ou explicável por outra lógica, deve ser afastado e, se faz isso usando a fórmula: a pessoa estava no lugar errado e na hora errada. Pode até ser a pessoa certa – pois que se reconhece nela alguma virtude – mas a sua presença incomoda, uma vez que ela não deveria estar ali, naquele lugar próprio para aqueles que escolherem ser os donos e senhores da trama histórica. E se diz que ela estava no lugar errado, embora a sua presença tenha criado uma situação que facilitou a continuação da trama, que talvez viesse a ter uma continuação, mas com outros sucessos, sem a sua presença.

Uma testemunha, inesperada, na cena do crime, é alguém no lugar e hora errada, para o criminoso, mas é uma pessoa no lugar e horas certas na visão da vítima que sofria a ação criminosa. Definir qual a importância a ser dada a essa pessoa é a escolha de quem recolheu e conta a história. Essa escolha talvez seja a Escolha de Sofia: qual história deve ser lembrada e qual protagonismo deve aparecer é o dilema de todo aquele que conta uma história.

Ao dizer que alguém está no lugar e hora erradas é, de chofre, chamar de idiota aquele que está participando de um momento histórico sem ter conhecimento do todo; é negar a validade de conhecimento que ele tem, e que construiu até chegar àquele momento, nas condições que lhe foram dadas. Talvez, o uso dessa expressão, seja uma forma de impedir que alguém o procure para que ele diga detalhes que só quem esteve presente saiba. Assim deve-se desqualifica-lo rapidamente: assim agem aqueles que constroem o protagonismo, seu ou do seu grupo. Em seu benefício, em benefício de seu grupo, retiram da história quem faz e fez a história.

Assim é que aprendemos “o povo assistiu bestificado a proclamação da República!”, diz aquele que, de alguma maneira, ajudou a bestificar o povo. Ele poderia ter dito: “Fizemos o povo de besta na proclamação da República, não o chamamos, nós o desejamos, como uma besta que observa de longe, não desejamos a sua participação.” Mas se isso fosse dito assim, o protagonismo por ele exercido seria o de criador de injustiças, prefere colocar o povo como protagonista de sua miséria e ausência, e não vítima do poder que foi exercido contra ele.

Há pedras, pessoas, que parece terem estado na hora e lugar errados por não comungar com os valores políticos partidários de partidos ou instituições, mas apenas estavam no lugar e na hora certa ao lado do amigo. Mas a amizade quebra a lógica da luta de classes, do poder ou do simbolismo do poder. Na trilha do poder não se reconhece a amizade e o amor só pela causa do homem; o amor à essa causa política retira do amigo o protagonismo. Assim fazem as instituições que só reconhecem o outro quando é para afirmar o seu protagonismo. Foi o que fez um santo homem dizer: “amigo dos pobres e meu amigo”. Reconhece o outro enquanto degrau para seu protagonismo parasitário, apropriando-se da vida do outro. Nega a história do outro, aquele incompetente que estava no lugar errado, na hora errada. A sua presença incômoda precisa sair e, se não se pode evitar, que apareça como uma besta e não como um ser humano construtor da história. A sua e a de seu povo.

A que nos leva uma educação não sintonizada com o século.

Esta foi uma semana que passou marcada por fortes emoções que envolveram religião, política, arte, ética, ou seja foi semana extremamente humana. A humanidade é consequência desse diálogo profundo que se tem a partir das relações mais primeiras, que são as relações que nos mantém fisicamente vivos pois, para tal tivemos que inventar valores que nos permitissem a vida diferente dos outros animais. Afinal, nosso corpo, embora pareça muito com os corpos de muitos animais – somos todos filhos da mesma terra com suas leis e seu magnetismo – temos pequenas diferenças que nos permitiram criar modificar o ambiente e criar cultura: objetos e ideias. Mas, como desde cedo nossos antepassados mais distantes se afastaram, dividiram-se para sobreviver com os poucos recursos culturais que possuíam e, nesse afastamento, foram criando novas ideias de explicavam a sua existência (religião), a sua organização de poder (política), o que valia para tornar agradável os espaços em que viviam, belos e atraentes os seus corpos (arte), e os comportamentos que permitiam a convivência do grupo (ética). Assim foram sendo criadas culturas diferentes no espaço comum de todos: a terra. Nos últimos quinhentos anos tem acontecido movimento inverso: os grupos humanos estão de novo se encontrando e, cada vez mais de forma pacífica, pois nos dois últimos séculos tem diminuído confrontos mortais entre as nações. Claro que as notícias sobre os pequenos conflitos locais que dominam as ruas das cidades (luta por controle de território para venda de drogas e outras atividades por questões semelhantes) podem nos dar impressão diferente.

