Biu Roque – A Voz Prima dos canaviais da Mata Norte

 

João Soares da Silva - BIU ROQUE

João Soares da Silva - BIU ROQUE

 

Foi mais final de semana passado entre pessoas, ações e os espaços físicos da Zona da Mata Norte. No meio da tarde, ao chegar no Ponto de Cultura Estrela de Ouro onde são desenvolvidas as atividades do Ponto de Leitura e da Biblioteca Mestre Batista, vendo as crianças correndo, brincando de “pega”, pulando corda ou definindo o endereço eletrônico, escuto o Mestre Biu do Coco dizer que outro Biu, o Mestre Biu Roque, a “voz prima” mais bonita de todos os bancos de Cavalo Marinho, como me ensinou o Mestre Zé Duda,  havia morrido e já estava enterrado no Cemitério Municipal de Condado.

Biu Roque foi Banco do Cavalo Marinho do Mestre Batista durante muitos anos, nos tempos em que ainda trabalhava na palha da cana. O renascimento do interesse de jovens em saber das sabedorias e conhecimento do povo, que vem ocorrendo desde final dos anos setenta do século passado. Essa procura de afirmação local diante das mesmices da mundialização, promoveu o oportuno contato de Biu Roque e outros mestres da Cultura pernambucana com um público maior que os formados nos antigos sítios e engenhos, lentamente desaparecendo com a expansão do canavial para matar a sede das usinas produtoras de açúcar e de álcool. E Siba Veloso, então um cantor em formação, conheceu a beleza da cultura pernambucana, a sua cultura, e nela encontrou a voz e a memória de Biu Roque. E todos nós tivemos a felicidade de ouvir a Fuloresta de Samba e a valsa de Biu Roque para a sua esposa.

Conheci Biu Roque em um encontro de Mestres da cultura na varanda da casa que foi do Mestre Batista, na Chã do Camará, e que depois veio a ser a sede do Ponto de Cultura Estrela de Ouro de Aliança. A sua chegada naquela reunião foi saudada com entusiasmo por todos os demais mestres. Todos eles viveram nas ocupações próprias dos trabalhadores dos canaviais pertencentes a senhores que um presidente da República chamou de “heróis do Brasil”. Mas, naquela varanda onde depois foi servido um almoço preparado pelo Pai Mário e dona Deda, rei e rainha do Maracatu Estrela de Ouro, eu conheci homens que foram explorados fisicamente, durante toda a sua vida, todos superando os cinqüenta anos de idade, preocupados com a continuidade da cultura, posta em risco pelo avanço do canavial e pela concorrência que estavam tendo que enfrentar com o advento da televisão na região e as novas maneiras de relacionamento com a modernidade que lhes alcançava, eles, mestres e sabedores das tradições que pouco valem, ou parecem valer, na sociedade globalizada. Biu Roque foi um dos que conseguiu dizer e viver os novos tempos com altivez. Foi assim que senti quando fui à sua casa na Chã do Esconso, tendo como guia o mestre Biu do Coco, para lhe entregar o livro Festa de Caboclo, que escrevi como resultado da conversa que tive com ele e os demais mestres. Ele acabava de vir de uma viagem à França, tocando e cantando ao lado de Zé Roque, seu filho e com os demais componentes da orquestra que Siba, seu aprendiz e amigo, organizou para mostrar que esses são os verdadeiros heróis do Brasil, sem querer diminuir o que sabiamente disse o presidente.

Biu Roque, como outros mestres seus companheiros de bancos e noites de Cavalo Marinho, foi um herói que lavrou a terra com suas mãos, pondo as bases da riqueza dos  Heróis presidenciais; biu Roque é um herói continuador e construtor de uma cultura brasileira e pernambucana, com sua poesia, com a simplicidade e clareza de voz prima que encantou a todos os que o conheceram.

No Festival Canavial de 2009, conversei com Biu Roque, estava cansado e alegre, sorrindo ao ver-me dançando o Coco cantado por Biu do Coco. Esta a última imagem do Mestre Biu Roque.

About the Author

Nascido em Carpina, na Zona da Mata Norte de Pernamabuco, cresci no Recife, onde fiz todos os meus estudos em escolas públicas. Sou formado em Teologia no Instituto de Teologia do Recife - ITER; licenciado em História pela UFPE, onde defendi dissertação sob o tema "A Primeira Guerra Mundial na Tribuna religiosa: o nascimento da neo-cristandade" e a tese doutoral "Entre o Tibre e o Capibaribe: os limites da igreja progressista na arquidiocese de Olinda e Recife". Publiquei Anotações para uma visão de Pernambuco no início do século XX, pela Editora Universitária UFPE. Sou pai de Ângelo, Valéria e Tâmisa,filhos de tereza; e avô de Rafael, Lucas, Tereza e Carolina . Agora sou pai de Isaac, filho de Manuela. Tenho pesquisado a cultura e a sociedade da Zona da Mata Norte de Pernambuco e dessas pesquisas publiquei Festa de Caboclo; Estrela de Ouro de Aliança, a saga de Uma Tradição; e Pretinhas do Congo, uma nação africana na Jurema da Mata Norte.