Nóis sofre mas nós Goza?

fevereiro 13th, 2021

Estamos vivendo um ano muito atípico, com essa “gripezinha” que já matou mais de duzentas mil pessoas, só no país cujo presidente parece sentir-se bem com tantas mortes. Quando ainda não havia sido escolhido para ser carrasco das instituições e do povo brasileiro, o capitão da reserva lamentava que tenham sido mortos tão poucos brasileiros pela ação do exército. Agora ele para estar muito excitado com as mortes que tem provocado pelo seu modo de governar.

Para cuidar do meio ambiente do Brasil, colocou no ministério uma pessoa acusada de crime ambiental; para comandar a Fundação Palmares, que cuida do patrimônio e da herança culturais africanos que vieram como escravos para o Brasil, ele pôs um intelectual negro que nega tais tradições; para cuidar dos assuntos da família e dos gêneros colocou como ministra uma pastora evangélica que vê pecado em qualquer manifestação que ela cria ser contra a Bíblia; no ministério da Ciência e Tecnologia, colocou um astronauta que ainda não sabe como foi ao espaço e silencia quando o presidente levanta sua voz contra a ciência; o ministério das Relações Exteriores, foi entregue a um diplomata que faz questão de colocar o Brasil fora das relações com os Estados Livres e adeptos do pensamento científico; finalmente colocou no Ministério da Saúde, um general obeso, obediente, incapaz de pensar e, dizem ser especialista em logística. Pois bem, este general, que não sabia o que é o SUS, Sistema Único de Saúde, o está destruindo, como já desmobilizou o sistema de vacinação que o SUS mantinha e era considerado, mundialmente, como dos melhores. O general da logística deixou faltar oxigênio para os pacientes, não conseguiu elaborar um plano de vacinação, não comprou as vacinas necessárias para a população. Isso nos faz temer pelo futuro, pois se está a perder o presente, a alegria de viver. O medo da morte está nos rostos dos brasileiros e nos risos dos seus dirigentes: os primeiros apavorados, os segundos, parecem extasiados. 

Nas perdas que sofremos nos últimos anos, o mundo tem sentido a perda do Carnaval, uma festa universal que assumiu, desde o início do século XX, ser a principal festa do Brasil. Mas são muitos os carnavais e de diferentes formatos embora seja mais vibrante no Rio de Janeiro, com um modelo de espetáculo, algo para ser visto e aclamado. O carnaval para os outros verem não é o único que existe naquele pedaço do Brasil. São Paulo gostou muito do estilo carioca e montou, com sucesso, as arquibancadas e a passarela. Outro carnaval é o da Bahia, que teve a ousadia de modificar a forma de tocar o frevo e seguir os trios, sem passarelas, mas com cordões protetores, excluindo no carnaval quem já é excluído o tempo todo. Mas aos poucos as cordas cedem espaço, o povo fica cada dia mais próximo do carro que leva o Trio que virou banda, e os cantores/animadores, cada vez mais altos. Pernambuco tem Maracatus de nações africanas e Maracatus de Caboclos de Lança larga para lembrar que a terra tinha dono antes dos entrudos; tem Tribos de Índios e Caboclinhos de passos rápidos que correm atrás das notas dos pífanos, e isso sem contar com as La ursa, os Ursos, e tantas troças. Recentemente, talvez por medo de perder espaços nas televisões, criaram um clube de máscaras e fantasias que saía na madrugada do sábado, mas com os recursos conseguidos, veio a tomar conta de todo o sábado, fechando o Recife para si mesmo e, acabando com o carnaval de rua no Recife na região Metropolitana; tomou para si a cidade que passou a ter um carnaval espetáculo, parecido com o Rio de Janeiro, e com os quase trios soteropolitanos. Mas, para gaudio dos orgulhosos pernambucanos, passou a ostentar título dado pelos ingleses. Aí o povo foi para Olinda, e os bairros de São José e Boa Vista perderam seu carnaval. Coisas da dinâmica da vida.

Este ano, os pernambucanos esperaram o ano inteiro, mas não se meteram na brincadeira, e a Quarta Feira ingrata ocorreu uma semana mais cedo. Publiquei na Revista do Instituto Histórico de Olinda que Recife e Olinda, desde os anos sessenta estendem o carnaval de forma que os ensaios e acertos de marcha têm início em setembro, mas este ano ficaram sem carnaval pois, dançar com a Covid 19, pode ser um convite para o fim do carnaval individual.