O que vivemos nesta semana foram debates em torno das culturas que se encontram depois de muitos séculos, e também por valores que estão sendo abandonados por alguns e recepcionados por outros. A partir de uma exposição de arte, ou seja a apresentação estética de um grupo sobre situações diversas, experiências de convivência, maneiras de organização para apresentar seus propósitos e dizer seus sentimentos, outros grupos sentiram-se ofendidos em suas crenças, em suas definições e experiências estéticas, nas valores que regem seus comportamentos sociais e familiares. Então acionaram os caminhos da organização jurídica do Estado em defesa desses valores que o Estado se compromete defender. Ocorre que o Estado também protege o outro grupo e todos os grupos que o formam, o Estado deve dirimir o conflito e dizer que ele não é o Estado de um só grupo.

São muitas as razões desse debate de equívocos. Por termos um sistema educacional que discute as questões de estética (lembremos que nem a gramática básica da língua tem sido ensinada nas escolas, e a gramática é que embasa e garante a beleza do idioma), confundimos a arte com os sentimentos e, se atentarmos que os sentimentos básicos da formação de nossa cultura é a religião, caminharíamos para entender porque grande parte do debate teve os valores religiosos como catalizadores da discussão. Houvéssemos cuidado melhor de nossa educação debatendo os valores estéticos com base em uma ética não religiosa, certos confrontos com face interna e externa do século XVII não teriam medrado entre nós, e os juízes não dariam sentenças baseadas em valores religiosos, mas chamariam atenção aos valores cívicos. Mas atualmente há lobbies lutando para que o Estado, que se define como laico, assuma responsabilidade de ensinar religião. Ora, religião deve ser ensinada nas igrejas, nos templos, nos terreiros, nos locais da religião e nas famílias.

Nas escolas, mantidas pelo Estado, com professores pagos pelos impostos, devem ser ensinado, aos cidadãos, as ciências da História, da Arte e da Sociologia. Não é obrigação do Estado ministrar aula de religião. Esses religiosos, como os partidos políticos, devem saber que os impostos são para ser usados preferencial e primeiramente para a saúde, a segurança e a educação dos cidadãos.

Jerimum com leite e minha Pátria

Faz cinco anos da morte de minha mãe, e na manhã de 5 de setembro lembrei do jerimum com leite e açúcar que, algumas manhãs ela nos servia como primeira refeição do dia. Veio a lembrança enquanto eu cortava e descascava o São Tomé para a minha primeira refeição. Mamãe não entendia de política, mas sabia o que era bom para a saúde de seus filhos e nos ensinou o que é ser uma pessoa humana, alguém que, embora sabendo-se imperfeita e tendente ao egoísmo, é capaz de superar esses pequenos e grandes limites. Ela nos ensinou que há o bem e o mal, e que devemos optar pelo bem. E o bem é que queremos para nós e o que queremos para nós só é bem mesmo, se for bom para os outros. É uma senda para a vida.

Nos últimos dias temos aprendido que a geração que chegou ao poder no início deste século, embora convencesse a muitos com seu discurso de desprendimento e de doação aos pobres, de compromisso com a Pátria Mãe gentil brasileira, garantindo que iria mudar o Brasil, não cumpriu a promessa. Fez reformas cosméticas, exteriores, “dourando a pílula”, mas aprofundou a prática de apropriar-se das riquezas produzidas pelo povo brasileiro.

Agora, quando o século completa 17 anos e o Brasil 195, notamos que a pouca atenção que é dada a esta data. Na segunda metade do século XX, o Brasil viveu uma ditadura, essa maneira de governar que nega ao povo o direito de sua fala, o direito de debater e participar da vida política; foi um período em que militares e civis governaram, conjuminadamente, sem considerar o desejo dos brasileiros, cuidando apenas de seus interesses. Quando conseguimos afastar os ditadores, talvez tenhamos cometido o erro de confundir a ditadura com o Brasil e, parece que, como se conta em uma história, “jogou-se a água suja com o menino na bacia”. O segundo ano do século XXI seria o início de um novo tempo, um tempo como “nunca antes houve neste país”.

