Pelé

Tem coisas que a gente pensa mas não tem coragem de dizer e, na emoção, escorregam as palavras. Eu tinha oito anos quando vi Pelé jogar na Suécia e os suecos aplaudindo ser derrotados pelo rapazola que chorava nos braços de Gilmar dos Santos. Mas isso foi lá em casa, acendendo uma vela, pedindo aos santos que ajudassem a Pelé, que eu acabara de conhecer. Nunca vou esquecer esse momento quando chorei vendo Pelé chorar e, com os colegas, realizar uma volta olímpica com a bandeira do Brasil cobrindo a todos.

Foi nessa época que também conheci Didi e Vavá, e Garrincha, Djalma Santos, Beline, Nilton Santos, Pepe. Depois eu soube que foi nessa época que se superava o “complexo de Vira Lata”, uma explicação de Nelson Rodrigues para o constante fracasso brasileiro. Cresci amando dois times: o Santos e o Santa Cruz.

Mas, como eu disse eu conheci Pelé aos oito anos e vi tudo isso por conta da narração dos artistas que nos contavam o que viam, nos emocionavam com suas emoções verdadeiras. Em um tempo em que as imagens nos vinham pelas palavras dos locutores esportivos. Eles contaram como a realeza europeia se curvou diante a realeza do moleque que foi ensinar futebol aos que pensavam que haviam inventado o futebol. Foi assim que conheci Pelé que depois eu vi no Jornal 100.

Não, nunca conheci a Edson Arantes do Nascimento, nem mesmo quando veio casar-se no Recife. Nunca me interessei por Edson. Aliás, Edson, quando falava, deixava bem claro que ele e Pelé eram diferentes, embora vivessem no mesmo corpo, este muito bem cuidado por Pelé. Assim, hoje ocorreu a morte de Edson Arantes do Nascimento, que nasceu em 1940, em Três Corações, MG, morreu hoje. Pelé nasceu em Santos e não morrerá, pois as lendas e os contos de fadas são eternos. Pelé viverá enquanto houver um atleta, ainda que não seja perfeito como esse corpo educado para ser o corpo de um deus.

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