Não parece ser fácil viver sem o carnaval, um ritual de passagem, o verdadeiro réveillon brasileiro, pois aqui, “tudo começa depois do carnaval”, tudo que vem antes é ensaio e acerto de marcha. O ritual dá um sentido à vida, ao cotidiano, depois de tentar suprimi-lo. Sem carnaval, como será a quaresma, especialmente para os não crentes, os não religiosos? Ter-se-á que fazer uma nova explicação para as cinzas nos rostos, sem o carnaval? A não existência do carnaval está impedindo que o catador de latas de cervejas oportunize (assim se diz hoje) ao jovem endinheirado a alegria de ajuda-lo na tarefa de alimentar sua família? E o que dizer dos carregadores de gelo, os apertadores de parafusos dos palcos? A não existência do carnaval põe em risco muitas existências, mas a sua realização, neste ano, também põe em risco as existências de muitos. Assim, teremos um carnaval virtual, visto pelas telas. Os computadores serão as avenidas para os mais carnavalescos. Entretanto, os Tambores de Olinda não chegaram ao Pátio do Rosário para silenciar. Como será o silêncio do Pátio do Terço? Talvez volte a ser o silêncio do tempo mais antigo de Badia e suas companheiras da irmandade de São Cristóvão. Escuto que o homem da Meia Noite fará uma ‘live’, julgando manter a tradição, mas não poderá entregar a chave ao Cariri no Largo de Guadalupe. E o Galo, cantará na madrugada, no coreto que já foi do Leão Coroado?

A Sete de Setembro ficará silenciosa neste sábado sem o brilho azulado de Tarcísio Pereira que, não aguentou mais sofrer e foi para o gozo eterno. Não é, o 7, a perfeição, a soma da Trindade com os pontos cardeais? A barba azulada de Tarcísio ficará bem, ao lado do azul do manto de Nossa Senhora. É capaz de se confundir. De lá ele verá o Bloco subir Misericórdia ao som do frevo, e perguntará se o carregador do estandarte é São João do carneirinho. Com certeza também sorrirá ao ver o desaparecimento das barracas da Praça do Carmo e ouvirá algum Querubim dizer: Eu acho é pouco, pois inventaram tantos partidos que o terreiro da Carminha ficou pequeno.

Escrevo essas bobagens porque estou ouvindo, no fundo das minhas lembranças a orquestra nos guiando para a atravessar a ponte da Duarte Coelho e frevar no Pátio de São Pedro antes que o galináceo tmasse o Recife para si. Este ano, Nóis sofre mas nós Goza? Esta é a pergunta que nós põe o último baluarte do carnaval da Boa Vista.

Daqui eu fico pensando: sempre que começam a organizar o que o povo já organizara o povo desaparece, só ficam os catadores de latas.  

Artigo sobre Carnaval que ultrapassa 30 dias, veja o link abaixo 

https://www.academia.edu/44006285/UM_CARNAVAL_QUE_ULTRAPASSA_30_DIAS

http://www.biuvicente.com/blog/

Dia Dois de Fevereiro

fevereiro 1st, 2021

Amanhã é Dois de fevereiro, mas estamos vivendo quase sem amanhã. Amanhã é Dois de fevereiro, dia de muitas devoções, nas muitas religiões dos brasileiros. Povo de muitas origens, de múltiplas tradições.

Há uma tradição católica que preza a Senhora dos Despachos, uma devoção que nos leva aos tempos da dominação portuguesa, quando os colonos viviam à espera de respostas às suas demandas enviadas à Coroa. Viver à espera de um despacho, de um parecer escrito por algum funcionário, para saber se poderia continuar a usufruir de um privilégio ou se lhe foi negado algo que julgava ser seu direito. Então a população de Upatininga, Aliança, PE, pedia à mãe de Jesus que apressasse, que cuidasse para que o despacho lhe fosse favorável.  

Também católica é a celebração de Nossa Senhora dos Navegantes que ocorre em Porto Alegre, RS, uma celebração dos pescadores e de todos os que vivem tendo o mar como local de sua principal atividade econômica. É uma devoção mais antiga que a colonização ibérica nas Américas, pois que então a mãe de Jesus era celebrada como a Estrela Matutina, que orienta os que estão em alto mar.