Por razões múltiplas, quisemos e fizemos o esquecimento do Brasil. Começamos achar ridículo considerar-se brasileiro, amar a pátria passou a ser sinônimo de gente do passado, ou de “direita”, enquanto ser gente atual era amar a “pátria grande”. Perdemos o amor da pátria. Acreditamos, de verdade, no que disse um poeta um poeta durante a ditadura: “melhor seria ser filho da outra”. E cuidamos, como fizeram os portugueses à Felipe dos Santos e Joaqim José da Silva Xavier, Manoel Justino, João de Deus et alli, no tempo em que dominavam esse pedaço da América, esquartejamos nossa realidade e passamos a conversar e refletir a partir dos pedaços, confundindo-os com o todo. De tanto não querer nosso passado, Imperial e Republicano, passamos a nos ver como se vê a potência a que se diz recusar. E começamos a apartar os pedaços e, com a justificativa de que estávamos buscando a identidade, libertar os inconscientemente dominados, fomos largando o que nos unia, aprofundando o fosso econômico e social, como nos mostram os bairros/cidades afastados, esses condomínios de luxo, bem como os muros altos das cidades, externação da distopia em que nos metemos seguindo quem prometia a utopia do paraíso. Perdemos a identidade que tínhamos.

Depois que tanto nos roubaram aliando-se aos que sempre nos roubaram (parece que com mais parcimônia), ajudaram a roubar a riqueza que produzimos. E depois que nos ensinaram a não amar a Pátria, depois de nos ensinarem a não respeitar nossas tradições, transformando-as em mercadorias e razões de espetáculos, será que só nos resta “ser filho da outra”?

Embora a mim tenha mais sabor de liberdade celebrar o 5 de outubro de 1821, neste Sete de Setembro, quando o Brasil completa 195 anos de existência, vou cantar o verso que aprendi antes dos dez anos, no tempo em que comer jerimum machucado com leite e açúcar fazia parte da refeição matinal de muitos brasileiros da área rural: Houve mãos mais poderosas, zombou deles o Brasil.

algumas lembranças da Fábrica da Macaxeira e da Igreja de Nossa Mãe de Deus

Hoje completa 50 anos da criação da Paróquia de Nossa Senhora Rainha do Mundo, localizada na Macaxeira. Tinha eu sete anos de idade. Foi no mesmo período da criação da Paróquia de Nossa Senhora de Lourdes de Nova Descoberta. As duas novas paróquias eram desmembramento da Paróquia de São Sebastião do Vasco da Gama que por sua vez já havia sido desmembrada da Paróquia do Bom Jesus do Arraial, de Casa Amarela.

O metropolita era Dom Antônio de Almeida Moraes Junior, bispo conservador que pôs sua assinatura na ata da criação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Dom Antônio era conservador, autor de vários artigos na Revista Eclesiástica Brasileira – REB, todos seguindo a linha da Quanta Cura e do Sylabus de Pio IX. Mas Dom Antônio percebeu o crescimento populacional e geográfico da cidade e, cuidou de estabelecer a presença da Igreja naquela região norte do Recife, que vinha num crescendo desde os anos quarenta. E esse crescimento estava ligado a dois fenômenos: 1. a descida da população desde a Mata Norte, pois as usinas levaram ao fechamento dos engenhos e ao processo de substituição dos sítios por canaviais sempre mais sedentos de terra; 2. a transformação desses antigos cortadores de cana moradores de engenhos em operários nas fábricas têxteis, especialmente da Fábrica da Macaxeira. O crescimento populacional, é incrementada nos anos quarenta e cinquenta e levou à ocupação dos morros; essa população operária chamava atenção pela situação precária que vivia, sendo que os operários das fábricas de tecidos eram os que tinham melhor padrão de vida, no que pese a constante renovação da mão de obra nas unidades fabris. E o Arcebispo preocupava-se em não perder suas ovelhas para os sindicatos que saíram em defesa dos operários. Dom Antônio percebeu que era necessário aproximar-se e dar um apoio maior aos que formavam a Juventude Operária Católica – JOC, e era ativos cristãos no meio operário, bastante disputado também pelos partidos, especialmente o Partido Trabalhista Brasileiro – PTB e o Partido Comunista do Brasil – PCB.

A indústria têxtil de Pernambuco foi instalada em momento de forte presença da Igreja Católica na sociedade, ainda que estivesse sendo vivenciado o processo de secularização, cujo emblema mais explícito é a separação republicana da Igreja com o Estado. Os industriais eram católicos e pretenderam seguir os ensinamentos da encíclica Rerum Navarum, e criaram vilas operárias, com atendimento religioso, educacional e social para os seus operários. Assim, além da igreja e da casa paroquial, as fábricas ofereciam atendimento à saúde, centro de lazer, com cinema e salão de festas para os operários, quase sempre conhecidos como recreios. Evidentemente os industriais também forneciam as instalações para a delegacia de polícia.

