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A cultura brasileira começou a encaretar muito antes da eleição de Bolsonaro – Texto de Tony Goes

31/10/2018 Publicado na Folha de São Paulo
TONY GOES
Nos primeiros anos da década de 1990, a TV brasileira viveu um boom libertário. Apresentadoras de programas infantis usavam figurinos dignos de chacretes. Carla Perez dançava na boquinha da garrafa em horário vespertino, e a criançada a imitava.
Cláudia Raia mergulhou nua no mar, na novela “A Rainha da Sucata” (Globo, 1990). E uma modelo exibia os seios na abertura de “Mulheres de Areia” (1993), atração global da faixa das 18h.
Em 2011, ao reprisar a novela no “Vale a Pena Ver de Novo”, a emissora removeu qualquer vestígio de nudez dessa abertura. Não queria chocar o público. Ainda estávamos no primeiro ano do governo Dilma Rousseff, mas já era nítido o recrudescimento do conservadorismo da população.

As raízes desse fenômeno vêm de muito longe. Podem ser identificadas até na popularidade crescente da música sertaneja, ao mesmo tempo em que o axé baiano e o funk carioca explodiam em sucesso.
O sertanejo acabou se impondo aos outros ritmos, e hoje é de longe o gênero mais executado do Brasil. As letras costumam ser simplórias, na temática de imitar a fala coloquial. Abundam as rimas pobres e inexistem as metáforas – ou mesmo a sombra de mensagens políticas.
É a trilha sonora perfeita de um país que elegeu um capitão reformado, de modos grosseiros e sem papas na língua, como o próximo presidente. Não é coincidência que muitos dos grandes astros do sertanejo tenham declarado apoio explícito a Jair Bolsonaro.

Nos últimos anos, fomentada pela expansão das igrejas neopentecostais, a censura voltou a dar as caras – mesmo proibida pela Constituição de 1988, ainda em vigor. Exposições de arte viraram alvos de protestos, por vezes violentos. Peças de teatro foram impedidas de se apresentar em espaços públicos. Artistas e jornalistas passaram a ser perseguidos nas redes sociais. Alguns chegaram a receber ameaças de morte.
Nada disso é exclusivo do Brasil. Muito já se falou da onda de direita que vem percorrendo quase o mundo inteiro, como resposta à crise econômica e às diferentes ameaças (imigração, violência, etc.) percebidas por diferentes povos.

A eleição de Bolsonaro é culminação da versão brasileira desse movimento. Para 2019, depois da posse do novo presidente, artistas e agentes culturais temem um acirramento no conservadorismo – para não dizer caretice – que boa parte dos brasileiros já exala.

A Lei Rouanet foi demonizada por gente que nem sabe como ela funciona, e até artistas estrangeiros que nunca vieram ao Brasil são acusados de “mamar nas tetas do estado”. Bolsonaro agora diz que não pretende acabar com a legislação atual, só aperfeiçoar sua aplicação. Veremos.

Lideranças evangélicas já anunciaram com todas as letras que querem aprovar algum tipo de “controle social” da cultura. Talvez nem precisem: a autocensura já começou. Fernanda Torres afirmou, em sua mais recente coluna na Folha, que, devido ao clima vigente, cancelou uma temporada na Zona Norte do Rio de Janeiro de sua peça “A Casa dos Budas Ditosos”, que ela encena há 15 anos. Não questiono as razões da atriz para tanto, mas torço para que este seja um caso isolado.

De qualquer forma, o futuro presidente não é a causa desse “encaretamento” generalizado: é apenas um sintoma. Resta torcer para que, assim como cresceu, essa tendência obscurantista também diminua. Talvez já esteja diminuindo. Um sinal é o próprio sertanejo, que vem se modernizando. Depois anos sendo acusado de oferecer uma visão branca, masculina e heteronormativa do mundo, o gênero se renovou graças ao surgimento do chamado “feminejo”: cantoras como Marília Mendonça, Maiara & Maraísa, Simone & Simaria e muitas outras, que trouxeram novos pontos de vista e algum frescor.

Já é alguma coisa.

É uma sucessão presidencial, não uma guerra civil.