 A mesma devoção mariana é encontrada São Salvador, BA, a Nossa Senhora da Conceição da Praia. O encontro de povos que atravessaram o mar em situações tão diversas, uns como senhores de navios, outros como mercadorias transportadas nos mesmos navios. Uns e outros rogavam, e rogam por proteção quando estão nas águas salgadas dos mares e pedem que os levem a um porto seguro. E nesse encontro de humanos de tradições distintas, é comum que as experiências sejam trocadas e, pacificamente ou não elas o são. Quando não há troca, há extermínio, como ocorreu com a maioria dos povos indígenas que conheceram a tradição anglo-saxônica da cristandade.

Na Bahia de São Salvador, a Estrela do Mar também é Iemanjá, a Rainha do Mar, a quem todos procuram com pedidos, solicitações e agradecimentos pelos bons despachos de seus sonhos.  

No Brasil, por circunstâncias várias, o contato promoveu assimilações, complementações, adições ainda que algumas divisões promovessem certas subtrações culturais. Mas, o que temos é uma multiplicação de devoções que envolvem tradições católico-romanas e afro-americanas. Amanhã, dia Dois de Fevereiro, é dia de Iemanjá, a Rainha do Mar, A Estrela Matutina, A Estrela Protetora, A Mãe das Águas, a Protetora dos Pescadores e dos Navegantes que de todos cuida com o zelo de uma mãe pressurosa.

Mas, mesmo sendo amanhã, dia Dois de Fevereiro, parece que estamos sem amanhã, sem a certeza do futuro, exceto que amanhã será hoje. Precisamos um bom Amparo para atravessar o oceano de dúvidas e sofrimentos que se aproxima nesses próximos anos. No refluxo das marés Iemanjá devolve muito do que recebe, mas não devolve o que não recebeu. O auxílio recebe quem pede, mas que pede deve providenciar, enviar a carta expondo os problemas e as esperanças.

O País da Coconha

janeiro 16th, 2021

Quinze dias se passaram desde que o ano de 2021 teve início. Quando ocorreu o mágico momento em o ponteiro que marca os segundos, eram muitos os pensamentos positivos e as preces que pediam, aos muitos deuses e deusas, um ano melhor do que aquele que estava finando. 2020, ao finar-se deixava uma marca triste no número de finados, de pessoas que deixaram de ser, que passaram a ser lembranças, para os que lhes conheciam e, com eles, dividiram parte de seu tempo e, é quase certo, sonharam alguns sonhos, tendo alguns deles sido materializados. Mas, os mais otimistas entendiam que haveria muitas repetições das dores que a peste traz.

As alegrias, sabemos, são pequenas flores que aparecem nos jardins, em uma brava luta contra o que se convencionou chamar de erva daninha. Elas são sempre em número maior que as flores de nosso agrado. Aliás as flores que nos alegram quando olhamos nos  jardins, só o fazem porque nos dedicamos a elas. Muita gente é feliz sem saber, ou pensar, que o que lhes traz felicidade é resultado de seus esforços. Também os sofrimentos. Fala-se que o Conselheiro Acácio costumava dizer que “as consequência chegam depois”. Assim sendo, as dores de 2020 e dos anos que seguiremos, são resultantes da ação de cuidarmos das flores ou deixarmos crescer as ervas daninhas. O que dói é admitir que se existem esses sofrimentos, esses acontecimentos indesejáveis que nos molestam hoje, eles foram cultivados, foram desejados, de alguma forma, nos anos anteriores.

O ‘País da Coconha’ quem não o deseja? Os brasileiros, talvez mais que qualquer outro povo o deseja, até mesmo mais do que aqueles que o inventaram, o imaginaram. Pintores europeus mostraram esses sonhos, os representaram com lavradores deitados na relva, e em êxtase viam as galinhas já greladas vindo na direção de sua boca para satisfazer seu apetite. Os lavradores sonhavam isso, pois viam isso ser vivido pela nobreza que, não trabalhando na terra, recebiam os alimentos em suas mesas tendo, no máximo, de fazer o esforço de leva-los à boca para o supremo trabalho de mover as mandíbulas e, com a língua, empurrar o alimento para o estômago.