Esse fenômeno pode ser visto no Bairro da Torre, em Camaragibe, na cidade de Goiana, ainda agora depois que as fábricas fecharam as suas portas por não terem tido a audácia de renovarem-se parra acompanhar o processo nacional, ou, por os sucessores de seus fundadores terem optado por acompanhar o processo de fortalecimento do capitalismo centralizado na região Sudeste do Brasil, assumindo ações nos setores de serviço, especialmente a hotelaria. Os operários foram abandonados e, simultaneamente os bairros incharam com o capitalismo e suas sequelas se estabeleceram com a nova ordem ou desordem, com a ausência do Estado que, quando chega vem com um atraso irremediável.

Nesta manhã, uma aluna de jornalismo da UNICAP fez-me perguntas sobre a fábrica, lembrando-me do tempo em que saía de Nova Descoberta para, atravessando a mata de eucalipto às seis horas da manhã, apanhar o ônibus elétrico que me levava até a Encruzilhada, onde terminei o curso ginasial. Mas também lembrei que, nas festas de Natal, ia com meus irmãos e amigos para a frente da Igreja de Nossa Senhora Mãe de Deus, brincar no parque e assistir a apresentação do Pastoril. Ao longo do ano, na venda de papai, vendia fiado a muitos operários. Com fechamento da fábrica, aos poucos o comércio de papai também faliu, impulsionado pela chegada dos modernos supermercados.

Afogado em números e viagens

Então chego em casa após duas horas de palestras para senhoras donas de casa, algumas mulheres comerciantes, jovens estudantes que estão no final do ensino médio, alguns universitários, alguns agentes de turismo, aposentados e aposentadas, e gente que acabara de descer do ônibus e entrou na Igreja de São João dos Militares, na periferia do sítio histórico de Olinda, com o objetivo de ouvir e debater o Cotidiano em Olinda no século XIX e início do século XX. O padre que cedeu o espaço para a palestra ficou surpreso com o número de pessoas que atenderam ao convite que ele fez na missa do domingo. Nenhuma autoridade, apenas uma representação da periferia Após a palestra várias pessoas fizeram comentários e uma ofereceu a sua coleção de fotografias para que sejam escaneadas. Coração alegre.

E ao chegar em casa, leio que um professor titular da Universidade Federal de Pernambuco, em entrevista a jornal da cidade do Recife, propõe o fim do ensino da história e da geografia para que os alunos tenham mais tempo para aprender a pagar boletos,; a vida, segundo o doutor, é a arte de pagar boletos. O doutor, professor emérito do Centro de Informática da UFPE não quer que se perca tempo estudando história, refletindo sobre os modos de apropriação e usufruto da natureza, pois, para o ilustre matemático, o importante é saber como fazer códigos de barra e os pagar prazerosamente nas agências dos bancos que financiam suas viagens ao Japão e à Austrália, povos que pararam de ensinar história e geografia aos seus jovens, aquele em algumas universidades e, esta, no Ensino Fundamental 2. Sílvio Meira, professor emérito da UFPE, e associado da Fundação Getúlio Vargas, é capaz de entender o mundo sem essa tentativa de compreender as razões que levaram as sociedades a dominar e escravizar a natureza. Compreender esse processo pode levar os humanos a pensar, novamente, que o caminho poderia ser outro, que o salto quântico pode ser um salto não quantitativo dominante, mas de outra qualidade, e não a continuação de repetir sempre os mesmos passos na mesma direção. Na natureza não há retas e, quando se impõe uma regra (régua) na sociedade, o desastre é garantido. Historicamente os japoneses já sabem disso, e, talvez por isso a história deva de ser dispensada? A história não se ensina, conta-se enquanto se vive. Evita-se o estudo da história pelo interesse de esconder a terrível fragilidade que é o ser humano, histórico e sem a impessoalidade de um código de barras.

Não há como negar que vivemos envoltos em uma trama que parece desmerecer o ser humano que criou esse mundo de máquinas que comandam, já agora a existência. Mas será que devemos também entregar a essência que somos? Historiador, Harari nos mostra o dilema que estamos a viver desde a mais recente das revoluções do conhecimento, mas ele entende que a sociedade deve debater suas possibilidades. E como fazer esse debate tão sério abandonando a experiência (história) e negando o mundo que nos envolve e que recriamos (geografia)?

Lamentável que há quem julgue que usar roupas berrantes é ser o suprassumo da inteligência. O professor emérito deveria ler (não se reler o que não se leu) “O que penso do mundo”, de um cientista apaixonado pela história (não pela repetição do algoritmo), Albert Einstein. Ele pôs a língua para fora não porque era inteligente, mas porque estava irritado pelas inúmeras repetições dos seus entrevistadores.