Em meados do século XVII ocorreu, na Inglaterra uma Guerra Civil; nos Estados Unidos da América do Norte uma guerra civil ocorreu uma Guerra Civil na segunda metade do século XIX. Guerras civis ocorrem no solo de uma pátria comum e, quando elas findam, ocorre o esforço dos antigos combatentes em superar as diferenças, celebrarem a paz e criar um mundo novo no qual todos se situem confortavelmente. A primeira das guerras citadas ocorreu em uma monarquia absoluta, a qual não permitia a livre manifestação das massas; o rei achava que democracia era uma piada dos gregos. Alguns anos após a guerra os britânicos começaram a experimentar a democracia, gostaram e convivem com as diferenças até hoje, em uma sucessão de governos formados por partidos que se opõem, mas não se veem como inimigos. Semelhantemente ocorre nos Estados Unidos da América, embora lá a guerra civil ocorreu já em um Estado democrático. Terminada a guerra, vem ocorrendo o esforço de o conviver com a diferença de opiniões e partidos se alternam na administração do Estado. São oponentes, não inimigos.

No Brasil, cuja história nunca deixou de registrar revoltas e levantes que levaram à morte muitos de seus habitantes, não ocorreu guerra civil. Fizemos guerras contra o colonizador para nos organizar como país e nação livre (infelizmente historiadores a serviços dos políticos esquecem de ressaltar a bravura do povo brasileiros, preferindo ressaltar os acordos oligárquicos que sempre ocorreram após essas revoltas), saímos da Monarquia para a República sem guerra civil e, embora tenhamos diferenças profundas e ainda não enfrentadas com realismo e pertinácia, não chegamos a guerra civil. Não nos tratamos como inimigos.
Talvez por isso causa espanto que, após uma eleição legal, sem fraudes, acompanhada por representantes de vários organismo internacionais, o candidato derrotado conclame seus eleitores, não a exercer a oposição necessária em estados livre e democráticos, mas os conclame para a resistência, como se estivéssemos saindo de uma guerra contra uma potência estrangeira, como fizeram os pernambucanos entre 1645 a 1654, contra os exércitos da Holanda. Talvez tenha sido por conta deste entendimento tosco, que antes da fala do candidato que recebeu mais de 45 mil votos de brasileiros, enquanto o seu concorrente recebeu 55 mil votos, tenha pedido “um minuto de silêncio”, desses que se pede para homenagear algum soldado morto. Comportamentos como esse, é que levaram seu partido à derrota, após ter vencido quatro eleições consecutivas. Tivesse esse candidato um pouco de noção da dialética, saberia que as contradições internas dos governos que antecederam esse momento democrático é que levaram a sociedade pedir uma alternância necessária e benéfica à vida democrática.

Perder uma eleição é normal na vida das democracias, mas impensável para os que criam espaços para estados totalitários. Nosso processo civilizador tem sido incompleto, mas bem que podemos completa-lo, aperfeiçoá-lo sem criarmos ambiente para uma guerra civil.

O que é isso?

Um minuto de silêncio . Qual o significado disso antes da fala de um candidato que não foi eleito?
Que atraso esse que queria ser presidente!

1989 -2018

Nesse período de trinta anos dois partidos pretenderam renovar ou recriar o Brasil: O PSDB cometeu eutanásia de longo prazo com seus caciques perdendo seguidas eleições por conversarem seriamente apenas com seus botões, tendo chegado a estado de quase óbito nesta eleição de 2018; o PT termina esta eleição menor e mais fraco que quando perdeu para Collor de Mello, é que tem agora a boca torta pelo uso do cachimbo de onde jamais saiu a fumaça da paz, mas a fumaça do poder de um só.

Vamos torcer para sobrevivermos os próximos quatro anos, e a democracia conosco.
Vou usar como dístico,a frase que venceu seu autor: Houve mãos mais poderosas, zombou delas o Brasil.

Meu país

“Que antes de haver Pelés houve Henrique Dias. Que antes de haver Roberto Carlos houve Vidal de Negreiros” Gilberto Freyre

Meu país.

Como é bom meu país! Políticos condenados pela justiça por seus crimes contra a sociedade, têm permissão para sair da prisão e exercer a função de criar leis que deverão ser cumpridas por cidadãos que não foram condenados, mas que são condenados a seguir leis feitas por criminosos. Devemos agradecer aos nossos justos juízes.

Neste meu país, sempre que as pequisas não condizem com os interesses do comentarista, ele logo diz que houve algum problema, ou do entrevistador ou d entrevistado.

Jornalista escreve que os eleitores são responsável pelas consequências de seus votos. É verdade, não é novidade. Mas não precisa fazer mais medo do que criaram os candidatos com suas ameaças.

Pesquisa da DataFolha diz que 18% dos eleitores de Bolsonaram receberam mensagens no Whatsup; dizem também que 18% dos eleitores de Haddad receberam mensagens no Whatsup. Parece que não houve essa influência que uma reportagem da Folha disse. E então? Os eleitores pensam com suas possibilidades e capacidades.