O que parece é que os vieram da Europa para formar o Brasil trouxeram em sua mente o País da Cocanha e uma certa Visão do Paraíso, julgaram ter encontrado o lugar da benção inicial, e pensaram e agiram como se na Cocanha tivessem chegado. Não, eles não eram nobres, os que vieram para o Brasil, era gente que se enobreceu na guerra de conquista do litoral africano e em algumas regiões da Ásia, então criaram para si o que julgavam ser o mito. Para tal passaram a explorar, sistematicamente, os habitantes da terra e, mandaram buscar, no outro lado do Atlântico, gente para substituir os nativos. Começara o processo de substituição de tecnologia para a produção e, desde então, isso é pago com o preço do atraso. Daí, quando não mais puderam ficar com Portugal lhes tomando parte do que lhes cabia, promoveram a ‘separação’ e desde então não se envergonham de dizer que estão “deitados eternamente em berço esplêndido, ao som do mar e à luz do céu profundo”.

Com mesma tranquilidade de sempre, seus descendentes continuam fazendo pouco caso das mortes dos que produzem a riqueza para que eles se empanturrem de comida e bebida. Daí o descaso com que tratam a pandemia Covid 19, colocando a economia acima da vida dos trabalhadores. Se fizeram isso com os nativos escravizados, com africanos escravizados, continuaram a fazer com os moradores arrendatários, e o fazem atualmente com os motoristas e cobradores de ônibus, com os frentistas, com os empregados e empregadas domésticas, com os entregadores de comida pronta, com os comerciários. Animados pelos novos godos, os comerciantes e industriais exigiram, continuam exigindo, que as atividades econômicas não parem, para que seus lucros não cessem. Talvez até estejam fazendo cálculos para saber qual o ganho da Previdência Social com a morte dos mais velhos. Só eles podem envelhecer, ainda que vilmente.

Mas estamos no final da primeira quinzena do mês de janeiro, o mês daquela deusa que olha simultaneamente para o passado e para o futuro, que só percebemos quando presente. Enquanto ele não existe é apenas desejo.

Os habitantes de Coconha não formam uma nação, pois uma nação é formada por pessoas que se juntam para realizar o sonho comum e o fazem solidariamente, mesmo quando  não em igualdade total. Uma sociedade na qual apenas uma parte tem acesso aos bens criados por todos, uma sociedade que se comporta como Siris na Lata, uma sociedade que não admite o mínimo de solidariedade e reconhecimento do outro, jamais será uma nação: será sempre um grupo de exploradores que cultiva o egoísmo, que aceita negar a dor do outro. Coconha é uma sociedade de necrófilos, de genocidas. O Paraíso, mesmo para os exploradores é um inferno, como disse um cronista dos tempos em que Portugal explorava essa região do globo: o Brasil é o paraíso dos mulatos, o purgatório dos brancos e o inferno dos negros. Por isso temos Manaus. Vocês sabem, Manaus era uma nação indígena suprimida pelos sonhadores de Coconha.

Continuamos assim, neste início do século XXI. Vemos que os que estão no poder de Coconha carregam inveja dos mulatos; continuam a tornar um inferno a vida dos negros, mas jamais sentem-se no paraíso, que continua sendo uma Visão, como dizia aquele historiador respeitável. Mas é um paraíso que jamais será alcançado pois eles tudo farão para tornar a vida de todos um inferno, criando dificuldades as mais diversas, inclusive para o acesso à vacina. Mas isso não os fará felizes, seu líder continua desejando uma praia. Em outros países que também vivem da exploração de seus compatriotas, mas que se esforçam para ser uma nação, os líderes cuidam para que o seu cotidiano sofrido não seja definido como inferno. É que eles não sonham com Coconha.

Início do séc XXIa – Dia de Reis

janeiro 9th, 2021

Correu a primeira semana e, podemos dizer que foi um fecho formidável do diminuto século XXIa. Os acontecimentos em Washington, DC, sob a liderança de Donald Trump, a escalada do Capitólio por uma pequena multidão de seguidores do atual presidente dos EUA, marcam o fim desse pequeníssimo século, que pôs gananciosamente as garras à mostra, explicitando o que pode ser  esperado daqueles que herdaram a glória de Búfalo Bill, a batalha de Little Bighorn (1876) e sua exaltação à morte. A invasão da Casa dos legisladores marcará o fim do governo Trump, embora possa vir a firmar a sua liderança mais ativa nos movimentos populistas, agregadores dos WASP mais pobres e abandonados, dispostos a arrancar o que ainda sobrou dos índios, latinos e afro-americanos.

No sul dos Estados Unidos, na terra de George Wallace, aquele que em 1962 recusou a política de integração racial, perseguia os seguidores de Martin Luther King Jr., e foi candidato a candidato à presidência com o  slogan “segregação antes, segregação agora, segregação sempre”, nos idos de 1972, no Estado de Geórgia, ocorreu a eleição de um pastor negro, Raphael Warnock, para o Senado. Assim, enquanto os supremacistas brancos e outros grupos marginais e marginalizados pela política excludente dos EUA exibiam a truculência trumpniana, os eleitores de um dos estados mais racistas daquele país, apontavam para a construção de uma sociedade possível, mais inclusiva, mais aberta para os valores que vêm sendo construídos a cinco séculos, ou mais. 0 seis de janeiro de 2021 pode vir a ser considerado um novo marco na sociedade ocidental, um marco dos limites das práticas antigas.

No Brasil, o dia seis de janeiro pode vir a ser um dia memorável para a sociedade brasileira, para a comunidade científica brasileira, pois foi anunciado que o trabalho desenvolvido pelos cientistas do Instituto Butantã foi coroado de êxito, a vacina, desenvolvida naquele instituto, para controlar a expansão do Novo Corona Vírus foi bem sucedida. Uma vitória contra o vírus da natureza e, também, uma vitória sobre o vírus da ignorância, capitaneada pelo presidente Bolsonaro, um seguidor fervoroso do fracassado presidente Trump, dos EUA. A vitória dos cientistas do Butantã servirá de alento para os professores, formadores de cientistas, em uma nação que, desde a sua fundação, tem posto a educação de si mesma como algo irrelevante, uma vez que os que dela se fizeram senhores, sempre colocaram a sua economia pessoal acima do em comum. Quando o presidente Bolsonaro repetia durante o ano de 2020 que estava pensando na economia, e foi respaldado pelos que controlam o poder econômico, estava pensando na economia de sua família e dos grupos que nunca desejaram incluir o povo brasileiro no Estado Brasileiro.

Em algumas regiões do Brasil, a Festa dos Reis é o momento de visitar e receber a visita dos reis em suas casas. É um momento de júbilo, e cada casa é um “oratório onde Deus fez a morada” e todos são o menino que recebe os reis, e reis que visitam o menino. A festa dos Reis é festa de anúncio de tempos novos, é a esperança de que novos mundos ocorram e todos sejam acolhidos. É uma profecia? Talvez, pois todo desejo é uma abertura para a sua realização que às vezes não ocorre por medo da sua realização. Sim, nós temos medo do futuro que desejamos, pois, interessante é que não sabemos como seremos nele. Entretanto continuamos a desejar, a querer que os reis nos visitem com seus presente e que, também nos tornemos reis visitantes, eternos visitantes nessa casa “onde Deus fez a morada”.

Século XXI.a

janeiro 1st, 2021

E vai terminando no ano de 2020, pondo fim à segunda década do século XXI que, parafraseando Hobsbawm, pode-se dizer que agora é que começou o século XXI, o terceiro milênio, após a experiência da pandemia do Novo Covirus, apresentado ao mundo no final do de 2019, daí ser vulgarmente conhecido como covirus19. Assim teríamos um século intermediário, esse que se põe entre o final da experiência dos Soviets, popularizado pelas imagens da quebra e queda do Muro de Berlim, construído no final dos anos cinquenta. A construção do Muro foi uma explicitação física da separação ideológica entre duas partes da cultura ocidental. A queda do Muro, para alguns teria sido a vitória da ortodoxia capitalista, a derrota da heresia marxista/leninista/Stalinista que buscava um ocidente alternativo, sem o dogma da Propriedade Privada. Falou-se, e foram gastos rios de tinta publicando o fim da história, o fim dos conflitos, no pensamento de historiador do Departamento de Estado dos Estados Unidos. Os anos seguintes ao término do curto século XX, seriam os do século XXI, de acordo com o historiador inglês mais popular no Brasil.

Um novo mundo teria começado, após a liquefação do Muro da Vergonha, como o apelidou, o mais jovem presidente do Estados Unidos da América. E com esse encurtamento do século XX, podemos imaginar que tivemos um século XXI.a que poderia correr até o final de 2020, quando foram anunciadas a conclusão de pesquisas que criaram as vacinas  para derrotar a peste que ocorreu no ano da conjunção dos planetas, graciosamente chamada de Estrela de Belém. E agora começaria o século XXI, a famosa Era de Aquarius. Será?       

Essa nova Era de Aquarius seria, dizem os estudiosos esotéricos, marcada pelo ilimitado e pela ascensão dos Direitos Humanos e das maiorias; estaríamos entrando em um Marco Zero, na possibilidade de tudo iniciar uma nova chance para a humanidade. O que isso quer dizer? Nada. Pois se o ano fiscal terminou, se o ano meteorológico  terminou, a pandemia não terminou, e o hábito de se ver como o único centro do mundo, manteve-se firme entre os que, no Brasil, pensam que são ricos, que julgam contar com a proteção especial de uma divindade que os teria escolhido para sobreviver e dominar o mundo. Claro que há ricos no Brasil, mas esses não são tão numerosos a ponto de formarem essas multidões que vemos nas festas não autorizadas em casas alugadas aos ricos, para que esses abençoados pela força da natureza não percebam que o “seu capitão’ os está conduzindo para a construção de uma sociedade que busca atender apenas os instintos e pulsões de morte.

Não podemos dizer que esse século tampão tenha terminado com o início da terceira década. A primeira e famosa era de Aquário, nos anos sessenta, veio acompanhada com jovens dançando pelo fim da Guerra no Vietnã, com os Hari Krisna e seus sinos ocupando as ruas, com os ritos da morte comandado por Jin Jones. Essa pandemia atual vem se mantendo com a competente ajuda dos Mileniais (geração Y) e pela Geração Z, os que gostam de fazer experiências individuais coletivamente e os que são consumidores de verdade. Talvez estejam levando ao extremo a liquidez da sociedade, enquanto criam novos valores e, portanto uma nova sociedade.

Os que pesquisam esses grupos para entender como o mercado deve comportar-se com eles nos dizem que sua filosofia é o YOLO (You Only Live Once – Você Vive Só Uma Vez). O que isso pode significar em termos de compreensão de responsabilidade social, é que veremos quando superarmos esse minúsculo século XXIa.

Reflexões do natal 2020

dezembro 20th, 2020

Com a aproximação do final do ano é quase um truísmo a necessidade, ou o hábito, de volver o olhar para os últimos 360 dias vividos, ponderando o que foi realizado, qual o custo e peso dessas realização nas nossas vidas pessoais. Creio que faremos isso, mas este ano, os bens e os males vividos sé poderão ser contabilizados se vierem acompanhados de uma reflexão sobre os bens e os males sofridos neste 2020,  o ano da pandemia, da doença que afetou a toda a população da terra, lembrando a todos que somos mortais. Sempre soubemos que somos mortais, mas faz algum tempo que a morte tornou-se apenas mais um episódio, como muitos que ouvimos falar. A cerca de trezentos anos a civilização  Ocidental começou a dominar os caminhos, os atalhos, que podem tornar o encontro com a  “noiva de todos” algo mais distante no tempo. A produção de alimentos, mudanças nos hábitos diários de higiene, a expansão do conhecimento sobre os seres vivos, todas essas práticas e muitas mais, auxiliaram a muitos a conviver com a morte muito raramente. Primeiros ocorreu a diminuição de mortes de recém-nascidos e de parturientes em hospitais, seguiu-se, embora mais lentamente, a diminuição de mortes infantis nos primeiros anos de vida, graças a melhor alimentação e cuidados. Mas inicialmente isso foi sentido em pequena parte da população, os que sempre tiveram um pouco mais de bens materiais que outros. Esse grupo ouvia falar da morte, dos outros. A pandemia do ano de 2020, o Novo Coronavírus conhecido em 2019, empurrou a morte, inicialmente para dentro das casas dos mais abastados, dos que viajavam os quatro cantos do mundo. Esses foram surpreendidos pela morte, e relutaram muito em admitir que foram os vetores que levaram a morte para os mais pobres. Depois todos ficaram mais vulneráveis à morte que, em condições naturais, não faz diferenciações sociais.

 

Ao final deste ano serão contabilizadas milhares de mortes, no Brasil talvez chegue-se a 200.000 pessoas mortas. Sim, são muitas mortes para uma civilização que havia colocado a morte em situação secundária, e as existentes, ocorriam em países fora do perímetro da civilização ou, internamente, nas regiões mais periféricas. A morte por Covid 19 não é periférica, como não é periférica a insensibilidade de alguns dirigentes de países, como o Brasil. Mas esses não chegaram ao cargo máximo da República por um ato de magia, mas por um ato de vontade dos cidadãos que votaram. Claro que os que decidiram não votar, não tomar uma decisão, votaram e decidiram aceitar o que a maioria dos votantes optaram. Seja dizer: neste final de ano deve-se admitir que o presidente que não se incomoda com a morte dos cidadãos brasileiros é o representante dos cidadãos, embora uma minoria destes não aprovara a indicação do candidato. Nota-se, também, que os 51% da população que aprovara o nome do atual presidente, está, neste momento, restrito a cerca de 35%. Esses continuam apostando que é correto deixar morrer mais algumas pessoas, concidadãos seus, evitando ou atrasando o processo que os levem à vacinação.

 

E aqui é o momento de lembrar coisas boas que ocorreram neste ano tão difícil. Os cientistas pesquisadores na área médica e farmacológica conseguiram, utilizando os meios que as múltiplas áreas do conhecimento colocam à disposição, avançar o processo de produção de vacinas, com o objetivo de diminuir os malefícios causadas pelo Novo Coronavírus. Este é um longo caminho iniciado em 1786 quando o médico Edward Jenner estabeleceu a primeira vacina, que foi contra a varíola. Com as vacinas foram evitadas muitas mortes, pois que elas tornam a pessoa que a recebe imune à doença. A criação de uma vacina toma tempo, e assistimos neste ano o uso intensivo de tecnologias com o objetivo de criar uma maneira de diminuir os danos sociais e pessoais que uma peste provoca aos indivíduos e à sociedade. Esta cooperação, e emulação de laboratórios para a criação de vacinas, é uma das boas coisas a lembrar este ano.

 

Um ponto especial foi a preocupação com os estudos dos que estão em formação. Afastados das atividades normais de ensino/aprendizagem, alunos e professores viram-se desafiados a encontrar meios e métodos novos de transmissão e produção de conhecimentos. Professores que recusavam o uso das modernas tecnologias, alguns que diziam que não iriam saber como dar aulas usando tais meios tecnológicos, descobriram novas habilidades e possibilidades: atualizaram-se, superaram medos, criaram suas novos caminhos. Mas então escancarou-se o despreparo das escolas públicas e privadas, as redes de ensino brasileiras, estão defasadas tecnologicamente, algumas haviam feito uma atualização rasteira e sem profundidade. Agora podemos entender melhor que o Brasil, os brasileiros, não investem em educação, em ensino, em pesquisa. Aliás, neste campo assistimos o presidente da República perseguir juma instituição de pesquisa, recusando aceitar os resultados positivos que ela tem apresentado na busca de uma vacina. Digo assistimos, porque não houve uma reação dos políticos contra as ações anticientíficas do presidente. A Covid 19 nos mostrou que os políticos são inoperantes para defender a república, preferindo seus interesses partidários e pessoais.

 

Outra lição positiva ao lado de um extremamente negativa. Vimos como alguns políticos desviaram verbas destinadas a diminuir os efeitos da pandemia. Foram secretários de saúde os maiores criminosos, mas sob a proteção de algum governador e a atuação do capitalista, daqueles que engolem a vida dos outros para enriquecer as suas contas bancárias e, com suas esposas e filhos, brindarem à morte que lhe garante a vida fácil e desonesta. Positivo foi o modo exemplar de médicos, enfermeiros, serventes, auxiliares de serviços gerais, motoristas de ambulância que, arriscando suas vidas, muitos morreram, para diminuir o sofrimento.

 

Os que roubaram e enganaram o povo, esses terão o natal de noel, dos presentes, dos objetos. Que sejam felizes ao seu modo.

Com essas reflexões neste domingo, quero lembrar e desejar a todos um FELIZ NATAL DE JESUS, a simplicidade da vida que, apesar dos Herodes e Pilatos, a todos conforta. Que a Paz do NATAL DE JESUS esteja na casa e em cada um.